Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020
O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.
Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.
Ontem, fomos com o Clube de Leitura em Voz Alta de Alcochete até Cabo Verde, perdão, até ao Poço do Bispo. Viemos encantados. Ainda não viram? Só até dia 29 deste mês.
Com o tema de hoje, Coisas Velhas, começámos por ouvir as palavras ditas em voz alta por pessoas que marcaram esta área. Ouvimos os seus estilos, os seus timbres, as suas opções sobre os textos e apreciámos o talento de vozes poderosas que nos marcaram a todos.
Entrou um pobre e pediu (excerto) - Joaquim Paulino Paixão
hoje tivemos um clube mais reduzido, já com muitos elementos de férias
de seguida experimentámos um exercício que fazia parte da disciplina antiga A ARTE DE DIZER:
de um só fôlego e articulando o melhor possível, repetir o maior número de vezes que se consiga, a primeira estrofe do canto I dos Lusíadas
o Miguel também nos trouxe um texto de sua autoria... mas estava sem voz.
O seu texto foi lido pela sua porta voz, Manuela.
Velhos remédios de Miguel Boieiro
Ontem, segunda-feira, ciceronei um amigo de terras distantes que veio a Lisboa. Queria apresentar-lhe alguns dos museus da nossa capital. Gosto muito de museus porque eles estão recheados de coisas “velhas” que fazem a ponte para as coisas “novas” do nosso quotidiano consumista. Elas ajudam-nos a compreender como evoluímos e, em certos casos, como involuímos.
Mas, desgraçado de mim! Às segundas-feiras todos os museus estão encerrados. Todos não! Há um que permanece aberto! É o Museu da Farmácia, situado junto do Miradouro de Santa Catarina, guardado pelo Mostrengo, o terrível Adamastor.
Beneficiando do desconto concedido aos seniores, entrámos. Só os dois. Não havia mais visitantes. Calmamente, deambulámos pelos dois pisos que ostentavam milhares de velhos artefactos com que outrora se tratava da saúde às criaturas de Deus.
A pretexto de protelar a morte, os humanos inventaram remédios, criaram supersticiosas crenças e incutiram nos doentes o otimismo das curas. Numa escassa hora, que foi quanto demorou a visita, viajámos milhares de anos, desde o faraónico Egipto, passando pelos aztecas, maias, tibetanos, chineses, hindus, gregos e romanos, até chegarmos ao século XIX, início da revolução laboratorial com a chamada química de síntese. Vimos o nascer da farmacopeia industrial que deu origem às grandes multinacionais que hoje “cuidam” da nossa saúde. Entretanto, ficaram na nossa retina aqueles objetos antigos que hoje já não se usam: pós dentífricos, rebuçados peitorais, biberões, tira-leites, cremes banha-da-cobra, potes para unguentos, albarelos, frascos piriformes e prismáticos, boiões ovoides, preservativos de pele de porco, vasos de botica esmaltados com curiosas decorações, bacias para sangrias, açucareiros (o açúcar era um remédio, sabiam?), caixinhas com cremes de embelezar e esconder a velhice, vasilhas para o pó de corno do unicórnio, irrigadores, pulverizadores, almofarizes de bronze, de mármore, de marfim, destiladores de essências, seringas para clisteres, equipamentos para o fabrico de pílulas, equipamentos para o fabrico de hóstias, autoclaves, lixiviadores, alambiques, uma enormidade de balanças, pesos e medidas para canadas, quartilhos e onças, embalagens de remédios contra as sezões, para dar vigor ao cabelo, para a fraqueza, para a tosse, o peitoral de cereja do Dr. Ayer, a água da Florida, a tintura de cânfora, as pílulas catárticas, o óleo de fígado de bacalhau, o extrato de salsaparrilha, a água oxigenada pura, o Sanogenol, poderoso tónico, o Lysine, desinfetante que não tem cheiro e tira o mau cheiro, o Depuratol, a única tábua de salvação dos sifilíticos, o Uraseptyl para dissolver o ácido úrico, o Ferro-Quinol para levantar as forças caídas, o Plasma Phosphatado para a tuberculose, o Neurinase para as neurastenias, o Salutaris, grande água purgativa, o Quinado para a falta de apetite, o Ceregumil, alimento vegetariano completo.
