Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


próxima sessão - 21 junho 2011

mais uma vez coube ao André o sorteio do tema

tema da próxima sessão

sorteada para nos fazer uma leitura alternativa

2011.06.07 - Adrenalina

Adrenalina: ad-(próxima) renalis (dos rins). Produzida nas glândulas supra-renais, quando as condições do meio ambiente ameaçam a integridade física do corpo (fisicamente ou psicologicamente)


(in http://pt.wikipedia.org/wiki/Adrenalina)

Mariana e Cecília
excerto de Sophie Kinsella in "Louca Por Compras"

Rebecca Bloomwood é uma jovem viciada em compras, que está enterrada em dívidas e decide mudar de hábitos e controlar os seus gastos, mas não é fácil, e por vezes mete os pés pelas mãos (quase sempre). Podemos dizer que a adrenalina que sente a fazer compras ultrapassa em grande escala a sensatez e a força de vontade para mudar.

Cecília e Mariana
Frugalidade. Simplicidade. Estas são as minhas palavras de ordem. Uma vida nova, sem desordem, estilo Zen, em que não gasto nada. Não gasto nada. Quando se pensa nisto, perguntamo-nos quanto dinheiro desperdiçamos todos os dias? Não admira que tenha uma dividazinha considerável. E, no entanto, não é culpa minha. Limitei-me a sucumbir ao materialismo ocidental – e para lhe resistir é necessário ter a força de um elefante. Pelo menos é o que diz no meu novo livro.

É que quando fui ontem com a minha mãe ao Waterstone's para comprar as revistas semanais dela, comprei o livro mais maravilhoso que jamais li. Muito honestamente, sei que vai mudar a minha vida. Trago-o comigo, na mala. Chama-se Controlar o seu dinheiro, é de David E. Barton e é fantástico. O que ele diz é que todos podemos andar a deitar dinheiro pela janela e nem nos apercebemos e que a maior parte das pessoas poderia reduzir as despesas a metade, numa semana.

Numa semana!

… … … … … …

Mais adiante, temos Rebecca no Museu Victória & Albert, onde já estava a ficar aborrecida, até que…


Ó meu Deus, eu tinha razão! É uma loja! Há uma loja, mesmo na minha frente!

Subitamente os meus passos tornam-se leves; como por milagre, a energia regressou. Seguindo o tilintar da caixa registadora, apresso-me a chegar à entrada da loja e paro, dizendo a mim própria que não devo ter demasiadas esperanças, que não devo ficar desapontada se só encontrar marcadores para livros e toalhas de chá.

Mas não é nada disso. É mesmo fantástico! Porque é que este lugar não é mais conhecido? Há uma enorme variedade de fabulosas jóias, e montes de livros de arte extremamente interessantes, e toda a fantástica cerâmica, e cartões de felicitações, e…

Oh. Mas hoje eu não deveria comprar nada, não é verdade? Raios.

Isto é terrível. Para que é que serve descobrir uma loja nova e não poder comprar nada? Não é justo. Toda a gente está a comprar coisas, toda a gente se está a divertir. Durante uns momentos fico desconsolada, ao lado de uma exposição de canecas, a ver uma australiana que compra pilhas de livros sobre escultura. Está a conversar com a empregada e de repente ouço qualquer coisa sobre o Natal. E então tenho um golpe de puro génio.

Compras de Natal! Posso fazer todas as minhas compras de Natal aqui! Sei que ainda estamos em Março e que é um bocado cedo – mas porque não havemos de ser organizados? E quando chegar o Natal, não tenho de me meter naquelas horríveis multidões. Nem acredito que nunca tenha pensado nisto antes. E nem sequer estou a quebrar as regras – porque alguma vez vou ter de comprar as prendas de Natal, ou não será? A única coisa que estou a fazer é a deslocar o processo de compra para um pouco mais cedo. Faz todo o sentido.

Helena P. com a ajuda do António S.
de Eugénio de Andrade

Exercícios com vogais
Helena P. e António Soares

Muito haveria a dizer do confronto da mão com o sol. Da semente com a terra. Há contudo um lugar onde a paixão se esconde para explodir: o olhar.
Os sulcos, que ninguém diria de aves. A mão prestes a germinar iluminada pela lâmpada da sombra. Obstinada, na sua aliança com a própria substância do desejo.

Chegam aos pares, húmidas, jovens, de vidro quase. Vêm de outro verão, de outra garganta. Por onde entraram? Respiro-as, lentas, apaziguado. Essas vogais altas, estas vogais brancas.

Os cavalos. Escarvam o chão, impacientes. Procuram as águas do sol. Nos meus olhos.

A luz fascina, chego ao fim de rastos.


