Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


2012.09.22 - Fábulas



a Cristina começou por ler um poema inédito, escrito recentemente na residência literária da Foz do Cobrão, inserida no evento "Poesia, um dia" da Biblioteca Municipal José Baptista Martins de Vila Velha de Ródão, da autoria
de Jaime Rocha, Margarida Vale de Gato e José Mário Silva.

Poema Ingénuo comprometido
15 se setembro 2012

O que é um país à procura de futuro?
Coitado de um país que procura um futuro
e só encontra muros e cinza.

Um país sem luz, sem geografia,
com uma mágoa metida no tronco.
Um país doente que rói os ossos
e bebe água por um tubo pequeno.
Um país invadido por um deserto,
sem palavras, um país final.

O que é um país à procura de futuro?
Um país que se levanta inteiro
numa tarde quente.



a Helena e Eugénia leram "Assembleia dos Ratos" de Esopo

a Antónia leu  a versão de Bocage da "A cigarra e a formiga" de La Fontaine

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o Verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
pois tinha riqueza e brio,
Algum grão com que manter-se
'Té voltar o aceso Estio.

- Amiga - diz a cigarra -,
Prometo, a fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
- No Verão em que lidavas? -
À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: - eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
- oh! Bravo! - torna a formiga. -
Cantavas? Pois dança agora!


a Cristina leu "Velha fábula em bossa nova" de Alexandre O´Neill

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

(- Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)



a Fernanda, a Cristina, a Graciete e a Helena, leram "Aos Poetas" de Miguel Torga


Somos nós
As humanas cigarras.
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos…
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar…

Somos nós e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem mas ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.

E vos digo e conjuro que canteis,
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.

Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.

Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.


a Ana leu o "Canguru marinheiro" de autor desconhecido


a Ana Maria leu-nos um excerto do livro "Alice no país da alimentação" de Nuno Cardoso Dias, que vai ser publicado pela Associação de diabéticos de S. Miguel e Sta Maria


a Isabel leu "O carvalho e o caniço" de La Fontaine


a Helena leu um excerto de "Fernão Capelo Gaivota" de Richard Bach


a Adília leu "O rato do campo e o rato da cidade" de Esopo
O rato da cidade e o do campo.

Um rato que morava na cidade, foi dar um passeio ao campo. Recebeu‐o um amigo que o levou para os seus palácios subterrâneos, e deu‐lhe um banquete de ervas e raízes. Maldizendo em presença de tais iguarias a louca lembrança do seu rústico passeio, o rato da cidade, obrigado a jejuar, disse por fim:
"Amigo, tenho dó de ti; como te podes resignar a semelhante vida? vem comigo para a cidade, verás o que é fartura, o que é viver. O outro aceitou. À noitinha estavam ambos numa bela e rica residência, com uma rica dispensa; queijos, lombos, o perfumado toucinho, tudo os incitava; desforrando ‐se de sua longa dieta, o rato do campo regalava‐se. De súbito range a porta, entra o despenseiro: vem com ele dois gatos.
O rato da casa achou logo o seu buraco; o hóspede, ‐ sobressaltado, pulando de prateleira em prateleira, mal escapou com a vida, e despedindo‐se do amigo: "Adeus,
camarada, disse, ficai‐vos com as vossas farturas; mais vale magro e faminto no mato, do que gordo na boca do gato.

MORAL DA HISTÓRIA.
‐ Sem sossego e paz de espírito de que valem os outros bens?

o António leu excertos de "A cozinha canibal" de Roland Topor


o Fernando leu "O imperador Ho Sin" de Woody Allen

O imperador Ho Sin teve um sonho em que contemplava um palácio maior que o seu e cuja renda era metade da sua. Ao atravessar os portais do edifício, Ho Sin verificou subitamente que o seu corpo voltava a ser jovem, embora a cabeça permanecesse entre os sessenta e cinco e os setenta anos. Ao abrir uma porta, deu com outra porta, que dava para outra; em breve se deu conta de que tinha cruzado cem portas e que se encontrava agora num pátio das traseiras.
Quando Ho Sin já se sentia no limiar do desespero, um rouxinol pousou-lhe no ombro e cantou a mais bela canção que lhe fora dado ouvir e depois bicou-lhe no nariz. Escarmentado, Ho Sin viu-se a um espelho e, em vez de contemplar o seu próprio reflexo, viu um homem chamado Mendel Goldblatt, que trabalhava na Fábrica de Bombas Wasserman, que o acusou de lhe ter roubado o sobretudo.
Graças a isto, Ho Sin descobriu o segredo da vida, que era «Nunca cantes melodias tirolesas».


a Alexandra leu "A menina do capuchinho vermelho" de Roald Dahl de Histórias em versos para meninos perversos

«Como estou farto de fazer de bobo!»
Disse, cheio de fome, o senhor lobo.
«Há quatro dias que não trinco osso,
A avozinha vai ser o meu almoço.»
Quando a avozinha lhe abriu a porta
Com o susto tremeu e, meia morta,
Fitou aqueles dentes a brilhar.
«Ai, que o malvado me quer devorar!»
A pobre senhora tinha razão
Porque ele a comeu com sofreguidão.
A avozinha era pequena e dura,
O almoço não foi uma fartura.
«Ai, estou com uma fome aterradora,
Pronto para comer outra senhora.»
Foi procurar petiscos na cozinha
Mas nada para roer o bicho tinha.
«Vou-me sentar no colchão de folhelho
À espera do Capuchinho Vermelho.»
Disse o lobo enquanto se vestia
Com as roupas que por ali havia.
Saia de seda, botas de verniz,
Chapéu de veludo foi o que quis.
Escovou o pelo, as garras pintou,
Bem disfarçado assim se sentou.
Um pouco depois, em passo apressado,
A moça chegou, toda de encarnado.
«Ó minha avozinha, quero saber,
As tuas orelhas estão a crescer?»
«Sim, minha neta, para melhor te ouvir.»
«Que grandes olhos tens, querida avó»,
Disse a menina cheia de dó.
«São para melhor te ver», disse o lobo
E pôs-se a pensar: «Não sou nenhum bobo,
Esta bela menina vou papar,
Que bom petisco para o meu jantar.
Vai saber-me que nem um pão de ló,
Não é velha nem dura como a avó.»
«Mas avozinha», disse a menina,
Tens um casaco de pele tão fina.»
«Não», disse o lobo, «Deves perguntar
Por que são meus dentes de espantar.
Bem, digas tu o que disseres
Como-te sem prato nem talheres.»
A menina sorriu. Da camisola
Sacou de imediato uma pistola
E com uma certeira pontaria
Pum, pum, pum, aquele lobo morria.
Passaram os dias, passou um mês,
Vi a menina no bosque outra vez,
Mas sem o capuz, sem capa encarnada,
Toda diferente, toda mudada.
Sorrindo me explicou: «Daquele bobo
Fiz este casaco de pele de lobo».


