Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


2012.01.24 - Meditação

Alexandra Ferreira
"Debaixo da roupa, estamos todos nus"
de José Luís Peixoto
do livro "Abraço"

muito bem acompanhada pelo Nuno





Teresa
Não desfazendo
de Manuel António Pina de "O Pássaro da Cabeça"

Delfina
O Pássaro
de autor desconhecido
O pássaro…

Era uma vez um pássaro que vivia numa floresta de encantar num país do norte da Europa. Nessa floresta, ele realizava voos radicais que preenchiam os seus dias, mas o Outono chegou devagarinho, a roda das estações girava e o Inverno aproximava-se a grande velocidade. O pássaro sentiu a urgência de partir quando chegaram as primeira neves e com elas os grandes frios. Levantou voo e começou a voar para um local mais quente.

Algum tempo depois, o frio era tanto, mas tanto, que as asas começaram a gelar, até que o impediram de voar e ele caiu numa quinta inanimado e enregelado. No preciso local onde o passarinho estava caído lutando contra a morte, passou uma vaca que largou uma valente bosta em cima dele. Como a bosta estava quente ajudou o gelo das asas a derreter e a aquecer o passarinho que começou a piar feliz, mas o sossego e alegria foram de pouca dura para a pequena ave. Um gato que vivia na quinta e andava esfomeado, ouviu-o debaixo da bosta e com uma velocidade incrível agarrou-o e comeu-o.

  
Deste conto podem ser retiradas três morais: 

1ª Nem sempre quem te caga em cima é teu inimigo.

2ª Nem sempre quem te tira da merda é teu amigo.

3ª Mesmo que estejas atolado em merda não pies.

Rosa
Prece gratidão de Amélia Rodrigues

Vasco, Vitória e João.
Imposto sobre meditação no CLEVA
pelos próprios
João- Raramente aceitamos meditar a partir dos que foram estigmatizados como pecadores notórios, à semelhança dos cobradores de impostos e das prostitutas do tempo de Jesus. No entanto, são exatamente eles, que têm material mais abundante e profundo para quem não duvida que meditar faz bem.
(Pausa para reflexão)
Vitória- Por ordem do Exmo. Sr. Ministro das Finanças Vítor Gaspar, vai o João proceder á cobrança do IMC (Imposto Extraordinário Sobre Meditação no CLEVA).
(João percorre o grupo para proceder à coleta.)
Vasco- Meditando sobre as novas taxas do IVA: O jantar na tasca foi mais caro esta noite. Paguei o jantar mais caro do que o bilhete para o teatro.
Vitória- Já eu, só bebi e não comi para não sentir o efeito do IVA. Como o vinho não aumentou, esqueço a austeridade e bebo ao preço de antigamente.
João – Então jantaste sozinho?
Vasco- Sim, alguém quer jantar com cobradores de impostos?
Vitória- Jesus jantou! E Ele ensinava-os. Naquele tempo, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam.
Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?»
Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»
Vasco – E a dizima cobrada na missa? Mantém a taxa do IVA?
João– Sim mantém a mesma taxa. Em negociações com a igreja, mantivemos a taxa por troca com o Corpo de Deus e o 15 de Agosto.
Vitória- Penhorámos o Corpo de Deus?
Vasco – Sim, só não sabemos se o colocamos à venda através de leilão electrónico ou nos classificados do Correio da Manhã.
João - E quem é que o vai comprar? Será que os chineses da EDP estão interessados?
Vasco – Seria outra aquisição iluminada.
Vitória - Nem me fales nisso! A taxa da energia também sofreu um aumento brutal.
Vasco - Pelo menos os livros mantiveram a taxa.
João - Só podes é lê-los à luz do dia, porque à noite ficam caros.
Vitória - Mais vale irmos ao teatro, que pelo menos não aumentou tanto.
João- Em que ficamos, afinal sobre a meditação fiscal?
Vasco - Já desisti de ir ao restaurante e de ler à noite. Agora leio um livro de dia com uma garrafa de vinho ao pé de mim.
Vitória- Por falar nisso, onde é que pagamos a fatura da eletricidade? No Continente ou nas lojas do chinês?
João – No Continente tens desconto de 10%, na loja do chinês habilitas-te a uma viagem em charter. Mas as taxas são as mesmas no Continente, nas ilhas e na China?
Vasco- Observando a verba 2.12 da lista I do Código do IVA, conjugado com a alínea c) do nº1 do artigo 18º do mesmo diploma, cumprindo com o novo Orçamento de Estado, aplica-se a taxa de 23%, até para os chineses!
Vitória - Mesmo para o Alberto João?
João - Claro, não vamos ser nós a suportar a energia da ilha do Jardim.
Vasco - Nem a troika deixava que fosse de outra maneira!
Vitória - E o IMC (Imposto Extraordinário Sobre Meditação no CLEVA) também é imposição da troika?
João - Seja ou não, têm de pagar, afinal é um imposto.
Vasco - E cobrar impostos é, ou não é, uma atividade nobre?
Vitória- A própria bíblia o recomenda. Jesus aconselha-nos a pagar impostos. Quando lhe perguntaram:
“Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo a César, ou não?
E Jesus respondeu que os cristãos devem pagar os seus impostos de boa vontade, tendo dito: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência."
Vasco – Esta citação bíblica vem mesmo a propósito das taxas moderadoras cobradas no Centro de Saúde. A ira pelo tempo de espera, a consciência de que podemos estar doentes e depois de paga a taxa, chegou a nossa vez e avisam que o medico está de baixa.
João- Ainda a eletricidade era a 6%, um livro que li, dizia:
Para meditar, segundo a proposta do livro, é necessário despojar-se da arrogância de ser justo e perfeito, e aceitar que os cobradores de impostos e as prostitutas se tornem nossos mestres para a meditação e a oração.