António S.
de Vanessa Gonçalves Vieira no seu blog Pensamentos valem mais que ouro
António Soares














Fernando
Poema anónimo encontrado na parede de um dos dormitórios de crianças do campo de extermínio de Auschwitz

Amanhã fico triste… amanhã!
Hoje não… Hoje fico alegre!
E todos os dias, por mais amargos que sejam, eu digo:
Amanhã fico triste, hoje não…

Paulo M.
de Ian McEwan um excerto de "A criança no tempo"
Paulo Machado
















Mila
de Chico Buarque, "A Banda"
Mila















Vasco
Vasco
Ao Vasco tinha ficado atribuída a leitura alternativa desta semana... não foi uma leitura alternativa, de acordo com o próprio, mas sim um texto alternativo, este que nos trouxe a "visão do inimigo"


de um piloto alemão que não se quis identificar, no blog "ecos da 2ª guerra"






Ana Valente
de João Aguiar um excerto de "O Canto dos Fantasmas"
Ana Valente















Rosa
de Alice Vieira, um excerto de "Flor de Mel"
Rosa


André
de Luisa Ducla Soares

Chuva

              Cai a chuva, ploc, ploc
              corre a chuva ploc, ploc
              como um cavalo a galope.

              Enche a rua, plás, plás
              esconde a lua, plás, plás
              e leva as folhas atrás

              Risca os vidros, truz, truz
              molha os gatos, truz, truz
              e até apaga a luz.

             Parte as flores, plim, plim
             maça a gente plim, plim
             parece não ter mais fim


Carmen
de Edgar Semedo

Os vícios

Se tiverem curiosidade, espreitem a entrevista que a Carmen fez ao Edgar para a Palavra Fiandeira.
Aqui ficam também os endereços dos blogues de poesia da Carmen:







Natividade e Nazaré
leram ADRENALINA de sua autoria
(Texto inventado na hora para ser lido a duas)
Maria Natividade e Maria Nazaré

ALINA – (muito eufórica )  Bom dia! Bom dia! Bom dia!

NERDA – Oláá….oohhhh (abre a boca cheia de sono)

ALINA – Estás com sono a esta hora?

NERDA – (espreguiça-se ) Ainda nem acordei….

ALINA – Que horror! Desde as 6h da manhã que não paro. E o meu Fred está habituado a correr logo pela manhã.

NERDA- Que pachorra! Se eu tinha paciência para andar a correr atrás dum cão!

ALINA – Claro, o teu gato está sempre deitado à janela, e tu na cama!

NERDA – É o melhor que se leva nesta vida….! (espreguiça-se)

ALINA – Que desperdício! Dormir tanto para quê?

NERDA - …(continua a espreguiçar-se) É tão bom o descanso, não fazer nada, não pensar em nada…nada…
ALINA – Vamos Nerda, acorda, agora vamos as duas fazer um programa num parque.

NERDA – Ok. Isso é relaxante, um parque…um banco de jardim…fechar os olhos e ouvir os passarinhos… E podemos passar lá o dia?

ALINA – Claro! Mas não vamos para nenhum jardim, vamos fazer um programa radical, 2 dias de adrenalina total.

NERDA – Adrenalina total ????

ALINA – Vais adorar, vamos fazer escalada, rappel, rafting e canoagem, paintball, …, vão ser múltiplas actividades, e para acabar em beleza podemos experimentar uma corrida de karting……

NERDA – Pááára! Já chega , estás maluca, alguma vez eu ía fazer essas maluqueiras? Explica-me o que é isso de paintball e rafting?

ALINA - O Paintball é um jogo cheio de energia, a alta velocidade, com a adrenalina à flor da pele. Além de ser divertido, é também óptimo para aliviar o stress de uma semana de trabalho. Acaba por ser uma versão sofisticada dos “polícias e ladrões”ou “cowboy's e índios”. Joga-se com um grupo, dividido em 2 equipas e o objectivo é capturar uma bandeira da equipa adversária, ao mesmo tempo que se protege a nossa, ou então eliminar por completo os jogadores adversários. Durante este processo, tenta-se afastar os adversários do jogo disparando com ar comprimido pequenas bolas de gelatina cheias de tinta.

Mas excitante, acelerado, emocionante e por vezes até relaxante... o Rafting é tudo isto e muito mais. Pode ir desde uma aventura desafiadora a uma viagem calma de barco, que permite apreciar um cenário espectacular. Basta uma única viagem e estás pronta para ficares viciada. Os nossos rios são recheados de beleza e aventura óptimos para o gosto por actividades ao ar livre.

NERDA – Estás muito bem informada, mas não me convences. Isso é tudo muito perigoso. E a escalada é muito cansativa - eu prefiro ficar a descansar.

ALINA - O objectivo da escalada é o de conseguir ascender por superfícies quase verticais, em gelo, rocha ou paredes artificiais construídas propositadamente para esta prática desportiva. Exige, sim muito esforço, concentração, capacidade de resistência, grande controlo mental e corporal. As vias de escalada são normalmente curtas, ascendendo no máximo a algumas centenas de metros.