a Ana Paula leu "Como o sr de La Fontaine puxa as orelhas à república dos homens pondo a falar o reino dos animais" de "100 fábulas de La Fontaine" antologia de José Viale Moutinho


o nosso público leu "A lebre e a tartaruga"





entretanto fomos à procura de um trovisco

porque o Miguel tinha uma fábula para nos ler sobre esta planta
Trovisco

“O trovisco, Daphne gnidium, como muitas outras plantas, colhia-se preferencialmente na noite de S. João porque nessa noite tinha maiores poderes mágicos.
Considerava-se que seria um amuleto eficaz contra os esconjuros e acreditava-se que servia de proteção contra as bruxas.
Utilizava-se para combater as sezões que provocavam arreliadoras febres intermitentes.
Para que produzisse efeito, era imprescindível seguir um costume tradicional recolhido por Francisco Rodriguez Marín.
O alquebrado das febres procurava uma moita de trovisco e quando a encontrava, saudava-a como se tratasse de uma pessoa-
- Olá senhor Trovisco, quero-lhe dar conhecimento de que sofro de sezões e venho aqui para as deixar. De modo que já sabe!
Após saudar a planta tão cortesmente, o paciente pisava-a, golpeava-a e torcia-a. Depois afastava-se uns metros e acercava-se de novo, dizendo:
- Senhor Trovisco esta foi a primeira vez! Se as sezões não me deixarem, volto de novo e o senhor vai inteirar-se disso.
Feita a ameaça e cumprido o ritual, eis que a crença e a transmissão magnética com efeitos curativos, levavam a que o paciente ficasse supostamente curado.”

tradução de Miguel Boieiro; livre e pessoal do que vem no Diccionário de Plantas Curativas de la Península Ibérica de Enric Balasch e Yolanda Ruiz – edição Servilibro de Madrid


Terminadas as Fábulas
a Isabel leu-nos um excerto da sua sugestão para livro do dia, "Abraço" de José Luís Peixoto

e pronto
já se sabe que o ar do campo dá fome

e mesmo ao fechar do pano, fomos convidados a visitar uns inquilinos especiais do Pinhal das Areias





"Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro. Deixo-o solto, e vai para o prado, e acaricia levemente com o focinho, mal as roçando, as florinhas róseas, azuis-celestes e amarelas... Chamo-o docemente: «Platero», e ele vem até mim com um trote curto e alegre que parece rir em não sei que guizalhar ideal...Come o que lhe dou. Gosta das tangerinas, das uvas moscatéis, todas de âmbar, dos figos roxos, com sua cristalina gotita de mel... É terno e mimoso como um menino, como uma menina...; mas forte e seco como de pedra. Quando nele passo, aos domingos, pelas últimas ruelas da aldeia, os camponeses, vestidos de lavado e vagarosos, param a olhá-lo:— Tem aço...Tem aço. Aço e prata de luar, ao mesmo tempo."

Juan Ramón Jiménez
de “Platero e eu



próxima sessão - 22 setembro - sábado - 15h00

o local de encontro é na entrada norte do Pinhal das Areias
(junto ao Polo de animação ambiental do Sítio das Hortas)


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será o tema da sessão
apresentará o livro do dia

2012.09.04 - A(s) COR(es)



a Anabela leu um excerto de "O poder da mente" de Uri Geller

o António leu-nos de sua autoria

Língua encarnada

Não pinto os lábios, pinto a língua. Encarnada, vermelho sangue. Rubra. Violenta, colérica. Diz todas as coisas e lambe vários papéis.

Pinto a língua, abro os lábios para sair da minha boca as muitas encarnações da cor. Matiza-se do cinzento timidez e perfume, do amarelo amanhece, nascem rios com o verde, os dentes são pérolas da sua cor. Bebo as águas cintilantes, mergulho no branco. Venho à tona num barco bocal, agarro-me aos lábios, debato-me com a língua e reescrevo. Marco a lacre, beijo o selo e o envelope. Envio a carta num papel impecável.

Limpo a boca num punho, mas a língua não se lava. A língua é apenas presa numa ponta, músculo em forma de falo. Falo todas as mentiras, ponho-lhes cor, dou-lhes nomes, chamo-as o que calhar. Lambo os lábios escondendo o riso aqui dentro, uma caixa-surpresa, a mola da língua salta. Desperta toda uma casa, o universo dentro de um mundo, dentro de uma língua, fora do coração.

A minha língua acorda as tuas mãos, a tua pele, os teus cheiros, a cor dos teus olhos, os teus sexos. Pudesse a minha língua acordar todas as línguas.

Pudesse a língua não caber nunca, nunca numa mão. Que seja a língua bandeira e cometa e sempre se veja neste ponto minúsculo. Lamba a língua encarnada, deguste o sal, salive um céu inteiro e omisso, presa em si mesma, presa à carne da sua própria língua.

Até que a língua se me cale. Então preta. Então encarnada.

Mais textos do António podem ser lidos no seu blogue


a Conceição leu, de Florbela Espanca

Primavera

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


também de Florbela Espanca, o Manuel leu

Cravos vermelhos

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!

Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!

…Bem sei vosso segredo…Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol,

O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga…


a Cíntia leu, de Juan Ramón Jiménez

A cor da tua alma

Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.  

