Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


Próxima Sessão - 30 de Novembro 2010

E o tema é...




Maiores

Está confirmada a nossa tarde de poesia no Alcolar no dia 24 de Novembro (próxima 4ªfeira) pelas 16H15.

Haverá uma sessão extraordinária do CLeVA no próximo dia 23 de Novembro, pelas 20h00 na Biblioteca Municipal, para prepararmos o alinhamento e fazermos um ligeiro ensaio.

Até agora estão confirmadas as seguintes presenças:

- Paula Margato e Daniel, que vão ler "O Sr. Extra Terrestre
- Mariana, com "Pescaria" de José Paulo Paes
- Isabel e João, naturalmente com "O Menino disse..." de Helena Vieira da Silva
- Augusto, que vai ler "O Cântico Negro" de José Régio
- Mila "Gaivota" de Alexandre O´Neill
- Helena Ramos "Ao longo do caminho" de Miguel Sousa Tavares
- Teresa Prata "Voar" de Luísa Ducla Soares
- Virgínia lerá umas quadras do António Aleixo
- Alexandra Ferreira "Fado Maravilhas" de Raul Solnado
- Teresa "Quem me quiser" de Rosa Lobato de Faria
- Fernando irá ler um excerto do "Deserto" de JMG Le Clezio
- Cristina "Pedra Filosofal" de António Gedeão

Era bom que aqueles de nós que ainda não escolheram o seu texto, o façam o quanto antes.

lost pages club - 1ª semana


A terceira semana do LPC foi a nossa primeira (antes nem sabíamos que existia...). Um verdadeiro trabalho de equipa:
- descoberto através do Bibliotecário de Babel (sugestão da Virgínia) já depois da segunda semana
- o porta-voz da equipa ficou o Fernando... com 1000 pontos logo de manhã!
- e pela noitinha a Lena deu uma ajuda para mais 1000!

Uma entrada em grande para o topo da tabela!

Curiosamente um dos livros da semana tinha ganho um prémio "melhor livro para ler em voz alta": o Grufalão!

16 de Novembro de 2010 - Fado

Silêncio, que se vai falar o fado!

O Carlos veio pela primeira vez ao Clube. E por isso... foi o primeiro!



 

Comemorando o 88º aniversário do nascimento de José Saramago com um pequeno poema:

É tão fundo o silêncio entre as estrelas.

Nem o som da palavra se propaga,
Nem o canto das aves milagrosas.

Mas lá, entre as estrelas, onde somos
Um astro recriado, é que se ouve
O íntimo rumor que abre as rosas.

in Provavelmente Alegria.
... e retomando o tema da sessão ficou, de Amália Rodrigues (pode ouvir-se aqui):

 
O Grito (Munch)

GRITO

Silêncio!

Do silêncio faço um grito
O corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco.

De sombra a sombra
Há um Céu...tão recolhido...
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido.

Ao céu!
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás dela.

E eu,
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora.

Solidão!
Que nem mesmo essa é inteira...
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura.

Ai, solidão
Quem fora escorpião
Ai! solidão
E se mordera a cabeça!

Adeus
Já fui para além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede.

Adeus,
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai, como dói
A solidão quase loucura.
 A Helena M. trouxe de Ary dos Santos Quando Lisboa Anoitece (aqui canta-a Amália Rodrigues)


Quando Lisboa anoitece
Como um veleiro sem velas,
Alfama toda, parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece.

É numa água-furtada,
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes d'água!
Quatro paredes de pranto!

Quatro muros d'ansiedade!
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade!
Fechada em seu desencanto,
Alfama cheira a saudade!

Alfama não cheira a Fado,
Cheira povo, a solidão!
Cheira a silêncio magoado!
Sabe a tristeza com pão!
Alfama não cheira a Fado

Mas não tem outra canção!

