Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


30 de Abril, 2011 - O CLeVA é um espectáculo (título provisório)

[Todos]

Um carnaval
Alexandre O´Neill

[Vem ao baile
Vem ao baile
Vem ao baile
Vem ao baile
Vem ao baile]

Vem ao baile
Vem ao baile
Pelo braço
ou pelo nariz
Vem ao baile
Vem ao baile
E vais ver como te ris
[E vais ver como te ris
E vais ver como te ris]

Deixa a tristeza roer
As unhas de desespero
Deixa a verdade e o erro
Deixa tudo
vem beber

Vem ao baile das palavras
que se beijam
desenlaçam
Palavras que ficam
passam
Como a chuva nas vidraças

Vem ao baile
oh tens de vir
E perder-te nos espelhos
[Vem ao baile
oh tens de vir
E perder-te nos espelhos]
Há outros muito mais velhos
Que ainda sabem sorrir

Vem ao baile[, vem ao baile, vem ao baile] da loucura
Vem desfazer-te do corpo
E quando caíres de borco[, borco, borco, borco, borco]
A tua alma é mais pura

Vem ao baile
vem ao baile
Pelo chão ou pelo ar
Vem ao baile
baile baile
E vais ver o que é bailar.


Ana Rita: Mãezinha (António Gedeão) e Alexandra J: Testamento (Ana Luisa Amaral)

[Ana Rita]
Mãezinha
António Gedeão


A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

28 por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos...
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego,
às horas em que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raparigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igreja.
Foi a minha mãezinha.


[Alexandra J.]
Testamento
Ana Luísa Amaral


Vou partir de avião
e o medo das alturas misturado comigo
faz-me tomar calmantes
e ter sonhos confusos

Se eu morrer
quero que a minha filha não se esqueça de mim
que alguém lhe cante mesmo com voz desafinada
e que lhe ofereçam fantasia
mais que um horário certo
ou uma cama bem feita

Dêem-lhe amor e ver
dentro das coisas
sonhar com sóis azuis e céus brilhantes
em vez de lhe ensinarem contas de somar
e a descascar batatas

Preparem a minha filha
para a vida
se eu morrer de avião
e ficar despegada do meu corpo
e for átomo livre lá no céu

Que se lembre de mim
a minha filha
e mais tarde que diga à sua filha
que eu voei lá no céu
e fui contentamento deslumbrado
ao ver na sua casa as contas de somar erradas
e as batatas no saco esquecidas
e íntegras


Paula: Rondel do Alentejo (Almada Negreiros)

[Paula]
Rondel do Alentejo
José de Almada Negreiros


Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo
de luar.
Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
e os bonés
e os braços
destes dois
giram laços
ao luar.

O colete
desta virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete de luar.


[Helena P.]
Monólogo de uma actriz enquanto se maquilha
Bertolt Brecht


Vou fazer o papel de uma bêbeda
Que vende os filhos
Em Paris, nos tempos da Comuna.

Tenho apenas cinco réplicas.
E preciso de me deslocar, de subir a rua.

Caminharei como gente livre
Gente que só o álcool
Quis libertar e voltar-me-ei
Como o bêbado que receia
Ser perseguido. Voltar-me-ei
Para o público.

Analisei as minhas cinco réplicas como os documentos
Que se lavam com ácido para descobrir sob os caracteres visíveis
Outros possíveis caracteres.

Pronunciarei cada réplica
Como a melhor acusação
Contra mim e contra todos os que me olham.

Se eu não reflectisse maquilhar-me-ia simplesmente
Como uma velha beberrona
Doente e decadente.

Mas vou entrar em cena
Como uma bela mulher que guarda a marca da destruição
Na pálida pele outrora macia e agora cheia de rugas
Outrora atraente e agora repelida

Para que ao vê-la cada um se interrogue: quem
Fez isto?

[Todas as mulheres]
Calçada de Carriche
António Gedeão


Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.

Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,

puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;

toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,

puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

[Paulo]
Os amantes sem dinheiro
Eugénio de Andrade


Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.

[Mariana]
Soneto
Luís de Camões


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida

começa de servir outros sete anos,
dizendo:”Mais servira se não fora
para tão longo amor tão curta a vida!”

António: Caranguejola (Mário de Sá-Carneiro)


[António]
Caranguejola
Mário de Sá-Carneiro


Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho– que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor –
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo –
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá enfermaria! –
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

[Alexandra F.]
Todos os homens são maricas quando estão com gripe (pasodoble)
António Lobo Antunes



Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher -
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu-postigo
ai Lurdes Lurdes
fica comigo
não é o-vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.

[Helena M.]
Bairro Livre
Jacques Prévert


Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz a continência
perguntou o comandante
Não
não se faz a continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro

[Carlos Morgado]
Pastelaria
Mário Cesariny


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

[Augusto]
Tenho uma grande constipação
Álvaro de Campos


Tenho uma grande constipação,
E toda a gente sabe como as grandes constipações
Alteram todo o sistema do universo,
Zangam-nos contra a vida,
E fazem espirrar até à metafísica.
Tenho o dia perdido cheio de me assoar.
Dói-me a cabeça indistintamente.
Triste condição para um poeta menor!
Hoje sou verdadeiramente um poeta menor.
O que fui outrora foi um desejo; partiu-se.