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!

de "Ríos que se Van"
Tradução de José Bento


a Ana Brandão leu de Wanderley Midei, As cores dos amigos


a Ana Vieira leu de Reinaldo Ferreira

Quero um cavalo de várias cores

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?


a Cristina e o Fernando leram de Russell Edson

O livro em branco

O livro estava em branco, todas as palavras tinham caído.
O marido disse-lhe, o livro está em branco.
A mulher disse, aconteceu-me uma coisa estranha a caminho do momento actual.
Eu estava a sacudir o livro, para eliminar todas as gralhas, e de súbito todas as
palavras e a pontuação também caíram. Talvez todo o livro fosse uma gralha?
E o que fizeste às palavras? disse o marido.
Embrulhei-as e mandei-as para um endereço fictício, disse ela.
Mas ninguém lá vive. Não sabes que é raro alguém viver num endereço fictício.
A realidade quase não chega para fornecer um simples endereço postal, disse ele.
É por isso que as enviei para lá. Palavras todas misturadas podem de repente
coalescer em boatos e mexericos maliciosos, disse ela.
Mas estas páginas em branco não representam também um convite perigoso a
boatos e mexericos maliciosos? Quem sabe o que alguém pode distraidamente
escrever? Quem sabe o que o acaso poderá fazer com um convite tão perigoso? disse ele.
Talvez tenhamos que nos enviar para qualquer endereço fictício, disse ela.
Será porque as palavras continuam a sair das nossas bocas, palavras que poderiam
facilmente originar boatos e mexericos maliciosos? disse ele.

de O Túnel
Assírio & Alvim


a Ana Paula leu-nos de Hervé Tullet, Um livro


o Miguel leu-nos de sua autoria

As cores

Amigos, críticos e detratores de todas as cores, fartos das minhas croniquetas verdes, vêm insistindo para que escreva antes sobre as experiências de âmbito social que acumulei ao longo da minha terrena existência.
Perante a negritude que o futuro próximo, e quiçá o longínquo, parece prenunciar, é irrecusavelmente aliciante, voltar atrás para caracterizar a vida com as cores que ela se apresentava há volta de sessenta anos. Em simultâneo, será uma pesquisa feita nas profundas do subconsciente e um exercício algo nostálgico, emocional, mas não saudosista, sobre a vida, a minha vida, entenda-se, tal como a divisava com seis anos de idade. Desculpar-me-ão os pessoalismos e as ingenuidades que forçosamente hão de aflorar nas minhas toscas descrições infantis.
Ora quando tinha seis anos e para além do que a natureza, a grande mestra, me oferecia, as únicas cores que dispunha eram o preto e o branco. O preto quando gatafunhava a lápis naqueles cadernos escolares de duas linhas para que as letras merecessem o epíteto de caligrafia. O branco, quando escrevia com uma pena de xisto nas pequenas ardósias que nós chamávamos “pedras”. Para reproduzir qualquer coisa, tinha que ser a preto e branco. Confesso, aliás, que não tinha jeito algum para o desenho. Bem tentava desenhar casas, galinhas, árvores e barcos mas saiam-me sempre imagens disformes, longe da realidade. Televisão não havia e quando apareceu, era a preto e branco. Aos domingos ia ouvir o relato da bola à taberna da tia Celeste e lá imaginava o verde do Sporting, o azul-escuro do Belenenses e o encarnado do Benfica. Do Porto, não! Só o tio Leques é que era portista. A designação “vermelha” não se usava, era conotada com a cor da capa do belzebu, com o comunismo, com a revolução e portanto, liminarmente proibida. Nos jornais, que também só eram a preto e branco, quando algum cronista mais afoito escrevia “vermelho”, logo a censura cortava e substituía por “carmesim”, “escarlate” ou “encarnado”.


a Antónia leu um excerto de "Seara Vermelha" de Jorge Amado

O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo crianças começaram  a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltara a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de água brilhavam sobre as folhas verdes das árvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranqüilidade se estendeu sobre a fazenda, as árvores, os animais e os homens.
Apenas as vozes álacres das crianças, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:

Chove, chuva chuverando
Lava a rua do meu bem...


a Cristina, a Fernanda e a Helena Barros leram, de Camilo Pessanha

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,

A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

de Clepsidra


a Alexandra leu um excerto do "Livro das sete cores" de Maria Alberta Menéres


a Helena Nogueira leu  "Como se faz cor-de-laranja" de António Torrado


a Adília leu-nos um texto da sua autoria

Uma homenagem às cores
Às emoções …
Ao calor que delas irradia…
À alegria que nos proporciona … um simples dia de sol, em que até as cores ganham vida!!!

Das fotografias a preto e branco à televisão a cores
Das flores… e das floristas… na baixa de Lisboa
Ao branco das casas alentejanas, com uma risca azul …
Da magia do nascer até ao pôr do sol …

E os significados das Cores???
O que seria da rosa encarnada… sem cor??? Que paixões despertaria?
Sem cor…como seria? … Branca? … Cinzenta? … Transparente? Existiria sequer???

E as cores em nós???
Sem cores, como seríamos???
Haveria realmente diferença entre brancos e pretos?
Como saberíamos que alguém estava apaixonado se ficasse corado ou corada quando passa alguém … especial?!?!?!?
A cor domina!!! Arrasa alguém que tenta conquistar aquela mulher com os lábios e as unhas pintadas de fogo!!!
E a inveja saudável causada pelos amigos que regressam das férias com um belo tom moreno…
E os teus olhos??? Fechem os olhos e imaginem as cores na música … dos teus olhos …a música que fala dos olhos verdes e do ciúme!!!
A cor dos olhos…
Que cores veem os olhos?
As mesmas cores que vemos hoje, amanhã podem estar diferentes … mais pálidas, mais secas ou, pelo contrário, com mais vida e mais resplandecentes que nunca!!!

Sabiam que as cores também dançam com os sabores???
Este verão perdi-me com os pêssegos amarelos … aqueles de roer, sabem??? E quanto mais alaranjados eram mais despertavam o apetite!!
A cor também é arte…beleza… a cor é amiga…
A simples cor da manga dá-me tranquilidade… é harmoniosa …
Não é também o que sentimos quando vemos no campo os lençóis brancos estendidos nos quintais, ao sabor do vento, rodeados pela relva ou por um jardim cheio de flores … e cores???!!!

Mas ainda deambulando pelos sabores…
Não ficam com água na boca ao pensar no amarelo da baunilha a contrastar com o doce de morango caseiro???
Ou se preferirem … algo salgado…
A cor salmão … do salmão!!! Bem acompanhado com uma rodela de limão…amarela!!!