Alexandra Justino
O contador de histórias - Tradição oral judaica
de A árvore dos tesouros




Helena Machado
A cidade dos poços
Contos para pensar de Jorge Bucay


Aqui numa versão animada:




António Gil
Excerto de "Meditação – A luz dentro de nós"
de J. Krishnamurti

Podemos perguntar o que é meditação - não “como” meditar. Quando perguntamos esperamos que haja alguém para nos dizer o que fazer. Se não perguntamos “como” e perguntamos o que é meditação, então temos de pôr em acção a nossa própria capacidade, a nossa própria experiência, por muito limitada que seja; temos de pensar. Meditar é ponderar, reflectir, dedicar-se, não a alguma coisa, mas ter espirito de dedicação. Espero que estejais a escutar, para descobrirdes por vós mesmos, porque ninguém, ninguém pode ensinar-vos o que é meditação, por muito comprida que seja a barba dessa pessoa ou por mais estranho que seja o vestuário que ela use. Descobri por vós mesmos e ficai com o que descobrirdes por vós, não fiqueis dependentes de ninguém.
É preciso compreender muito cuidadosamente o significado da palavra meditação, cuja raiz é “medir”. E o que é que isso implica? Desde os antigos gregos até aos tempos modernos, todo o mundo tecnológico está baseado no medir. Não é possível construir uma ponte, ou um espantoso edifício de cem andares sem essa operação que é medir. Interiormente também estamos sempre a medir: “Eu fui, eu serei”; “Eu sou isto; eu fui isto, eu tenho de ser aquilo” - o que não é apenas medida, mas também comparação. Medir é comparar: “tu és alto, eu sou baixo; eu sou branco e tu és preto”. Compreendei o sentido da comparação e das palavras melhor e mais, e não as useis interiormente, psicologicamente. Estais a fazer isso agora, enquanto estamos a conversar?
Quando o cérebro está liberto da comparação psicológica, as próprias células do cérebro que têm sido usadas para comparar, que foram condicionadas por essa comparação, despertam subitamente para a verdade de que, psicologicamente, a comparação é destrutiva. Portanto, as próprias células do cérebro sofrem uma mutação. O vosso cérebro tem estado habituado a ir numa certa direcção, e pensais que esse é o único caminho para o que quer que esteja no fim desse caminho. O que está no fim desse caminho é, naturalmente, aquilo que inventais. E quando chega um homem que vos diz que essa direcção não vos levará a lado nenhum, resistis, dizendo: “Não, Você está enganado, todas as tradições, dizem que Você não tem razão”. O que significa que não investigastes realmente - estais a citar outras pessoas, o que quer dizer que estais a resistir. Assim o homem diz: “Não resistais, escutai o que estou a dizer; escutai aquilo que estais a pensar, qual é a vossa reacção e também o que estou a dizer”. Portanto, escutai tudo isso. E para assim se escutar, precisais de prestar atenção, o que significa que há espaço na vossa mente.
Assim, descubramos se podemos viver - não em momentos de uma determinada “meditação”, mas viver a vida diária - sem comparar psicologicamente. Viver uma vida sem esse sentido de medir, de comparar, é meditação. Meditação implica um sentido de profunda compreensão dessa mesma palavra; e a própria compreensão, a percepção profunda dessa palavra é a acção que fará acabar a medida, o “mais”, o “menos”, etc., a comparação psicológica.