O Augusto deixou-nos dois dos seus textos: O Meu Fado e Valeu a Pena






A Mila leu, de José Régio:

 Fado Português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro velero
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.
E porque  Fado também é Destino, a Mila leu ainda, de Luís de Camões:

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!
A Helena R., que agora não pensa senão em Florestas, foi também aos "Versos" de Amália, encontrar este Pinheiro Meu Irmão (pode-se ouvir aqui):

Ribeiro não corras mais
Que não hás de ser eterno
O Verão vai-te roubar
O que te deu o Inverno

Até a lenha no monte
Tem sua separação
Duma lenha se faz santos
E d'outra lenha
Se faz o carvão

Ando caída em desgraça
O que é que eu hei-de fazer
Todos os santos que pinte
Demónios têm que ser

São tão grandes minhas penas
Que me deitam afogar
Vêm umas atrás das outras
Tal como as ondas
Andam no mar

Apanho e como as raízes
Que estão debaixo da terra
Só as ramas não as como
Porque essas o vento as leva

Ó pinheiro meu irmão
Tu também és como eu
Também tu estendes em vão
Ó pinheiro meu irmão
Teus braços p'ró céu
A sessão do Miguel Torga foi antes... e o destino pode ser fado ou podemos mudá-lo: duas visões do destino que nos trouxe a Virgínia

Destino
Vai um barco no rio
É uma vela enfunada
Desta manhã de frio
E desta luz cansada

Passa devagarinho
E lá se perde no fundo
A seguir o caminho
Que tudo tem no mundo...


Há Ratoeiras!

Há Ratoeiras!

Quando vierem, como feiticeiros,
Tirar-te o espírito do corpo,
Obstina-te, irmão!

Não,
Não
E Não,

Seja qual for a habilidade
E a humanidade
De encantação.

Lembra-te dum cortiço!
O que ferve lá dentro e dá favos de mel,
É que presta.

Mas se querem a festa
Da tua morte,

Então,
Que levem tudo no caixão:
A alma e o suporte!

O Paulo também trouxe Miguel Torga, com a curiosidade de "o Fado estar do outro lado da Vida":

A Vida
Povo Basco, Andaluz
Galego, Asturiano,
Catalão, Português:
O Caminho é saibroso e franciscano
Do berço à sepultura.

Mas a grande aventura
Não é rasgar os pés
E chegar morto ao fim;

É nunca, por nenhuma razão,
Descrer do chão
Duro e ruim

O Fado
Tem cada povo o seu fado
Já talhado
No livro da natureza.

Um destino reservado,
De riqueza
Ou de pobreza,
Consoante o chão lavrado
A Alexandra J. ia "falar o fado"... mas não falou. E porque a Teresa ia cantar  (mas não cantou), leu a Alexandra (e encantou... olha! rimou!)


Novo Fado de Alcochete
(cantado aqui)














Mas se a Alexandra não falou... falou o António!



A Helena inspirou-se no quadro Fado de José Malhoa, e a propósito leu o poema Fado Malhôa (ouve-se, por exemplo, aqui):

O Fado (José Malhoa)
 
Alguém,
que Deus já lá tem,
pintor consagrado,
que foi bem grande e nos dói
ser já do passado,
cantou numa tela,
com arte e com vida,
a trova mais bela
da terra mais querida.

Subiu

a um quarto que viu
à luz do petróleo
e fez
o mais português
dos quadros a óleo:
um zé de samarra
com a amante a seu lado,
com os dedos agarra,
percorre a guitarra,
e ali vê-se o Fado!


Faz rir

a ideia de ouvir
com os olhos, senhores.
Fará,
mas não para quem já
ouviu, mas em cores.
Há vozes de Alfama
naquela pintura
e a banza derrama
canções de amargura.

Dali

vos digo que ouvi
a voz que se esmera:
boçal,
um faia banal
cantando à Severa.
Aquilo é bairrista;
aquilo é Lisboa,
boémia e fadista,
aquilo é de artista;
aquilo é Malhoa!
Pois a Cecília foi buscar outras cantigas... e na Caderneta de Cromos encontrou a memória de "Um grande, grande amor", do Festival da Canção de 1980.



Já para a Mariana Fado é destino. Leu-nos um texto da sua autoria:




















Fados
Era Dezembro, numa linda manhã
Ansiosos e felizes, partimos!
Fomos todos: pais, avós, até o cão.
Era grande a nossa excitação;
E todos, nossos corações abrimos
Para que tivesses papá e mamã.