Adeus para sempre, rainha das fadas!
As tuas asas eram de sol, e eu cá vou andando.
Não estarei bem se não me deitar na cama.
Nunca estive bem senão deitando-me no universo.
Excusez du peu... Que grande constipação física!
Preciso de verdade e de aspirina.

[Todos os homens]
Sentenças delirantes de um poeta para si próprio em tempo de cabeças pensantes
Alexandre O'Neill

1

Não te ataques com os atacadores dos outros.
Deixa a cada sapato
a sua marcha
e a sua direcção.
O mesmo deves fazer com os açaimos.
E com os botões.

2
Não te candidates, nem te demitas.
Assiste.
Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.
Em todo o caso fica o mais perto possível da coxia.

3
Tira as rodas ao peixe congelado,
mas sempre na tua mão.
Depois, faz um berreiro.
Quando tiveres bastante gente à tua volta,
descongela a posta e oferece um bocado a cada um.

4
Não te arrimes tanto à ideia de que haverá sempre
um caixote com serradura à tua espera.
Pode haver.
Se houver, melhor...
Esta deve ser a tua filosofia.

5
Tudo tem os seus trâmites, meu filho!
Não faças brincos de cerejas
sem te darem, primeiro, as orelhas.
Era bom que esta fosse, de facto, a tua filosofia.

6
Perguntas-me o que deves fazer com a pedra que
te puseram em cima da cabeça?
Não penses no que fazer com. Cuida no que fazer da.
É provável que te sintas logo muito melhor.
Sai, então, de baixo da pedra.

7
Onde houver obras públicas não deponhas a tua obra.
Poderias atrapalhar os trabalhos.
Os de pedra sobre pedra, entenda-se.
Mas dá sempre um «Bom dia!» ao pessoal do estaleiro.
Uma palavra é, às vezes, a melhor argamassa.

8
Deves praticar os jogos de palavras, mas sempre
com a modéstia do cientista que enxertou em si mesmo
a perna da rã, e que enquanto não coaxa, coxeia.
Oxalá o consigas!

9
Tens um glorioso passado futurível,
mas não fiques de colher suspensa,
que a sopa arrefece.

10
Se tiveres de arranjar um nome para uma personagem de tua criação,
nunca escolhas o de Fradique Mendes.
A criação literária não frequenta o guarda-roupa,
muito menos quando a roupa tem gente dentro.

11
Resume todas estas sentenças delirantes numa única sentença:
Um escritor deve poder mostrar sempre a língua portuguesa.


[Fernando]
Janelas
João Cabral de Melo Neto


há um homem fugindo
de uma árvore; outro que perdeu
seu barco ou seu chapéu;
há um homem que é soldado;
outro que faz de avião;
outro que vai esquecendo
sua hora seu mistério
seu medo da palavra véu;
e em forma de navio
há ainda um que adormeceu.




[Mila]
Diálogo com a figura do profeta Jeremias, pintada por Miguel Ângelo no tecto da capela sistina
Ruy Belo


Pensa tens que pensar bastante Jeremias
sobre ti pesa o peso de pensar por nós que não pensamos
por nós que temos horas para tudo o que pensar não seja
que temos o emprego as lojas os cinemas o relógio
que com suor pagamos pelo tempo todo nosso
o preço duma vida inteiramente submetida
às botas dos senhores deste mundo
pensa tu Jeremias que talvez resolvas tu
problemas até hoje pouco menos que insolúveis
redutíveis talvez a pequenas palavras como pão
ou casa ou roupa simples condição pra conseguir
que o homem possa estar sobreviver
sobre esta terra sólida passível no entanto
de submissão ao sedutor encanto
de fantasmas talvez manipulados longos séculos
Depois procura que não mais o homem
que pouco tempo vive neste único mundo
veja fugir o poder de pensar
pois mais que privilégio é um fardo pensar
Que ao homem se consinta defender a sua vida
de quem mais que matá-lo claramente e duma vez
a vida lhe retira ambiguamente
Que possa ver a pedra a terra a estrela
o animal a árvore a sucessão das estações
o dia a noite o pôr do sol
Que viva muito mais por saber ler
por poder descobrir noutras pegadas anteriores às suas
passado para os passos que lhe cabe dar
na terra e no momento em que tem de viver
(...)
Pensa sem transcendência pensa apenas
deita contas à vida lembra a noite
que desce sobre nós veladamente
(...)


João: Inventário (Miguel Torga)
[João]
Inventário
Miguel Torga


E, apesar de tudo, sou ainda o Homem!
Um bípede com fala e sentimentos.
Ao cabo de misérias e tormentos,
Continua
A ser a minha imagem que flutua
Na podridão dos charcos luarentos.

