Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


2º aniversário da Biblioteca de Alcochete - frases

Virgínia e Paulo

A leitura engrandece a alma.
de Voltaire

Um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias.
de Mário Vargas Llosa

Quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo.
de Paulo Francis

Helena Policarpo
Biblioteca = Aerogare de sonhos, com voos em todas as direcções e sentidos.
de Helena Policarpo



António
O livro foi, é e será sempre livre!
de António Soares



Augusto

As palavras expostas, numa leitura, enriquecem-nos o coração com letras.
de Augusto Silva


Helena Machado
Ler é uma arte e um ritual íntimo. Um livro é um espelho e só podemos encontrar nele o que já temos dentro. Ao ler aplicamos a nossa mente e alma, e estes são bens cada dia mais escassos.
de Carlos Ruiz Zafón


Paula Margato
Recomendar a leitura de livros é tão importante e tão inútil como recomendar que se beba muita água. É bom leitor quem transformou o acto de ler numa necessidade e num instinto primários.
de Carlos Ceia
Isabel e João Morais
O menino disse: Vem.
A menina disse: Fico.
O menino disse: Porque ficas?
A menina disse: Sou assim.
O menino disse: Já viste o bosque?
A menina disse: Gosto de medronhos.
O menino disse: Eu trepo às árvores.
A menina disse: Tenho medo das cobras.
O menino disse: Gosto muito das tuas tranças.
A menina disse: O meu pai é poeta.
O menino disse: A minha avó é Maria Isabel.
A menina disse: Estou cansada de dizer tantas coisas.
O menino disse: Quando for crescido compro um avião enorme.
A menina disse: Deixas-me encher o avião de letras?
O menino disse: Deixo.
A menina disse. Vou.
Foram bonitos para sempre porque falaram juntos muitas palavras felizes.
de Helena Vieira da Silva


Ana Rita
Morre lentamente, quem não viaja, quem não lê. quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
de Pablo Neruda

Helena RamosHá palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
de Alexandre O'Neill
Teresa Ramos
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.de José Paulo Paes
Teresa Pedrosa
Nunca deveis utilizar uma palavra nova a não ser que tenha estas três qualidades: ser necessária, inteligível e sonora."
de Voltaire


Mariana

Qualquer Biblioteca é o Armazém do Conhecimento
de Mariana Tomás


Fernando
Acho a televisão muito educativa.
Sempre que alguém liga um televisor, vou para outra divisão ler um livro.
de Grouxo Marx


Daniel
Os livros têm saudades
daquilo que está por vir,
que o passado já conhecem
e o não querem repetir.

São saudades soletradas
com a ternura das fadas
que gostam de pôr livros
na árvore das madrugadas.
de José Jorge Letria


Cecília
Ler para mim é: Viajar
Ler para mim é: Sorrir
Ler para mim é: Aprender
Ler para mim é: Amor
Ler para mim é: Viver
de Cecília Pinto



2º aniversário da Biblioteca de Alcochete - textos

ANTÓNIO TORRADO - O CONTADOR ...
Paula e Helena Machado


O contador
antes de começar
fez um gesto no ar
em redondo
como se quisesse desenhar
o Sol
a casca de um caracol
um balão
a sombra de um pião
um bombo...

E disse:

- A história que vou contar
começa por uma ponta
dá uma volta reviravolta
meia tonta
e acaba
tal e qual
mesmo ao lado
donde tudo tinha começado.

Por isso,
para a cambalhota final
da história em salto mortal
onde ninguém corre perigo,
contem
contem comigo.

E o contador, contente
por contar,
ficou-se a olhar
para toda aquela gente
à roda da história
e dele,
contador
desenhador no ar
inventor da arte de saltar
sem se mexer.

Ficou-se a olhar, a olhar
e suspirou de prazer
a ponto de se esquecer
de continuar.

- Mas onde é que eu ia? -
- perguntou o contador,
um pouco perdido
no meio do contentamento
do contar e ouvir contar,
que é assim a modos que
uma espécie de cócega,
virada do avesso,
uma sede, um sabor
um sabor a pêssego
antes do pêssego chegar ao calor
do céu-da-boca...

- Ah! - lembrou-se o contador
que, às vezes, se distraía
dos recados que trazia.

E com um lento aceno
de quem muda a folha
dum livro ou do pensamento,
o contador concluiu:
- A história que vou contar
é, nem mais nem menos,
do que uma história circular
como vão já já já
poder observar

Ora façam favor de reparar...