Helena P. e António Soares
O guardador de rebanhos
de Alberto Caeiro.
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar em muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição intima das coisas”…
“Sentido intimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins.
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das
árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar,
Porque, se ele se fez, para eu over,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Paulo Machado
Siddharta (excerto)
de Hermann Hesse




Ana França e Ana Valente
O pequeno caranguejo
autor desconhecido


O Pequeno Caranguejo

Numa praia protegida por rochas, vivia uma colónia de caranguejos.
Estes eram bastante pequenos, atingindo na idade adulta, não mais do que 3 centímetros.
Todos os anos, durante os meses de verão, os caranguejos perdiam a sua carapaça, expondo-se aos predadores e sendo presas fáceis para outros bichos do mar, da terra e do ar. Nesta fase do seu crescimento protegiam-se dos perigos da vida permanecendo em buracos nas rochas. Não se alimentavam enquanto aguardavam o crescimento de uma nova carapaça.
Um deles, ainda jovem, perguntava aos mais velhos por que motivo não iam para lá das rochas.
Porque não se aventuravam no mar... Os mais velhos contavam-lhe histórias aterradoras de gaivotas esfomeadas, de polvos devoradores, de pescadores furtivos. Não era seguro ir para lá das rochas. Toda a vida tinham feito o mesmo: escondiam-se enquanto a carapaça não crescia. Era assim que se fazia, era assim que podiam crescer.
O pequeno caranguejo perguntava-se por que motivo não cresciam mais uma vez que todos os anos mudavam de carapaça. Se mudavam de carapaça para crescer, porque não cresciam?
Um dia decidiu partir à aventura. Indo contra todos os conselhos e advertências dos mais velhos, e sem a protecção da sua carapaça, optou por avançar para lá das rochas protectoras.
E ainda que sentisse medo e alguma ansiedade, o seu desejo de descobrir mais do mundo à sua volta empurrou-o para lá das rochas. Enquanto seguia o seu caminho, podia ouvir os outros caranguejos a chamar por ele. A gritar-lhe, a dizer que não sobreviveria. Pediam-lhe que voltasse para trás. Chamavam-lhe louco.
Mas o pequeno caranguejo não deu ouvidos. A verdade é que, mesmo na segurança da praia ele assistira a familiares seus serem devorados por gaivotas. E... preferia morrer enquanto se aventurava por novas paisagens.
A princípio foi-lhe difícil atravessar a barreira protectora e o pequeno caranguejo lutava contra as ondas. Apesar de parecer que não saía do mesmo lugar, aos poucos avançava uns centímetros.
Enquanto lutava contra a força das ondas, o seu corpo mole foi-se tornando mais maleável e elástico. Se se aperceber, de cada vez que lutava para vencer uma onda o seu corpo parecia crescer mais um pouco. E de cada vez que uma onda o atirava contra uma rocha, ficava com a sensação de que o seu corpo mole se tornava mais rijo.
Demorou alguns dias até conseguir avançar para lá da protecção das rochas.
Quando finalmente ultrapassou a barreira, ficou de boca aberta! O mar era vasto e cheio de cores! Muitos peixes, de muitos tamanhos e cores variadas! Plantas que nunca sonhara poderem existir! E tudo parecia estar ali para lhe dar as boas vindas!
Foi então que deu de caras com um ENORME CARANGUEJO, com mais de meio metro de envergadura! Um caranguejo com uma carapaça rija e de cores vivas como nunca imaginara!
Falou com o caranguejo GIGANTE. Perguntou-lhe como era possível ser tão GRANDE.
O caranguejo gigante respondeu-lhe:
"Sabes, todos os caranguejos na tua colónia poderiam ser grandes como eu. Mas para ser assim grande, é preciso vencer a força das ondas e ter a coragem de poder ser apanhado por uma gaivota. É preciso ter a força de vontade para não desistir e lutar contra os perigos da Natureza. Mas a verdade é que a maioria dos perigos são inventados. Podemos morrer a tentar crescer, ou podemos morrer na pequenez que conhecemos desde o dia em que nascemos.
É sempre uma questão de escolha."