E para nos divertirmos, no último dia vamos enfrentar o desafio de vencer as curvas duma pista de karting.

NERDA – És muito engraçada, achas por acaso que eu vou entrar nesse desafio? Nem penses! Eu prefiro continuar os desafios com o meu gato. E afinal já sei muito bem o que é adrenalina: é estar em casa e sentir aquele calor, aquele frio todo a subir por mim acima sempre que ele salta da janela para o sofá e se agarra com as suas unhas aos cortinados da sala. Aí sim, de em três meses tenho que comprar cortinados novos, um corropio de loja em loja, achas que isso não é adrenalina total?


Ana Paula
de Margaret Mazzantini um excerto de "Não te movas"

Deste livro foi feito um filme (o trailer pode ser visto aqui)
Ana Paula














Alexandra F.
de Fina Casalderrey, il. de Teresa Lima "Felix, o coleccionador de medos"
Alexandra F.
















João
de Sid Watkins, um excerto de "viver nos limites"

o excerto relata, do ponto de vista do cirurgião, a morte em pista de Gilles Villeneuve em 1982.















Vitória
de Raúl Brandão, um excerto de "As ilhas desconhecidas"

Mais dois passos e chegamos ao vértice em que se descobrem de repente as Sete Cidades escondidas entre montes. É o ponto mais alto da Cumieira: tenho os lagos a meus pés, e, se me volto, o amplo panorama que abrange grande parte da ilha, mar, céu e costa, luz e irrealidade.

O mar, em toda a amplidão, forma um plano em ângulo agudo com. o plano verde da terra – e parece que vai desabar sobre ela. Na minha frente entreabre-se um abismo que nos atira para fora da vida, para regiões inesperadas de sonho. A convulsão, a brutalidade e o fogo levantaram até ao céu grandes paredes vulcânicas, dispondo no fundo do caos alguns campinhos meigos e dois lagos, um inteiramente verde, outro inteiramente azul, separados por um fio de terra e quietos, adormecidos, cismáticos. As forças desencadeadas chegaram a este resultado: – um pouco de azul, um pouco de verde, ternura e idílio... Paredes cortadas a pique, carregadas de árvores, que se despenham de cima até abaixo, acabam na água ou em pequenas chás de milho, que a luz das ilhas envolve duma frialdade casta e imóvel...

Um ah de assombro, um sentimento novo, um vago sentimento de surpresa... Pela primeira vez na minha vida não sei descrever o que vejo e o que sinto. Conheço os lagos voluptuosos de Itália e os lagos adormecidos da Escócia: o lago das Sete Cidades não se parece com nenhum que tenha visto. Existe ou sonhei esta água parada, esta grande cova selvática empoada de roxo, com aquela serenidade a ferros lá no fundo? Esta beleza estranha que não nos larga e nos contempla ao mesmo passo que a contemplamos?

O carácter da paisagem é delicado e oculto. Embora a gente veja o campanário e as casas minúsculas no fundo da enorme cratera, duvida, e chega a supor que a vara dum mágico fez parar o tempo, e aquilo se conserva encantado entre montes desmedidos e brutos que o guardam prisioneiro. O tempo passa, os homens passam; só ali tudo está suspenso, na atitude fixa no momento do prodígio. Na solidão mágica não se ouve cantar um pássaro, a água não bole, as flores não bolem. Tudo se mostra na amplidão da cratera aberta para o céu e num grande silêncio estarrecido. Tão pouca tinta! Um quadro feito de emoção; um quadro em que o verde não chega a ser verde, em que o azul é névoa, e um sopro o pó roxo suspenso no ar, puro hálito da paisagem arfando. Três riscos muito leves para fixar o encanto, como se fosse possível, só com sentimento e quase nada de cor, fazer uma obra-prima. Reparo que há efectivamente uns carreiros perdidos por entre os montes para descer lá abaixo. Mas eu não me atrevo! tenho medo de que ao aproximar-me a visão se desvaneça no ar!
in http://www.visitazores.com/

Helena R. e Xana J.
de Alexandre O'Neill

Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

[meeeeeeeeeeeeedo]

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
Helena R. e Alexandra J.
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

[medo medo medo medo medo]

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo [tudo]

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo

e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim
a ratos

Virgínia
de Álvaro de Campos, um excerto da "Ode Triunfal"
e
de Filippo Tommaso Marinetti , um excerto do "Manifesto Futurista"
Virgínia















Ana França
de sua autoria
Papoila
Aroma - Viços
foto de Henrique Santos que inspirou o texto de Ana França
Se uma papoila dançasse para mim,
seria tango.
Movimento para além dos nomes,
passos
com o poder de quedas de água,
abraço
mais envolvente que pele,
pés
em desenho quente pelo chão fora.

E o corpo dança,
leve e sedutor,
como o ar e o fogo
rodando e atravessando a música,
papoilas vermelhas de emoção
e o tango,
e os passos,
Ana França
o abraço
em dança leve de chama...