Nunca contemplaram uma bancada do mercado de frutas e legumes pincelada com mil cores?
Imaginem uma tela com laranjas … uma fatia de melancia preta … melão verde … couve flor … brócolos … morangos … cebolas … pimentos, amarelos, verdes, encarnados!!! … Batatas com peles de várias cores!!! Cores com vários tons!!!

Ai … os sabores… que nos provocam …. as cores!!!
Hummm de morango … baunilha… tutifruti…
Delicioso não é?
Mas … quem ansiaria por um gelado ou uma gelatina  de morango, ou tutifruti sem cor???
E a salada de fruta? E a salada russa?
Se não tivessem cor ... não tinham graça nenhuma!!! E decerto também não faziam crescer água na boca!!!
Vamos, com os olhos, comer cores??? Que tal um arroz doce bem fresquinho, branco … de leite!!! Ou, com ovos que gentilmente oferecem um suave tom amarelado ao nosso desejo???!!!

E as estações do ano?
Não se distinguem elas próprias também pela cor???
Na primavera… a rosa desperta…cor de rosa!!!
No verão …
Como seria o céu e o mar, se não existisse a cor azul?
É tão bom sonhar com o azul do mar…
Com os diferentes tons de azul na água do mar … na praia da Comporta!!!
Apetece-me recordar também a areia dourada da praia de Porto Santo…
Lembram-se das noites de Agosto???
Da água transparente na noite escura onde apenas reina uma lua cheia… branca ou amarelada!!!
E no outono???
As cores mudam … alguns dias vão estar cinzentos e frios … a noite regressa mais cedo, acompanhada pela escuridão, pelo vento … esse vadio sem cor!!!
Mas o Outono também tem outras cores bem mais interessantes e saborosas como as castanhas quentinhas … castanhas!!!
No inverno …
Se chover e fizer sol…algures vai acontecer uma magia indescritível …

Sabem qual é a magia???

É a do … arco-íris!!!



e no final tivemos boleima


próxima sessão - 4 setembro 2012

será o tema da próxima sessão
apresentará o livro do dia

Aconselhamos vivamente!

Ontem, fomos com o Clube de Leitura em Voz Alta de Alcochete até Cabo Verde, perdão, até ao Poço do Bispo. Viemos encantados. Ainda não viram? Só até dia 29 deste mês.


2012.07.24 - Coisas velhas




Com o tema de hoje, Coisas Velhas, começámos por ouvir as palavras ditas em voz alta por pessoas que marcaram esta área. Ouvimos os seus estilos, os seus timbres, as suas opções sobre os textos e apreciámos o talento de vozes poderosas que nos marcaram a todos.


Entrou um pobre e pediu (excerto) - Joaquim Paulino Paixão





CD- No paraíso real - Tradição, revolta e utopia no sul de Portugal








Cântico Negro (excerto) - José Régio


CD - José Régio por José Régio





Ternura - David Mourão-Ferreira


CD - Um monumento de palavras




Livro de horas - Miguel Torga


CD - Miguel Torga 80 Poemas




Trova do Vento que passa (excerto) - Manuel Alegre

foto: Geraldo Santos
















CD - Manuel Alegre com Carlos Paredes



Três retratos à la minuta (excerto) - O burguês - Ary dos Santos


CD - Ary 80



Sermão de S. António aos peixes (excerto)
Padre António Vieira por Ary dos Santos

pintura de J. Benlliure

















CD - Sermão de Santo António aos peixes - Textos ditos por Ary dos Santos




Balada da neve (excerto) - Augusto Gil


CD - João Villaret - O melhor dos melhores



Manifesto anti Dantas(excerto)- Almada Negreiros por Mário Viegas





CD - Mário Viegas no centenário de Almada Negreiros - Manifesto anti Dantas









hoje tivemos um clube mais reduzido, já com muitos elementos de férias



de seguida experimentámos um exercício que fazia parte da disciplina antiga A ARTE DE DIZER:
de um só fôlego e articulando o melhor possível, repetir o maior número de vezes que se consiga, a primeira estrofe do canto I dos Lusíadas







o António fez-nos a sua sugestão de livro do dia:
Jerusalém de Gonçalo M. Tavares




e finalmente passámos às leitura do tema da sessão:

a Cristina, a Fernanda, a Graciete e a Helena, "arrasaram" com a sua versão de O calhambeque de Roberto Carlos




o Miguel também nos trouxe um texto de sua autoria...  mas estava sem voz.
O seu texto foi lido pela sua porta voz, Manuela.

Velhos remédios de Miguel Boieiro

Ontem, segunda-feira, ciceronei um amigo de terras distantes que veio a Lisboa. Queria apresentar-lhe alguns dos museus da nossa capital. Gosto muito de museus porque eles estão recheados de coisas “velhas” que fazem a ponte para as coisas “novas” do nosso quotidiano consumista. Elas ajudam-nos a compreender como evoluímos e, em certos casos, como involuímos.
Mas, desgraçado de mim! Às segundas-feiras todos os museus estão encerrados. Todos não! Há um que permanece aberto! É o Museu da Farmácia, situado junto do Miradouro de Santa Catarina, guardado pelo Mostrengo, o terrível Adamastor.
Beneficiando do desconto concedido aos seniores, entrámos. Só os dois. Não havia mais visitantes. Calmamente, deambulámos pelos dois pisos que ostentavam milhares de velhos artefactos com que outrora se tratava da saúde às criaturas de Deus.
A pretexto de protelar a morte, os humanos inventaram remédios, criaram supersticiosas crenças e incutiram nos doentes o otimismo das curas. Numa escassa hora, que foi quanto demorou a visita, viajámos milhares de anos, desde o faraónico Egipto, passando pelos aztecas, maias, tibetanos, chineses, hindus, gregos e romanos, até chegarmos ao século XIX, início da revolução laboratorial com a chamada química de síntese. Vimos o nascer da farmacopeia industrial que deu origem às grandes multinacionais que hoje “cuidam” da nossa saúde. Entretanto, ficaram na nossa retina aqueles objetos antigos que hoje já não se usam: pós dentífricos, rebuçados peitorais, biberões, tira-leites, cremes banha-da-cobra, potes para unguentos, albarelos, frascos piriformes e prismáticos, boiões ovoides, preservativos de pele de porco, vasos de botica esmaltados com curiosas decorações, bacias para sangrias, açucareiros (o açúcar era um remédio, sabiam?), caixinhas com cremes de embelezar e esconder a velhice, vasilhas para o pó de corno do unicórnio, irrigadores, pulverizadores, almofarizes de bronze, de mármore, de marfim, destiladores de essências, seringas para clisteres, equipamentos para o fabrico de pílulas, equipamentos para o fabrico de hóstias, autoclaves, lixiviadores, alambiques, uma enormidade de balanças, pesos e medidas para canadas, quartilhos e onças, embalagens de remédios contra as sezões, para dar vigor ao cabelo, para a fraqueza, para a tosse, o peitoral de cereja do Dr. Ayer, a água da Florida, a tintura de cânfora, as pílulas catárticas, o óleo de fígado de bacalhau, o extrato de salsaparrilha, a água oxigenada pura, o Sanogenol, poderoso tónico, o Lysine, desinfetante que não tem cheiro e tira o mau cheiro, o Depuratol, a única tábua de salvação dos sifilíticos, o Uraseptyl para dissolver o ácido úrico, o Ferro-Quinol para levantar as forças caídas, o Plasma Phosphatado para a tuberculose, o Neurinase para as neurastenias, o Salutaris, grande água purgativa, o Quinado para a falta de apetite, o Ceregumil, alimento vegetariano completo.
Uf! Valha-nos agora os grandes laboratórios que inventam doenças, inventam medicamentos, tornam a inventar, tornam a reinventar, manipulam organismos geneticamente modificados e sugerem, recomendam, prescrevem, exigem para tomar, chupar, engolir, deglutir uma panóplia de novos remédios que curam, que preservam, mas também moribundam e matam, tudo em suprema adoração do novo deus que domina o mundo: o deus dinheiro.
Abaixo as coisas velhas! Vivam as coisas novas!