Mila
O chão que ela pisa (excerto)
de Salman Rushdie



Carmen
5 princípios do Reiki

tele-CLeVA #01

Olá a todos!
Não queria deixar passar o tema sem contribuir à distância para o mesmo... e como para mim a língua oficial passou a ser uma alegre mistura de inglês, francês, italiano e português, a meditação desta semana é de Robert Frost

«The Road Not Taken», de Robert Frost from blocsdelletres on Vimeo.

2012.01.10 - Diabo








Rosa
Cântico Negro
de José Régio


Um clássico no CLeva. Fica a versão dita pelo próprio



Mila
O Lobo preto
de Alexandre Dumas



António S.
A hora do Diabo
de Fernando Pessoa

- Minha senhora, eu sou o Diabo. Sim. Eu sou o Diabo. Mas não me tema nem se sobressalte.
E num relance de, onde boiava um prazer novo, ela reconheceu, de repente, que era verdade.
Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada; em minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse de minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso.
Dato do princípio do mundo e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora como deve saber, todos os ironistas são inofensivos excepto se querem usar da ironia para insinuar qualquer verdade. Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém - em parte porque de nada serve, e em parte porque a não conheço. Meu irmão mais velho, Deus todo poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família. Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou a atrair. Essas coisas sucedem na terra, entre os animais, que incluem os homens, e parece que dão prazer - creio, segundo me dizem de lá de baixo, que até ás vítimas.
De resto não poderia. Essas coisas acontecem na terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis - não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode pois estar tranquila porque não a desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis, como os dos romancistas modernos e os da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o principio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram comércio comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram comércio foi com a própria imaginação, que em certo modo, sou eu.
Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior - num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, aos menos, não apodrecem. Passam. Antes assim, não é verdade?

O texto pode ler-se também aqui

Vitória e Xana F.
Provérbios sobre o Diabo


Lena R.
O Eremita (adaptação do conto de Dioneo na Terceira Jornada) in Decameron
de Boccaccio


Lena P.
Com mão firme e doce (adaptação de excertos do conto)
de Maria Teresa Horta

“Coisas do Diabo”

Enterrou-lhe a faca três vezes no corpo.
Enquanto ele dormia.
Depois ficou ali muito tempo só a olhar.
Um corpo fundo até ao fundo do sangue, a faca enterrada até ao cabo de madeira velha; uma faca de cozinha, de gume fino e brilhante, durante muitos anos fechada na gaveta da cozinha..
Sem uso.

--- --- ---

Ao princípio fora diferente: riam-se os dois muito.
Abraçados.

O corpo dele quente, dentro do seu, a despertar em Renata aquela chama. Os dois a correrem na areia escaldante do meio dia, a entrarem de repente no frio arrepiado da água a abeirar-se da areia, tocando os corpos de ambos estendidos em cima um do outro.
Como se ali fosse um paraíso perdido?

Renata ficava a vê-lo dormir e era bom, não assustada como hoje, ele deitado nos lençois, ela a seu lado nada mais se passando, o peito aquietado, o coração parado, a pele gelada. Como se estivesse…desligado?

--- --- ---

Renata sentava-se á mesa da cozinha, a talhar na madeira figuras de mulher, tal como ela era: crânio rapado e olhos muito afastados um do outro, de um azul intenso ou de um verde cintilante de esmeralda, mas também de safira. Talhava mulheres que dormiam. Mulheres que soltavam gritos surdos. Talhava também mulheres com profundas insónias desenhadas nos olhos para sempre abertos sobre o nada. Noites inteiras ali sentada no pequeno sotão.