A labareda de dançar
porque não se pode parar.

Como papoilas
no campo
a voltear.







 a Cristina Paiva
falou-nos um pouco da relação entre "A adrenalina e a leitura"


Cristina Paiva
Entre quem lê em voz alta e quem ouve ler: 

os processos onde a adrenalina intervém e as técnicas para a usar a nosso favor.

Breve passagem pelos fenómenos físicos e psicológicos resultantes da libertação da hormona; 

técnicas usadas pelos oradores desde a antiguidade clássica até hoje, passando pelos pregadores religiosos (leitura de um excerto do sermão de Santo António aos peixes de Padre António Vieira); 

técnicas usadas pelos actores introduzidas por Konstantin Stanislavski com menção ao seu livro A preparação do actor (a edição mais antiga é da Ed. Arcádia, já muito velhinha e parece que agora só há esta versão em português do Brasil) e à difusão internacional das suas teorias pela criação do Actors Studio de Lee Strasberg em New York (leitura de um excerto de Tabacaria de Álvaro de Campos);

Brecht e o seu teatro de consciência social com uma exigência de distanciamento do actor e do público em relação às suas emoções (leitura do poema Sente-se de Bertolt Brecht);

protesto contra “os golpes baixos” ou “técnicas” usados por artistas para gerar mais adrenalina nos espectadores, como lágrimas forçadas, enganos propositados e risos aparentemente descontrolados.


próxima sessão - 7 junho 2011


tema da próxima sessão


sorteado para uma leitura alternativa

algumas sugestões para os próximos dias

27 junho

Poesia de Sabores de Luís Assis
Poesia de Sabores (palavras à hora de jantar) é uma animação poética à volta das questões da gastronomia e dos sabores.
Seguindo a estrutura de uma ementa tradicional, tem por objectivo seduzir os clientes do restaurante Charcutaria Francesa a desfrutar de um jantar diferente, com uma selecção de breves textos de Alexandre O’Neill, Almeida Garrett, Pablo Neruda, Bocage, Eugénio de Andrade, Yvete K. Centeno, Camões, Herberto Helder, Mário-Henrique Leiria, entre outros.

Poesia de Sabores (palavras à hora de jantar) tem a sua primeira apresentação já no dia 27 de Maio de 2011… à hora do jantar, claro.

27 junho

Lisboa tem Histórias…de Luísa Rebelo e António Gouveia
Este mês, no cacharolete de contos dos Contabandistas

O calor continua, e as noites quentes pedem amor… que a Luísa e o António nos vão trazer com É isto o amor? Histórias que nos levam a passear por muitas e diferentes formas de amar. Contam e, apesar das
nossas tentativas para que desistissem da ideia, até cantam!

Mas a noite traz outras surpresas, com a guitarra cheia de swing de Darian, o samba maneiro e matreiro do Janeca, a poesia do Arthur, as canções de amor de Chico Buarque da Ana Sofia e da Cláudia, tudo gente que sabe muito do que faz e que ficarão a conhecer lá!

Ouvimos dizer também que Thomas Bakk e Miguel Horta virão fazer uma visita e tomar uns copos. Será?
Sexta, dia 27, a partir das 21h48. 
A entrada é livre (por enquanto!)
O Espaço SOU Movimento e Arte fica na Rua Maria, nº 73 (à Forno do Tijolo, Anjos).


 e ainda:

a partir de 15 de Junho Festival do silêncio



25 e 26 de junho
Festival Internacional Histórias de Ida e Volta (programa)
Fábrica da Pólvora, Oeiras
onde a Andante estreará o seu Poesia à la carte








todos os sábados de julho e 1º sábado de agosto
Em cena no convento de Mafra
Espectáculo Memorial do convento

2011.05.24 - Construções

Mariana
de Cecília Pinto "O bicho Homem"
Homem, tu; constróis casas.
Homem, tu; constróis pontes.
Homem, tu; constróis esperanças.
Homem, tu; constróis sonhos.

Explica-me, Homem!
Explica-me lá, Homem!
Porque é que destróis tudo?

Cecília
de Mariana Thomaz "Construção"
Letra junto a letra
e mais letras a seguir,
uma palavra
acabo de construir!

Palavra junto a palavra,
mais palavras a seguir,
um verso
acabado de concluir!

Verso junto a verso,
e mais versos a seguir,
uma estrofe
acabo de conseguir!

Com letras, palavras, versos e estrofes,
mais dos mesmos a seguir,
um poema
acabo de construir!

Mila
de Luigi Pirandello in "Um, Ninguém e Cem Mil"
















"Seria bom que houvesse um pouco mais de entendimento entre o homem e a natureza."


