Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


18 janeiro 2011 - viagens



Numa noite carregadinha de novidades (espalhadas pelos outros posts) e em que o Rodrigo nos fez uma surpresa, viajámos do nosso poiso habitual para o canto acolhedor da televisão... mas não a ligámos! Quem precisa de TV para viajar quando se tem uma mão cheia de livros para ler!?


Destino: América do Sul; Amazonia
Isabel Allende - A Cidade dos Deuses Selvagens (Helena M.)

Destino: Ásia; Índia
Arundathi Roy - O Deus das Pequenas Coisas (Helena P.)

Destino: América do Sul; Porto Seguro
Pero Vaz de Caminha - Carta a D. Manuel sobre o descobrimento das terras de Vera Cruz (António)

Destino: Ásia
Fernão Mendes Pinto - Peregrinação (Mila, Helena Ramos e Virgínia)
O Estúdio Raposa gravou 12 capítulos de uma versão reduzida da peregrinação - por Aquilino Ribeiro - que podem ser ouvidos aqui.

Destino: O centro da terra (com escala na Islândia)
Júlio Verne - Viagem ao Centro da Terra (Daniel)


Bolhos (cá em casa há quem goste de descer ao coração da Terra)
 Destino: Algures no Próximo Oriente
Carl Norac e Carll Cneut - Um Segredo para Crescer (Alexandra F.)

Destino: A nossa viagem pessoal
Isabel Leal - A realidade já não é o que era (Cecília)

Destino: Solidariedade
Isabel Wolmar - História da Gatinha Miau Miau (Xana)

Aqui a página da Abrigo no FB. Quem quiser pode encomendar o livro à Xana! Os direitos revertem a favor desta Associação.

Destino: América do Norte e uma viagem extracorporea
Michael Grosso - A construção da Alma (Ana Rita)

Destino: S. Tomé e Principe, as ilhas mal tratadas
Miguel Sousa Tavares - Sul (João)

Destino: Algures no pacífico
Júlio Verne - A Ilha Misteriosa (Rodrigo)

Destino: Santarém
Almeida Garrett - Viagens na Minha Terra (Augusto)

Destino: Desconhecido
Sérgio Godinho - Fugitivo (Fernando)

Fugitivo

Um homem corre na noite

é uma imagem banal
podia ser em Madrid
ou Johanesburgo, ou em S. Paulo
ou Budapeste, Nova Iorque
ou Hollywood
ou é claro em Portugal
um homem corre na noite
é uma imagem banal

Porque foge? De onde vem?
porque olha para trás inquietado?
será soldado? vagabundo?
criminoso? ratoneiro?
será apenas o primeiro
dos que vão fugir com ele?
foge p´ra salvar a pele
só a sua? a pele dos outros?
a pele clara ou a escura?
quanto tempo vai durar a sua fuga?
quanto dura? o que espera?
o que espera o homem- fera
se chegar a quem o espera?
alguém o quer? alguém se acende
alguém o chora?
alguém por quem ele chorou
chorará por ele agora?
alguém que nunca o trairá
e se sim, onde será?

Um homem luta contra o sangue
que derrama
e diz: valeu a pena?

Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
vindos de longe
do mar

Que os barcos
voltem a subir o Guadiana
descarregando à passagem
todo o trigo
que o cavalo esbaforido
chegue à relva, sua cama
que o fugitivo
encontre seu porto de abrigo

Um homem corre na noite
é uma imagem banal
esgueirado de holofotes
com a estrada que atravessa
se confunde
com o breu o seu corpo
se confunde
e se passa num muro branco
fica branco como a cal
tal e qual
o camaleão
é uma imagem banal

Um homem luta contra o sangue
que derrama
em que cama
terá ele o seu repouso?
está ansioso? e como não?
não estaria quem pisasse
um desconhecido chão?
não estaria de garganta afogueada
quem por nada
assim fugisse?
quem por tudo suplicasse
dai-me forças, dá-te forças
a ti próprio te confias
dá-te alento, dá-te tempo
dá-te dias
sobrevive de agonias
respirando sobrevives
sobrevive

Um homem vive
contra o sangue
que derrama
e diz: vale a pena?

Que os barcos
voltem a subir o Guadiana ...