RUSSELL EDSON - UM PEQUENO ALMOÇO HISTÓRICO
Fernando

Um homem aproxima uma chávena de café da cara, inclina-a para a boca. É histórico, pensa. Ele coça a cabeça: outro acontecimento histórico. Devia era descansar, está a produzir uma quantidade imensa de história logo de manhã.
Credo, agora está a barrar torradas com manteiga, outro bocado de história a fazer-se.
Ele espanta-se por ter-lhe sido destinado ser tão histórico. Outros provavelmente não o têm, pensa, é, ao fim e ao cabo, um talento.
Ele pensa que um dos seus atacadores precisa de ser apertado. Ah bom, mais um acontecimento histórico importante que está para acontecer. Não o pode evitar. Estará talvez a ocupar uma faixa demasiado grande de história? Mas tem que viver, não tem? As torradas necessitam de manteiga e ele não pode andar por aí com um dos atacadores desapertados, pois não?
É certamente verdade, que quando escreverem todo o século XX será principalmente acerca dele. É a forma como o bolo se esmigalha - ah, aí está uma frase que será citada nos séculos vindouros.
Convencido? Um pouco; como pode evitá-lo observado por todos os olhos ainda por nascer do futuro?
Oh, oh, sente outro acontecimento histórico a chegar... Ah, ai está, uma chávena de café a aproximar-se da cara na ponta do seu braço. Se conseguissem registar isso em filme, quanta importância não teria para o futuro.
Bolas, derramou-o todo no colo. Um desses acidentes históricos que influenciarão os próximos mil anos; imprevisível e até muito desconfortável... Mas a história nunca é fácil, pensa ele...


JOÃO PEDRO MÉSSEDER - A CASA DO SILÊNCIO
Mariana

O silêncio vive numa casa
onde a música
entra quase sem pedir licença.


JOÃO ROIZ DE CASTEL BRANCO - CANTIGA DE AMIGO PARTINDO-SE
Paulo

Senhora, partem tão tristes
Meus olhos por vós, meu bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
Tão doentes da partida,
Tão cansados, tão chorosos,
Da morte mais desejosos
Cem mil vezes que da vida
Partem tão tristes os tristes
Tão fora d’ esperar bem,
Que nunca tão tristes vistes
Outros nenhuns por ninguém.


LEÓN FELIPE - EU NÃO SEI MUITAS COISAS...
Augusto

Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Apenas falo do que tenho visto.
E já vi:
que o berço do homem o embalam com histórias,
que os gritos de angústia do homem os afogam com histórias,
que o pranto do homem o tapam com histórias,
que os ossos do homem os enterram com histórias,
e que o medo do homem…
inventou todas as histórias.
Sei muito poucas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as histórias…
E sei todas as histórias.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN - MÓNICA
Helena Ramos

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da "Liga Internacional das Mulheres Inúteis", ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, toda a gente gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve de renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, "qualquer distracção pode causar a morte do artista". Mónica nunca tem uma distracção.


ALBANO MARTINS - AO GRILO NÃO DIGAS...
Virgínia

Ao grilo
não digas:
não cantes! Porque
onde um grilo
canta canta
o verão, cantam
as espigas



-->VITORINO NEMÉSIO - SEMÂNTICA ELECTRÓNICA
Rodrigo
(aguardamos confirmação)
Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenhador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
Coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim - o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
-Mas - diz-me a ordenança-
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, você é uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?)
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Então eu, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

JOSÉ PAULO PAES - PESCARIA
Mariana

Um homem
que se preocupava demais
com coisas sem importância
acabou ficando com a cabeça cheia de minhocas.
Um amigo lhe deu então a ideia
de usar as minhocas numa pescaria
para se distrair das preocupações.
O homem se distraiu tanto
pescando
que sua cabeça ficou leve
como um balão
e foi subindo pelo ar
até sumir nas nuvens.

EUGÉNIO DE ANDRADE - NÃO QUERO, NÃO
Mila (não deve poder participar)

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

TOSSAN - O SAPO
Daniel

Um sapo de grande papo
Papou a papa do prato
Que era para o papo do gato.
E não só papou a papa
Como também papou o prato.
O prato quando chegou ao papo
Encontrou-se com a papa
Que já lá estava no papo.
E o sapo, da papa fez a digestão
Agora do prato é que não.

ALEXANDRE O’NEILL - AMIGO
Alexandra Justino

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

ALMADA NEGREIROS - VALOR DAS PALAVRAS
Alexandra Ferreira

Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem – do lado do sol ou do lado onde não dá o sol. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o universo. As palavras querem estar nos seus lugares!

MANOEL DE BARROS - O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Patrícia

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio do que do cheio.
Falava que os vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira

Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de interromper o voo de um pássaro botando ponto final na frase.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos

ITALO CALVINO - SE NUMA NOITE DE INVERNO UM VIAJANTE
Virgínia

"Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Para Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha de baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiado Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos diante das torres de reduto, onde se te opõem resistência

os Livros Que Há Muito Programaste Ler,
os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,
os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Te Ocupas Neste Momento,
os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,
os Livros Que Te Faltam Para Pores Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,
os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina, Frenética E Não Claramente Justificada.
E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Que Leste e Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo."