--- --- ---

Renata adormeceu de alívio.
Porque o matara.
Subitamente exausta. Sem força nas pernas nem nos braços.
Primeiro sentara-se e em seguida deitara-se ao lado do corpo inerte dele. E adormecera de cansaço.

--- --- ---
Gritou.
Um único grito.
Num imenso terror. Pela primeira vez a adivinhar a verdade que há meses tentava esconder a si mesma.
Gritou.
Incrédula ao vê-lo abriu os olhos a fitá-la. A erguer o tronco, mover as ancas no branco dos lençois e endireitar as costas, soerguer os ombros, desviar as pernas da cama, poisar os pés ainda incertos no chão, começar a levantar-se, a erguer-se, a pôr-se de pé sempre com aquele zunido a sair-lhe do peito e da boca ao abri-la num esgar qualquer.
O olhar vazio fixo nela.
Renata estava parada no mesmo sítio, paralisada. Incapaz de um gesto ou de uma palavra. Afinal presa daquele grito único que não parava de lhe sair da garganta. De o soltar pela casa até ir aninhar-se lá em cima no sótão,a olhar a boca muda daquela mulher que talhara na véspera: enroscada de terror em si mesma, a cara virada para o alto, a boca escancarada.
Viu o marido começar a avançar na sua direcção, um pouco cambaleante. Os movimentos ainda não totalmente coordenados.

Como um autómato.
Um androide.
Um robot.

Delfina
Tradições…
de João Lutas Craveiro

Dizem que na véspera de Natal podemos deixar a mesa por levantar, a comida e as bebidas que sobram vão alimentar o menino Jesus. Mas já das vésperas de Ano Novo nada deve restar sobre a mesa, pois estaríamos a alimentar o Diabo. Ora, certamente que com as políticas anunciadas de empobrecimento da população portuguesa, forçada esta a recompensar os crimes financeiros, mais os sucateiros do governo anterior (ai tão amigos do PS!) e os cobradores de portagens, convenhamos que O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO O PINTAM! Nenhum destes Primeiros-Ministros moralistas, Ministros sábios ou Assessores servis terá, um dia, erguida em sua honra uma estátua. Poder-se-á também perguntar: e o Diabo, tem alguma estátua erguida em seu nome? Sim, tem, e não sei porquê foi construída nesta Ibéria, do lado a que chamam de Espanha. Mas, sim, o Diabo tem uma estátua, provavelmente a única estátua do Diabo, que se conhece neste mundo, em lugar público! Mas quem é esse «anjo caído»? Nada mais próximo de nós, humanos, esse Diabo, o «Deus da Imaginação», porque proibido de criar. Tudo foi já decidido por Deus ou o FMI, não foi? Resta-nos o Diabo, o «eterno diferente, o eterno adiado» ou o «senhor absoluto do interstício e do intermédio», como dizia Fernando Pessoa. Sim, que entre Deus e o FMI há mais coisas debaixo dos céus! Acrescenta o poeta que o Diabo não pretende revelar a verdade, em parte «porque de nada serve», e em parte «porque a não conhece». O Diabo corrompe? «Deus é pior», diz o poeta, «criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem» (in A Hora do Diabo, conto de Fernando Pessoa). Deixo-vos, pois, votos de tempos mais felizes nesta Hora do Diabo, e primeiro dia de Janeiro. Apesar de tudo o mais que a seguir se adivinha.

Cristina e Fernando
Paraíso Perdido in Génesis
de Jorge de Sena
Uma versão em teatro radiofónico

Lena M., Daniel e Paula
Mala Diabo
de José Vaz

Teresa
Os nomes do Diabo (excerto)
de Carlinhos Cordel
O Demônio, Rei das Trevas
É um ser muito aquém
No Brasil tem vários nomes
E pra você ir além
Este cordel vai narrar
Os nomes que Diabo tem.

O Demo tem muitos nomes
Cabrunco ou Guaxumão
Capa-Verde ou Capiroto
Príncipe do Mundo ou Cão
O Espírito das Trevas
Chifrudo ou Cramulhão.

Beiçudo, Besta Fubana,
Bicho-Preto, O Difamado,
Cão-Miúdo, Cão-tinhoso,
Cafuçu ou Atentado,
Pode ser também Canheta
Ou então Indesejado.