Um homem corre na noite
é uma imagem banal
porque insiste? porque teima?
não há pânico na rua
não há fogo no quintal
labaredas? só nas camas
dos amantes
já distantes
chegam ruídos, utopias
quanto vale uma utopia?
vale tudo? quanto vale?
um homem corre na noite
é uma imagem banal

O que fez o fugitivo? porque corre?
se está vivo é porque morre
se morrer é porque o matam
se o matarem ,será justo?
inocentes são os culpados de outros crimes
de que culpa?
de paixão? de inconsciência?
será justo ou não será
desbaratar a inocência
tão a custo conquistada?
porque corre o fugitivo nessa estrada?

E agora para para agora
o homem para
para agora para agora
será que sente que chegou a sua hora?

É impossível
não é possível
correr tanto
e pensar tão
lucidamente
o coração
não aguenta
a cabeça também não
porque tenta
ultrapassar os seus limites?
provavelmente
é por vontade de viver
(quente quente ...)
que ultrapassa os seus limites
«Estamos quites!»
diz para o seu coração
«Ainda não, ainda não ...
sentes que valeu a pena?
se te obrigam a fugir
mais te obrigam
a chegar junto de ti
valeu a pena?»

o poder do povo começa a ver-se

 
      foto: http://www.bbc.co.uk

   Vejam aqui: BBC news

   e/ou

   aqui: Dementia . pt

pepQ?

Chegou o concurso que vai arrasar em 2011! As regras estão aqui! Para quem gosta de ler, ouvir ler...

Mais uma inciativa de promoção da leitura da ANDANTE

( pepQ? = poema escrito por Quem? )

Fãs de Pessoa

Recebemos uma sugestão do António e da Helena... é só até amanhã, 12 de Janeiro: Filme do Desassossego no CCB

E já agora, para os aficionados das leituras alternativas, a SAL tem uma caminhada pela Lisboa de Pessoa (nível de dificuldade baixo, cerca de 2Km de extensão sem subidas, em percurso linear)... falta esclarecer o preço pois o que está no site não é igual ao que tenho no folheto.

... e ainda mais!

"Os livros da Biblioteca Particular de Fernando Pessoa estão disponíveis gratuitamente online no site da Casa Fernando Pessoa. Até agora, só uma visita à Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, permitia consultar este acervo que é riquíssimo, mas com o site, bilingue português e inglês, fica disponível em qualquer lugar do mundo. Com uma ligação à Internet é possível consultar, página a página, os cerca de 1140 volumes da biblioteca, mais as anotações - incluindo poemas - que Fernando Pessoa foi fazendo nas páginas dos livros. http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/"

CLeVA - Viagens - alteração de data

Olá a todos,

Surgiram-nos compromissos inadiáveis para o dia 11 de janeiro.

Ao contrário de outras vezes que vos dissemos para avançarem sem a nossa presença, desta vez fazemos questão de estar presentes na primeira sessão do ano.

Assim, a próxima sessão fica marcada para o próximo dia 18 de janeiro.

As nossas desculpas.

Como prémio de consolação avançamos já uma das novidades que tínhamos para vos dar:

No próximo dia 30 de Abril de 2011, pelas 16h00, na Biblioteca de Alcochete, o CLeVA vai mais uma vez apresentar-se publicamente. 

Marquem já nas agendas, e por favor, digam àquele amigo ou amiga que vai casar neste dia, para pensar bem no que vai fazer... e parece que também não é bom dia para baptizar crianças :-)

próxima sessão - 18 janeiro 2011

tema:

livro do dia:

...e haverá novidades

mais uma vez o final foi




de baixo valor calórico ;-)



















Aqui fica a receita dos "Corações Apimentados" da Lena R. com indicação das alterações à receita original:

Ingredientes:
500 g de farinha branca
1 pacotinho de fermento para tartes salgadas (~15g de fermento)
1 ovo (substituí por 1 dl de vinho branco)
1 dl de azeite virgem extra
sal e pimenta
1,5 dl de água morna (na minha experiência dois golos chegaram)

Material:
batedeira (opcional; a massa pode ser feita manualmente)
tigela
panos
panela com água fervente
escumadeira
papel vegetal
2 tabuleiros de forno


Preparação (cerca de 20 min + 1h30 de fermentação + 25 min de cozedura):

Misturar a darinha com o fermento, uma colherinha de sal e abundante pimenta preta em grão, moída grosseiramente. Fazer um monte, abrir o ovo e misturar o azeite. Começar a amassar (usei a batedeira eléctrica com o batedor das massas pesadas) e ir juntando aos poucos a água até conseguir uma massa homogenea e elástica (faz uma bola que se despega facilmente dos bordos da tigela).