Sou eu ainda a grande maravilha
Que se mostra no mundo.
O negro abismo que tem lá no fundo
Um regato a correr:
Uma risca de céu e de frescura
Que murmura
A ver se alguma boca a quer beber.

Quanto o grave silêncio da paisagem
Me renega e protesta,
Pouco importa na festa
Deste encontro feliz;
Obra de Arcanjo ou de Satanás,
Eu é que fui capaz
De fazer o que fiz!

Podia ser melhor o meu destino:
Ter o sol mais aberto em cada mão...
Mas, Adão,
Dei o que a argila deu.
E, corpo e alma da degradação,
O milagre é que o Homem não morreu!

Não! Não me queiram na cova que não tenho,
Porque eu vivo, e respiro, e acredito!
Sou eu que canto ainda e que palpito
No meu canto!
Sou eu que na pureza do meu grito
Me levanto!


Cecília: Traduzir-se (Ferreira Gullar)
[Cecília]
Traduzir-se
Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


miau...


Helena R.: Uma prosa sobre os meus gatos (Manuel António Pina)

[Helena R.]
Uma prosa sobre os meus gatos
Manuel António Pina


Perguntaram-me um dia destes
ao telefone
por que não escrevia
poesia (ao menos um poema)
sobre os meus gatos;
mas quem se interessaria
pelos meus gatos,
cuja única evidência
é serem meus (digamos assim)
e serem gatos
(coisa vasta, mas que acontece
a todos os da sua espécie)?
Este poderia
(talvez) ser um tema
(talvez até um tema nobre),
mas um tema não chega para um poema
nem sequer para um poema sobre;
porque é o poema o tema,
forma apenas.
Depois, os meus gatos
escapam de mais à poesia,
ou de menos, o que vai dar ao mesmo,
são muito longe
ou muito perto,
e o poema precisa do tempo certo
de onde possa, como o gato, dar o salto;
o poema que fizesse
faria deles gatos abstractos,
literários, gatos-palavras,
desprezível comércio de que não me orgulharia
(embora a eles tanto lhes desse).
Por fim, não existem «os meus gatos»,
existem uns tantos gatos-gatos,
um gato, outro gato, outro gato,
que por um expediente singular
(que, aliás, também absolutamente lhes desinteressa)
me é dado nomear e adjectivar,
isto é, ocultar,
tendo assim uns gatos em minha casa
e outros na minha cabeça.
Ora só os da cabeça alcançaria
(se alcançasse) o duvidoso processo da poesia.
Fiquei-me por isso por uma prosa,
e mesmo assim excessivamente corrida e judiciosa.

Daniel: A sementinha e a flor (Lília da Fonseca); Teresa: Maracujá (Ernesto Lara Filho)
[Daniel]
A sementinha e a flor
Lília da Fonseca


O Vento
agarrou na sementinha
e levou-a
para uma terra lavrada

As Nuvens
choraram de madrugada

O Sol
em dias a fio
tudo beijou com amor

E numa tarde de estio
transformada em bela planta
a sementinha deu flor.




[Teresa]
Maracujá
Ernesto Lara Filho


Um dia
o pé de maracujá
que eu plantei no quintal
cresceu e floriu.

Eu nunca tinha visto
a flor do maracujá.

Juro por Deus que nunca vi
coisa mais linda no mundo
do que a flor violeta
do pé de maracujá
que eu plantei
na cerca do meu quintal.

Um dia
o maracujá
que eu plantei no meu quintal
cresceu
e floriu...

[Virgínia]
Ode à crítica
Pablo Neruda


Escrevi cinco versos:
um verde,
outro era um pão redondo,
o terceiro uma casa a levantar-se,
o quarto era um anel,
o quinto verso era
breve como um relâmpago
e ao escrevê-lo
deixou em mim a sua queimadura.

E então, os homens
e as mulheres,
vieram e tomaram
a singela matéria,
fibra, vento, fulgor, barro, madeira
e com tão pouca coisa
construíram
paredes, andares, sonhos.
Numa linha da minha poesia
secaram roupa ao vento.
Comeram
minhas palavras,
guardaram-nas
junto à cabeceira,
viveram com um verso,
com a luz que saía do meu flanco.
Então,
veio um critico mudo,
outro cheio de línguas,
e outros, outros chegaram
cegos ou cheios de olhos,
elegantes alguns
como cravos de sapatos rubros,
outros estritamente
vestidos de cadáveres,
alguns partidários
do rei e da sua alta monarquia,
outros tinham-se
enredado na fronte
de Marx e esperneavam na sua barba,
outros eram ingleses,
simplesmente ingleses,

e entre todos
lançaram-se
com dentes e com facas,
com dicionários e outras armas negras,
com respeitáveis citações,
lançaram-se
a disputar a minha pobre poesia
aos homens simples
que a amavam:
e fizeram-na em funis,
enrolaram-na,
prenderam-na com cem alfinetes,
cobriram-na com poeira de esqueleto,
encheram-na de tinta,
cuspiram-lhe com suave
cortesia de gatos,
destinaram-na a embrulhar relógios,
protegeram-na e condenaram-na,
lançaram-lhe petróleo,
dedicaram-lhe húmidos tratados,
cozeram-na com leite,
juntaram-lhe pedras pequeninas,
apagaram-lhe vogais,
foram-lhe matando
sílabas e suspiros,
dobraram-na e fizeram
um pequeno pacote
que destinaram cuidadosamente
aos seus esconsos, aos seus cemitérios.