Tal como se fosse hoje
Eu recordo teus bracinhos
Levantados para mim
Diziam: Leva-me, sim?
E dá-me muitos miminhos.
-Eu corri como quem foge

Trazia-te nos meus braços,
Não te podia largar.
Porque alguém me dizia:
Se quisesse - "Devolvia"
Não conseguia falar
Só unir os nossos laços!

Muitos anos passaram
Do lindo botão de rosa
Abriu uma linda flor
Com carinho e amor
Surgiu a mulher bondosa
Que FADOS me roubaram!
A Paula e o Daniel tiveram um encontro imediato com uma letra de Carlos Paião: O Senhor Extra-Terrestre (aqui imperdível pela Amália... e imperdível também já aqui em baixo!)

Vou contar-vos uma história
que não me sai da memória,
foi para mim uma vitória
nesta era espacial.
Noutro dia estremeci
quando abri a porta e vi
um grandessíssimo ovni
pousado no meu quintal.

Fui logo bater à porta,
veio uma figura torta,
eu disse: se não se importa
poderia ir-se embora,
tenho esta roupa a secar
e ainda se vai sujar
se essa coisa aí ficar
a deitar fumo para fora.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá o botãozinho
e pôde contar-me então
que tinha sido multado
por o terem apanhado
sem carta de condução.

O senhor desculpe lá,
não quero passar por má,
pois você onde está
não me adianta nem me atrasa.
O pior é que a vizinha
que parece que adivinha
quando vir que estou sozinha
com um estranho em minha casa.

Mas já que está aí de pé
venha tomar um café,
faz-me pena, pois você
nem tem cara de ser mau
e eu queria saber também
se na terra donde vem
não conhece lá ninguém
que me arranje bacalhau.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho,
disse para me pôr a pau,
pois na terra donde vinha
nem há cheiro de sardinha
quanto mais de bacalhau.

Conte agora novidades:
É casado? Tem saudades?
Já tem filhos? De que idades?
Só um? A quem é que sai?
Tem retratos com certeza,
mostre lá? Ai que riqueza,
não é mesmo uma beleza,
tão verdinho? sai ao pai.

Já está de chaves na mão?
Vai voltar para o avião?
Espere, que já ali estão
umas sandes para viagem
e vista também aquela
camisinha de flanela
para quando abrir a janela
não se constipar com a aragem.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
e pôde-me então dizer
que quer que eu vá visitá-lo,
que acha graça quando eu falo
ou ao menos para escrever.

E o senhor extraterrestre
viu-se um pouco atrapalhado,
quis falar mas disse pi,
estava mal sintonizado.
Mexeu lá no botãozinho
só para dizer: Deus lhe pague.
Eu dei-lhe um copo de vinho
e lá foi no seu caminho
que era um pouco em ziguezague.



A Isabel trouxe de José da Ponte Lusitana Paixão (e cantámos todos como a Dulce Pontes!)

Fado

Chorar a tristeza bem
Fado adormecer com a dor
Fado só quando a saudade vem
Arrancar do meu passado
Um grande amor

Mas
Não condeno essa paixão
Essa mágoa das palavras
Que a guitarra vai gemendo também

Eu não, eu não pedirei perdão
Quando gozar o pecado
E voltar a dar a mim

Porque eu quero ser feliz
E a desdita não se diz
Não quero o que o fado quer dizer

Fado
Soluçar recordações
Fado
Reviver uma tal dor
Fado
Só quando a saudade vem
Arrancar do meu passado um grande amor

Mas não condeno essa paixão
Essa mágoa das palavras
Que a guitarra vai gemendo também

Eu não, eu não pedirei perdão
Quando gozar o pecado
E voltar a dar a mim

Eu sei desse lado que há em nós
Cheio de alma lusitana
Como a lenda da Severa

Porque eu quero ser feliz
E a desdita não se diz

O fado
Não me faz arrepender
E o João (que até ontem não sabia cantar o fado) pôs-nos todos a cantar... como a Mariza ou o Carlos do Carmo! (a letra é de Ary dos Santos)



