Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


2012.02.28 - Viagens II


Já não se lembravam das viagens? pois foi há pouco mais de um ano! voltamos então ao tema...


Lena R. (*)
Viagem
de Miguel Torga


pode-se ver o vídeo aqui


Teresa (*)

Charlie e a Fábrica de chocolate (excerto)
de Rohald Dahl




(*) Tele-CLeVA directamente do Luxemburgo


João
A pista de Miguel Sousa Tavares
excerto de "Sul, Viagens"



Cecília
Sinopse de
Caderneta de Cromos Contra-Ataca
de Nuno Markl



A saga contínua no segundo livro da rubrica da Rádio Comercial, Caderneta de Cromos!
Ainda mais sexy e espectacular do que o primeiro volume, Caderneta de Cromo Contra-Ataca regressa aos anos 70 e 80 para falar da complexidade psicológica dos Pinypons e de como pareciam querer matar alguém; de como o Skeletor, o arqui-inimigo de He-Man não é claramente, o tipo de indivíduo a quem se pergunta as horas na rua; como agir quando um meliante nos pede para ver o Passe-Social; quem venceria no eterno duelo entre os Doutores Bayard e Bentes; quem eram, realmente, os Glutões do Presto; quão traumático foi o episódio de Uma Casa na Pradaria em que a filha mais velha acorda sem o dom da visão; porque parecia tão giro envergar peúgas brancas com raquetes; porque é que Duarte & Companhia foram tão importantes nas nossas vidas; o que raio significa a letra de Orinoco Flow de Enya e porque é que pode servir de tributo a todos os indivíduos que têm como nome Zé Luís; porque é que o Cartão Jovem era como o Santo Graal da garotada - e outro tipo de questões essenciais para quem cresceu numa época de péssimos cabelos mas belíssimas memórias. E bigodes.


António Gil
Apresentou-nos "Viagem a Toronto" num ipad





Helena P.
A viagem
de Sophia de Mello Breyner Andresen

Dorso do mar tão quieto nesse dia.
Infinita esmeralda desdobrada.
Como um incenso os halos da maresia.
Cristais de distância.

Um navio esticado no seu vento
Êxtase e poder
Plenitude do tempo
Um navio esticado no seu vento
Presa do espaço intenso.

Um navio de homens carregado,
De vagabundos mareantes procurando
Terras quase lendárias,
Filhos duma áspera pátria de pedras e luz clara
Filhos duma áspera pátria exacta e avara
Que vão de porto em porto derivando.
Filhos de uma áspera pátria procurando
A aparição do mundo
Filhos duma áspera pátria sobre o mar errando.

No alto mar os homens parecem
Semelhantes a deuses
Participantes dum rito antiquíssimo e sagrado
De água, luz e vento
Os seus corpos se tornam
Inteiros e ritmados
À própria essência da vida

Paula e Daniel
Ainda falta muito?
de Carla Maia de Almeida


António Soares
Viagem
de Álvaro de Campos


Sonhar um sonho é perder outro. Tristonho
Fito a ponte pesada e calma…
Cada sonho é um existir de outro sonho,
Ó eterna desterrada ti própria, ó minha alma!

Sinto em meu corpo mais conscientemente
O rodar estremecido do comboio. Pára?…
Com um como que intento intermitente
De - mal roda, estaca. Numa estação, clara

De realidade e gente e movimento.
Olho p’ra fora… Cesso… Estagno em mim.
Resfolgar da máquina… Carícia de vento
Pela janela que se abra… Estou desatento…
Parar… seguir… parar… Isto é sem fim

Ó o horror da chegada! Ó horror. Ó nunca
Chegares, ó ferro em trémulo seguir!
À margem da viagem prossegue… Trunca
A realidade, passa ao lado do ir
E pelo lado interior da Hora
Foge, usa a eternidade, vive…
Sobrevive ao momento - vai!
Suavemente… suavemente, mais suavemente e demora
- entra na gare… Range-se… estaca… É agora!

Tudo o que fui de sonho, o eu-outro que tive
Resvala-me pela alma… Negro declive
Resvala, some-se, para sempre se esvai
E da minha consciência um Eu que não obtive
Dentro em mim de mim cai.