Uf! Valha-nos agora os grandes laboratórios que inventam doenças, inventam medicamentos, tornam a inventar, tornam a reinventar, manipulam organismos geneticamente modificados e sugerem, recomendam, prescrevem, exigem para tomar, chupar, engolir, deglutir uma panóplia de novos remédios que curam, que preservam, mas também moribundam e matam, tudo em suprema adoração do novo deus que domina o mundo: o deus dinheiro.
Abaixo as coisas velhas! Vivam as coisas novas!
Coisas velhas e esquecidas encontradas no sótão e até mesmo no lixo, com um pouco de criatividade, bom gosto e vontade; já se vê, podem fazer-se coisas muito úteis e económicas e até mesmo muito belas. Chama-se a isto reciclagem.
O termo velho, pode utilizar-se em vários contextos, até mesmo para se referir a algo que poderá ter só um dia ou até horas. Como por exemplo, quando ouvimos uma notícia que já é do nosso conhecimento, dizemos; isso para mim já é velho.
Velho em relação ao ser humano é sinal de longevidade, sapiência, sabedoria e experiência de vida. Mas por vezes não são reconhecidos como tal e sim como um fardo para a sociedade, o que está profundamente errado.
Um passaporte com alguns carimbos
de lugares inverosímeis; a primeira
caderneta escolar
com o hesitante rasto desse rosto
que tinhas aos dez anos; velhos óculos
na trégua das gavetas; os relógios
cujos ponteiros hão-de ignorar
as ciladas do tempo; alguns telefones
antigos, negros monstros
onde haverá quem oiça ainda
o som da tua voz;
cadernos, cartas, dossiers, agendas
e livros e cassetes e CDs
onde encenaste o fogo, onde aprendeste
a iludir o mundo com o metal
fundente da beleza; mil rascunhos
de frases que o futuro há-de tornar
dissonantes; verdades ou mentiras
que arriscaste escrever num pueril
jogo de azar; rastilhos que ateaste
em nome da euforia descartável
que foi sempre o desejo;
e, claro, o teu último bilhete
de identidade com o número
5332953.
Objectos, apenas objectos
desses a que por hábito chamamos
«pessoais»
- matéria talvez útil para algum
ocioso biógrafo; objectos,
será tudo o que alguém
recordará que um dia foste enquanto
duraste neste corpo – tudo isso
alguém um dia levará de ti
para onde?
Os garotos dos jornais são as gargalhadas da cidade. Lisboa ri nos seus pregões. Eles são tão precisos no Rocio, às portas dos cafés, como os pardais no Largo das Duas Egrejas, sobre as árvores… No dia em que eles desaparecessem, Lisboa deixaria de ser uma cidade alegre, deixaria de ser uma cidade em letras gordas, uma cidade em parangonas… Os próprios jornais acabariam...
o Fernando leu um excerto de um de quatro artigos publicados por Manuel Laranjeira em 1907 e 1908 no jornal "O Norte", diário republicano do Porto, com o título "O Pessimismo Nacional" , compilados em livro em 2008
(...)Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobre aguda de sombrio-pessimismo.
Decerto, numa sociedade, onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida;
num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada;
num país, onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se por si.
O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se cepticismo. E, à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida, em Portugal, parece ser cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente.
Mas porquê? (...)
O Budismo não acredita na existência de uma realidade fixa e permanente. A única verdade possível de constatar na existência é: a Constante Mudança.
Neste Mundo nada é estático. Tudo sofre mudança e alteração. A decadência é inerente a todas as coisas e a existência, não mais que um contínuo movimento de transformação.
A Vida deve ser comparada a um rio, uma série sucessiva de momentos distintos mas que se juntam e encadeiam de tal forma, que criam a ilusão de pacífica continuidade.
Tudo se move de causa em causa, de consequência em consequência, de um ponto a outro, de um estado de existência a outro, criando a ilusão de movimento que na verdade não o é. O Rio que vejo agora… não é o mesmo que vejo….. AGORA, segundos depois. São outras as gotas de água que testemunho. Assim é a Vida. Muda continuamente convertendo-se em novas realidades, de cada momento para o outro.
É uma ilusão pensar que eu sou o mesmo que se levantou à pouco daquela cadeira. Células em mim morreram e nasceram. Tal como as ondas do mar, nestes breves instantes em que me empenhei em ler as linhas anteriores, novos pensamentos e sensações nasceram e se esbateram involuntariamente na minha mente. Criaram-se e Esgotaram-se novas Energias. Lamento o desconforto de dizer-vos mas… eu… já sou outro.