António Soares e Helena P.
Mário-Henrique Leiria in "Novos contos do gin"
 

A banana

Era uma Velha
tinha uma touca
estava sentada lá na Aldeia
com generais
imperativos e marciais
lá na Aldeia
também havia alguns pardais
bastante menos que generais
e muito menos
marciais
mas o que se impunha
era educar
e impor a lei
em posição mais marcial
que a do pardal
que tal que tal que tal
e a Velha querida
perna estendida
e sorridente e cordial
já prometia a importação a exportação
e algum grão de bico de bico de bico

parece então que foi
então
que quem não era general
nem considerado
com preparação operacional
na construção
reconstrução constipação
do bananal nacional
viva Tentúgal
e não tinha o menor bico
pico pico serenico
sentiu que só sol e só Velha com uma touca
que louca que louca que louca
era tristeza era pobreza
e coisa pouca
e foi-se embora
para Chucrute
para Bolero
para Zamora
e até pra França
deixando o bico
tão rico tão rico tão rico
marcando passo requiquitico
em contradança
com generais industriais
da construção
da exportação da importação
e de algum grão
de bico de bico de bico

Mário-Henrique Leiria
de Novos contos do gin


Virgínia e Paulo
de Mário Cesariny "Exposição"








































Ana França
de Pedro Támen "Caracóis"



 Desliza, liso pé, lisa palma sobre a ruga da pedra


Alexandra F.
de Maria do Rosário Pereira in "Os Caçadores de Almas"


[...]


António Gil
de Marta Pais Oliveira in "Jornal Público, 2011.05.15"

"Quando os turistas/ procuram a cultura da cidade morta"

No Cemitério Père Lachaise, em Paris, passeiam-se milhares de turistas. Todos os anos, os visitantes procuram as construções onde estão gravados nomes como Mareei Proust, Edith Piaf ou Jim Morrison.
Em Buenos Aires, no Cemitério de La Recoleta, o túmulo de Eva Perón continua a atrair flashes fotográficos, tal como no Cemitério Hollywood Forever, no Santa Monica Boulevard, onde estão enterradas celebridades da indústria de entretenimento norte-americano.
Mas não é apenas o "culto" dos famosos que atrai este turismo cemiterial é também o valor monumental das construções e os cemitérios portugueses parecem estar, por seu lado, a captar cada vez mais público, principalmente oriundo do Norte e Centro da Europa e da Ásia.
Mas o que procuram os turistas que visitam os nossos cemitérios?
Tanto os estrangeiros como os nacionais valorizam a vertente cultural e a ostentação dos cemitérios e há ainda outros que optam pela vertente do turismo "negro" - explica Francisco Queiroz, investigador da Universidade do Porto.
Dados do município de Lisboa revelam que, só em Setembro de 2010, 800 turistas passaram pelo Cemitério dos Prazeres. Mas desde Janeiro deste ano já houve 7.187 visitas de estrangeiros, na maioria alemães e holandeses. Em Portugal, só o Prado do Repouso e o Agramente, os dois cemitérios municipais do Porto, integram a Rota Europeia de Cemitérios, criada pelo Conselho da Europa, no ano passado. O circuito cultural engloba 54 cemitérios, espalhados por 18 países.

"Eles ficam fascinados"

Entre 2007 e 2010, cerca de um milhar de turistas visitou os cemitérios portuenses, espaços ricos em construções planeadas por importantes arquitectos e artistas como Soares dos Reis ou Emídio Amatucci.
O porteiro de Agramente, José Sousa, conta que, diariamente, vê entrar "entre 15 e 20 turistas estrangeiros, principalmente no final da manha". Júlio Andrade, também porteiro, diz que "entram de mapa e máquina fotográfica em punho. Para eles, é como se o cemitério coleccionasse inúmeras mini-catedrais. "Eles ficam fascinados com as construções", salienta.
Sob o calor das 15 horas, avista-se um grupo. Ana Lemos, professora de 27 anos, guia sete estudantes da Universidade Sénior Eugénio de Andrade. "Vimos pela história, diz, pela arquitectura, pela capela, pelos exemplos de escultura mortuária. E amanha trago mais sete alunos", adianta, entre risos.
A estudante Maria Gabriela, de 63 anos, explica que não é a primeira vez que visita o cemitério. "Até já tenho aqui o meu sitio", confessa.
Aproveitando o crescente interesse por estes espaços, a Câmara do Porto, celebra, entre 28 de Maio e 3 de Junho, a Semana à Descoberta dos Cemitérios, uma Iniciativa que decorre em toda a Europa!!