Vitória e Alexandra J.
jogo com "Descalça vai para a fonte" de Luís de Camões
e "Poema da Auto-estrada" de António Gedeão


Vasco
Cinco semanas em balão (excerto)
de Julio Verne


Mila
Escada em Caracol
de David Mourão-Ferreira
É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.

Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p´rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

e aqui na voz de Camané:



Rosa
Uma viagem maravilhosa
Joaquim Lemos
Com um livro na mão posso sonhar e viajar, quieto, aconchegado, sem sair do meu lugar:
- São dez dedos, dez segredos, cinco em cada mão, todos eles divertidos, criativos, carinhosos a terminar numa canção.
- Dou um salto à cidade para ajudar o João e transformar num jardim a floresta de betão.
- Voo até à savana, numa nuvem pelo ar, vou conhecer a girafa que comia muitas estrelas todas as noites ao jantar.
- Foram ovos misteriosos, história das cinco vogais, uma menina que detestava livros e acabou com as personagens como os seus melhores amigos.
- Mergulhei no aquário, à procura de um tesouro e descobri que a amizade vale muito mais que ouro.
- Conheci uma menina, que mora no fundo do mar é a amiga mais fantástica que eu podia encontrar.
- Este ano folheando nosso livro de leitura, encontrei uma linda fada toda feita de ternura. Chama-se Oriana e à escola vai chegar, dentro de um livro maravilhoso que é onde a vou procurar.
Mas ela não está fechada, voa solta, livre, alegre na nossa imaginação que é tudo o que me dá o livro que tenho aberto, estendido, na palma da minha mão.


Carmen
texto para Palavra Fiandeira
de sua autoria


Tenho uma câmara fotográfica nova.
Daquelas pequeninas, jeitosas, que dá para colocar no capacete, no braço, no guiador, na água ou ao sol… para tirar fotografias várias. Sabem, é que sou fanática por fotografia. E, adoro fotografar-me! Modéstia à parte, mas sou muito fotogênica!
Mas, esta câmara é diferente! É mais leve, mais jeitosa… assim, como eu!
E, com ela, posso unicamente colocá-la na minha cabeça e escalar!
Subir uma montanha íngreme e sinuosa, onde pacificamente se sente o sabor do vento!
Onde se refrescam os pensamentos (os meus, claro!) e se arejam as emoções (as minhas, pois sim!). Se perde a raiva e o ódio da hipocrisia e a angústia da monotonia perdida nas mentes insanas (isto acontece-me com frequência! – Que raiva tenho da hipocrisia!).
Se olha o sol laranja de frente e se alcança o céu velozmente. E, no final da jornada, bem lá no topo desta montanha amontoada de frescura; abraço e abarco uma felicidade total.
Amanhã irei nadar – Penso.
E, de novo levo a minha frenética câmara nova (ou, sou eu que estou frenética?) para, com ela, saborear a água salgada do mar imenso. Onde os peixes, encarnados, azuis, verdes, lilases, coloridos ou incolores, são reis. Ou, rainhas. Deve haver fêmeas, não?
Isso não interessa. O que interessa é a liberdade de sentir a suavidade da água; partir numa aventura pelas profundas águas do oceano esverdeado de plantas e algas, cavalgar num cavalo-marinho, surpreender-me com a beleza do fundo do mar e, transformar-me numa sereia contadora de histórias, com uma beleza provocadora e assaz impossível. Vir à tona e, pela primeira vez, pisar a areia da praia e sentir os seus grãos quentes do amor que fazem com os raios de sol. (Afinal, aqui já estou a sonhar… acordada. Acordo mesmo é em frente ao Oceanário e embarco, então, numa viagem virtual ao fundo dos oceanos.)
Depois, e ainda de câmara em punho… ou, na cabeça, saio e procuro por ti. Num misto e misterioso compacto de emoções resgato-te do único inimigo da alma: a preguiça!
Juntos, levamos para casa as memórias de um tempo bem passado, que junto ao meu capacete de BTT percorri, contigo, horas a fio, esses caminhos da natureza, verdes da vegetação mais pura e ainda existente. Lamacentos, e gostosos para a minha e tua viagem, de uma curta passagem da chuva. O pássaro que brinca com o vento ameno, as vacas ruminantes numa calmaria louca. O percurso aprazível e campestre destes 30 km de aventura. Sou eu e tu. Passamos velozmente nestes campos de uma lezíria real, reclamando um tempo só nosso!
Tenho uma câmara fotográfica nova e, com ela, posso gravar um momento, captar uma emoção, guardando-a para sempre.
- Que pena que não seja minha! – E, depressa a devolvo à Raquel.