A impermanência é a única verdade da nossa existência. Da nossa e da de TODAS as coisas. A única verdade. Não existem por isso coisas velhas: TUDO…, Tudo é Novo a cada instante.
Carta do Martim para a minha vó grande
No dia em que a minha avó faz 83 anos
Eu sou o Martim e sou pequenino. Tenho uma vó grande, mas a vó grande é mais pequenina que a outra vó. Eu explico: a vó Bibi é mamã da vó Lícia; avó Lícia é mamã da mamã!
Vó Bibi, ainda não disse, mas esta carta é para te dar os parabéns! Disse-me a mamã que fazes 83 anos. Eu não sei o que é fazer 83 anos. Por exemplo, eu não sei como brincavas, vó, quando já tinhas estes anos (2) como eu. Eu não sei como ias para a escola: ias de carroça, vó? ias de mula?
Tinhas bonecos, vó? Qual era a brincadeira de que gostavas mais? À macaca? Jogavas à bola? Ao pião e ao berlinde deviam ser só os meninos, não era? Eu gosto muito das escondidas!
Tinhas já uma irmãzinha, a ti Childa. Hoje já é quase do meu tamanho… mas é grande! Ainda tiveste uma mana mais nova, a ti Lisa.
Depois cresceste, explicou-me a vó Lícia. Ficaste uma mulherzinha. Ias brincar com os meninos, não era, vó?
A seguir foste trabalhar. Naquela altura as pessoas iam trabalhar muito cedo. Ajudavam muito os seus papás, davam de comer aos animais, regavam as plantas e ainda arrumavam a casa toda! Ia pá!
Ordenhavas as vacas e distribuías o leite do senhor Tomé, foste vendedora no mercado, fazias muitos turnos na fábrica das azeitonas. E que mais, vó? Tantas coisas, vó! Aprendeste muitas coisas? Também quero aprender o que tu aprendeste.
Então conheceste o vó Anibal. Viviam numa casinha já um bocadinho longe, ao pé da entrada da vila, mas era campo. Nessa casinha, cresciam animais e verduras.
Vendias as hortaliças na praça. As senhoras regateavam muito? Não usavas calculadora, pois não? Eras boa a matemática, vó!
Ena, nasceu a tua primeira filhota, a vó Lícia. Tiveste que aprender a ensinar e a ser mamã. Passaram estes anos (6), diz-se seis, não é, vó? e tiveste outra filha. Duas meninas. É a ti Té. A ti Té era mais bem comportadinha. A vó Lícia gostava de cantar ao ouvir as cassetes do Carlos Paião. A ti Té gostava de brincar na rua como os outros meninos e de andar de baloiço. Depois foste morar na mesma rua que hoje moras! Já viste? Que engraçado. Mas ainda viveste na Chão do Conde, e foi muito tempo! A mamã conta que ela e os pimos brincavam lá no quintal, para cima para baixo.
Um dia as meninas já eram meninas grandes. A vó Lícia foi viver para o Barreiro. Às vezes também eu vou para o Barreiro com ela. Casou com o vô Vitó. Era muito negociadora. Ainda é, que eu às vezes vou com ela às compras. Depois a ti Té casou com o ti Agusto. Ele tem couves e galinhas no quintal. A seguir nasceu a mamã. Era malandra e gostava de correr com os meninos. Depois foram os pimos, a Andéa e o Minelo. E eu, vó! E eu também!
Ena são tantos. São tantos a seguir a ti.
A mamã disse que as vós são segundas mamãs. Eu não sei bem o que isso quer dizer… Então quantas vezes foste mamã, vó Bibi? Que conta complicada!
São estes todos vó. Os netos, os pimos, os maridos e as mulheres, os manos e cunhados. São estes todos, vó. Ena!
Vó, vó, deixa-me dar-te um beijinho.
Um xi coração do netinho netinho, Martim
Quem quiser seguir "os escritos" do António pode fazê-lo aqui
Há tanta coisa velha por aí, no
sótão, numa ou noutra divisão da casa, na vida, na alma, no
coração … enfim, por aí …
Há tanta coisa … velha ….. por aí
!!!
umas morreram já … lá pelo passado,
nunca mais delas ouvirei falar …
outras ainda reaparecem, de quando em
vez … aos nossos olhos … outras na memória, como velhos
fantasmas sem alma, sem lugar …
Há tanta coisa velha por aí …
tantas … de ninguém … tantas … cheias de nada
umas que já nem o são …
outras … quantas(?) ainda o serão
num dia … que ainda não veio!!!