Zarapelho ou Ranheta,
Lúcifer, Satã, Canhim,
Capirocho ou Dianho,
Anhangüera ou Azucrim,
Pé-de-Bode, Pé Cascudo,
Cafute ou Coisa-Ruim.

Lá de baixo, O Inimigo
Sarnento ou Renegado
Pastor Negro, Sete-Peles
Coisa-Má, Mal-Encarado,
Coisa-à-toa, Coisa-Feia
Porco-Sujo ou Malvado.

O Espírito Maligno
O Tristonho, o Galhardo,
Pé-de-Cabra , Pé-de-Gancho,
Cifé, Sedutor, Tisnado.
Brigadeiro do Inferno,
Tição, Temba ou Danado.

Cramulhano ou Rabudo,
Bicho, Bute ou Carocho,
Tinhoso, Rei do Inferno
Mofento, Malino, Coxo,
Pai-do-Mal, Pai-da-Mentira,
Abdel, Astuto, Mocho.

O Príncipe, o Rei das Trevas
Rincha-Mãe ou Tentação
Satânico, O Mentiroso,
Pé-de-Peia ou Rabão,
Maligno, O Maioral,
O Moleque-do-Surrão.

Pode ser o Diabo-Loiro
O Xu ou Arrenegado,
O Oculto, O Moleque
Bicho-Ruim ou Assombrado
Mofino, Rabo-de-Seta
Cuidado com Cão-Danado.

Capeta, Senhor das Trevas
Jurupari, Grão-Tinhoso,
O Indivíduo, O Rapaz,
O Maldito, O Horroroso
Bode-Preto, Manfarri,
O Fute, O Mentiroso.

Príncipe ou Senhor do Inferno
Mefisto ou Barzabu,
O Feio, O Que-não-Ri,
O Cujo, O Belzebu
Canhoto, Careca, o Tal,
O Cão tem nome pra chuchu.

O Canho, O Azarape,
O Diacho, O Dião,
Peneireiro, Pé-de-Pato,
Rei-Diabo, Satanão,
Mafarrico, Tentador
Ou inferno pra ter cão.

Besta-Fera, Debo, Sujo
Futrico, Dubá-Dubá,
O Guerreiro do Inferno
Gato-Preto, O Diá,
Tendeiro, Gênio do Mal
Cuidado pra não errá.

Tranca Rua, Zé Pilintra
Trinca Seis, Excomungado
Pé-Preto, Pedro-Botelho,
Exu, Porco ou Difamado
Pode ser Marquês do Inferno
Destruidor ou Crinado.

Pode ser o Anjo Mau
Encardido ou Ferra-Brás
Ou Espírito-de-Porco
Anhangá ou Satanás
O Guerreiro do Inferno
Cuidado, há outros mais.

Se você se assustou
Com os nomes do Capeta
Não procure esse mal
Não seja um picareta
Reze, ore pra Jesus
Ele te livra da besta.

Ana Paula e Laura
Auto da Barca do Castigo
de  Cristiana Resina e Sara Rodrigues

Ana V. e Ana F.
A Nau Catarineta

Uma adaptação do romance popular "A Nau Catrineta"

João e Xana J.
Assim é Eva


Cecília
O Demónio e a Senhorita Prym (excerto)
de Paulo Coelho


Curiosidades
No jardim do Bom Retiro, em Madrid, pode encontrar-se a fonte do Anjo Caído

próxima sessão - 10 janeiro de 2012


e o tema é:

a leitura alternativa estará a cargo da

2011.12.20 - Insegurança

A sessão de hoje era para convidados, e tivemos muitos! Obrigada por terem vindo!

Teresa e Carmen

10 graus de enjoo in Expedição à ilha borboleta
de Geronimo Stilton



Carmen

para a leitura alternativa trouxe um texto de sua autoria



Primeiro…
… Um coração apressado. Ritmo inconstante, acelerado.
A seguir…
Um corpo tenso, os membros rijos, frios.
Pasmam de tanta sudação.
A voz quer sair… ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Mas, o timbre desmaia,
Se altera,
Deforma,
Engrossa
Ou acelera… acelera, acelera, acelera…
Caminho…
Deixo de caminhar; as pernas tremem, se contraem, deixam de funcionar.
E o cérebro? Parou… abrandou… congelou.
A informação não passa, não pensa, não nada!
Assim estou…
Presa a esta cadeira por um mísero fio de linha.
(Carmen Ezequiel)

Cheguei finalmente ao nada. E na minha satisfação de ter alcançado em mim o mínimo de existência, apenas a necessária respiração – então estou livre.