Alexandra F.
partilhou connosco um dos seus livros de fotos de viagem
Suíça 2009


Helena Pinto
Viagem a Portugal (excerto)
de José Saramago


Delfina
Poema da Auto-estrada
de António Gedeão


Fernando e Cristina
Desmedida, crónicas do Brasil (excerto) de Ruy Duarte de Carvalho
Grande Sertão Veredas (excerto) de João Guimarães Rosa


aqui um cheiro do sertão de Guimarães Rosa:



e para terminar aquela que foi a última sessão regular do Cleva 2.0, houve bolo, moscatel



e distribuição de recordações de vários países do oriente recentemente visitados pela Helena Pinto

próxima sessão - 28 fevereiro 2012

e o tema será:


fará uma leitura alternativa

2012.01.31 - Fobias

Cristina e Fernando
Fobias de Luis Fernando Verissimo
Banquete com os deuses: cinema, literatura, música e outras artes
Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (medo de lugares fechados), agorafobia (medo de espaços abertos), acrofobia (medo de altura) e as menos conhecidas ailurofobia (medo de gatos), iatrofobia (medo de médicos) e até a treiskaidekafobia (medo do número 13), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insónia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham “Frio” e “Quente” escritos por extenso, para saciar minha sede de letras. Já ajeitei o travesseiro, ajustei a luz e abri uma lista telefônica, tentando me convencer que, pelo menos no número de personagens, seria um razoável substituto para um romance russo. Já revirei cobertores e lençóis, à procura de uma etiqueta, qualquer coisa.
Alguns hotéis brasileiros imitam os americanos e deixam uma Bíblia no quarto, e ela tem sido a minha salvação, embora não no modo pretendido. Nada como um best-seller numa hora dessas. A Bíblia tem tudo para acompanhar uma insónia: enredo fantástico, grandes personagens, romance, sexo em todas as suas formas, ação, paixão, violência, – e uma mensagem positiva. Recomendo “Gênesis” pelo ímpeto narrativo, “O cântico dos cânticos” pela poesia e “Isaías” e “João” pela força dramática, mesmo que seja difícil dormir depois do Apocalipse.
Mas e quando não tem nem a Bíblia? Uma vez liguei para a telefonista de madrugada e pedi uma Amiga.
– Desculpe, cavalheiro, mas o hotel não fornece companhia feminina…
– Você não entendeu! Eu quero uma revista Amiga, Capricho, Vida Rotariana, qualquer coisa.
– Infelizmente, não tenho nenhuma revista.
– Não é possível! O que você faz durante a noite?
– Tricô.
Uma esperança!
– Com manual?
– Não.
Danação.
– Você não tem nada para ler? Na bolsa, sei lá.
– Bem… Tem uma carta da mamãe.
– Manda!

Lena Pinto
Fobias diversas

Alexandra Ferreira
Não é o Fim do Mundo
Joan Borysenko
e ainda a diferença entre Fobia e Medo

António e Lena Policarpo
Livro do desassossego (excertos)
de Bernardo Soares
A tragédia principal da minha vida é, como todas as tragédias, uma ironia do Destino. Repugno a vida real como uma condenação; repugno o sonho como uma libertação ignóbil. Mas vivo o mais sórdido e o mais quotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho. Sou como um escravo que se embebeda à sesta - duas misérias em um corpo só.