COISAS VELHAS … LÁ DO SOTÃO
Cheias de pó … demasiado
insignificantes, há muito postas de parte, abandonadas, logo
esquecidas!!! Mas … de repente despertadas … pelo imprevisto d’um
espirro!!!
Na visita ao sótão … o olhar,
habitualmente, segue lento pelas Coisas que ressuscitam lembranças
da infância, da escola, dos velhos amigos, dos pais, dos amores e
desamores ….
Fragmentos do passado escondidos entre
objetos, caixas, papéis, roupas e outras tantas coisas … que nos
embalam na máquina do tempo e nos puxam para reviver ,
São Momentos de pura psicoterapia …
são … Momentos de redescoberta ... de dor, de exorcização ….
de alegria …….
São parcelas do tempo somadas
incessantemente nas contas da nostalgia …
Afinal, não passam de Velhos objetos,
já sem funcionalidade, velhas memórias sem sentido …
Outrora úteis, vivas, importantes …
agora meras coisas largadas … subtraídas de qualquer utilidade ou
relevância sentimental.
Noutra divisão …. estão encostadas
as velhas bicicletas … pasteleiras …
Também à parede estão encostadas as
memórias dos passeios, daquela tarde em que aprendi a andar de
bicicleta numa descida …
Nesta parte da casa também está
silenciada a antiga grafonola … cuja reparação e conservação há
muito vem sido adiada …mas ainda assim, esta caixa de música
continua a despertar todo o seu encanto e fascínio que nos leva a
desejar que a contemplação possa perdurar para sempre.
No quarto, algures arrumado deve estar
o velho urso de peluche azul … com o pêlo engelhado, o pescoço já
reabilitado depois de ter sido cosido com uma linha branca e forte
que a minha mãe tinha no seu também, já por si, velho açafate de
costura!!!
São meros objetos …?
E … Porque ainda estão lá em casa?
Perante eles, somos irracionais quando
justificamos que, a eles, algo nos liga … algo nostálgico e
simbólico que não queremos apagar. Ou melhor, ainda não
conseguimos apagar. Agora não!!! Talvez um dia!!! Talvez até nos
acompanhem para sempre deambulando nas malhas deste eterno
dilema?!?!? Até, quando? Até, quem sabe, sermos, também nós …
Velhos!!!
COISAS VELHAS ….
COISAS VELHAS …. PARA RECICLAR
ÀS quais queremos dar uma vida nova …
Coisas velhas … sim!!!
Mas que continuam a fazer sentido …
coisas que, com imaginação, são presenteadas com uma nova função.
E … magicamente, ganham uma nova
graça, uma nova força!!!
Decidimos afinal … que merecem
continuar-nos a acompanhar vida fora!!!
COISAS VELHAS … GUARDADAS COM ESTIMA
Velhas Fotografias a preto e preto,
amareladas, algumas um pouco estragadas …
Velhos retratos d’uma vida que
continua …
mas que reclama a presença destes
pedaços do passado para poder sobreviver.
Um passado, testemunha fiel da minha
origem, do meu crescimento, dos meus sonhos, entretanto desvanecidos,
mas também daqueles que ainda ambicionam desenhar-se na realidade.
Velhos retratos d’uma vida que
continua …
De momentos guardados, arrumados,
perpetuados … que podemos reviver sempre que nos apetece recuar …
são daqueles momentos especiais em que
sentimos, genuinamente, que mais delicioso que avançar … é ir ao
encontro do passado … fugir para trás do presente …
São tantos, inúmeros … os momentos,
as pessoas, os sentimentos, os olhares…
São “Coisas Velhas”!!!
Já quase esquecidas no pensamento, há
muito desalojadas do coração, mas cujo testemunho material teima e
consegue renascer ou, de alguma forma, perpetuar a sua memória …
Cartas cheias de histórias, saudades,
desânimos, desabafos, partilhas, paixões ingénuas, inocentes,
cheias de emoção, descoberta …
Imagens, Cartas, palavras antigas,
sentimentos passados .... para sempre guardados!!!
Imagens, cartas e outras coisas mais
que agora não me lembro … mas que, quanto mais o tempo, por elas,
passa … mais especiais se tornam para nós …
ENTRE TANTA COISA VELHA, TAMBÉM AS HÁ…
AS COISAS VELHAS … DO CORAÇÃO !!!