Só me resta reinventar! (anónimo) ... E, ainda assim poder dizer…

Todas as misérias verdadeiras são interiores e causadas por nós mesmos. Erradamente julgamos que elas vêm de fora, mas nós é que as formamos. (Jacques Anatole France, poeta e romancista francês)

O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo. (Clarice Lispector)

Só me interessam os passos que tive de dar na vida para chegar a mim mesmo. (Herman Hesse)

O nirvana está em nós. O que mata é a culpa, a raiva, o maldito superego. (Léa Waider)

O ser, o ter e o fazer são como triângulo, no qual cada lado serve de apoio para os demais. Não há conflitos entre eles. (Shakti Gawain)


António Gil

As ruas de Los Angeles (adaptação) in Amar, Sonhar, Viver
de Garry Zukav



Uma amiga minha falou-me certa vez sobre o medo que tinha das ruas de Los Angeles depois de ter assistido aos relatos de violência que ocorriam na zona sul da cidade.
É necessária mais polícia - defendia ela - e mais procuradores da República. O grande problema - acrescentou com autoridade - é a falta de disciplina parental, o excesso de drogas ilegais e a decadência moral. Precisamos de autoridade firme nesta matéria - concluiu - para que as nossas ruas voltem novamente a ser seguras.
Várias noites mais tarde, ela sonhou com o seu primeiro romance de adolescente. Sentia-se atraída por um jovem, chamado Thom e este sentia por ela um afecto recíproco, o que deu origem a um romance inocente entre ambos. Repentinamente, e sem qualquer motivo aparente, Thom tornou-se distante. A sua frieza foi crescendo até que, por fim, quando se cruzavam no corredor ele nem sequer olhava para ela.
No início ela sentiu-se destroçada. Depois ficou furiosa. Olhava para Thom com fúria quando o via. Os seus pensamentos encheram-se de fantasias de vingança. Desejava que ele sofresse tanto como ela. Quanto mais ela sofria, mais frequentes e violentas se tornavam as suas fantasias.
Anos mais tarde, depois de ambos terem saído do liceu, Thom ganhou coragem para lhe dizer que tinha ficado assustado com a atracção que sentia por ela. Quanto mais forte era a atracção, mais assustado ele ficava, o que o fez construir um muro entre ambos.
Nesse momento, ela sentiu-se humilhada pelos pensamentos de raiva e pelas fantasias violentas que tivera. Apercebeu-se de que, mentalmente, acusara Thom de traição e tentara castigá-lo. O sonho trouxe tudo isto de volta.
- Porque é que tive este sonho agora? - perguntou-se a si mesma. A resposta provocou nela o mesmo impacto que o sonho. Apercebi-me - confessou - de que há uma relação muito próxima, e que eu nunca reparei, entre o que sucede na minha mente e o que acontece na minha vida. Sempre julguei a violência nas ruas como se esta não tivesse nada que ver comigo. Agora acho que tem. Eu cometo a mesma violência! Durante todos estes anos, Thom não andava a salvo nas ruas da minha mente.
As ruas da sua mente e as ruas de Los Angeles tinham deixado de ser diferentes para ela. Ela via a violência de uma - as ruas de Los Angeles - como o reflexo da violência da outra - as ruas da sua mente.
Se tentarmos não julgar os outros com dureza talvez assim consigamos iniciar um processo para reduzirmos a insegurança e criar um mundo sem violência, ou no mínimo, com menos violência.
Até lá estaremos a contribuir para a violência no mundo e não para a reduzir.

António Soares

Agradecimento à corja
de Joaquim Pessoa




Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade de vivermos
felizes e em paz.
Obrigado pelo exemplo que se esforçam em nos dar de como é possível
viver sem vergonha, sem respeito e sem dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar as coisas por que lutámos e às
quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer, o que
nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.