Colocar a massa numa tigela untada com azeite, cobrir com uma folha de película transparente e deixar levedar durante 1 hora em lugar ameno (no meu caso foi mais tempo, mas estava muio frio... deixei o tempo necessário para dobrar o volume).

Formar com a massa muitos rolinhos e ligá-los de forma a obter muitos corações (ou laçarotes, ou roscas...). À medida que forem ficando prontas, colocá-las sobre um pano. No final cobrir com outro pano e deixar levedar mais 15 minutos.

Escaldar as rosquinhas em água a ferver (mergulhar e esperar que venham à tona... fui fazendo a grupos de 5), retirá-las com a escumadeira, escorrer bem e dispô-las no tabuleiro de forno revestido com papel vegetal (para esta quantidade de massa tive que usar 2 tabuleiros).

Cozer as rosquinhas no forno a 200ºC durante cerca de 20 minutos (de preferência NÃO utilizar a opção de "forno ventilado"). Deixar arrefecer. Se fechadas numa caixa de lata, conservam-se estaladiças até cerca de 20-30 dias.

outro namoro




Os novos contos do gin de Mário-Henrique Leiria chegou agora ao Fernando

...anda Luísa, Luísa sobe...

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


Saíu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada.


Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho,
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga;

toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga,

puxa que puxa,

larga que larga.

Regressa a casa
é já noite cerrada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada,

sobe que sobe,

sobe a calçada.

Anda, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, Poesias Completas

28 dezembro - Amor


A Cristina iniciou a sessão com uma versão silenciosa (baseada em LGP) desta delícia... a tradução simultânea ficou a cargo da Isabel (para quem quiser aprender mais um pouco pode ir até aqui)

Amor é fogo que arde sem se ver (Luis Vaz de Camões)


Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
O Fernando trouxe no seu livro uma carta escrita por outro... Pessoa

"Terrível bebé:


Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também . E é bombom, e é vespa e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijinho na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano mas é escrito por mim.

Fernando"
E porque tão contrário a si é o Amor, a Lena R. foi buscar dois sonetos da bipolar Florbela Espanca.

[Se tu viesses ver-me...]

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

[Tarde Demais]


Quando chegaste enfim, para te ver
Abriu-se a noite em mágico luar;
E pra o som de teus passos conhecer
Pôs-se o silêncio, em volta, a escutar...

Chegaste enfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar;
E as pedras do caminho florescer!

Beijando a areia d'oiro dos desertos
Procura-te em vão! Braços abertos,
Pés nus, olhos a rir, a boca em flor!

E há cem anos que eu fui nova e linda!...
E a minha boca morta grita ainda:
"Por que chegaste tarde, Ó meu Amor?!..."
A Teresa leu um excerto de "A Bela Acordada"

A Isabel voltou a Fernando Pessoa (perdão, a Álvaro de Campos) e às suas cartas de amor.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos, 21/10/1935
E porque nesta sessão a Isabel esteve na berlinda foi ainda dar uma mãozinha... (ou melhor... emprestar a voz) ao João. A versão cantada pelo Zeca Afonso está aqui.


[MOTE ALHEIO]
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

[VOLTAS SUAS]
Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

(Luís de Camões)

A Paula foi aos "Contos de Amor" de Herman Hesse

O Daniel brindou-nos com uma carinhosa canção de amor esquimó (Daniel: podes copiar o texto para aqui? Se quiseres eu ensino-te como se faz!)

Voltámos a Luís de Camões com o Paulo:

[MOTE ALHEIO]

Se me levam águas,
nos olhos as levo.

[GLOSAS PRÓPRIAS]

Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
alcançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.

As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas d'amar são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força d'águas
me leva, eu as levo.

Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós m'enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo.

[MOTE ALHEIO]


A dor que a minh' alma sente
não na sabe toda a gente.

[VOLTAS]

Que estranho caso de amor,
que desejado tormento,
que venho a ser avarento
das dores de minha dor!

Por me não tratar pior,
se se sabe ou se se sente,
não na digo a toda a gente.