As boas e … as outras!!!
Sentimentos que nunca se apagam por
mais veloz que o tempo passe!!!
Por mais que a distância se
multiplique … estão ligados, conectados a Momentos marcantes …
inesquecíveis …
A verdade é que, até pode ter mudado
tudo à nossa volta, tudo pode ser novo(?) … mas as coisas velhas
são como o novo caminho que aqui me permitiu chegar!!!
Tenho na parede do meu quarto um chapéu.
É um daqueles chapéus de coco de feltro preto.
Dizem que é feio.
E a mim o que me importa que o meu chapéu seja feio?
Claro que não me importo! E além disso gosto dele.
E gosto dele porque posso dizer “o meu chapéu” e não “o chapéu do vizinho do lado!"
Gosto de lhe chamar “meu”, talvez porque é preto e dizem que é feio.
Gosto de lhe fazer festas e de conversar com ele, talvez porque é mais velho do que eu e não tem amigos...
A sua forma arredondada faz-me lembrar um ovo.
Aqui há dias peguei no chapéu e no ovo e comparei-os: o feitio era realmente parecido, mas a cor... a cor era diferente, um era branco e útil, o outro era preto e feio.
Resolvi abandonar o ovo e continuar a ser amiga do chapéu preto, além de ser muito mais feio e inútil do que o ovo...
Mas fiquei com o chapéu pela simples razão de não o poder comer ao almoço junto com um punhado de batatas fritas!
a Carmen fez parte do CLeVA 2.0 e vai estar esta sexta-feira, na Biblioteca do Montijo, para nos falar deste seu livro.
Alguns membros do clube vão dar uma ajuda na leitura.
Estão todos convidados
Ainda antes de entrar no tema, experimentámos ler... sem voz.
Apenas com a imagem do nosso corpo tentámos contar uma história.
Fizemos alguns exercícios que nos permitem ir ganhando consciência da imagem que o nosso corpo produz e das leituras que suscita nos outros.
(...) Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...(...)
Estendias-te diante de meus olhos, país de dunas - ocres, claras. O vento, em busca de água, se deteve, país de fontes e palpitações. Vasta como a noite, cabias na cova da minha mão.
Depois, o despenhar-se imóvel dentro fora de nós mesmos. Comi trevas com os olhos, bebi água do tempo, bebi noite. Toquei, então, o corpo da música ouvida com as pontas dos dedos.
Juntos, barcas obscuras à sombra amarradas, os nossos corpos estendidos. As almas, soltas, lâmpadas navegantes na água nocturna.
Por fim, abriste os olhos. Vias-te vista por meus olhos, e na minha vista te vias: como o fruto na erva, como a pedra no tanque, em ti mesma caías.
Dentro de mim subia uma maré, e, com punho impalpável, golpeava-te a porta das pálpebras: a morte minha, que te queria conhecer, a minha morte, que se queria conhecer. No teu olhar me enterrei.
Fluem pelas planícies da noite os nossos corpos: são tempo que finda, presença num abraço dissipada; porém, são infinitos, e, ao tocá-los, banhamo-nos num rio de pulsações, voltamos ao perpétuo recomeço.
A Elisabeth foi-se embora
(com algumas coisas de Anne Sexton)
Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida
Só em 1993 é que a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença, passando a ser uma condição da personalidade humana.
A aceitação de casais homossexuais masculinos sempre foi maior. Mas mais importante que procurar possíveis causas, é fazer com que a sociedade compreenda que a homossexualidade em si não é um mal e que o problema está na solidão, na exclusão e na marginalidade que ela provoca, nessas pessoas, pelo preconceito.
Para melhor compreender o conceito …
A expressão lesbianismo deriva de Lesbos, ilha grega que tinha como chefe uma poetisa de nome Safo. Esta musa escreveu versos que contam livremente o amor entre mulheres e, seus amores e paixões por sua companheiras ( seis séculos atrás). Daí os nomes safismo, sáfico, safista e lesbismo, lesbianismo, lesbiana, lésbica.