Depois
retiraram-se um a um
enfurecidos até à loucura
porque não fui bastante
popular para eles
ou impregnados de suave menosprezo
pela minha vulgar falta de trevas,
retiraram-se
todos
e então,
outra vez,
junto à minha poesia
voltaram a viver
homens e mulheres,
de novo
acenderam o lume,
construíram casas,
comeram o pão,
repartiram a luz
e no amor uniram
relâmpago e anel.
E agora
perdoai-me, senhores,
que interrompa esta história
que estou a contar-lhes
e vá viver
para sempre
com a gente simples.

[BÊ-A-BÁ...]

[Cristina]
Arte Poética V
Sophia de Mello Breyner Andresen


Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

Cristina: O menino azul (Cecília Meireles)

[in memoriam Isabel]
O Menino Azul
Cecília Meireles

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
- de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


o CLeVA é um espectáculo (título provisório)

sábado, 30 de abril, às 16h00, na Biblioteca Municipal de Alcochete






quando o contador chegar a zero, mostramos-lhe tudo. Apareça! :-)

Ensaio - o CLeVA é um espectáculo (título provisório)



aproxima-se o grande dia



é já no próximo dia 30 de abril, às 16h00

Estarás sempre connosco





E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.

Miguel Sousa Tavares

(ensaio) o CLeVA é um espectáculo (título provisório)



é já no próximo 30 de abril, na Biblioteca Municipal de Alcochete, pelas 16h00

Agenda Cultural

Aqui fica a agenda do mês de Abril
- Inscrições para o CLeVA a decorrer
- Espectáculo no dia 30 de Abril!

começou a contagem decrescente para

o CLeVA é um espectáculo (título provisório)



é já no próximo dia 30 de abril, na Biblioteca Municipal de Alcochete, pelas 16h00

22 de Março 2011 - Parabéns CLeVA

Um brinde



Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta.
Para não sentir o horrível fardo do tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.

Mas de quê?

De vinho, de poesia ou de virtude. À vossa escolha. Mas embriagai-vos!

E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo que foge, a tudo o que geme, a tudo que rola, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são.

E o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio vos responderão: “São horas de vos embriagardes. Para não serdes os escravos do tempo, embriagai-vos sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha."

Baudelaire

Um bolo


Que conte muitos!

22 de Março 2011 - Gastronomia

Para celebrar o primeiro aniversário do CLeVA juntámo-nos à roda da gastronomia. O ponto de encontro foi o restaurante "Âncora", em Alcochete.


Mariana e Cecília


Excertos de "Chocolate" de Joan Harris e "Chocolate: histórias para lar e chorar por mais" de vários autores
O texto pode ser encontrado aqui


João, Isabel, Helena P. e António





Vou dizer qual é a diferença entre a uva e o beijo;
da uva nasce o vinho e do beijo nasce o amor.
Mas, se o melhor do amor é doar-se inteiramente,
porém, cuidado com o vinho, mesmo que gostoso.
Comparar os dois não é coincidência, já que um
como o outro, quando com abuso, o resultado,
pode crer, é desastroso. Mas, não dispenso
o vinho e tampouco o amor, pois os dois
me levam ao verdadeiro …paraíso.
Abusar eu sei que não posso,
principalmente se devo
conduzir…O que
posso é
fazer
um
tin,
tin,
por
uma,
ou duas
vezes, ainda mais
quando estou em companhia dela!
quando estou em companhia dele!




Rodrigo



"O aniversário do papá" in "Eu sou o Maior" de Goscinny e Sempé

Teresa



"O ovo da galinha" de António Torrado

Faltam ovos na cozinha
Não há ovos para o doce.
"Alto lá" disse a galinha
"Ponho um ovo e acabou-se."

"Ponho um ovo e acabou-se.
Amassado com farinha,
se não chega para o doce,
vão dizer que a culpa é minha."

"Vão dizer que a culpa é minha.
Vão dizer: ela baldou-se.
Vão dizer: esta galinha
proibiu que houvesse doce."

"Proibiu que houvesse doce.
Foi tacanha, foi mesquinha.
Nem que fosse! Nem que fosse!",
cacarejou a galinha.

Cacarejou a galinha
e espremeu-se e esforçou-se.
E pôs um ovo que tinha
mais valor que muito doce.

Mais valor que muito doce,
que mil ovos de galinha:
era de oiro e acabou-se
a miséria na cozinha.


Helena R.