Minha dor e causa dela
de ninguém ouso fiar,
que seria aventurar
a perder-me ou a perdê-la.

E pois só com padecê-la
a minha alma está contente,
não quero que a saiba a gente.

Ande no peito escondida,
dentro n'alma sepultada;
de mim só seja chorada,
de ninguém seja sentida.

Ou me mate ou me dê vida,
ou viva triste ou contente,
não ma saiba toda a gente.
A Virgínia homenageou o Amor à Ciência e ao Conhecimento: de António Gedeão, "Poema Para Galileu" (aqui dito pelo próprio autor)


Justus Sustermans: Picture of Portrait of Galileo - Uffizi Gallery, Florence
Galileu Galilei por Justus Sustermans (Galleria Uffizi, Florença, Itália)

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florenca.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria
Eu sei... Eu sei...
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.






Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência as coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar -- que disparate, Galileo!
-- e jurava a pés juntos e apostava a cabeca
sem a menor hesitação --
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.
Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?
Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilizacão.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.
Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas -- parece que estou a vê-las --,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.

Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.

Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.


O Augusto leu um texto de sua autoria (que só depois de nos ser enviado poderá ser para aqui transcrito)

O António depois de uma sentida declaração, leu de Jacques Prévert, "Alicante"

Une orange sur la table
Ta robe sur le tapis
Et toi dans mon lit
Doux présent du présent
Fraîcheur de la nuit
Chaleur de ma vie
[Uma laranja sobre a mesa
O teu vestido no tapete
E tu no meu leito
Doce presente do presente
Frescura da noite
Calor da minha vida]
A Helena leu um excerto de "Combateremos a Sombra" de Lídia Jorge.

Voltamos a Luís de Camões, uma das paixões da Mariana (aqui de novo por José Afonso):

Endechas a Bárbara escrava


Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.

Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Para ser senhora
De quem é cativa.

Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.

Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.

Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.
 A Cecília também trouxe um Amor Diferente: o incondicional amor dos animais aos seus donos, com vários exemplos de animais heróis.

Se um Cão fosse seu Professor Você aprenderia coisas assim:

Quando alguém que você ama chega em casa, corra ao seu encontro.
Nunca perca uma oportunidade de ir passear de carro. Permita-se experimentar o ar fresco do vento no seu rosto.
Mostre aos outros que estão invadindo o seu território.
Tire uma sonequinha no meio do dia e espreguice antes de levantar.
Corra, pule e brinque todos os dias.
Tente se dar bem com o próximo e deixe as pessoas te tocarem.
Não morda quando um simples rosnado resolve a situação.
Em dias quentes, pare e role na grama, beba bastantes líquidos e deite debaixo da sombra de uma árvore.
Quando você estiver feliz, dance e balance todo o seu corpo.
Não importa quantas vezes o outro te magoa, não se sinta culpado… volte e faça as pazes novamente.
Aproveite o prazer de uma longa caminhada.
Se alimente com gosto e entusiasmo.
Coma só o suficiente.
Seja leal.
Nunca pretenda ser o que você não é.
Se você quer se deitar embaixo da terra, cave fundo até conseguir.
E o MAIS importante de tudo… Quando alguém estiver nervoso ou triste, fique em silêncio, fique por perto e mostre que você está ali para confortar.

(Não consegui encontrar a fonte original nem o autor)
 A Alexandra J. conseguiu finalmente encontrar a explicação do Amor:

Como explicar o AMOR


Conta-se que uma vez, num lugar longínquo da Terra se reuniram os sentimentos, os defeitos e as qualidades dos homens.
Depois do ABORRECIMENTO bocejar e reclamar pela terceira vez, a LOUCURA, sempre tão louca, propôs-lhe:

- Vamos brincar às escondidas?

A INTRIGA levantou a sobrancelha, intrigada, e a CURIOSIDADE, sem poder conter-se, perguntou: «- Escondidas? O que é isso? Como se joga? Podemos jogar todos?»

- É um jogo - explicou a LOUCURA - em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem.Quando eu acabar de contar, vou à vossa procura e o primeiro que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo.