Lílian Federmam (1981) define o amor sáfico: “O lesbianismo descreve uma relação na qual duas mulheres trocam fortes emoções e afetos entre si. O contato sexual pode ser parte dessa relação num maior ou menor grau, ou pode estar inteiramente ausente”. Nesta mesma perspectiva, o “Grupo de Luta pela Libertação Lesbiana” de Barcelona (1981) acrescentou: “A lésbica não persegue o prazer sexual como finalidade única na relação com a companheira. Seu objetivo não é tanto o sexo, senão a busca de níveis profundos de comunicação, esferas de ternura, carinho e delicadeza. A essência do amor lésbico é a pura sensibilidade. Poder-se-ia dizer que a lesbiana sexualiza a amizade, pois a relação sexual nasce de um sentimento profundo que tem sua base no amor.”
Charlote Wolff definiu bem este conceito no seu livro – Amor entre mulheres – “...não é o homossexualismo, mas o homoemocionalismo, que constitui o centro e a própria essência do amor das mulheres entre si.”
Excertos do texto “Homossexualidade Feminina”da autoria da Dra. Sylvia Faria Marzano - Diretora do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Pscicossomática no Brasil
O Amor existe entre os seres, é universal, não tem limites de idade, sexo, raça, religião ou outras condicionantes.
O amor é … quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.
O amor acontece quando podemos expor o nosso coração a nu.
O amor … nunca acabará.
Adília Silva
Luís
leu-nos uma sinopse da série de televisão "a letra L"
O livro do dia:
A Ana Perinhas, que deveria apresentar esta rubrica, saiu do CLeVA. Logo duas pessoas se prepararam para a substituir: a Cristina e a Graciete.
Acabou por ser apresentado o livro que a Cristina levou, já que o texto escolhido também tinha a ver com o tema de sessão.
Há muitos anos, li um livro do Hemingway de que não gostei nada. Quando comentava isso com uma amiga, a Ana Saragoça*, ela disse-me, que eu tinha pegado mal neste autor, não deveria ter começado por ali (acho que era o Verdes Colinas de África). O livro indicado para começar era este: Por quem os sinos dobram. Desde essa altura até agora, nunca mais o larguei, já usámos na Andante excertos desta obra em dois espectáculos. E a Maria, a personagem que entra no nosso Às escuras, o amor, continua a acompanhar-me.
Cristina Paiva
* e já agora aconselho vivamente a leitura do primeiro romance desta minha amiga, Todos os dias são meus
Sugestão:
A revista LER tem na edição deste mês, uma crónica de Eduardo Pitta (Heterodoxias- Pessoas como nós) sobre alguns escritores homossexuais famosos e o modo como isso influenciou a sua escrita.
Uma outra crónica, a de José Eduardo Agualusa (Os meus personagens - O triunfo da ficção) aborda um outro assunto de que também temos falado aqui. A autoria dos textos que circulam na internet.
A sessão de hoje começou... pela sessão anterior.
Explicando: por falta de tempo na sessão de 5 de Junho, não se chegou a fazer o trabalho de grupo proposto pela Cristina.
Assim, começámos por aí: com poemas de Miguel Torga sobre o tema AVENTURA, a Cristina propôs que em 5 minutos (contados com cronómetro e marcados com apito), cada grupo preparasse uma leitura aventureira. E foi assim que ouvimos os poemas de Torga de formas inesperadas: com saltos, com gritos, em redondo, em fila indiana e até houve quem gaguejasse. Aventuras!
Os poemas:
Ariane
Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades…
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades…
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.
Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.
Ana Perinhas, Graciete, Ana Brandão, Fernanda
Repto
Aceito o desafio.
Que poeta se nega
A um aceno do acaso?
Tenho o prazo
Acabando,
O que vier é ganho.
Na lonjura
Da última aventura
É que a alma revela o seu tamanho.
Extremo Oriente da inquietação
Lá vou!
A quê, não sei,
Mas lá descobrirei
Que razão me levou.
Lá, onde tanto que me precederam,
Se perderam,
E aprenderam, na perdição
Que só é verdadeiro português
Quem, um dia, a negar a humana pequenez,
Se inventa e se procura
Nas brumas do mar largo e da loucura.
Nazaré, Eugénia, Conceição, Manuel
Ícaro III
O sol do sonho derreteu-lhe as asas
E caiu lá do céu onde voava
Ao rés-do-chão da vida
A um mar sem ondas onde navegava
A paz rasteira nunca desmentida…
Mas ainda dorida
No seio sedativo da planura,
A alma já lhe pede, impenitente,
A graça urgente
De uma nova aventura.