a Antónia leu um texto de sua autoria

Velhos são os trapos

Coisas velhas e esquecidas encontradas no sótão e até mesmo no lixo, com um pouco de criatividade, bom gosto e vontade; já se vê, podem fazer-se coisas muito úteis e económicas e até mesmo muito belas. Chama-se a isto reciclagem.
O termo velho, pode  utilizar-se em vários contextos, até mesmo para se referir a algo que poderá ter só um dia ou até horas. Como por exemplo, quando ouvimos uma notícia que já é do nosso conhecimento, dizemos; isso para mim já é velho.
Velho em relação ao ser humano é sinal de longevidade,  sapiência, sabedoria e experiência de vida. Mas por vezes não são reconhecidos como tal e sim como um fardo para a sociedade, o que está profundamente errado.

Alcochete 14/07/2012



a Marília trouxe-nos um poema de Fernando Pinto do Amaral

Espólio

Um passaporte com alguns carimbos
de lugares inverosímeis; a primeira
caderneta escolar
com o hesitante rasto desse rosto
que tinhas aos dez anos; velhos óculos
na trégua das gavetas; os relógios
cujos ponteiros hão-de ignorar
as ciladas do tempo; alguns telefones
antigos, negros monstros
onde haverá quem oiça ainda
o som da tua voz;
cadernos, cartas, dossiers, agendas
e livros e cassetes e CDs
onde encenaste o fogo, onde aprendeste
a iludir o mundo com o metal
fundente da beleza; mil rascunhos
de frases que o futuro há-de tornar
dissonantes; verdades ou mentiras
que arriscaste escrever num pueril
jogo de azar; rastilhos que ateaste
em nome da euforia descartável
que foi sempre o desejo;
e, claro, o teu último bilhete
de identidade com o número
5332953.

Objectos, apenas objectos
desses a que por hábito chamamos
«pessoais»
- matéria talvez útil para algum
ocioso biógrafo; objectos,
será tudo o que alguém
recordará que um dia foste enquanto
duraste neste corpo – tudo isso
alguém um dia levará de ti
para onde?

Poemas escolhidos (1990 – 2007)



a Ana leu-nos dum velhinho Almanach Bertrand, "Os garotos dos jornais" de António Ferro

Os garotos dos jornais são as gargalhadas da cidade. Lisboa ri nos seus pregões. Eles são tão precisos no Rocio, às portas dos cafés, como os pardais no Largo das Duas Egrejas, sobre as árvores… No dia em que eles desaparecessem, Lisboa deixaria de ser uma cidade alegre, deixaria de ser uma cidade em letras gordas, uma cidade em parangonas… Os próprios jornais acabariam...



o Fernando leu um excerto de um de quatro artigos publicados por Manuel Laranjeira em 1907 e 1908 no jornal "O Norte", diário republicano do Porto,  com o título "O Pessimismo Nacional" , compilados em livro em 2008

(...)Diz-se que a sociedade portuguesa vai atravessando uma crise sobre aguda de sombrio-pessimismo.
Decerto, numa sociedade, onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida;
num povo, onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada;
num país, onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos – o diagnóstico impõe-se por si.
O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se cepticismo. E, à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida, em Portugal, parece ser cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente.
Mas porquê? (...)



o João leu-nos um texto de sua autoria

Tudo é novo

    O Budismo não acredita na existência de uma realidade fixa e permanente.  A única verdade possível de constatar na existência é: a Constante Mudança.
    Neste Mundo nada é estático. Tudo sofre mudança e alteração. A decadência é inerente a todas as coisas e a existência,  não mais que um contínuo movimento de transformação.
    A Vida deve ser comparada a um rio, uma série sucessiva de momentos distintos mas que se juntam e encadeiam de tal forma,  que criam a ilusão de pacífica continuidade.
    Tudo se move de causa em causa, de consequência em consequência, de um ponto a outro, de um estado de existência a outro, criando a ilusão de movimento que na verdade não o é. O Rio que vejo agora… não é o mesmo que vejo….. AGORA, segundos depois. São outras as gotas de água que testemunho.  Assim é a Vida. Muda continuamente  convertendo-se em novas realidades, de cada momento para o outro.
    É uma ilusão pensar que eu sou o mesmo que se levantou à pouco daquela cadeira. Células em mim morreram e nasceram. Tal como as ondas do mar, nestes breves instantes em que me empenhei em ler as linhas anteriores, novos pensamentos e sensações nasceram e se esbateram involuntariamente  na minha mente. Criaram-se e Esgotaram-se novas Energias. Lamento o desconforto de dizer-vos mas… eu… já sou outro.
  A impermanência é a única verdade da nossa existência. Da nossa e da de TODAS as coisas.  A única verdade.  Não existem por isso coisas velhas: TUDO…, Tudo é Novo a cada instante.