O ENTUSIASMO dançou, e a EUFORIA foi atrás dele. A ALEGRIA deu tantos saltos que acabou por convencer a DÚVIDA e até mesmo a APATIA, que nunca se interessava por nada. Mas nem todos quiseram participar: a VERDADE preferiu não se esconder: para quê, se no fim todos a encontravam? A SOBERBA opinou que era um jogo muito tonto (no fundo, o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela) e a COVARDIA preferiu não se arriscar.

- Um, dois, três, quatro... - começou a contar a LOUCURA.

A primeira a esconder-se foi a PRESSA, que, como sempre, caiu atrás da primeira pedra do caminho.

A FÉ subiu ao céu e a INVEJA escondeu-se atrás da sombra do TRIUNFO, que com seu próprio esforço, tinha conseguido subir até à copa da árvore mais alta.

A GENEROSIDADE quase não se conseguia esconder, pois cada local que encontrava lhe parecia bom para algum de seus amigos - se era um lago cristalino, ideal para a BELEZA; se era a copa de uma árvore, perfeito para a TIMIDEZ; se era o voo de uma borboleta, o melhor para a VOLÚPIA; se era uma rajada de vento, magnífico para a LIBERDADE. E assim, acabou por se esconder num raio de sol. O EGOÍSMO, pelo contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cómodo, mas só para ele. A MENTIRA escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris), e a PAIXÃO e o DESEJO no centro dos vulcões. O ESQUECIMENTO, não me recordo onde se escondeu, mas isso não é o mais importante.

Quando a LOUCURA ia no novecentos e noventa e nove mil, novecentos e noventa e nove, o AMOR ainda não havia encontrado um local para se esconder, até que encontrou um roseiral e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores.

- Um milhão - contou a LOUCURA. E começou à procura dos outros.

A primeira a aparecer foi a PRESSA, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a FÉ discutindo com Deus, no céu, sobre Zoologia. Por mero acaso, encontrou a INVEJA, e claro, deduziu onde estava o TRIUNFO. Ao EGOÍSMO, não teve nem que procurá-lo: ele saiu sozinho, disparado, do seu esconderijo, que, afinal, era um ninho de vespas. De tanto caminhar, a LOUCURA sentiu sede e, ao aproximar-se de um lago, encontrou a BELEZA. À DÚVIDA foi mais fácil ainda, pois encontrou-a sentada sobre uma cerca, sem decidir de que lado se esconder. E assim foi-os descobrindo um a um.  O TALENTO entre a erva fresca; a ANGÚSTIA numa cova escura; a MENTIRA atrás do arco-íris (mentira, estava no fundo do oceano); e até o ESQUECIMENTO, que já se tinha esquecido que estava a jogar.

Apenas o AMOR não aparecia em lado nenhum!.

A LOUCURA procurou atrás de cada árvore, debaixo de cada rocha, no topo de cada montanha. Quando estava a ponto de se dar por vencida, encontrou um roseiral. Agarrou numa forquilha e começou a mexer nos ramos. No mesmo instante, ouviu-se um grande grito: os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos. A LOUCURA não sabia o que fazer para se desculpar: chorou, rezou, implorou, pediu perdão. Como nada disto era suficiente, teve uma ideia: seria para sempre a guia do AMOR. O AMOR aceitou.

E é assim que, desde que pela primeira vez se brincou às escondidas na Terra, o AMOR é cego e a LOUCURA anda sempre com ele.
A Alexandra F. foi buscar o "Elogio do Amor Puro" de Miguel Esteves Cardoso.

E porque esta foi a última sesão de 2010, a Cristina encerrou-a com a "Receita de Ano Novo" de Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo

cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

28 dezembro - livro do dia


o Augusto trouxe-nos a saga da família Buendia.



Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez

16 dezembro 2010 - Os Lusíadas

Aqui está uma planta da localização do teatro Meridional.
Clicar na imagem para ampliar.

Aqui a ligação para o percurso sugerido pelo google

Aqui pode ver-se o próprio Teatro Meridional
É o edifício de tijolo, situado do lado esquerdo da imagem.

O espectáculo começa às 21h45 e dura 1h30.
Encontramo-nos à porta às 21h30.

próxima sessão - 28 de dezembro

o tema será


e o livro do dia será do



e acabamos sempre em festa


desta vez celebrámos o recente aniversário do António e a integração da Alexandra Ferreira na equipa da Biblioteca de Alcochete.


Também bebemos um Madeira às melhoras da Alexandra Justino.