(sem foto)
João, Isabel, Fernando, Luís, Adília, José Luís
Sísifo
Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Helena Barros, Cristina Alves, Ana Paula, Paula, Antónia
Confiança
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura…
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova…
Cíntia, Anabela, António, Alexandra
de seguida o Fernando apresentou o livro do dia:
onde importa sobremaneira não confundir
género humano com Manuel Germano
Em 1982, o escritor português Mário de Carvalho publica Casos do Beco das Sardinheiras, antologia orgânica composta por onze casos, emoldurados por um “Prólogo” – aparece como “Intróito” na primeira edição (Lisboa: Contra-Regra, 1982) – e um “Epílogo” (Lisboa: Caminho, 1991).
O Beco das Sardinheiras é um Beco como outro qualquer, encafuado na parte velha de Lisboa. Uns dizem que é de Alfama, outros que é já de Mouraria e sustentam as suas opiniões com sólidos argumentos topográficos, abonados pela doutrina de olissiponenses egrégios. Eu, por mim, não me pronuncio. Tenho ideia de que é mais Alfama, mas não ficaria muito escarmentado se me provassem que afinal é Mouraria. Creio que o nome lhe vem das sardinheiras que exibem um carmesim vistoso durante todo o ano, plantadas num canteiro que rompe logo à esquina, não longe da drogaria que já fica na Rua dos Eléctricos.
A gente que habita o Beco é como a demais, nem boa nem má. Tem sobre os outros lisboetas um apego ainda maior ao seu sítio e às suas coisas. Desde há muito que não há memória de que algum dos do Beco tenha emigrado de livre vontade.
A apresentação do livro foi feita com a leitura de um excerto de 3 minutos deste conto:
O tombo da Lua
Uma ocasião, quando desapareceu a Lua, eu estava lá e sei contar tudo. Não me lembro da idade que então tinha e já na altura me não lembrava. Certo é que a noite estava muito quente e repassada de azul, assim de tinta — sói dizer-se — e a Lua tinha-se quieta, redonda e branca, brilhante como lhe competia. Provavelmente, o Zé Metade cantava o fado, postado à soleira da porta, enquanto acabava um saquitel de tremoços. O Zé Metade é assim chamado desde que lhe aconteceu aquela infelicidade: quis separar o Manecas Canteiro do Mota Cavaleiro quando eles se envolveram à facada na Esquina dos Eléctricos, por causa de uma questão, segundo uns política, segundo outros de saias. Ambos usavam grandes navalhas sevilhanas e o Zé caiu-lhes mesmo a meio dos volteios. Ali ficou cortado em dois, sem conserto, busto para um lado, o resto para outro. Daí para diante ficou conhecido por Zé Metade, arrasta-se num caixote de madeira com rodinhas e deu-lhe para cantar todas as noites um fado melancólico e muito sentido: Ai a profunda desgraça/ Em que me viste ó'nha mãiiii...
Pois nesta altura, com tudo assim quieto e a fazer olho para dormir, que o Andrade da Mula se chegou à janela e disse: «lá a calari...» e depois remirou em volta a ver se alguém lhe ligava, o que não aconteceu.
Após, olhou para o céu e bocejou um destes bocejos do tamanho duma casa, escancarando muito a bocarra que era considerada uma das mais competitivas da zona oriental. E então aconteceu aquilo da Lua.
Deslocou-se um bocadinho, assim como quem se desequilibrou, entrou a descer devagar, ressaltou numa ponta de nuvem que por ali pairava feita parva, e foi enfiar-se inteirinha na boca do Andrade que só fez «gulp» e esbugalhou os olhos muito. No sítio da Lua, lá no astro, ficou um vinco esbranquiçado como dobra em papel de seda que logo se apagou e o céu tornou-se bem liso e escorreito. O Beco ficou um tudo-nada mais escuro e um gato passou a correr, pardo, da cor dos outros. Diz o Zé Metade, no fim duma estrofe:
— Ina cum caraças!
Vai o Andrade lá de cima e atira o maior arroto que jamais se ouviu naquele Beco.
Era o Zé Metade a berrar para dentro: «'nhã mãe, venha cá, senhora, co Andrade engoliu a Lua!» e o Andrade a olhar para nós, limpando a boca com as costas da mão, um ar azamboado.
Seguiu-se o alvoroço costumeiro sempre que havia novidade. Ia um corrupio de pessoal na rua a falar alto e um ror de gente em casa do Andrade que estava sentado numa cadeira, pernas muito afastadas, pedindo muita água e queixando-se de que sentia a barriga um bocado pesada.