Receita de Mulher de Vinicius de Morais

Augusto


De autor desconhecido...

Poesia de cozinha

Bolo de mel com noz,
Regado com calda de laranja,
Vitamina C para a voz,
Enfeitado por cascas em franja.

Uns estaladiços flocos de aveia,
Com iogurte de frutos tropicais,
Orientam a fome até à ceia
E até desarranjos intestinais.

Ao almoço o cozido de carnes gordas
Bem temperado e a tintinho regado,
Para outros ficam as açordas
Com coentros e ovo escalfado.

A tarde é de sopas e descanso,
Rebate-se com café a comida,
O aperitivo para afogar o ganso
E uma estiradinha bem merecida.

Ao lanche, após a cómoda sesta
Umas bolachinhas com manteiga,
Um pouco de leite que ainda resta
E uma frutinha doce e meiga.

Um belo filete de atum grelhado
Acompanhado de frescos bróculos,
A fazer de petisco ajantarado
Com vinho e alguns ósculos.

Só um cálice de um bom Porto,
Base de amena cavaqueira,
Pouco para não ficar torto
E bem juntinho à lareira.


Fernando
(lá se escapou o fotógrafo da foto, mais uma vez...)

Pão de Russel Edson

Gosto de pão bonito. Pão que apetece. O tipo de pão que encontramos em sonhos de fome...Sucede que um dia conheci um desses pães. Tinha batido a uma porta (coisa que faço às vezes para manter em forma os nós dos dedos) e uma mulher farinhenta e de grandes dimensões (tinha aquele aspecto mal cozido e ainda por amassar) apareceu com um bonito pão nos braços.Dei-lhe uma trincadela, e o pão começou a chorar...

Cristina


"A Beringela" do livro "O meu coração é árabe" (Trad. de Adalberto Alvares)

[e a notícia do prémio que recebeu da UNESCO pela escrita deste livro]

Ana Rita




Do livro "Como água para chocolate" de Laura Esquível, a receita do mês de Março: Codornizes com pétalas de rosas

Ingredientes:
12 rosas, de preferência vermelhas
12 castanhas
Duas colheres de manteiga
Duas colheres de fécula de milho
Duas gotas de essência de rosas
Duas colheres de anis
Duas colheres de mel
Dois alhos
6 codornizes
1 pithaya


Alexandra F.


A gripe das vogais do livro "Sopa de Letras" de João Manuel Ribeiro

Carlos Morgado


Alice B. Toklas [1]
Bolinhos de Haxixe (que qualquer pessoa pode preparar num dia de chuva)

    Este é o manjar do Paraíso – dos Paraísos Artificiais de Baudelaire: poderá servir para um lanche divertido num Clube de Bridge de Senhoras (…). Em Marrocos ele é considerado benéfico para a prevenção contra a constipação vulgar que o Inverno húmido traz consigo e é, na realidade mais eficaz se acompanhado por grandes quantidades de chá de menta quente.
    Euforia e tempestades radiantes de gargalhadas; devaneios de êxtase e dilatação da personalidade em diferentes planos simultâneos são efeitos que deverão ser acolhidos de uma forma complacente. Praticamente tudo que Santa Teresa fez, você poderá fazer melhor se se deixar arrebatar por “un évanouissement réveillé”.
 
Ingredientes [8 pessoas]
 1 Colher de chá de grãos de pimenta preta
 1 Noz-moscada Inteira
 4 Paus de canela de tamanho médio
 1 Colher de chá de coriando (Sementes de Coentros: Coriandrum sativum)
 1 Mão cheia de tâmaras cristalizadas
 1 Mão cheia de figos secos
 1 Mão cheia de amêndoas com casca [refere-se à pele da amêndoa]
 1 Mão cheia de amendoins
 1 Mão cheia de amendoins
 1 Chávena de açúcar
 3 Colheres de sopa de manteiga


    Junte uma colher de chá de grãos de pimenta preta, 1 noz-moscada inteira, 4 paus de canela de tamanho médio, 1 colher de chá de coriando. Todos estes ingredientes deverão ser pisados num almofariz. Junte cerca de uma mão-cheia de tâmaras cristalizadas, de figos secos, amêndoas com casca e amendoins: pique estes frutos e misture-os bem. Pode pisar no almofariz uma mão cheia de cannabis sativa , até ficar em pó. Tudo isto, bem como as especiarias, deve ser polvilhado de frutos secos e depois misturado. Dissolva aproximadamente uma chávena de açúcar em bastante manteiga.

    Quer esta massa seja enrolada em forma de bolo e cortada em pequenos pedaços ou trabalhada em bolas do tamanho de uma noz, deverá sempre ser degustada com moderação e cuidado. Dois pedaços são mais que suficientes.

Obter a cannabis pode levantar algumas dificuldades. Mas a variedade conhecida por Cannabis sativacresce como uma erva daninha vulgar, passando muitas vezes desapercebida, em qualquer região da Europa ou Ásia e também nalgumas regiões de África. Para além de que é cultivada e utilizada na produção de cordas. Nas Américas, os seus familiares denominados Cannabis indica, muitas vezes censurados, chegam a ser detectados em vasos nas varandas citadinas[2].