ANTÓNIO GEDEÃO - IMPRESSÃO DIGITAL
Isabel e João

Os meus olhos são uns olhos,
e é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos,
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos, diz flores!
De tudo o mesmo se diz!
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.

Pelas ruas e estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandecente!!

Inútil seguir vizinhos,
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos!
Onde Sancho vê moinhos,
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos!
Vê gigantes? São gigantes!


MANUEL ANTÓNIO PINA - COISAS QUE NÃO HÁ QUE HÁ
Ana Rita

Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...

SÉRGIO GODINHO - O OVO
Teresa Ramos

A galinha pôs um ovo
até aqui nada de novo
mas atenção
por estranho que pareça
não pôs o ovo no chão
pôs o ovo na cabeça
fê-lo tão violentamente
que o ovo deu um estalo
e mais que evidentemente
na cabeça da galinha
nasceu um galo

SEBASTIÃO DA GAMA - CABO DA BOA ESPERANÇA
Cecília
-->
Nasci pra ser ignorante.
Mas os parentes teimaram
(e dali não arrancaram)
em fazer de mim estudante.

Que remédio? Obedeci.
Há já três lustros que estudo.
Aprender, aprendi tudo,
mas tudo desaprendi.

Perdi o nome às Estrelas,
aos nosso rios e aos de fora.
Confundo fauna com flora.
Atrapalham-me as parcelas.

Mas passo dias inteiros
a ver um rio passar.
Com aves e ondas do Mar
tenho amores verdadeiros.

Rebrilha sempre uma Estrela
por sobre o meu parapeito;
pois não sou eu que me deito
sem ter falado com ela.
Conheço mais de mil flores.
Elas conhecem-me a mim.
Só não sei como em latim
as crismaram os doutores.

No entanto sou promovido,
mal haja lugar aberto,
a mestre: julgam-me esperto,
inteligente e sabido.

O pior é se um director
espreita pla fechadura:
lá se vai a licenciatura
se ouve as lições do doutor.
Lá se vai o ordenado
de tuta e meia por mês,
Lá fico eu de uma vez
um Poeta desempregado.

Se me não lograr o fado,
porém, com tais directores,
e de rios, aves e flores
somente for vigiado,

enquanto as aulas correrem
não sentirei calafrios,
que flores, aves e rios
ignorante é que me querem.

FERNANDO PESSOA - NÃO SEI SE É SONHO
Teresa Pedrosa

Não sei se é sonho, se realidade
Se uma mistura de sonho e de vida,
Aquela terra de suavidade
Que na ilha extrema do sul se olvida.
É a que ansiamos. Ali, ali
A vida é jovem e o amor sorri.

Talvez palmares inexistentes,
Áleas longínquas sem poder ser,
Sombra ou sossego dêem aos crentes
De que essa terra se pode ter.
Felizes, nós? Ah, talvez, talvez,
Naquela terra, daquela vez.

Mas já sonhada se desvirtua,
Só de pensá-la cansou pensar,
Sob os palmares, à luz da lua,
Sente-se o frio de haver luar.
Ah, nesta terra também, também
O mal não cessa, não dura o bem.

Não é com ilhas do fim do mundo,
Nem com palmares de sonho ou não,
Que cura a alma seu mal profundo,
Que o bem nos entra no coração.
É em nós que é tudo. É ali, ali,
Que a vida é jovem e o amor sorri.

PARAÍSO - DAVID MOURÃO-FERREIRA
António
Deixa ficar comigo a madrugada,
Para que a luz do sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
Deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
Onde eu ouça o estertor de uma gaivota…
Crepite, em derredor, o mar de Agosto…
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
Que acendas, para tudo ser perfeito,
À cabeceira a luz do teu joelho,
Entre os lençois o lume do teu peito…

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.

EUGÉNIO DE ANDRADE - ELEGIA E DESTRUIÇÃO
Helena Policarpo

Desse tempo em que se permanece criança
durante milhares de anos,
trouxe comigo um cheiro a resina;
trouxe também os juncos vermelhos
que ladeiam a orla do silêncio,
neste quarto, agora habitado pelo vento;
trouxe ainda um olhar húmido
onde os pássaros perpetuam o céu.

Dificilmente esqueço a rua onde encontrei
os teus olhos imensos, fascinados
pelo fulgor secreto das espadas,
a casa onde te contei, de mãos trémulas,
a parábola do pão e do vinho,
dando a cada palavra um rosto novo.

A cidade onde te amei foi decepada
e não posso abolir as sentinelas do medo.
Mas também não posso deixar de te querer
com beijos e relâmpagos,
com sonhos que tropeçam nas paredes
e se alimentam de terror e alegria,
enquanto o tempo persiste em soluçar.