a Anabela leu-nos de sua autoria

Relato de uma aventura com coisa velha à mistura



o António leu-nos de sua autoria

Carta do Martim para a minha vó grande
No dia em que a minha avó faz 83 anos

Eu sou o Martim e sou pequenino. Tenho uma vó grande, mas a vó grande é mais pequenina que a outra vó. Eu explico: a vó Bibi é mamã da vó Lícia; avó Lícia é mamã da mamã!
Vó Bibi, ainda não disse, mas esta carta é para te dar os parabéns! Disse-me a mamã que fazes 83 anos. Eu não sei o que é fazer 83 anos. Por exemplo, eu não sei como brincavas, vó, quando já tinhas estes anos (2) como eu. Eu não sei como ias para a escola: ias de carroça, vó? ias de mula?
Tinhas bonecos, vó? Qual era a brincadeira de que gostavas mais? À macaca? Jogavas à bola? Ao pião e ao berlinde deviam ser só os meninos, não era? Eu gosto muito das escondidas!
Tinhas já uma irmãzinha, a ti Childa. Hoje já é quase do meu tamanho… mas é grande! Ainda tiveste uma mana mais nova, a ti Lisa.
Depois cresceste, explicou-me a vó Lícia. Ficaste uma mulherzinha. Ias brincar com os meninos, não era, vó?
A seguir foste trabalhar. Naquela altura as pessoas iam trabalhar muito cedo. Ajudavam muito os seus papás, davam de comer aos animais, regavam as plantas e ainda arrumavam a casa toda! Ia pá!
Ordenhavas as vacas e distribuías o leite do senhor Tomé, foste vendedora no mercado, fazias muitos turnos na fábrica das azeitonas. E que mais, vó? Tantas coisas, vó! Aprendeste muitas coisas? Também quero aprender o que tu aprendeste.
Então conheceste o vó Anibal. Viviam numa casinha já um bocadinho longe, ao pé da entrada da vila, mas era campo. Nessa casinha, cresciam animais e verduras.
Vendias as hortaliças na praça. As senhoras regateavam muito? Não usavas calculadora, pois não? Eras boa a matemática, vó!
Ena, nasceu a tua primeira filhota, a vó Lícia. Tiveste que aprender a ensinar e a ser mamã. Passaram estes anos (6), diz-se seis, não é, vó? e tiveste outra filha. Duas meninas. É a ti Té. A ti Té era mais bem comportadinha. A vó Lícia gostava de cantar ao ouvir as cassetes do Carlos Paião. A ti Té gostava de brincar na rua como os outros meninos e de andar de baloiço. Depois foste morar na mesma rua que hoje moras! Já viste? Que engraçado. Mas ainda viveste na Chão do Conde, e foi muito tempo! A mamã conta que ela e os pimos brincavam lá no quintal, para cima para baixo.
Um dia as meninas já eram meninas grandes. A vó Lícia foi viver para o Barreiro. Às vezes também eu vou para o Barreiro com ela. Casou com o vô Vitó. Era muito negociadora. Ainda é, que eu às vezes vou com ela às compras. Depois a ti Té casou com o ti Agusto. Ele tem couves e galinhas no quintal. A seguir nasceu a mamã. Era malandra e gostava de correr com os meninos. Depois foram os pimos, a Andéa e o Minelo. E eu, vó! E eu também!
Ena são tantos. São tantos a seguir a ti.
A mamã disse que as vós são segundas mamãs. Eu não sei bem o que isso quer dizer… Então quantas vezes foste mamã, vó Bibi? Que conta complicada!
São estes todos vó. Os netos, os pimos, os maridos e as mulheres, os manos e cunhados. São estes todos, vó. Ena!
Vó, vó, deixa-me dar-te um beijinho.
Um xi coração do netinho netinho, Martim

Quem quiser seguir "os escritos" do António pode fazê-lo aqui



a Adília foi ao baú das suas recordações e também nos leu um texto de sua autoria


COISAS VELHAS
Há tanta coisa velha por aí, no sótão, numa ou noutra divisão da casa, na vida, na alma, no coração … enfim, por aí …
Há tanta coisa … velha ….. por aí !!!
umas morreram já … lá pelo passado, nunca mais delas ouvirei falar …
outras ainda reaparecem, de quando em vez … aos nossos olhos … outras na memória, como velhos fantasmas sem alma, sem lugar …
Há tanta coisa velha por aí … tantas … de ninguém … tantas … cheias de nada
umas que já nem o são …
outras … quantas(?) ainda o serão num dia … que ainda não veio!!!

COISAS VELHAS … LÁ DO SOTÃO
Cheias de pó … demasiado insignificantes, há muito postas de parte, abandonadas, logo esquecidas!!! Mas … de repente despertadas … pelo imprevisto d’um espirro!!!
Na visita ao sótão … o olhar, habitualmente, segue lento pelas Coisas que ressuscitam lembranças da infância, da escola, dos velhos amigos, dos pais, dos amores e desamores ….
Fragmentos do passado escondidos entre objetos, caixas, papéis, roupas e outras tantas coisas … que nos embalam na máquina do tempo e nos puxam para reviver ,
São Momentos de pura psicoterapia … são … Momentos de redescoberta ... de dor, de exorcização …. de alegria …….
São parcelas do tempo somadas incessantemente nas contas da nostalgia …
Afinal, não passam de Velhos objetos, já sem funcionalidade, velhas memórias sem sentido …
Outrora úteis, vivas, importantes … agora meras coisas largadas … subtraídas de qualquer utilidade ou relevância sentimental.
Noutra divisão …. estão encostadas as velhas bicicletas … pasteleiras …
Também à parede estão encostadas as memórias dos passeios, daquela tarde em que aprendi a andar de bicicleta numa descida …
Nesta parte da casa também está silenciada a antiga grafonola … cuja reparação e conservação há muito vem sido adiada …mas ainda assim, esta caixa de música continua a despertar todo o seu encanto e fascínio que nos leva a desejar que a contemplação possa perdurar para sempre.
No quarto, algures arrumado deve estar o velho urso de peluche azul … com o pêlo engelhado, o pescoço já reabilitado depois de ter sido cosido com uma linha branca e forte que a minha mãe tinha no seu também, já por si, velho açafate de costura!!!
São meros objetos …?
E … Porque ainda estão lá em casa?
Perante eles, somos irracionais quando justificamos que, a eles, algo nos liga … algo nostálgico e simbólico que não queremos apagar. Ou melhor, ainda não conseguimos apagar. Agora não!!! Talvez um dia!!! Talvez até nos acompanhem para sempre deambulando nas malhas deste eterno dilema?!?!? Até, quando? Até, quem sabe, sermos, também nós … Velhos!!!