Extracto de uma notícia do “Público”, de 15 de Maio, assinada por Marta Pais de Oliveira


Carmen
de Sophia de Mello Breyner in "O Nome das Coisas" (1977)

O Palácio
Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Tinha sido construído no século passado (e pintado a vermelho)

Estátuas escadas veludo granito
Tílias o cercavam de música e murmúrio
Paixões e traições o inchavam de grito

Espelhos ante espelhos tudo aprofundavam
Seu pátio era interior era átrio
As suas varandas eram por dentro
Viradas para o centro
Em grandes vazios as vozes ecoavam
Era um dos palácios do Minotauro
O da minha infancia — para mim o vermelho

Ali a magia como fogo ardia de Março a Fevereiro
A prata brilhava o vidro luzia
Tudo tilintava tudo estremecia
De noite e de dia

Era um dos palácios do Minotauro
— O da minha infância para mim o primeiro —
Ali o tumulto cego confundia
O escuro da noite e o brilho do dia
Ali era a furia o clamor o não-dito
Ali o confuso onde tudo irrompia
Ali era o Kaos onde tudo nascia
(aqui fica o manuscrito)
in http://purl.pt/19841/1/1920/galeria/f11/foto1.html

Ana Valente
Trouxe-nos uma surpresa acabadinha de sair...





















Rosa
de Mena Moreira "Eu, Tu, Ele. Seres em Construção"

Que bom que tenho consciência
Do ser que sou, fragmentado
Alguém sempre em construção
Imperfeito, incompleto, inacabado

Que bom que tenho consciência
Que o crescimento é parcelado
E que quanto mais eu aprendo
Nunca estou, por completo, "terminado"

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de corrigir, de ser reciclado
De investir no que acho que está certo
E corrigir, tentar mudar o que está errado

Que bom que a mim é dado
A oportunidade de ser renovado!...



Helena R. e Fernando
Construção de uma leitura para o CLeVA a partir de vários mails e dois textos

de Pe António Vieira excerto do "Sermão do Espírito Santo"
(…)
Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda. Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama. E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar.
(…)
de Cesário Verde in "O Livro de Cesário Verde"
Desastre
Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: "Homem não desfaleça!"
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarterões da Baixa: um bom poeta,
A rir e a conversar numa cervejaria,
Gritava para alguns: "Que cena tão faceta!
Reparem! Que episódio!" Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atónita, exclamava:
"Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!"

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada a duas prostitutas:
"Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!"
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,
Sentira a exalação da tarde abafadiça;
Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco
E o fato remendado e sujo da caliça.

Gastara o seu salário- oito vinténs ou menos-
Ao longe o mar; que abismo! e o sol, que labareda!
"Os vultos lá em baixo, oh! como são pequenos!"
E estremeceu, rolou nas atrações da queda.

O mísero, a doença, as privações cruéis
Soubera repelir - ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: "Aonde irás, ministro!"
Comprar um eleitor? Adormecer num seio?"

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
-Conservador, que esmaga o povo com impostos-,
Mandava arremessar- que gozo! estar solteiro!-
Os filhos naturais à roda dos expostos....

Mas não, não pode ser... deite-se um grande véu...
De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!
Todos os figurões cortejam-no risonhos
E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do facto,
Vinda numa local hipócrita e ligeira,
Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:
"Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira!"

O resultado

[Costas com costas]

Fernando - hoje estou a ter um número excessivo de ideias. Achas que é por causa de ser 13 de maio? tive uma para o cleva construção, queres participar nela ?

Helena - também tive uma ideia, metia legos... só cheguei aí... havia dois textos (um do Cesário Verde) sobre operários de construção civil, o outro era aquele do Chico Buarque em que o operário "- morreu na contramão atrapalhando o sábado". Mas já recusei um convite da Alexandra Justino por estar stressada com a noite dos Livrozzz e achar que não ia ter tempo para nada...

Fernando - O que eu estou a pensar não mete legos mas pode ser feito a três. Queres falar à Alexandra? Não será nada que precise de muitos ensaios, eu diria, uma hora num qualquer dia depois da noite dos Livrozz, e mais uma passagem no próprio dia do clube.
Que texto é esse do Cesário Verde?

Helena - Olá Xana, sempre arranjaste alguém para alinhar contigo no tema da próxima sessão do CLeVA? Beijos, Lena.

Fernando - Alguma resposta a isto?

Helena - Ainda nada e por telemóvel (tentei ontem) também nada... estará tudo bem? terá ido de férias?

Fernando - Helloooo!

Helena - Finalmente consegui falar com a Xana ao telefone! Já estava a ficar um bocado preocupada a pensar o que lhe podia ter acontecido... mas está tudo bem. Ela vai preparar o texto com o João. Combinámos que na sessão seguinte, fosse qual fosse o tema, o preparávamos as duas. De qualquer modo ainda não consegui pensar nisto devidamente.

Fernando - Ok, não te preocupes. Pensamos nisto a partir de sábado. Eu também não sei se farei alguma coisa antes.

[Viramo-nos para a frente:]

Helena – Olá!
Tinhas perguntado pelo texto do Cesário Verde, chama-se DESASTRE e é o que vai assim...

Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.
(…)

Só que estive a experimentar e é enorme! Demora quase 4 minutos, se o ler todo...

Fernando - Pois, é muito grande... mas podíamos aproveitar umas partes onde haja alguma ligação com o que eu escolhi.
É do Padre António Vieira e é assim:

(...) Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe; e depois que desbastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem, primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até a mais miúda.