Que me quereis verdes sombras da lua
na minha cama onde adormece o frio?
Aqui estou, mais alto do que o trigo,
sangrando nas pétalas do dia,
e sem receio de que aos nossos gritos
ainda chamem brisa.

2º aniversário da Biblioteca de Alcochete # 1

Nesta sessão foram conhecidos os textos que farão parte da apresentação pública do próximo dia 11 de Setembro de 2010, pelas 17h00, na Biblioteca Municipal de Alcochete, por ocasião das comemorações do 2º aniversário da mesma.
Aos membros que não estiveram presentes é agora pedido que olhem para o texto que vos foi atribuído e nos digam se estão de acordo em lê-lo. NINGUÉM deverá ler um texto de que não goste.
Pedimos também a todos que nos enviem as frases curtas que escolheram sobre livros, leitura, bibliotecas, etc.
Ficou ainda decidido que toda a gente vai ter um livro de onde vai ler.
Esse livro deverá estar descaracterizado. Aconselhamos que peguem num livro de que não gostem, façam-lhe uma capa e no interior colem-lhe os vossos textos, a vossa participação, o guião inteiro da apresentação, como quiserem. Escolham um livro que seja prático ter na mão e ler em pé. Aguardem por Setembro para lhe colarem o(s) vosso(s) texto(s).

As próximas sessões do clube serão:

27 de Julho
07 de Setembro (neste dia combinaremos dia e hora de uma sessão extra a realizar antes do dia 11 de Setembro)

um sapo de grande papo...


parabéns à Ana Rita que fez anos ontem


a Cecília trouxe a Susana





(... e ainda umas fotos que andavam para aqui esquecidas!)




22 de Junho - Guerra no Mundo

Leituras da Cristina
- História do Zé Cagarro
- Excerto de "A Pátria" de Guerra Junqueiro (1896)
Uma Nação não é uma tenda, nem um orçamento uma Bíblia

- Sobre a leitura em voz alta
A poesia chega antes da leitura... por via oral.
A leitura silenciosa é recente

- Excerto de Jorge Luís Borges (e vejam lá se conhecem esta menina)
(...) quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa ou em silência. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido:_o verso exige ser pronuncioado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto (...)
- Excerto de Arte Poética V de Sophia de Mello Breyner
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
- Excerto de Miguel Sousa Tavares
Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes. De todos, o mais fantástico era o Ruy Cinatti, que nos convenceu que era o nosso irmão mais velho, regressado de outra vida em Timor e que esteve à beira de conseguir transformar-nos em guerrilheiros contra a precária disciplina familiar. Vinham e iam constantemente poetas tristes ou alegres, cerimoniosos ou tumultuosos e até um, o Ruy Belo, que me levava à Luz ver o Benfica e jogava futebol comigo no jardim.

A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros.
As nossas leituras
[Mariana] - O Menino de Sua Mãe (Fernando Pessoa)
 
No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
[Cecília] Fabulário de Mário Carvalho

[Isabel] Citações de diversos autores (aguardo envio)

[Augusto] O meu planeta para os senhores da guerra de Maria Leonor

[Augusto] À guerra sem razão de Augusto Silva (o próprio)

[João] Os verdadeiros motivos por trás dos bombardeios de Peters Cohen

[Helena R] Excerto de "A Arte da Guerra" de Sun Tzu

Se conheces o inimigo e te conheces a ti próprio, não terás que recear o resultado de cem batalhas.

Se te conheces a ti próprio mas não conheces o inimigo, por cada vitória conseguida sofrerás uma derrota.
Se não te conheces a ti nem ao inimigo, sucumbirás em todas as batalhas.
[Teresa P] Poema em G de Luisa Ducla Soares
Graça não gosta da guerra.

Guilherme não gosta da guerra.
Guida não gosta da guerra.

A guerra matou-lhes o pai.
A guerra queimou-lhes a casa.
A guerra espantou-lhes o gado.

Graça, Guilherme, Guida gritam.
As granadas estoiram.
Agora o sangue irriga as ruas.

Graça, Guilherme, Guida
querem gritar à gente grande
que se fica sempre a perder,
mesmo que os generais
ganhem as guerras.
[Paula+Daniel] A Bela Infanta de Almeida Garrett

Estava a bela infanta

No seu jardim assentada,
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava

Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.

- "Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava."

-"Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Dize-me tu, ó senhora
As senhas que ele levava."

-"Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava."

-"Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava."

-"Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!..."

-"Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?"
-"Dera-lhe oiro e prata fina
Quanta riqueza há por í."

-"Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi':
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?"

-"De três moinhos que tenho,
Todos os três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:

Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei para si."
-"Os teus moinhos não quero,
Não os quero para mi:

Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui?"
-"As telhas do meu telhado,
Que são de oiro e marfim."

-"As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi":
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?"