The Alice B. Toklas Cookbook © Penguin, 1984, traduzido por Ana Matoso, in «Receitas Literárias», Volume III, Lisboa: 101 Noites, 2000, pp.74/75

[NOTAS]
[1]Alice Babette. Toklas (1877-1967), companheira de Gertrude Stein durante trinta e nove anos, permaneceu sempre como uma figura de fundo a viver na sombra de Stein, até que Stein publicou as suas memórias em 1933, sob o título The Autobiography of Alice B. Toklas, tornando-se um best-seller. As duas mantiveram-se juntas até à morte de Gertrude Stein em 1946. Em 1968, o filme I Love You, Alice B. Toklas protagonizado por Peter Sellers, dirigido por Hy Averback. É um filme inserido na contracultura dos anos ‘60. O seu título é uma referência à escritora Alice B. Toklas, cujo livro de receitas, escrito em 1954 apresenta uma receita de Bolinhos de Haxixe (Cannabis Brownies).
[2]Esta receita encontra-se inserida no capítulo “Recipes from Friends”, no qual a autora fornece aos seus leitores sugestões culinárias dos seus amigos. A receita propriamente dita para este doce de haxixe é, pois, da autoria de Brian Gysen. (N. da trad.)


Alexandra J.


A festa de Babette por Rubem Alves
(Aqui um pouco mais sobre o filme de Gabriel Axel, a partir do livro de Karen Blixen. Se ainda não viram, façam por ver.)

João e Vasco


"A levedura de cerveja" de Alexandre O'Neill

Que bem que me tem feito a levedura
        de cerveja!
Limpou-me a casposa brotoeja
        e a literatura!

Ou será a pulseira japonesa
        que me prende à saúde?
Ou esses banhos em que o corpo exsuda
        à finlandesa?

À porta dos quarenta todo o cuidado
        é pouco!
Devaneios? Pois sim... Allegro ma non troppo....
        ... e há-de ser dado!

Quem sabe se, minaz, um carcinoma,
        do corpo nos recessos,
a estas horas não me faz progressos
        a caminho do coma?

Complexado como eu também não há
        ninguém!
A não ser, talvez, a minha mãe,
        que já lá está...

A vida, mãezinha, foite dura,
        muito embora...
Adeus, adeus!, que está na hora
        da levedura!


Helena M.


Leonardo Da Vinci

Sopa de Nabiça
Ingredientes
    ½ Kg de Batatas
    1 Molho de Nabiças
    2 Colheres de sopa de azeite
    2 Cebolas médias
    40g de sal
  
    Ponha a água ao lume e, quando estiver a ferver, junte as batatas e as cebolas cortadas em quartos, o azeite e o sal. Deixe cozer em panela tapada e reduza a puré. À parte escalde as nabiças com água a ferver temperada de sal e junte-as ao puré. Deixe levantar fervura e retire do lume passados 10 minutos.


Há quem diga que a rama do nabo, como a da couve, quando apresentadas em qualquer forma sólida, são alimentos exclusivos para as constituições vigorosas, ou seja, talhantes pedreiros e lavradores; e que bibliotecários, inválidos, fêmeas de pequena estatura e todos que tenham digestões delicadas fariam melhor em se abster de tais alimentos.
Eu, pelo contrário, sou de opinião de que o consumo da nabiça e da couve fortalecerá uma digestão frágil, devido às propriedades das folhas, que já vi darem novo alento a uma cabra doente, e de uma vaca agonizante fazerem um animal cheio de vida, ao ponto de se por a dançar.
Mas quanto aos que crêem na primeira teoria, podem experimentar a sopa: atar em molhos as nabiças ou as couves com a ajuda de crina de cavalo. Mergulhá-los em água a ferver, a que se adicionou um pouco de sal, durante meia hora. O líquido coado pode constituir um prato ligeiro durante a Quaresma.

Apontamentos de Cozinha de Leonardo Da Vinci, in «Receitas Literárias», Volume I, Lisboa: 101 Noites, 2000, pp.20/21

Rui Paulo


De Álvaro de Campos "Dobrada à moda do Porto"

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo…

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

ora oiçam :-)



Gaiteiros de Lisboa : Trângulo mângulo
Música: Carlos Guerreiro
Letra: popular
(lenga-lenga)
Victor Almeida
(Sta Marta de Penaguião)
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Tinha vinte e quatro freiras
Mandei-as fazer um doce
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão doze