Helena - Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Fernando - Ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoço, estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos. Aqui desprega, ali arruga, acolá recama.

Helena - O mísero, a doença, as privações cruéis
Soubera repelir — ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.

Fernando - E fica um homem perfeito, e talvez um santo que se pode pôr no altar. (…)

Helena - Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O inverno estava à porta e as obras atrasadas.
(...)

[Viramo-nos um para o outro]

Fernando – Parece-te bem?

Helena - Parece-me bem! Quando nos encontramos para preparar isto com mais jeito? Eu estava a precisar de fazer uns exercícios! Como aquele em que lemos o texto de trás para a frente...

bebedeira Alguma caísse! não Pois Morreu!?

Fernando [entra e ficamos os dois ao mesmo tempo e fade out*]

estupefacto tanto um empreiteiro ao Berrava
ligeira e hipócrita local numa vinda fato do
narração a soletrar ao antes E

atrasadas obras as e porta à estava inverno o
licença a negou-lhes patrão o porque isto
camaradas rudes dos adeus o sem tumba Na
imensa vala a para Foi Ah Ah Desgraçado? o E

*Fernando – A rran ca o es ta tu á rio u ma pe dra de ssas mon ta nhas, tos ca, bru ta, du ra, in for me; e de po is que des bas tou o mais gro sso, to ma o ma ço e o cin zel na mão e co me ça a for mar um ho mem, pri mei ro mem bro a mem bro, e de po is fei ção por fei ção, a té a mais mi ú da.

[Fim]

Ana Maria
"Palavras em Construção"


João, Xana, Vasco, Vitória
de Terry Pratchet uma encenação de "Pirâmides"


Clique nas imagens para as ampliar


























Paulo M.
de Machado de Assis in "Dom Casmurro"
Voltei-me para ela; Capitu tinha os olhos no chão. Ergueu-os logo, devagar, e ficamos a olhar um para o outro... Confissão de crianças, tu valias bem duas ou três páginas, mas quero ser poupado. Em verdade, não falamos nada; o muro falou por nós. Não nos movemos, as mãos é que se estenderam pouco a pouco, todas quatro, pegando-se, apertando-se, fundindo-se. Não marquei a hora exata daquele gesto. Devia tê-la marcado; sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite, e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse, mas não traria nenhum, tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Conhecia as regras do escrever, sem suspeitar as do amar; tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.
Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros... Padre futuro, estava assim diante dela como de um altar, sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho.

Este texto já pertence ao domínio público, portanto pode ser visto integralmente aqui


De seguida
a Cristina fez uma leve abordagem à Poesia Sonora

Aqui ficam algumas das ligações:

Uma tentativa de escutar a escrita – a proposta do “poema-em-música” um estudo de Annita Costa Malufe

Poema sonoro/ música poética
Entre a música e a poesia sonora: uma arte de fronteira. Um estudo de Daniel Quaranta

Los origenes de la poesia sonora de Dick Higgins Traduzido para espanhol

 John Cage about silence

Orson Welles entrevista o poeta romeno radicado em Paris Isidore Isou que apresenta o Letrismo

Aula de poesia sonora na Universidade de Coimbra

Sibila – Poesia e Cultura - revista brasileira com página sobre poesia sonora onde pode ser ouvido o cd,  "A Voz é Princesa"

Um exemplo de polipoesia:

Poesia experimental portuguesa


e acabámos a noite com um exercício:




A partir destes três poemas:

Oh as casas as casas as casas

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo
de Palavra[s] de lugar

*****************

O Lugar da Casa

Uma casa que nem fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;
só um lugar
onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:
crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem
com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade
de O sal da língua

********************

As casas

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

Luiza Neto Jorge
de Terra Imóvel






Oh as casas as casas as casas
Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem

As casas vieram de noite
De manhã são casas

Oh as casas as casas as casas

À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores

Oh as casas as casas as casas

Dentro do estuque se fecham
pensativas

À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Oh as casas as casas as casas

Uma casa que fosse um areal
deserto;

que nem casa fosse;

só um lugar onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria;

e aqueceu as mãos;

e partiu porque tinha um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

Oh as casas as casas as casas

Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas

Oh as casas as casas as casas

A partir de 3 poemas de Ruy Belo, Eugénio de Andrade e Luiza Neto Jorge

próxima sessão - 24 maio 2011

tema


as leituras individuais não deverão exceder os 3 minutos

CLeVA - 2ª temporada





Bem vindos ao CLeVA 2.0
As actividades normais do clube recomeçam, e damos as boas vindas a todos os novos elementos! Esperamos que se divirtam pelo menos tanto como nós nos divertimos no ano que passou.

Continuamos a sortear temas para cada sessão e vamos tentar manter a areia da ampulheta: cada leitura só pode demorar no máximo 3 minutos. Um verdadeiro desafio, só ao alcance dos que gostam mesmo muito de ler em voz alta: seduzir os outros para a leitura de um texto com tempo muito limitado!

