Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


próximo clube - dia 11 de Maio

Com o objectivo de participarmos, no próximo dia 14 de Maio numa noite de poesia no Bar Pelourinho em Alcochete, os textos escolhidos para este tema serão todos; POEMAS, subordinados ao tema sorteado para a nossa próxima sessão do clube.

o livro do dia

da próxima sessão, estará a cargo de:

isto é mesmo divertido




Verba Volent, Scripta Manent

Não sei que mais coisas importantes irão acontecer na minha vida. Afinal de contas, só tenho dezasseis anos e se não houver azar vão aparecer-me outras coisas daquelas que um tipo diz: sim senhor, isto é mesmo importante. No meu caso, por exemplo, será: perder a virgindade. Esteve mesmo para acontecer, mas falhou no último minuto, a Vanessa não quis. Claro que isto é uma confissão só para o papel...

JOÃO AGUIAR
O prazer da leitura

foi a minha sugestão de hoje
fernando ladeira

E a da Xana...

O Último Negócio

Certa manhã
ia eu pelo caminho pedregoso, ~
quando, de espada desembainhada,
chegou o Rei no seu carro.
Gritei:
— Vendo-me!
O Rei tomou-me pela mão e disse:
— Sou poderoso, posso comprar-te.
Mas de nada lhe serviu o seu poder
e voltou sem mim no seu carro.

As casas estavam fechadas
ao sol do meio dia,
e eu vagueava pelo beco tortuoso
quando um velho
com um saco de oiro às costas
me saiu ao encontro.
Hesitou um momento, e disse:
— Posso comprar-te.
Uma a uma contou as suas moedas.
Mas eu voltei-lhe as costas e fui-me embora.

Anoitecia
e a sebe do jardim estava toda florida.
Uma gentil rapariga
apareceu diante de mim, e disse:
— Compro-te com o meu sorriso.
Mas o sorriso empalideceu
e apagou-se nas suas lágrimas.
E regressou outra vez à sombra,
sozinha.

O sol faiscava na areia
e as ondas do mar
quebravam-se caprichosamente.
Um menino estava sentado na praia
brincando com as conchas.
Levantou a cabeça
e, como se me conhecesse, disse:
— Posso comprar-te com nada.

Desde que fiz este negócio
a brincar, sou livre.

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

O vagabundo do mar

a escolha da Paula :)




Sou barco de vela e remo
sou vagabundo do mar.
Não tenho escala marcada
nem hora para chegar:
é tudo conforme o vento,
tudo conforme a maré...
Muitas vezes acontece
largar o rumo tomado
da praia para onde ia...
Foi o vento que virou?
Foi o mar que enraiveceu
e não há porto de abrigo?
Ou foi a minha vontade
de vagabundo do mar?
Sei lá.
Fosse o que fosse
não tenho rota marcada
ando ao sabor da maré.
É por isso, meus amigos,
que a tempestade da Vida
me apanhou no alto mar.
E agora
queira ou não queira,
cara alegre e braço forte:
estou no meu posto a lutar!
Se for ao fundo acabou-se.
Estas coisas acontecem
aos vagabundos do mar.

Manuel da Fonseca

p.s. dia 2 de Maio às 17h00 na biblioteca, apareçam e divulguem

próximo clube - dia 27 de Abril

a liberdade de todos; e a de cada um

e ainda:


Por delicadeza de Sophia de Mello Breyner Andresen

Trova do vento que passa de Manuel Alegre

Grimus (excerto) de Salman Rusdhie


Uma história da leitura
de Alberto Manguel

Um guia breve, mas útil, da desobediência civil

Para fazer uma revolução há duas coisas indispensáveis: alguém ou alguma coisa contra que se revoltar e alguém que vá para a frente e o faça. A indumentária é geralmente informal e ambas as partes podem mostrar-se flexíveis em relação à hora e ao local, mas se uma das facções não comparecer é provável que todo o empreendimento fracasse. (...)

As pessoas ou partidos contra os quais a revolução é feita denominam-se «opressores» e reconhecem-se facilmente por parecerem ser os únicos que se divertem. Geralmente, os «opressores» vestem fatos, possuem terras e põem os rádios muito alto até às tantas da noite sem que os insultem. A tarefa deles é manter o status quo, uma situação em que tudo permanece na mesma, ainda que tenham vontade de pintar de dois em dois anos.