Sim, vejo nitidamente, com a clareza com que os relâmpagos da razão destacam do negrume da vida os objectos próximos que no-la formam, o que há de vil, de lasso, de deixado e factício, nesta Rua dos Douradores que me é a vida inteira - este escritório sórdido até à sua medula de gente, este quarto mensalmente alugado onde nada acontece senão viver um morto, esta mercearia da esquina cujo dono conheço como gente conhece gente, estes moços da porta da taberna antiga, esta inutilidade trabalhosa de todos os dias iguais, esta repetição pegada das mesmas personagens, como um drama que consiste apenas no cenário, e o cenário estivesse às avessas…

Mas vejo também que fugir a isto seria ou dominá-lo ou repudiá-lo, e eu nem o domino, porque o não excedo adentro do real, nem o repudio, porque sonhe o que sonhe, fico sempre onde estou.

E o sonho, a vergonha de fugir para mim, a cobardia de ter como vida aquele lixo da alma que os outros têm só no sono, na figura da morte com que ressonam, na calma com que parecem vegetais progredidos!

Não poder ter um gesto nobre que não seja de portas adentro, nem um desejo inútil que não seja deveras inútil!

Definiu César toda a figura da ambição quando disse aquelas palavras: “Antes o primeiro na aldeia do que o segundo em Roma!” Eu não sou nada nem na aldeia nem em Roma nenhuma. Ao menos, o merceeiro da esquina é respeitado da Rua da Assunção até à Rua da Vitória; é o César de um quarteirão. Eu superior a ele? Em quê, se o nada não comporta superioridade, nem inferioridade, nem comparação?

É César de todo um quarteirão e as mulheres gostam dele condignamente.

E assim arrasto a fazer o que não quero, e a sonhar o que não posso ter, a minha vida, absurda como um relógio público parado.

Aquela sensibilidade ténue, mas firme, o sonho longo mas consciente que forma no seu conjunto o meu privilégio de penumbra.

Lena Ramos
Tu tens um medo
de Cecília Meireles
Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

Delfina
"O João que tinha medo de chocolates" in Histórias para ler em um minuto e 1/2
de Isabel Stilwell


Rosa
A memória do filme "Melhor é Impossível"


João
O Temor Combate-se com a Esperança in "Dos reveses"
de Séneca
Não haverá razão para viver, nem termo para as nossas misérias, se fôr mister temer tudo quanto seja temível. Neste ponto, põe em acção a tua prudência; mercê da animosidade de espírito, repele inclusive o temor que te acomete de cara descoberta. Pelo menos, combate uma fraqueza com outra: tempera o receio com a esperança. Por certo que possa ser qualquer um dos riscos que tememos, é ainda mais certo que os nossos temores se apaziguam, quando as nossas esperanças nos enganam.
Estabelece equilíbrio, pois, entre a esperança e o temor; sempre que houver completa incerteza, inclina a balança em teu favor: crê no que te agrada. Mesmo que o temor reuna maior número de sufrágios, inclina-a sempre para o lado da esperança; deixa de afligir o coração, e figura-te, sem cessar, que a maior parte dos mortais, sem ser afectada, sem se ver seriamente ameaçada por mal algum, vive em permanente e confusa agitação. É que nenhum conserva o governo de si mesmo: deixa-se levar pelos impulsos, e não mantém o seu temor dentro de limites razoáveis. Nenhum diz:
- Autoridade vã, espírito vão: ou inventou, ou lho contaram.
Flutuamos ao mínimo sopro. De circunstâncias duvidosas, fazemos certezas que nos aterrorizam. Como a justa medida não é do nosso feitio, instantaneamente uma inquietude se converte em medo.

Teresa
Alforreca e Faneca in Primeiro Livro de Poesia
de Violeta Figueiredo
Pobre de mim, tão Faneca,
Alforreca me fascina.
Sigo atrás da sua coroa,
dos seus terríveis cabelos
de gelatina e de prata:
só o vê-los me atordoa,
só o tocá-los me mata.