Dessas doze que ficaram
mandei-as vestir de bronze
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão onze

dessas onze que ficaram
mandei-as lavar os pés
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão dez

dessas dez que me ficaram
mandei-as pró dezanove
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão nove

dessas nove que ficaram
mandei-as coer biscoito
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão oito

dessas oito que ficaram
manei-as pró dezassete
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão sete

dessas sete que me ficaram
mandei-as contar os reis
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão seis

dessas seis que me ficaram
mandei-as pró João Pinto
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão cinco

dessas cinco que ficaram
mandei-as cortar tabaco
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão quatro

dessas quatro que ficaram
mandei-as lá outra vez
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão três

dessas três que me ficaram
mandei-as calçar as luvas
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão duas

dessas duas que ficaram
mandei-as comer pirua
deu-lhes o tragulotrico trangulumangulo nelas
não ficaram senão uma

Tinha vinte e quatro freiras
fi-las andar na poeira
elas morreram-me todas
com uma grande borracheira

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obrigado Ana Lage :-)**

10 março 2011 - humor II

Rir em Equipa

Isto hoje esteve agitado! O humor começou com o filme "a porta fechada"... mas afinal havia outra (porta). Conseguimos deixar três sítios a postos para o clube (ou seja... podemos franchisar isto e abrir mais dois!) e depois de virar e revirar mesas, pôr e tirar sofás, lá se conseguiu dar início à sessão.

Isabel e João



A recriação do Nelo e da Idália em "Ponte Vasco da Gama"

Nelo: Sempre a corrigir, parece que é parda! sempre a corrigir, eu sou uma pessoa
especializada em ler na vertical percebe, eu sou uma pessoa artística, sou uma pessoa
aérea, não sou como você, que vai às letras todas ver o que lá tá escrito, eu não, estúpida,
sou uma pessoa que não, não conto as bolachas de água e sal cada vez que vai ao pacote.

Idália: Olha eu pelo menos, vou ao pacote, tomo decisões, não sou como certas
pessoas, que não vão, nem saem de cima.

Mariana e Cecília



Arrasaram, com a versão "Acordo Ortográfico 2010" da história do Capuchinho Vermelho.

Tás a ver uma dama com um gorro vermelho? Yah, essa cena! A pita foi obrigada pela kota dela a ir à toca da velha levar umas cenas, pq a velha tava a bater mal, tázaver? E então disse-lhe:
- Ouve, nem te passes! Népia dessa cena de ires pelo refundido das árvores, que salta-te um meco marado dos cornos para a frente e depois tenho a bófia à cola!
Pá, a pita enfia a carapuça e vai na descontra pela estrada, mas a toca da velha era bué longe, e a pita enfiou-se pelo bosque. Népia de mitra, na boa e tal, curtindo o som do iPod...
É então que, ouve lá, salta um baita dog marado, todo chinado e bué ugly mêmo, que vira-se pa ela e grita:
- Yoo, tá td? Dd tc?
- Tásse... do gueto alí! E tu... tásse? - disse a pita
- Yah! E atão, q se faz?
- Seca, man! Vou levar o pacote à velha que mora ao fundo da track, que tá kuma moka do camano!
- Marado, marado!... Bute ripar uma até lá?
- Epá, má onda, tázaver? A minha cota não curte dessas cenas e põe-me de pildra se me cata...
- Dasse, a cota não tá aqui, dama! Bute ripar até à casa da tua velha, até te dou avanço, só naquela da curtição. Sem guita ao barulho nem nada.
- Yah prontes, na boa. Vais levar um baile katéte passas!!!
E lá riparam. Só que o dog enfiou-se por um short no meio do mato e chegou à toca da velha na maior, com bué avanço, tázaver?
Manda um toque na porta, a velha 'quem é e o camano' e ele 'ah e tal, e não sei quê, que eu sou a pita do gorro vermelho, e na na na...'. A velha abre a porta e PIMBA, o dog papa-a toda... Mas mesmo, abre a bocarra e o camano e até chuchou os dedos...
O mano chega, vai ao móvel da velha, saca uma shirt assim mêmo à velha que a meca tinha lá, mete uns glasses na tromba e enfia-se no VL... o gajo tava bué abichanado mêmo, mas a larica era muita e a pita era à maneira, tásaver?
A pita chega, e tal, e malha na porta da velha.
- Basa aí cá pa dentro! - grita o dog.
- Yo velhita, tásse?
- Tásse e tal, cuma moca do camâno... mas na boa...
- Toma esta cena, pa mamares-te toda aí...
- Bacano, pa ver se trato esta cena.
- Pá, mica uma cena: pa ké esses baita olhos, man?
- Pá, pa micar melhor a cena, tázaver?
- Yah, yah... E os abanos, bué da bigs, pa ke é?
- Pá, pa poder controlar melhor a cena à volta, tázaver?
- Yah, bacano... e essa cremalheira toda janada e bué big?
- Pa que é a cena?
- É PA CHINAR ESSE CORPO TODO!!! GRRRRRRRR!!!!
E o dog manda-se à pita, naquela mêmo de a engolir, né? Só que a pita dá-lhe à brava na capoeira e saca um back-kick mesmo directo aos tomates do man e basa porta fora! Vai pela rua aos berros e tal, o dog vem atrás e dá-lhe um ganda-baite, pimba, mêmo nas nalgas, e quando vai para engolir a gaja, aparece um meco daqueles que corta as cenas cum serrote, saca de machado e afinfa-lhe mêmo nos cornos. O dog kinou logo alí, o mano china a belly do dog e saca de lá a velha toda cheia da nhanha.
Ina man, a malta a gregoriar-se toda!!!
E prontes, já tá...