COISAS VELHAS ….
COISAS VELHAS …. PARA RECICLAR
ÀS quais queremos dar uma vida nova …
Coisas velhas … sim!!!
Mas que continuam a fazer sentido … coisas que, com imaginação, são presenteadas com uma nova função.
E … magicamente, ganham uma nova graça, uma nova força!!!
Decidimos afinal … que merecem continuar-nos a acompanhar vida fora!!!

COISAS VELHAS … GUARDADAS COM ESTIMA
Velhas Fotografias a preto e preto, amareladas, algumas um pouco estragadas …
Velhos retratos d’uma vida que continua …
mas que reclama a presença destes pedaços do passado para poder sobreviver.
Um passado, testemunha fiel da minha origem, do meu crescimento, dos meus sonhos, entretanto desvanecidos, mas também daqueles que ainda ambicionam desenhar-se na realidade.
Velhos retratos d’uma vida que continua …
De momentos guardados, arrumados, perpetuados … que podemos reviver sempre que nos apetece recuar …
são daqueles momentos especiais em que sentimos, genuinamente, que mais delicioso que avançar … é ir ao encontro do passado … fugir para trás do presente …
São tantos, inúmeros … os momentos, as pessoas, os sentimentos, os olhares…
São “Coisas Velhas”!!!
Já quase esquecidas no pensamento, há muito desalojadas do coração, mas cujo testemunho material teima e consegue renascer ou, de alguma forma, perpetuar a sua memória …
Cartas cheias de histórias, saudades, desânimos, desabafos, partilhas, paixões ingénuas, inocentes, cheias de emoção, descoberta …
Imagens, Cartas, palavras antigas, sentimentos passados .... para sempre guardados!!!
Imagens, cartas e outras coisas mais que agora não me lembro … mas que, quanto mais o tempo, por elas, passa … mais especiais se tornam para nós …

ENTRE TANTA COISA VELHA, TAMBÉM AS HÁ…
AS COISAS VELHAS … DO CORAÇÃO !!!
As boas e … as outras!!!
Sentimentos que nunca se apagam por mais veloz que o tempo passe!!!
Por mais que a distância se multiplique … estão ligados, conectados a Momentos marcantes … inesquecíveis …
A verdade é que, até pode ter mudado tudo à nossa volta, tudo pode ser novo(?) … mas as coisas velhas são como o novo caminho que aqui me permitiu chegar!!!



a Alexandra leu-nos um livro infantil bem velhinho;
"A borboleta amarela"  de Emília Duarte de Almeida



a Cíntia leu-nos um texto seu, escrito aos 15 anos

O chapéu

Tenho na parede do meu quarto um chapéu.
É um daqueles chapéus de coco de feltro preto.
Dizem que é feio.
E a mim o que me importa que o meu chapéu seja feio?
Claro que não me importo! E além disso gosto dele.
E gosto dele porque posso dizer “o meu chapéu” e não “o chapéu do vizinho do lado!"
Gosto de lhe chamar “meu”, talvez porque é preto e dizem que é feio.
Gosto de lhe fazer festas e de conversar com ele, talvez porque é mais velho do que eu e não tem amigos...
A sua forma arredondada faz-me lembrar um ovo.
Aqui há dias peguei no chapéu e no ovo e comparei-os: o feitio era realmente parecido, mas a cor... a cor era diferente, um era branco e útil, o outro era preto e feio.
Resolvi abandonar o ovo e continuar a ser amiga do chapéu preto, além de ser muito mais feio e inútil do que o ovo...
Mas fiquei com o chapéu pela simples razão de não o poder comer ao almoço junto com um punhado de batatas fritas!

Lisboa, 18/03/1986

próxima sessão - 24 julho 2012

será o tema da próxima sessão


apresentará o livro do dia

Lançamento do livro

a Carmen fez parte do CLeVA 2.0 e vai estar esta sexta-feira, na Biblioteca do Montijo, para nos falar deste seu livro.
Alguns membros do clube vão dar uma ajuda na leitura.
Estão todos convidados

voamos?

foto: Steve McCurry              clique na imagem para ver mais

2012.07.03 - Amor lésbico







Olha para mim e diz-me quem sou!

Ainda antes de entrar no tema, experimentámos ler... sem voz.
Apenas com a imagem do nosso corpo tentámos contar uma história.
Fizemos alguns exercícios que nos permitem ir ganhando consciência da imagem que o nosso corpo produz e das leituras que suscita nos outros.

missa


baile


comício


escola


casamento


Leituras:


Antónia
Excerto do artigo "Lésbica"
da Wikipédia


Eugénia, Cândida e Ana Brandão
Um amor além da amizade 
do blogue "Quarto vazio"


Ana Vieira
Presente de desaniversário
de Nuno Cardoso Dias


Isabel
excerto de Fausto
Terceiro acto

(...) Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...(...)
de Fernando Pessoa


Segredo
de Maria Teresa Horta

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

de Poesia Completa


Rita
de Octavio Paz

Regresso 

Estendias-te diante de meus olhos,
país de dunas - ocres, claras.
O vento, em busca de água, se deteve,
país de fontes e palpitações.
Vasta como a noite,
cabias na cova da minha mão.

Depois, o despenhar-se imóvel
dentro fora de nós mesmos.
Comi trevas com os olhos,
bebi água do tempo, bebi noite.
Toquei, então, o corpo da música
ouvida com as pontas dos dedos.

Juntos, barcas obscuras
à sombra amarradas,
os nossos corpos estendidos.
As almas, soltas,
lâmpadas navegantes
na água nocturna.

Por fim, abriste os olhos.
Vias-te vista por meus olhos,
e na minha vista te vias:
como o fruto na erva,
como a pedra no tanque,
em ti mesma caías.