Quando os «opressores» se tornam demasiado ríspidos temos aquilo a que se chama um estado policial, onde todas as dissensões estão proibidas, tal como o está rir entre dentes, aparecer com um laço ao pescoço ou chamar «Bucha» ao presidente da Câmara. As liberdades civis num estado policial estão muitíssimo limitadas, e a liberdade de expressão é desconhecida, apesar de ser permitido utilizar mímica num relatório. Não se toleram opiniões críticas sobre o Governo, especialmente a respeito da forma como os seus membros dançam. A liberdade de imprensa também está limitada e o partido no Poder «controla» as notícias, permitindo aos cidadãos ouvir unicamente as ideias políticas aceites e os golos que não provoquem desassossego.

Os que se revoltam são conhecidos por «oprimidos» e geralmente podem ser vistos movendo-se em grupos, a resmungarem ou a queixarem-se de dores de cabeça. (Há que assinalar que os opressores nunca se revoltam ou tentam transformar-se em oprimidos, porque isso acarretaria mudarem de roupa interior.) (…)

Quando se faz uma manifestação é bom levar um cartaz exprimindo o que se pretende. Sugestões para algumas pretensões:
1) baixar os impostos;
2) subir os impostos;
3) deixar de sorrir aos Persas.

Outros métodos de desobediência civil:
- Parar em frente do City Hall e entoar a palavra «pudim» até que as nossas exigências sejam satisfeitas.
- Engarrafar o trânsito levando um rebanho de carneiros para a zona comercial. (…)
- Vestir-se de polícia para saltar à corda.
- Disfarçar-se de alcachofra e beliscar as pessoas ao passar.

Woody Allen
de Sem Penas
ed. Livraria Bertrand




















foi a minha escolha de hoje :)

fernando

Conquista - Miguel Torga

















Livre não sou, que nem a própria vida
Mo consente.
Mas a minha aguerrida
Teimosia
É quebrar dia a dia
Um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
Que se afogou e flutua
Entre nenúfares de serenidade
Depois de ter a lua!


Antologia Poética, pp 132

20 de Abril - A liberdade de todos; e de cada um

Leituras desta sessão
- Liberdade s. f. condição do ser que pode agir livremente, isto é, consoante as leis da sua natureza, da sua fantasia, da sua vontade; poder ou direito de agir sem coerção ou impedimento; poder de se determinar a si mesmo, em plena consciência e após reflexão, e independentemente das forças interiores de ordem racional; livre arbítrio (...)
[in Dicionário Porto Editora, 1996 a minha versão. Lida a versão de 2005]
- "Balada do Rei das Sereias" de Manuel Bandeira
- "Liberdade" de Fernando Pessoa
- "Cântico Negro" de José Regio
- "Carta do Chefe Indio Seattle ao Presidente Franklin Pierce" (a que me permito juntar uma salutar discussão sobre a autenticidade da mesma)
- "Manifesto" de António Maria Lisboa
- "Soneto à Liberdade" de Oscar Wilde
- "Sou vagabundo do Mar" de Manuel da Fonseca
- "Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" in Metamorfoses, de Jorge de Sena (aqui numa versão dita por Mário Viegas)
- "Espírito", em tradução livre a partir de Spirit, dos Waterboys (aqui um video com a música original) ... em abono da verdade foi uma tradução bastante bem conseguida!

A minha Leitura
Para o tema desta sessão chegou-me a inspiração... de avião! Depois de vários dias à procura do que poderia ser uma boa escolha para este tema, um avião chamado "Natália Correia" foi a chave para a minha escolha. Antes de escolher o "Poema destinado a haver Domingo", que deixo mais abaixo, ainda passei pelo "Soneto de Abril" e pela "Queixa das almas jovens censuradas".

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.

[Natália Correia in Poesia Completa, 1999]

ainda o Mark Twain

Olá!!!:O)
Este poema, que me enviou uma Amiga, lembrou-me muito o espírito de Twain e da sua pequena/enorme personagem…
Apenas para compartilhar:
Pedagogia
Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

Miguel Torga
Beijinhos,
Alexandra Justino

outros livros da sessão do Tom Sawyer

Como um romance de Daniel Pennac
Selma de Jutta Bauer

Mulheres que correm com os lobos - Clarissa Pinkola
pode-se descarregar o PDF, em português do Brasil, aqui

Diário inventado de um menino já crescido - José Fanha
a Cristina leu "O meu amigo Valdemar"



acerca dos Esteiros de Soeiro Pereira Gomes

Ao ouvirmos a escolha da Helena Ramos não pudemos deixar de sorrir pois ainda há bem pouco tempo tínhamos andado à volta deste mesmo excerto.