Fernando, Xana J., João, Lena R.
4 de Julho de 1965 in Poesia Reunida
de Manuel António Pina



segundo fontes geralmente bem
os altos interesses nacionais
foi recebido carinhosamen-
pretende para fins matrimoniais

entre os países membros da otan
as suas provas de doutoramento
sua excelência o presidente da
a conferência do desarmamento

excelentíssimo senhor director
ardilosos amigos do alheio
nosso prezado colaborador
atrasos na entrega do correio

não perca esta excelente ocasião
da santa madre igreja faleceu
resposta em carta à administração
de casa de seus pais desapareceu

Helena P.

Fundo do mar
de Sophia de Mello Breyner



No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Claro que esta leitura levou direitinho para aqui


Vitória
Excerto de A Manhã do Mundo
de Pedro Guilherme-Moreira


Mark foi das histórias e das pessoas mais exploradas do 11 de Setembro. E foi-o porque esteve várias vezes para não ser, ou seja, teve várias inflexões no seu percurso que lhe podiam ter salvo a vida. Sabê-lo dói a qualquer pessoa decente.
(…)
Mark começou por dizer à mulher, quando o despertador tocou às sete da manhã:
- Acho que tenho febre.
Praguejou, disse que não se sentia com coragem para ir trabalhar e esperou apoio. Ela gemeu, mudou de posição, veio à tona dos lençóis e perguntou:
- Vais deixar o novo cozinheiro ter um dia inteiro a sós com o Chef?
Mark rebolou na cama e voltou a praguejar. Conferiu a primeira luz do dia.
- Então vou, mas vou mais tarde. Telefono e digo para contarem comigo só às dez.
- Essas duas horas devem chegar ao rookie para ele definir o menu do dia.
É Nova Iorque e está tudo dito. Mark nem sequer nota que ao seu lado está a mulher, que não passa de mais uma pessoa que o empurra para o caldeirão da competição. Ao dia. À hora. Ao minuto. Ele próprio é um competidor compulsivo. Sem olhar a meios. Recém – casados, nem Mark nem a mulher sabem ainda o que é ou pode ser o casulo protector de um companheiro. Mesmo que a vida lhes corra sem tumultos, vão demorar anos a perceber que o essencial não está no caldeirão, mas na cápsula do lar, num invólucro que exclui os egos dos outros. Os egos dos outros que devoram os nossos.
(…)
Mark vai num passo estugado pelos passeios de Nova Iorque. Se estivermos atentos, perceberemos uma certa assimetria nas suas passadas e tenderemos a pensar que se deve a alguma deficiência física. Não deve. Em Mark essa é a única forma de detectar um fino, contudo muito comprido, sofrimento interior, que não transparece no olhar, mas no andar.
(…)
Mark recompõe-se sempre que passa no gigantesco átrio, agora com o andar simétrico e majestoso, agora um homem de sucesso com ar confiante e determinado, que, como tantos infelizes, consegue encher-se de coragem e ostentar a falsa aparência de domínio do mundo.

Paulo Machado
O ter e o dar
de Jorge de Sena


Não me peças, ó vida, o que não dás
(...)

Vasco
O grande ditador (discurso final)
Charles Chaplin






Mila
excerto de Mineiros de Aljustrel - nas barrenas da memória
de António Lains Galamba, il. Chichorro

edição do autor; para adquirir
contactar o próprio por e-mail



Rosa
excerto de A Esperança dos Vivos
de Millen Brand





Delfina
Ângela e o menino Jesus
de Frank McCourt, il. Loren Long


Pode ser lido aqui.

Virgínia
Os bárbaros



Paulo
Quadras
de António Aleixo



João
Inventário
de Miguel Torga



Cristina
Uma pequenina luz bruxuleante
de Jorge de Sena

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumiére
just a little light
una piccola…em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a advinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
Indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
No meio de nós.
Brilha.

No youtube encontra-se uma entrevista a Jorge de Sena em várias partes em que se pode ouvir o autor a ler alguns dos seus poemas (1, 2, 3, 4, 5)



Cristina

Especialmente para os convidados,

Quadras de António Aleixo
Quadras de Agostinho da Silva


e pela primeira vez, a seguir às leituras houve bolinhos