-"De três filhas que eu tenho
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir

A mais formosa de todas
Para contigo dormir."
-"As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi':

Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui."
-"Não tenho mais que te dar.
Nem tu mais que me pedir."

-"Tudo não, senhora minha.
Que inda não te deste a ti."
-"Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilãos arrastado
O farei andar por aí

Ao rabo do meu cavalo
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!"

-"Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!"

-"Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui."
[Virgínia] As Balas de Manuel da Fonseca (in "Poemas para Adriano")
Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado

Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado

Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que dão o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.
[Fernando] A Marca do Anjo de Dusty Houston

[Paulo] Tomámos a vila depois de Intenso Bombardeamento Fernando Pessoa (in Cancioneiro)

A criança loura

Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.

Luz um pequeno peixe
- Dos que bóiam nas banheiras -
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do Futuro…

E o da criança loura?
[Patrícia] Bagarad Gita, Krishna

[Helena M.] As mãos de Manuel Alegre

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
[Rodrigo] A Guerra de 1908 de Raul Solnado

"Cheguei à guerra eram sete horas da manhã, estava a guerra ainda fechada e estava uma mulherzinha a vender castanhas à porta da guerra e eu perguntei, minha senhora faz favor diz-me se aqui é que é a guerra de 1908? Não, é mais acima, aqui é a guerra de 1906."

acerca das próximas sessões do clube

As próximas sessões realizam-se nos dias 13 e 27 de Julho;

Para estas duas sessões não há tema, uma vez que já vamos trabalhar nos textos a apresentar no aniversário da biblioteca de Alcochete (dia 11 de Setembro);

Pedimos que tragam no próximo dia 13 de Julho:
ou uma frase, ou um poema muito curto, ou um pequeno excerto de poema sobre:
livros, leitura, bibliotecas, palavras, etc.
para ser usado no aniversário da biblioteca.

Precisamos que nos confirmem (quem ainda não o fez, claro) se vão estar presentes no dia 11 de Setembro (só para podermos minimamente programar as coisas)

E para já, é tudo.
Se tiverem alguma dúvida, é só dizerem.

Próxima sessão - 13 de Julho - Livro do dia...

22 de Junho 2010 - guerra no mundo?





22 Junho 2010 - Livro do dia

Para hoje escolhi este livro, "A voz de Lila" de Chimo, pseudónimo de um autor anónimo. Este livro chegou à editora em dois cadernos vermelhos de papel quadriculado marca Clairefontaine, escritos com esferográfica bic e difíceis de decifrar. Ficará para sempre a dúvida se se trata de um autor confirmado ou do primeiro romance de um jovem escritor com talento.

Eis o excerto que escolhi para vos ler:

(...) Não sei escrever lá muito bem mas dá-me gozo apetece-me.
Na escola os outros só sabiam dar estrilho, abrir a boca, dar estalos com os nós dos dedos, peidar-se como se estivessem nalgum concurso, escrever porcarias em todo o lado e mesmo com as mãos metidas na merda, o Mouloud uma vez até apareceu com uma arma na aula, era do irmão, ou então mandar piadas aos profes que às vezes até saíam a chorar, lembro-me da minha profe de francês com os olhos vermelhos à espera do autocarro à chuva, aos que vinham de carro furávamos-lhes os pneus, partíamos-lhes os vidros, nos corredores da escola também gamavam sempre o extintor, uma coisa que até se vende muito mal, eu cá acho que se calhar era uma estupidez não aproveitar na escola, pensar só em zaragatas na droga nos projectos de destruição aqui e ali, nuns tostões a ganhar, tudo provisório, resultado à saída um gajo já parece um velho e não sabe nada, nada de nada, e ainda por cima muitas vezes os chuis já o mancaram, dá por ele largado sujo na natureza de cimento, casa-trabalho népia-casa. Aí já não pensa em estrilho e porque é que lhe iam dar trabalho se não sabe nada. Vá lá, cadeia com ele, vá.
(...)

aqui ficam duas recensões ao livro:
uma de Urbano Tavares Rodrigues
e outra de Fernanda Botelho

8 de Junho - Erotismo

Exercícios

Frutos


Pêssegos, pêras, laranjas,
Morangos, cerejas, figos,
Maçãs, melão, melancia

Ó música de meus sentidos,
Pura delícia da língua;
Deixai-me agora falar
Do fruto que me fascina,
Pelo sabor, pela cor,
Pelo aroma das sílabas:

Tangerina, tangerina.

EUGÉNIO DE ANDRADE
**********************

Dióspiros

Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua

e só depois
    muito depois

se deixam morder

JORGE SOUSA BRAGA
************************

Maçãs e peras

Aceitai,
Como rostos amáveis que se vos mostrassem
Ou tímidos seios palpitando vossas mãos
Estas maçãs: Pérolas entre nós espalhadas

Como botões em seu ramo postos.
Tomai-as e ofertai-as aos presentes
Como vinho preso de surpresa
Pelo gelo do inverno.