— Ele não teve culpa, tadinho, que ela é que se lhe veio enfiar pela boca dentro — comentava a mulher do Andrade, torcendo a ponta do avental.
— Mas se foi ele que a desafiou... — gritava a mãe do Zé dando punhadas de uma mão na palma da outra.
— Pôr-se ali na janela aos bocejos, olha a farronca! Agora vem esta a querer baralhar género humano com Manuel Germano. O meu Zé viu tudo, óvistes?
Não tardou, estava o presidente da Junta, muito hirto, no seu casaco de pijama com flores:
— Isto o meu amigo o que fazia melhor era regurgitar a Lua. ou o Beco ainda fica malvisto — observou com gravidade e voz de papo.
E o Andrade, moita, ali embasbacado, com os olhos no vago.
Deram-lhe azeite para o homem vomitar, mas nada. Limitou-se a produzir uns sons equívocos e a esboçar um ar de enjoada repugnância.
— O pior é que se ela sai pelo outro lado nos parte a sanita nova — abespinhava-se a filha do Andrade, toda de mão na anca. — Que coisa mais escanifobética...
— É levarem-no já para o hospital — gritava o Zé Metade da rua, ansioso por se ver acompanhado na sua desgraça de vítima do escalpelo cirúrgico.
Mas o presidente da Junta considerou: então e depois a Lua onde é que a punham? Quem lhes garantia que ela voltava ao sítio? E se os médicos quisessem ficar com ela lá no hospital e a prantassem dentro dum frasco com álcool? Que é que aquela gente ganhava com isso? Hã? E em faltando a Lua, quais eram os inconvenientes? Hã?
— Acabam-se as marés — disse o Paulinho Marujo.
— Coisa de pouca monta — afirmou uma mulher. — As marés nunca deram de comer a ninguém. E quanto à luz, depois da electricidade...
— Então como é que o amigo se sente? — perguntava o presidente ao Andrade.
— Menos mal, muito obrigado. Vai um pedacinho melhor...
— Então ficamos antes assim — recomendou o presidente. — Vossemecê agora toma um bicarbonatozinho, um leitinho, e ala para a cama que amanhã é dia de trabalho. E vocês todos, andor, para casa, em ordem, e não se pensa mais em tal semelhante!
E assim foram fazendo, aos poucos e poucos.
No dia seguinte, a Humanidade toda estranhou muito o desaparecimento da Lua e deu-se a grandes especulações.
Era com algum orgulho que a população do Beco via passar o Andrade. Sempre gaiateiro, apenas um pouco mais gordo.
Mário de Carvalho in Casos do Beco das Sardinheiras
Ed. Caminho
De seguida começámos as leituras alusivas ao tema da sessão:
Cristina Armário de especiarias e ervas aromáticas
A alcachofra
de terno coração,
vestiu-se de guerreiro,
ereta, construiu
uma pequena cúpula,
se manteve
impermeável sob suas escamas,
do seu lado
os vegetais loucos
encresparam-se,
fizeram-se juncos
bulbos comovedores,
no subsolo
dormiu a cenoura
de bigodes vermelhos,
o vinhedo
ressecou os sarmentos
por onde sobe o vinho,
o alface
dedicou-se a experimentar saias,
o orégano
a perfumar o mundo,
e a doce alcachofra
ali na horta,
vestida de guerreiro,
brilhosa
como uma granada,
orgulhosa,
e um dia
uma com outra
em grandes cestos
de vime, caminhou
pelo mercado
a realizar o seu sonho:
a milícia.
Em fileiras
nunca foi tão marcial
como na feira,
os homens
entre legumes
com suas camisas brancas
eram
mariscais
das alcachofras,
as filas apertadas,
as vozes de comando,
e a detonação
de um caixote que cai,
mas
então vem
Maria
com seu cesto
escolhe
uma alcachofra,
não lhe teme,
a examina,
a observa
contra a luz
como se fosse um ovo,
a compra,
a confunde na sua bolsa
com um par de sapatos,
com um repolho e uma
garrafa
de vinagre
até
que entrando na cozinha
a submerge na panela.
Assim termina
em paz
esta ocupação
de vegetal armado
que se chama alcachofra,
logo
escama por escama
desvestimos
a delícia
e comemos a pacífica pasta
do seu coração verde.