Dentro de mim subia uma maré,
e, com punho impalpável, golpeava-te
a porta das pálpebras:
a morte minha, que te queria conhecer,
a minha morte, que se queria conhecer.
No teu olhar me enterrei.

Fluem pelas planícies da noite
os nossos corpos: são tempo que finda,
presença num abraço dissipada;
porém, são infinitos, e, ao tocá-los,
banhamo-nos num rio de pulsações,
voltamos ao perpétuo recomeço.

de Árvore Adentro


João
excerto de 4 & 1 Quarto
de Rita Ferro


Ana Paula
excerto de Os sinais do medo
de Ana Zanatti


Fernando

249

Noites Loucas — Noites Loucas!
Estivesse eu contigo
Noites Loucas seriam
Nosso luxuoso abrigo!

Para Coração em porto —
Ventos — são coisas fúteis —
Bússolas — dispensáveis —
Portulanos — inúteis!

Navegando em pleno Éden —
Ah, o Mar!
Quem dera — esta Noite — em Ti
Ancorar!

Emily Dickinson

Tradução: Paulo Henriques Britto


Fernanda, Cristina, Graciete e Helena
leram um poema de Safo, traduzido por Pedro Alvim

"De ti, Áttis, me enamorei um dia
no amor que passa
e tão criança me eras,
tão pequena,
e tão sem graça.

Enfim, cara, vieste - e bem. Com
ânsia te esperava - e muito. Que
saibas: em minha alma acendeste
um fogo que a devora."

e também Amor d'água fresca
de Rosa Lobato de Faria





no final da leitura distribuíram fruta pelas presentes


Marília
leu de Adília Lopes

A Elisabeth foi-se embora
(com algumas coisas de Anne Sexton)

Eu que já fui do pequeno-almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse   
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth?
eu só gosto que seja a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu anti-séptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me  roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida

Adília Lopes,

de Caras Baratas - antologia,
Relógio D’Água, Lisboa, 2004


a Sara acompanhou musicalmente as leituras do António, da Anabela e da Cíntia

António
excertos de O desejo
de Safo

Anabela
Excerto de O preço do sal
de Patrícia Highsmith

Cíntia
Carta para June
de Henry & June, 
do Diário Íntimo de Anaïs Nin
aqui também o link para o trailer do filme realizado por Philip Kaufman, com Fred Ward, Maria de Medeiros, e Uma Thurman


Adília
Homossexualidade feminina
Amor lésbico
Amor entre mulheres
Amor no feminino

Só em 1993 é que a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar a homossexualidade como uma doença, passando a ser uma condição da personalidade humana.

    A aceitação de casais homossexuais masculinos sempre foi maior. Mas mais importante que procurar possíveis causas, é fazer com que a sociedade compreenda que a homossexualidade em si não é um mal e que o problema está na solidão, na exclusão e na marginalidade que ela provoca, nessas pessoas, pelo preconceito.

Para melhor compreender o conceito …

    A expressão lesbianismo deriva de Lesbos, ilha grega que tinha como chefe uma poetisa de nome Safo. Esta musa escreveu versos que contam livremente o amor entre mulheres e, seus amores e paixões por sua companheiras ( seis séculos atrás). Daí os nomes safismo, sáfico, safista e lesbismo, lesbianismo, lesbiana, lésbica.

Lílian Federmam (1981) define o amor sáfico: “O lesbianismo descreve uma relação na qual duas mulheres trocam fortes emoções e afetos entre si. O contato sexual pode ser parte dessa relação num maior ou menor grau, ou pode estar inteiramente ausente”. Nesta mesma perspectiva, o “Grupo de Luta pela Libertação Lesbiana” de Barcelona (1981) acrescentou: “A lésbica não persegue o prazer sexual como finalidade única na relação com a companheira. Seu objetivo não é tanto o sexo, senão a busca de níveis profundos de comunicação, esferas de ternura, carinho e delicadeza. A essência do amor lésbico é a pura sensibilidade. Poder-se-ia dizer que a lesbiana sexualiza a amizade, pois a relação sexual nasce de um sentimento profundo que tem sua base no amor.”

Charlote Wolff definiu bem este conceito no seu livro – Amor entre mulheres – “...não é o homossexualismo, mas o homoemocionalismo, que constitui o centro e a própria essência do amor das mulheres entre si.”

Excertos do texto “Homossexualidade Feminina”da autoria da Dra. Sylvia Faria Marzano - Diretora do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Pscicossomática no Brasil

O Amor existe entre os seres, é universal, não tem limites de idade, sexo, raça, religião ou outras condicionantes.

O amor é … quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.

O amor acontece quando podemos expor o nosso coração a nu.

O amor … nunca acabará.

Adília Silva


Luís
leu-nos uma sinopse da série de televisão "a letra L"


O livro do dia:

A Ana Perinhas, que deveria apresentar esta rubrica, saiu do CLeVA. Logo duas pessoas se prepararam para a substituir: a Cristina e a Graciete.
Acabou por ser apresentado o livro que a Cristina levou, já que o texto escolhido também tinha a ver com o tema de sessão.

Por quem os sinos dobram - Ernest Hemingway



Há muitos anos, li um livro do Hemingway de que não gostei nada. Quando comentava isso com uma amiga, a Ana Saragoça*, ela disse-me, que eu tinha pegado mal neste autor, não deveria ter começado por ali (acho que era o Verdes Colinas de África). O livro indicado para começar era este: Por quem os sinos dobram. Desde essa altura até agora, nunca mais o larguei, já usámos na Andante excertos desta obra em dois espectáculos. E a Maria, a personagem que entra no nosso Às escuras, o amor, continua a acompanhar-me.
Cristina Paiva

* e já agora aconselho vivamente a leitura do primeiro romance desta minha amiga, Todos os dias são meus


Sugestão:

A revista LER tem na edição deste mês, uma crónica de Eduardo Pitta (Heterodoxias- Pessoas como nós) sobre alguns escritores homossexuais famosos e o modo como isso influenciou a sua escrita.

Uma outra crónica, a de José Eduardo Agualusa (Os meus personagens - O triunfo da ficção) aborda um outro assunto de que também temos falado aqui. A autoria dos textos que circulam na internet.

Aqui fica o blogue:  
 mas o melhor é ler a revista.


e no final da sessão, como já vem sendo hábito,

tivemos festa