No Castelo, ponho um cotovelo

Em Alfama, descanso o olhar
E assim desfaz-se o novelo
De azul e mar

À ribeira encosto a cabeça
A almofada, na cama do Tejo
Com lençóis bordados à pressa
Na cambraia de um beijo

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

No Terreiro eu passo por ti
Mas da Graça eu vejo-te nua
Quando um pombo te olha, sorri
És mulher da rua

E no bairro mais alto do sonho
Ponho o fado que soube inventar
Aguardente de vida e medronho
Que me faz cantar

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura

Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

Lisboa no meu amor, deitada
Cidade por minhas mãos despida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

concurso - lost pages club


psst! ali ao lado, nos links, há um, o "LostPagesClub" onde estão as regras.

na prática basta estar alerta, segundas-feiras às 10h00 da manhã, neste blog

quem se quiser habilitar... força! :)

S. Martinho

Ainda o Jantar de S. Martinho

Liberdade

— Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.
 

Miguel Torga, in 'Diário XII'

Querem uma Luz Melhor que a do Sol!
AH! QUEREM uma luz melhor que
a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas
que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol
que o Sol,
O que quero é prados mais prados
que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores
que estas flores -
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

O nosso contributo, meu e da Isabel para a ceia de hoje. Não é o São Martinho directamente mas a Liberdade e o Sol têm a ver com tudo

100 Mensagens

Foi ontem... mas nem eu própria dei conta!

Jantar de S. Martinho 2010

Não será bem um recital, mas o CLeVA e alguns amigos juntam-se para mais uma "sessão aberta" na noite de S. Martinho.

Ouvi dizer que há castanhas!


Tem casca bem guardada
Ninguém lhe pode mexer
Sozinha ou acompanhada
Em Novembro nos vem ver



E para deixar já o gostinho para a próxima sessão... "O Homem das Castanhas" de Ary dos Santos




Na Praça da Figueira,

ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono,à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.

Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

... mais um namoro!

Não foi pensado... mais uma espécie de amor à primeira leitura. Para a Teresa, da Lena, uma "montanha" de contos.

Livro do Dia - 16 de Novembro de 2010

A cargo de...

Próxima Sessão - 16 de Novembro de 2010

Livro do Dia - Ana Rita

Já aconteceu antes... nem sempre o nosso "livro" está onde queremos no dia em que o procuramos. Por isso a Ana Rita, que ia trazer outro, trouxe "Deste Mundo e do Outro", um livro de crónicas de José Saramago.

2 de Novembro de 2010 - Miguel Torga

A leitura do António foi uma magnífica introdução:


MIGUEL TORGA

Miguel Torga é o pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, nascido em São Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, província de Trás-os-Montes e Alto Douro em 12 de Agosto de 1907 e falecido em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995. Durante esse intervalo de tempo foi seminarista em Lamego, tendo desistido ao fim de dois anos e emigrado para o Brasil em 1920, onde um tio era fazendeiro de café. Em 1925 regressa a Portugal, pois o tio resolvera pagar-lhes os estudos. Acabou o liceu em dois anos e em 1928 entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra onde se formou em 1933, mas só em 1939 é que viria a exercer a profissão. O pseudónimo nasce em 1934. A sua obra desdobra-se entre poesia, contos, diário e teatro e está traduzida para mais de uma dezenas de línguas, tendo recebido vários prémios nacionais e estrangeiros.

Mas afinal o que diz Miguel Torga?

Do 1º volume do DIÁRIO:
Coimbra, 8 de Agosto de 1941 – Morreu ontem Rabindranath Tagore. Nos jornais, entre peças de artilharia e aviões, a sua máscara cheia de humanidade e santidade veio acicatar em mim este danado problema da salvação. Não da salvação em Deus ou em qualquer paraíso. Da salvação neste mundo, de terra, com homens e com paixões. Veio agudamente dizer-me que ou uma ou outra. Ou se escolhe como ideal um S. Francisco de Assis a rasgar-se nas silvas e a tratar de tordos, ou não há outro remédio senão a gente integrar-se no movimento universal desta gigantesca máquina moderna, e fazer nela de parafuso, como mostrou Chaplin. Assim divididos com luz e sombra na alma, vestidos e despidos, ao mesmo tempo como frutos mal descascados, é que não. Assim é morrer todos os dias.