Eis também peras para duplicar a minha dádiva,
E apenas se me oferece dizer:
São tão-somente brancas faces
Onde pousaram profundos olhos negros.

IBN AMMAR
O Meu Coração é Árabe

Tradução de Adalberto Alves
***************************

Esse verão

Vinha meio nu
trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio

Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão

- Tão quente tão quente
esse verão

JORGE SOUSA BRAGA
***************************

Uma libélula

Uma libélula voa -
de nádega em
nádega

JORGE SOUSA BRAGA
************************

Nem todos os frutos vermelhos
merecem o céu
da tua boca

JORGE SOUSA BRAGA
************************

Basta-me
o teu umbigo de vinho
para ficar bêbado

JORGE SOUSA BRAGA
***********************

Na espessura do bosque
o que a minha mão procurava
era um mirtilo

JORGE SOUSA BRAGA
*************************

Escrevo
com os dedos ainda longos
da carícia


JORGE SOUSA BRAGA
************************

Este fogo
que só com fogo
se pode apagar



JORGE SOUSA BRAGA
**************************


Leituras do dia
O grupo não estava completo, mas ainda assim composto! Aqui ficam algumas das faces do erotismo.

A Palavra (José Afonso) - Helena

A palavra gatinha
Sem nada por cima

A palavra rompe
                    investe
                        perfura

Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se organiza-se

A palavra precisa de ternura
O rasgão (Henri Gougaud in "O Livro dos Amores") - Mariana

Um conto da tradição oral Africana.

Ouve meu Anjo (António Botto) - Isabel

Ouve, meu anjo:

Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
Amar dentro do peito (Manuel Maria Barbosa du Bocage) - João

Amar dentro do peito uma donzela;

Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:
Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;

Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.
Noite de sonhos voada (Manuel da Fonseca) - António
Noite de sonhos voada

cingida por músculos de aço,
profunda distância rouca
da palavra estrangulada
pela boca armodaçada
noutra boca,
ondas do ondear revolto
das ondas do corpo dela
tão dominado e tão solto
tão vencedor, tão vencido
e tão rebelde ao breve espaço
consentido
nesta angústia renovada
de encerrar
fechar
esmagar
o reluzir de uma estrela
num abraço

e a ternura deslumbrada
a doce, funda alegria
noite de sonhos voada
que pelos seus olhos sorria
ao romper de madrugada:
— Ó meu amor, já é dia!...
Amores amores (João de Deus) - Paula

Não sou eu tão tola

Que caia em casar;
Mulher não é rola
Que tenha um só par:

Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.

Que mal faz um beijo,
Se apenas o dou,
Desfaz-se-me o pejo,
E o gosto ficou?

Um deles por graça
Deu-me um, e, depois,
Gostei da chalaça,
Paguei-lhe com dois.

Abraços, abraços,
Que mal nos farão?
Se Deus me deu braços,
Foi essa a razão:

Um dia que o alto
Me vinha abraçar,
Fiquei-lhe de um salto
Suspensa no ar.

Vivendo e gozando,
Que a morte é fatal,
E a rosa em murchando
Não vale um real:

Eu sou muito amada,
E há muito que sei
Que Deus não fez nada
Sem ser para quê.

Amores, amores,
Deixá-los dizer;
Se Deus me deu flores,
Foi para as colher:

Eu tenho um moreno,
Tenho um de outra cor,
Tenho um mais pequeno,
Tenho outro maior.
Lembra-me um sonho lindo (Fausto Bordalo Dias) - Mila

(podem ouvir a musica aqui)

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado

Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Canta, rouxinol, canta, não me dês penas
Cresce, girassol, cresce entre açucenas
Afaga-me o corpo todo, se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo em fumo de incenso

Lembra-me um sonho lindo, quase acabado
Lembra-me um céu aberto, outro fechado
Estala-me a veia em sangue, estrangulada
Estoira no peito um grito, à desfilada

Ai! Como eu te quero! Ai! De madrugada!
Ai! Alma da terra! Ai! Linda, assim deitada!
Ai! Como eu te amo! Ai! Tão sossegada!
Ai! Beijo-te o corpo! Ai! Seara tão desejada!
Canção (Eugénio de Andrade) - Paulo

Tu eras neve.

Branca neve acariciada.
Lágrima e jasmim
no limiar da madrugada.

Tu eras água.
Água do mar se te beijava.
Alta torre, alma, navio,
adeus que não começa nem acaba.

Eras o fruto
nos meus dedos a tremer.
Podíamos cantar
ou voar, podíamos morrer.