Alexandra Justino
O Pior Medo é o Medo de Nós Próprios in Diário de Notícias - 2003
de José Luís Peixoto

O medo é muitas vezes o muro que impede as pessoas de fazerem uma série de coisas. Claro que o medo também pode ser positivo, em certa medida ajuda a que se equilibrem alguns elementos e se tenham certas coisas em consideração, mas na maior parte dos casos é negativo, é algo que nos faz mal. (...)
O pior medo é o medo de nós próprios e a pior opressão é a auto-opressão.
Antes de se tentar lutar contra qualquer outra coisa, penso que é importante lutarmos contra ela e conquistarmos a liberdade de não termos medo de nós próprios.


Vitória
O Medo Longe de Ti (excerto)
de António Manuel Venda
Olhaste para o chão. Pareceu-me notar-te um sinal fugaz de tristeza, ou de medo, não sei. Talvez medo. Ali, a milímetros de mim, uma pequenina amostra do que era o medo. Agarrei-te o rosto, suavemente. Agarrei-o com cuidado, com mil cuidados, e deslizei os polegares pelos traços do teu sorriso. Depois empurrei-te até à porta, colado a ti, como se quisesse esconder-te de toda a gente, como se pensasse que podiam roubar-te de mim. Medo, de novo. Quis afastar essa ideia, mas de repente vi-me contigo, numa rua, à vista de toda a gente, sem que fosse preciso dar três passos para que aparecesse alguém a tentar roubar-te de mim, um pistoleiro a cavalo, um mágico apenas com umas estrelinhas de mil poderes. E eu sem saber o que fazer, sozinho, a ver-te a ser levada pelo pistoleiro, deitada de barriga para baixo, no dorso do cavalo, bem à frente dele, e ele com uma mão a segurar-te e a outra agarrada às rédeas. Como eu estava de novo com medo… Medo de te perder, mesmo abraçado a ti. Medo de não ficar contigo, mesmo sentindo as cócegas do teu cabelo no meu rosto. Sentia-me feliz, mas confuso, não tinha medo de nada, mas ao mesmo tempo tinha medo de te perder, e tu nos meus braços.


Natalina e Paulo Machado
O Sapo tem Medo
de Max Velthuijs
Um cheirinho do livro aqui

E para terminar juntámo-nos para uma brincadeira à volta do Bule de Salette Tavares

próxima sessão - 31 janeiro 2012

será o tema
fará uma leitura alternativa

2012.01.24 - Meditação

Alexandra Ferreira
"Debaixo da roupa, estamos todos nus"
de José Luís Peixoto
do livro "Abraço"

muito bem acompanhada pelo Nuno





Teresa
Não desfazendo
de Manuel António Pina de "O Pássaro da Cabeça"

Delfina
O Pássaro
de autor desconhecido
O pássaro…

Era uma vez um pássaro que vivia numa floresta de encantar num país do norte da Europa. Nessa floresta, ele realizava voos radicais que preenchiam os seus dias, mas o Outono chegou devagarinho, a roda das estações girava e o Inverno aproximava-se a grande velocidade. O pássaro sentiu a urgência de partir quando chegaram as primeira neves e com elas os grandes frios. Levantou voo e começou a voar para um local mais quente.

Algum tempo depois, o frio era tanto, mas tanto, que as asas começaram a gelar, até que o impediram de voar e ele caiu numa quinta inanimado e enregelado. No preciso local onde o passarinho estava caído lutando contra a morte, passou uma vaca que largou uma valente bosta em cima dele. Como a bosta estava quente ajudou o gelo das asas a derreter e a aquecer o passarinho que começou a piar feliz, mas o sossego e alegria foram de pouca dura para a pequena ave. Um gato que vivia na quinta e andava esfomeado, ouviu-o debaixo da bosta e com uma velocidade incrível agarrou-o e comeu-o.

  
Deste conto podem ser retiradas três morais: 

1ª Nem sempre quem te caga em cima é teu inimigo.

2ª Nem sempre quem te tira da merda é teu amigo.

3ª Mesmo que estejas atolado em merda não pies.