António e Helena



Um excerto da "meditação na pastelaria" de Alexandre O'Neill

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

*

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

Alex, Xana, Ana Rita e Helena



"Zero" de Alberto Pimenta

HR
deixou
AJ
deixou cair
HR
deixou cair o quê?
XJ
deixou cair o que tinha na mão.
HR
deixou cair o que tinha na mão e?
XJ
deixou cair o que tinha na mão e caiu morto


TODAS
ah ah! deixou cair o que tinha na mão e caiu morto!


XF
não tinha
AR
não tinha o quê?
XF
não tinha nada na mão.
AR
não tinha nada na mão?
XF
não tinha nada na mão quando caiu morto.


TODAS
ah ah! não tinha nada na mão quando caiu morto!


HR
não tinha
XJ
não tinha o quê?
HR
não tinha onde cair morto.
XJ
não tinha onde cair morto?
HR
não tinha onde cair morto e caiu morto na mesma.


TODAS
ah ah! não tinha onde cair morto e caiu morto na mesma!


XF
deixou cair o que tinha na mão e caiu morto.
AR
não tinha nada na mão quando caiu morto.
HR
não tinha onde cair morto e caiu morto na mesma.


XJ
o que tinha na mão e
XJ
não tinha nada na mão
XJ
não tinha onde
XJ
e caiu


TODAS – XJ
na mesma?


AR
o que tinha na mão e
AR
não tinha nada
AR
não tinha onde
AR
e caiu


XF
o que tinha
HR
não tinha nada
AR
não tinha onde
XJ
e


HR
tinha
XF
tinha não
AR
não tinha


HR+XF+XJ
tinha


AR
não tinha


HR+XF+XJ
tinha


TODAS
ah ah

O nosso "ensaio drive-in: é para 4, se faz favor!"




E o resultado final



Rodrigo


Epílogo

João e Fernando
José Sesinando
Obra Ântuma

Entrevista – Tipo

ou
Como desencorajar entrevistadores



P. - Diga-me: que pensa do cinema português?
R. - A essa pergunta não posso deixar de responder com a maior clareza.

P. - Muito bem. E o teatro?
R. Mutatis mutandis, a minha resposta é a mesma.

P. Quer dizer-nos o que pensa acerca da renovação dos valores no cinema?
R. Quero.

P. E nas outras artes?
R. Também

P. Acha que o cinema sonoro é mais artístico do que o mudo?
R. Depende: para os surdos, o cinema sonoro é mudo.

P. E entre René Clair e Eisenstein, qual escolhe?
R. Com certeza.

P. Gosta dos primeiros filmes de cow-boys do Ford?
R. De quantos cavalos?

P. Qual lhe parece ter maior valor expressivo – o teatro ou o cinema?
R. Sim.

P. Acha fundamental e difícil a função do operador, a quem incumbe gravar as imagens das estrelas
na película virgem?
R. Impressionar uma virgem é sempre fácil.

P. E a montagem?
R. Não seja malcriado.

P. Quando vai ver um filme português, do que gosta mais?
R. Dos intervalos.

P. Qual dos irmãos Marx prefere?
R. O Karl.

P. Queira dizer o nome de um grande vulto do cinema.
R. O Jacques.

P. Tati?
R. Tou bem, obrigado

Virgínia e Paulo



Berthold Brecht
Dificuldade de Governar

Aqui dito por Mário Viegas

Dificuldade de governar


1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
como é difícil governar. Sem os ministros
o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
se o chanceler não fosse tão inteligente.
Sem o ministro da Propaganda
mais nenhuma mulher podia ficar grávida.
Sem o ministro da Guerra nunca mais haveria guerra.
E atrever-se-ia a nascer o sol
sem autorização do Fuhrer?
Não é nada provável e, se o fosse,
nasceria por certo fora do lugar.

2
É também difícil, ao que nos é dito,
dirigir uma fábrica. Sem o patrão
as paredes cairiam
e as máquinas enchiam-se de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
ele nunca chegaria ao campo sem
as palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
senão ele, lhes poderia falar na existência de arados?
E que seria da propriedade rural sem o lavrador?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio
onde já havia batatas.

3
Se governar fosse fácil
não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos
como o do Fuhrer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
e se o camponês soubesse distinguir um campo
de uma forma para tortas,
não haveria necessidade de patrões
nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4
Ou será que
governar só é assim tão difícil porque
a exploração e a mentira
são coisas que custam a aprender?

Augusto
Com música, que isto é para ser bem divertido!

"The Muppet Show" (uma das inúmeras versões da apresentação do mais fantástico, marretástico espectáculo...)