Como a sedução depende também da surpresa, continuam as "leituras diferentes". Quem se atreve a ler "com cheiro a maresia", "como os pássaros", "em conjunto", "a fazer o pino", "em silêncio"... na próxima sessão teremos mais novidades.

Para podermos aprender rapidamente os nomes uns dos outros, este post tem fotografias de toda a gente.
As nossas desculpas a alguém que possa não ter ficado tão bem "no retrato".



[ Andante - Fernando e Cristina ]

Os textos do dia...
foram escolhidos pela Cristina, e foram trabalhados em grupo durante 5 minutos.
[ Nicole / Teresa / Laura ]
Os Direitos Inalienáveis do Leitor
Daniel Pennac

1
O Direito de Não Ler
2
O Direito de Saltar Páginas
3
O Direito de Não Acabar Um Livro
4
O Direito de Reler
5
O Direito de Ler Não Importa o Quê
6
O Direito de Amar os “Heróis” dos Romances
7
O Direito de Ler Não Importa Onde
8
O Direito de Saltar de Livro em Livro
9
O Direito de Ler em Voz Alta
10
O Direito de Não Falar do Que se Leu

[ Vitória / João / Vasco ]
Na biblioteca (excerto)
Manuel António Pina

(...) Na biblioteca, em cada livro,
em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.

[  Rosa / Helena Policarpo / Virgínia ]

Um livro
Jorge Luis Borges

Apenas uma coisa entre outras coisas
Mas também uma arma. Foi forjada
Na Inglaterra, em 1604,
E carregada com um sonho. Encerra
O som, a fúria, a noite e o escarlate.
A minha mão sopesa-a. Quem diria
Que contém o inferno: essas barbudas
Bruxas que são as parcas, os punhais
Que executam as duras leis da sombra
O delicado ar desse castelo
Que te verá morrer, a delicada
Mão que é capaz de ensanguentar os mares,
O clamor e a espada da batalha.
Esse tumulto silencioso dorme
No espaço de um só livro, na tranquila
Prateleira da estante. Dorme e espera.

[ Ana Rita / Paulo Machado / Carmen ]

A palavra mágica
Carlos Drummond de Andrade

Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.

Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não o encontro,
não desanimo,
procuro sempre.

Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.

[ Paulo Correia / Alexandra Ferreira ]

Onde estará esse leitor
Carlos Queiroz

Onde estará esse leitor
Que não soletra nem recita?
Que não tropeça nas imagens
Que não ofende os nossos ritmos
Que não destrói as nossas flores?

Onde estará esse leitor,
Onde estarão esses leitores?

[ Cecília / Sylvie / Mila ]

Legado
Miguel Torga

O que eu espero, não vem.
Mas ficas tu, leitor, encarregado
De receber o sonho.
Abre-lhe os braços, como se chegasse
O teu pai, do Brasil,
A tua mãe, do céu,
O teu melhor amigo, da cadeia,
Abre-lhe os braços como se quisesses
Abarcar toda a luz que te rodeia.

Não lhe perguntes porque tardou tanto
E não chegou a tempo de me ver.
Uns têm a sina de sonhar a vida,
Outros de a colher.

[ Helena Ramos / António Gil / Mariana ]

Valor das palavras
Almada Negreiros

Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem – do lado do sol ou do lado onde não dá o sol. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o universo. As palavras querem estar nos seus lugares!

[ Ana Valente / Alexandra Justino / Ana Maria Thomä]

Os meus livros
Jorge Luis Borges

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

[ António Soares / Fernando / Ana França ]

Como um Romance (excerto, pp. 89)
Daniel Pennac

(...)
Pois é...
O desaparecimento da leitura em voz alta é muito estranho. O que teria Dostoievski pensado disto? E Flaubert? Já não há o direito de colocar as palavras na boca antes de as meter na cabeça? Já não há ouvidos? Já não há música? Já não há saliva? As palavras já não sabem a nada? O que é que se passa? Não declamou Flaubert a sua Bovary em altos gritos, até furar os tímpanos? Não estará ele definitivamente melhor colocado do que qualquer outro para saber que a compreensão do texto passa pelo som das palavras, de onde deriva todo o seu sentido? Não saberia ele como ninguém, ele que tanto lutou contra a música intempestiva das sílabas, contra a tirania das cadências, que o sentido se pronuncia? Então? Textos mudos para puros espíritos? Rabelais, ajuda-me! Flaubert, Dosto, Kafka, Dickens, acudam-me! Gigantescos anunciadores de sentido, venham cá! Venham soprar nos nossos livros! As palavras precisam de corpo! Os nossos livros precisam de ter vida!


Exercício: leitura em conjunto

Aurora boreal
António Gedeão

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.

Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.

Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.

Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.

Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.

Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.

Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.