Rosa
Prece gratidão de Amélia Rodrigues

Vasco, Vitória e João.
Imposto sobre meditação no CLEVA
pelos próprios
João- Raramente aceitamos meditar a partir dos que foram estigmatizados como pecadores notórios, à semelhança dos cobradores de impostos e das prostitutas do tempo de Jesus. No entanto, são exatamente eles, que têm material mais abundante e profundo para quem não duvida que meditar faz bem.
(Pausa para reflexão)
Vitória- Por ordem do Exmo. Sr. Ministro das Finanças Vítor Gaspar, vai o João proceder á cobrança do IMC (Imposto Extraordinário Sobre Meditação no CLEVA).
(João percorre o grupo para proceder à coleta.)
Vasco- Meditando sobre as novas taxas do IVA: O jantar na tasca foi mais caro esta noite. Paguei o jantar mais caro do que o bilhete para o teatro.
Vitória- Já eu, só bebi e não comi para não sentir o efeito do IVA. Como o vinho não aumentou, esqueço a austeridade e bebo ao preço de antigamente.
João – Então jantaste sozinho?
Vasco- Sim, alguém quer jantar com cobradores de impostos?
Vitória- Jesus jantou! E Ele ensinava-os. Naquele tempo, muitos cobradores de impostos e pecadores também se puseram à mesma mesa com Jesus e os seus discípulos, pois eram muitos os que o seguiam.
Mas os doutores da Lei do partido dos fariseus, vendo-o comer com pecadores e cobradores de impostos, disseram aos discípulos: «Porque é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?»
Jesus ouviu isto e respondeu: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.»
Vasco – E a dizima cobrada na missa? Mantém a taxa do IVA?
João– Sim mantém a mesma taxa. Em negociações com a igreja, mantivemos a taxa por troca com o Corpo de Deus e o 15 de Agosto.
Vitória- Penhorámos o Corpo de Deus?
Vasco – Sim, só não sabemos se o colocamos à venda através de leilão electrónico ou nos classificados do Correio da Manhã.
João - E quem é que o vai comprar? Será que os chineses da EDP estão interessados?
Vasco – Seria outra aquisição iluminada.
Vitória - Nem me fales nisso! A taxa da energia também sofreu um aumento brutal.
Vasco - Pelo menos os livros mantiveram a taxa.
João - Só podes é lê-los à luz do dia, porque à noite ficam caros.
Vitória - Mais vale irmos ao teatro, que pelo menos não aumentou tanto.
João- Em que ficamos, afinal sobre a meditação fiscal?
Vasco - Já desisti de ir ao restaurante e de ler à noite. Agora leio um livro de dia com uma garrafa de vinho ao pé de mim.
Vitória- Por falar nisso, onde é que pagamos a fatura da eletricidade? No Continente ou nas lojas do chinês?
João – No Continente tens desconto de 10%, na loja do chinês habilitas-te a uma viagem em charter. Mas as taxas são as mesmas no Continente, nas ilhas e na China?
Vasco- Observando a verba 2.12 da lista I do Código do IVA, conjugado com a alínea c) do nº1 do artigo 18º do mesmo diploma, cumprindo com o novo Orçamento de Estado, aplica-se a taxa de 23%, até para os chineses!
Vitória - Mesmo para o Alberto João?
João - Claro, não vamos ser nós a suportar a energia da ilha do Jardim.
Vasco - Nem a troika deixava que fosse de outra maneira!
Vitória - E o IMC (Imposto Extraordinário Sobre Meditação no CLEVA) também é imposição da troika?
João - Seja ou não, têm de pagar, afinal é um imposto.
Vasco - E cobrar impostos é, ou não é, uma atividade nobre?
Vitória- A própria bíblia o recomenda. Jesus aconselha-nos a pagar impostos. Quando lhe perguntaram:
“Dize-nos, pois, que te parece? É lícito pagar tributo a César, ou não?
E Jesus respondeu que os cristãos devem pagar os seus impostos de boa vontade, tendo dito: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Pelo que é necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa da ira, mas também por causa da consciência."
Vasco – Esta citação bíblica vem mesmo a propósito das taxas moderadoras cobradas no Centro de Saúde. A ira pelo tempo de espera, a consciência de que podemos estar doentes e depois de paga a taxa, chegou a nossa vez e avisam que o medico está de baixa.
João- Ainda a eletricidade era a 6%, um livro que li, dizia:
Para meditar, segundo a proposta do livro, é necessário despojar-se da arrogância de ser justo e perfeito, e aceitar que os cobradores de impostos e as prostitutas se tornem nossos mestres para a meditação e a oração.