Mas do nome
que maio decorou,
nem a cor
nem o gosto me ficou.
X (Jorge de Sena in "As evidências") - Fernando
 
Rígidos seios de redondas, brancas

frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias;
torsos de finas, penugentas, frias,
enxutas linhas que nos rins se prendem,
sexos, testículos, que inertes pendem
de hirsutas liras, longas e vazias
da crepitante música tangida,
húmida e tersa, na sangrenta lida
que a inflada ponta penetrante trila;
dedos e nádegas, e pernas, dentes.

Assim no jeito infiel de adolescentes,
a carne espera, incerta, mas tranquila.
Nas ervas (Eugénio de Andrade) - Virgínia
Escalar-te lábio a lábio,

percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.
porque é terrivel
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
Anda vem (António Botto) - Daniel

Anda vem..., porque te negas,

Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha --- rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
--- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!
Excerto de Afrodite - Histórias, Receitas e Outros Afrodisíacos (Isabel Allende) - Helena R.
 
Imaginemos uma ocasião especial, talvez um jantar elegante na sala de jantar de um palácio renascentista transformado em restaurante ou hotel, como tantos nas velhas cidades da Europa. Lustres e candelabros com velas espalham uma luz ténue, espessos tapetes protegem a madeira antiga do soalho, gobelins de trezentos anos cobrem as paredes e frescos mitológicos decoram os tectos. Diante das mesas redondas cobertas com grandes toalhas e decoradas com orquídeas, sentam-se os comensais, vestidos de gala, em cadeiras de espaldares talhados. Rubi e âmbar nas taças, o som apagado de conversas gentis, o tilintar da prata contra a porcelana... Dançam os criados, sacerdotes de uma missa sumptuosa, solícitos, irónicos, levando e trazendo as travessas com deliciosos manjares. Um casal ocupa uma das mesas junto da janela. Os pesados cortinados de brocado estão abertos e através dos vidros vislumbram-se os jardins, na sombra, apenas iluminados por um tímido luar. A mulher, esplêndida, está toda vestida de veludo cor de sangue, com os ombros destapados e duas magníficas pérolas barrocas nas orelhas. O homem veste de preto, impecável, com botões dourados na camisa. Mantêm as costas direitas e a distância precisa entre a cadeira e a mesa, os seus gestos são controlados, algo rígidos, como se se movessem numa rígida coreografia, mas através dos seus gestos estudados capta-se a atracção mútua como um rio turbulento que ameaça levar tudo à sua frente. Sob a toalha, os joehos roçam por acaso um no outro e esse contacto, quase imperceptível, fustiga-os como uma corrente muito forte; uma labareda iracunda sobe pelas coxas e inflama os ventres. Nada muda nas suas posições, mas o desejo é tão intenso que pode ser visto, apalpado, como uma neblina quente apagando os contornos do mundo circundante. Só eles existem. O criado aproxima-se para servir mais vinho, mas não o vêem. Tremem. Ela levanta o garfo, abre os lábios e do outro lado da mesa ele adivinha o sabor da sua saliva e o calor da sua respiração, sente a língua dela a mover-se na sua prórpia boca como um molusco sufocante e terrível. Escapa-se-lhe um gemido que logo dissimula tossindo com discriçãoe levando o guardanapo ao rosto. Ela tem o olhar fixo na última ostra do prato do seu companheiro, uma vulva inchada, palpitante, indecente, molhada de leite oceânico, síntese do seu prórpio desvario. Nada revela a perturbação de ambos. Em silêncio cumprem com decoro, passo a passo, os ritos exactos da etiqueta; mas não ouvem as notas do pianista animando a noite num canto do salão palaciano, atordoa-os o estrepitoso furacão do desejo nos seus peitos. Desencadearam-se forças primitivas: tambores e arquejos de guerra, um sopro de selva, de húmus, de nardos podres insinuando-se através do aroma delicado da comida e do perfume feminino; imagens de carne nua, de abraços cruéis, de lanças inflamadas e flores carnívoras. Sem se tocarem, o homem e a mulher percebem o cheiro e o calor do outro, as formas secretas dos seus corpos no acto da entrega e do prazer, as texturas da pele e do cabelo ainda desconhecidas; imaginam carícias novas, nunca antes sentidas por ninguém, carícias íntimas e atrevidas que inventarão só para eles. Uma fina película de suor cobre as suas testas. Não se olham nos olhos, observam as mãos do outro, mãos cuidadas que seguram os talheres com graciosidade, vão e vêm entre o prato e os lábios, como pássaros. Elevam a taça com um brinde carregado de intenções, por uns instantes os olhares cruzam-se e é como se se beijassem. Ardem, aterrados perante a fúria avassaladora das suas próprias emoções, ela húmida, ele em riste, contando os minutos daquele jantar eterno e, ao mesmo tempo, desejando que aquele suplício se prolongue até que cada fibra dos seus corpos e cada alucinação das suas almas alcance o limite do suportável, calculando quando poderão abraçar-se, dispostos a fazerem-no ali mesmo, em cima da mesa, diante dos jovens bailarinos e de toda aquela comparsa de fantasmas de gala, ela de barriga para baixo sobre a mesa, as pernas abertas, as suas nádegas de ninfa expostas à luz dos candeeiros vienenses, clamando obscenidades, ele atacando-a por detrás entre as dobras de veludo grená, uivando entre pratos partidos, sujos de comida, cobertos de molho, encharcados de vinho, rasgando a roupa em pedaços, arrancando as pérolas barrocas, os botões dourados, mordendo-se, devorando-se. Aquela visão é tão intensa que os dois oscilam à beira de um abismo, prestes a estoirarem num orgasmo cósmico. E então dois criados aparecem junto da mesa, inclinam-se cerimoniosos, colocam diante deles os pratos tapados e com gestos idênticos levantam as tampas metálicas. Bon apetit, murmuram.
 