Sobre Miguel Torga, falta dizer dizer que evitava o contacto com as elites pedantes coimbrãs, que o consideravam como tendo péssimo feitio e como o rei dos chatos.
E , entretanto, o que fazia o Adolfo Correia Rocha? Instalado no seu consultório médico no centro de Coimbra, dava consultas grátis aos pobres. Os seus clientes consideravam-no de trato afável e bom conversador.

A Helena tinha preparado os versos de entrada do "Cântico do Homem", mas infelizmente não se pôde juntar a nós nesta sessão.


A Mila trouxe-nos dos Bichos a história de Bambo, o sapo. Podem lê-la aqui.

Já repararam na abóbora? Pois foi... depois do "Tio Arruda" (arruda é nome de erva mágica) e do Bambo (os sapos são muito usados em bruxaria) a Helena R. leu o Bruxedo dos Contos da Montanha









A Mariana trouxe-nos A Ceia

A Cecília leu um excerto de um dos prefácios: "Na tua ideia, o que escrevo é para te regalar e, se possível, te comover. Mas quero que saibas que ousei partir desse regalo e dessa comoção para te responsabilizar na salvação da casa que, por arder, te deslumbra os sentidos". Já agora, mais uma sugestão para "ler de maneira diferente..."













O Daniel leu Perfil

Não. Não tenho limites.
Quero de tudo
Tudo.
O ramo que sacudo
Fica varejado.
Já nascido em pecado,
Todos os meus pecados são mortais.
Todos tão naturais
À minha condição.
Que, quando por excepção,
Os não pratico
É que me mortifico.
Alma perdida
Antes de se perder,
Sou uma fonte incontida
De viver,
E o que redime a vida
É ela não caber
Em nenhuma medida.
Coimbra, 2 de Março de 1979
in Poesia Completa -Publicações Dom Quixote

A Paula leu o prefácio da Criação do Mundo e um excerto do mesmo livro













A Isabel leu Súplica:
Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

E o João foi aos Novos Contos da Montanha buscar Fronteira.













Do livro Libertação o Augusto trouxe Meditação:

Monte
Uma palavra, sol e a sensação
De que é um largo horizonte
O fosso que nos mede o coração.

Cobrem-se de balidos e ternura
Os tojos onde o corpo se rasgou;
Uma brisa de paz e de frescura
Ondula o que há-de vir e que passou.

Mas um moinho ao longe mói a vida...
Sem se deter, o malmequer da vela
Desfolha sobre a alma ressequida
A poeira do sonho que esfarela.

... e ainda Os ciganos

Tudo o que voa é ave.
Desta janela aberta
A pena que se eleva é mais suave
E a folha que plana é mais liberta.
Nos seus braços azuis o céu aquece
Todo o alado movimento.
É no chão que arrefece
O que não pode andar no firmamento.
Outro levante, pois, ciganos!
Outra tenda sem pátria mais além!
Desumanos
São os sonhos, também...

A Ana Rita leu Lei também do mesmo livro!
Nascer e ficar aqui
Onde os pés sentem firmeza.
Subir ao céu em beleza,
Mas em sonhos, em mentira,
Não vá deixar-nos a lira
De mal com a natureza.

Ser homem como outros homens
Na terra onde se alimenta
O sangue que nos sustenta
A pele e o coração.
Lutar por todo aquele pão
Que corre da placenta.

Dar a alma a um deus dos nossos,
Por uma religião
Com bases na condição
E na dureza dos ossos.
E não rezar padre-nossos
Qualquer que seja a razão.

Trabalhar quanto é preciso
Com alegria e justiça.
Ter um pouco de preguiça
Quando o sol se descobrir.
E dar o sexo à mulher
Que mais fundo nos pedir
E mais fundo nos souber.


E a Teresa leu o prefácio à 2ª edição dos Novos Contos da Montanha e terminou, como começaram a Cristina e o Fernando, com Sísifo:

Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...