Alexandra Justino
O contador de histórias - Tradição oral judaica
de A árvore dos tesouros




Helena Machado
A cidade dos poços
Contos para pensar de Jorge Bucay


Aqui numa versão animada:




António Gil
Excerto de "Meditação – A luz dentro de nós"
de J. Krishnamurti

Podemos perguntar o que é meditação - não “como” meditar. Quando perguntamos esperamos que haja alguém para nos dizer o que fazer. Se não perguntamos “como” e perguntamos o que é meditação, então temos de pôr em acção a nossa própria capacidade, a nossa própria experiência, por muito limitada que seja; temos de pensar. Meditar é ponderar, reflectir, dedicar-se, não a alguma coisa, mas ter espirito de dedicação. Espero que estejais a escutar, para descobrirdes por vós mesmos, porque ninguém, ninguém pode ensinar-vos o que é meditação, por muito comprida que seja a barba dessa pessoa ou por mais estranho que seja o vestuário que ela use. Descobri por vós mesmos e ficai com o que descobrirdes por vós, não fiqueis dependentes de ninguém.
É preciso compreender muito cuidadosamente o significado da palavra meditação, cuja raiz é “medir”. E o que é que isso implica? Desde os antigos gregos até aos tempos modernos, todo o mundo tecnológico está baseado no medir. Não é possível construir uma ponte, ou um espantoso edifício de cem andares sem essa operação que é medir. Interiormente também estamos sempre a medir: “Eu fui, eu serei”; “Eu sou isto; eu fui isto, eu tenho de ser aquilo” - o que não é apenas medida, mas também comparação. Medir é comparar: “tu és alto, eu sou baixo; eu sou branco e tu és preto”. Compreendei o sentido da comparação e das palavras melhor e mais, e não as useis interiormente, psicologicamente. Estais a fazer isso agora, enquanto estamos a conversar?
Quando o cérebro está liberto da comparação psicológica, as próprias células do cérebro que têm sido usadas para comparar, que foram condicionadas por essa comparação, despertam subitamente para a verdade de que, psicologicamente, a comparação é destrutiva. Portanto, as próprias células do cérebro sofrem uma mutação. O vosso cérebro tem estado habituado a ir numa certa direcção, e pensais que esse é o único caminho para o que quer que esteja no fim desse caminho. O que está no fim desse caminho é, naturalmente, aquilo que inventais. E quando chega um homem que vos diz que essa direcção não vos levará a lado nenhum, resistis, dizendo: “Não, Você está enganado, todas as tradições, dizem que Você não tem razão”. O que significa que não investigastes realmente - estais a citar outras pessoas, o que quer dizer que estais a resistir. Assim o homem diz: “Não resistais, escutai o que estou a dizer; escutai aquilo que estais a pensar, qual é a vossa reacção e também o que estou a dizer”. Portanto, escutai tudo isso. E para assim se escutar, precisais de prestar atenção, o que significa que há espaço na vossa mente.
Assim, descubramos se podemos viver - não em momentos de uma determinada “meditação”, mas viver a vida diária - sem comparar psicologicamente. Viver uma vida sem esse sentido de medir, de comparar, é meditação. Meditação implica um sentido de profunda compreensão dessa mesma palavra; e a própria compreensão, a percepção profunda dessa palavra é a acção que fará acabar a medida, o “mais”, o “menos”, etc., a comparação psicológica.