O que for, há-de ser (Ar) (in "O Primeiro Canto" de Dulce pontes) - Cecília

(um clip com a musica aqui)

Ai seja o que for
que o amor me traga,
sei que é Primavera neste Inverno;

Ver que o olhar
é de pequenas rugas e de flores,
tão terno...

Sonhar seu beijo na fronte,
a luz no horizonte,
como o primeiro raio de sol.

Sentir por dentro da calma
a paz e a alma dos que não estão sós.

Linda ciranda
ciranda linda,
gira que gira e torna a girar;

Quando eu morrer
oh ciranda linda, deixa um luzeiro
para que o possa ver!

E sempre á volta a girar,
sempre em volta, no ar
de alma solta a te amar.

Para sempre girar,
sempre envolta no ar,
meu amor, meu amor,
o que for, há-de ser!
ABC Erótico (Noel Ferreira) - Xana

Abre-te!

Beija-me!
Cobre-me!

Amar-te é volúpia
Brincar é malicia
Carícia é pingo de mel.

Ai!
Basta!
Cala-te!

Abraço-te, queres?
Belisco-te, gostas?
Colo-me a ti, einh?

Ah!
Biscoito
Crocante!

Às nuvens subi
Bebendo o teu néctar
Crescendo-me em ti!

Ata-me!
Bebe-me!
Come-me!

Agora imparável
Brutalmente bom
Cada vez melhor!
O duplo apelo das contorcionistas [...] (in "O Meu Pipi", autor... desconhecido) - Alexandra

A noite desce... (Florbela Espanca) - Helena M.

Como pálpebras roxas que tombassem

Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!
Taras e manias (Marco Paulo) - Patrícia
(podem relembrar aqui a música)

Quando...

você vem com essa cara
de menina levada para a brincadeira

Dá-me
um arrepio na pele
sinto água na boca
para ficar com você.

Você não tem um pingo de vergooonha
e todo homem sonha
ter alguém assim,
realizando minhas fantasias,
taras e manias,
você vem p'ra mim.

Uma lâide na mesa
uma looouca na cama,
na maior safadêêêza
você diz que me ama.

E na minha cabeça
desvario e loucura,
quando você começa
ninguém mais a segura

E mexe, remexe, se encosta, se enrosca,
se abre, se mostra pra mim.
Me agarra, me morde, me arranha,
não mude que eu queeeeero você sempre assim.

E mexe, remexe, se encosta, se enrosca,
se abre, se mostra pra mim.
Me agarra, me morde, me arranha,
não mude que eu queeeeero você sempre assim.
- Paulo [preciso que me envies o texto...]

Beijo na face (João de Deus) - Rodrigo

Beijo na face,

Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá !

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá !

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente...
Vá !

Guardo segredo,
Não tenha medo:
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê !

Como ele é doce !
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio !
Saciar-me veio,
Amor !

Saciar-me? Louco...
Um é tão pouco,
Flor !
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor !

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor !
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor !

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois !
Um mais na face,
E a mais não passe !
Dois...

Oh ! dois? piedade !
Coisas tão boas...
Vês ?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três !

Três é a conta
Certinha e justa...
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta !
Três !

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são... quantas?
Três !
 
Incêndio (Maria Teresa Horta in "Só de amor") - Cristina
 
Tu acendes a chama

do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

2º aniversário da Biblioteca de Alcochete

Existe a possibilidade de os membros do Clube de Leitura virem a fazer uma apresentação pública, no dia 11 de Setembro, à tarde, na Biblioteca de Alcochete, por ocasião das comemorações do seu 2º aniversário.

Para isso precisamos de saber, até à data da nossa próxima sessão (dia 22 de Junho), quem está disposto a participar.

A participação implicará umas quantas sessões de trabalho extra, em Setembro, em datas e horários a definir.

Agradecemos que nos digam, aqui, na biblioteca, por email, como quiserem.