Helena P. e António Soares
O guardador de rebanhos
de Alberto Caeiro.
Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho eu sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar em muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição intima das coisas”…
“Sentido intimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins.
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das
árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar,
Porque, se ele se fez, para eu over,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de sí próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Paulo Machado
Siddharta (excerto)
de Hermann Hesse




Ana França e Ana Valente
O pequeno caranguejo
autor desconhecido


O Pequeno Caranguejo

Numa praia protegida por rochas, vivia uma colónia de caranguejos.
Estes eram bastante pequenos, atingindo na idade adulta, não mais do que 3 centímetros.
Todos os anos, durante os meses de verão, os caranguejos perdiam a sua carapaça, expondo-se aos predadores e sendo presas fáceis para outros bichos do mar, da terra e do ar. Nesta fase do seu crescimento protegiam-se dos perigos da vida permanecendo em buracos nas rochas. Não se alimentavam enquanto aguardavam o crescimento de uma nova carapaça.
Um deles, ainda jovem, perguntava aos mais velhos por que motivo não iam para lá das rochas.
Porque não se aventuravam no mar... Os mais velhos contavam-lhe histórias aterradoras de gaivotas esfomeadas, de polvos devoradores, de pescadores furtivos. Não era seguro ir para lá das rochas. Toda a vida tinham feito o mesmo: escondiam-se enquanto a carapaça não crescia. Era assim que se fazia, era assim que podiam crescer.
O pequeno caranguejo perguntava-se por que motivo não cresciam mais uma vez que todos os anos mudavam de carapaça. Se mudavam de carapaça para crescer, porque não cresciam?
Um dia decidiu partir à aventura. Indo contra todos os conselhos e advertências dos mais velhos, e sem a protecção da sua carapaça, optou por avançar para lá das rochas protectoras.
E ainda que sentisse medo e alguma ansiedade, o seu desejo de descobrir mais do mundo à sua volta empurrou-o para lá das rochas. Enquanto seguia o seu caminho, podia ouvir os outros caranguejos a chamar por ele. A gritar-lhe, a dizer que não sobreviveria. Pediam-lhe que voltasse para trás. Chamavam-lhe louco.
Mas o pequeno caranguejo não deu ouvidos. A verdade é que, mesmo na segurança da praia ele assistira a familiares seus serem devorados por gaivotas. E... preferia morrer enquanto se aventurava por novas paisagens.
A princípio foi-lhe difícil atravessar a barreira protectora e o pequeno caranguejo lutava contra as ondas. Apesar de parecer que não saía do mesmo lugar, aos poucos avançava uns centímetros.
Enquanto lutava contra a força das ondas, o seu corpo mole foi-se tornando mais maleável e elástico. Se se aperceber, de cada vez que lutava para vencer uma onda o seu corpo parecia crescer mais um pouco. E de cada vez que uma onda o atirava contra uma rocha, ficava com a sensação de que o seu corpo mole se tornava mais rijo.
Demorou alguns dias até conseguir avançar para lá da protecção das rochas.
Quando finalmente ultrapassou a barreira, ficou de boca aberta! O mar era vasto e cheio de cores! Muitos peixes, de muitos tamanhos e cores variadas! Plantas que nunca sonhara poderem existir! E tudo parecia estar ali para lhe dar as boas vindas!
Foi então que deu de caras com um ENORME CARANGUEJO, com mais de meio metro de envergadura! Um caranguejo com uma carapaça rija e de cores vivas como nunca imaginara!
Falou com o caranguejo GIGANTE. Perguntou-lhe como era possível ser tão GRANDE.
O caranguejo gigante respondeu-lhe:
"Sabes, todos os caranguejos na tua colónia poderiam ser grandes como eu. Mas para ser assim grande, é preciso vencer a força das ondas e ter a coragem de poder ser apanhado por uma gaivota. É preciso ter a força de vontade para não desistir e lutar contra os perigos da Natureza. Mas a verdade é que a maioria dos perigos são inventados. Podemos morrer a tentar crescer, ou podemos morrer na pequenez que conhecemos desde o dia em que nascemos.
É sempre uma questão de escolha."


Mila
O chão que ela pisa (excerto)
de Salman Rushdie



Carmen
5 princípios do Reiki

tele-CLeVA #01

Olá a todos!
Não queria deixar passar o tema sem contribuir à distância para o mesmo... e como para mim a língua oficial passou a ser uma alegre mistura de inglês, francês, italiano e português, a meditação desta semana é de Robert Frost

«The Road Not Taken», de Robert Frost from blocsdelletres on Vimeo.