Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020
O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.
Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.
mais uma iniciativa inserida na nova rubrica "sai de casa", desta vez organizada pela Isabel.
Começámos por uma visita à Cooperativa Agrícola de Sto. Isidro de Pegões.
De seguida a chuva parou para nos deixar caminhar um pouco pela freguesia e apreciar a sua arquitectura dos anos 50.
O almoço teve lugar na Sociedade Recreativa (onde pela primeira vez se falou de Urueña) e para finalizar fomos presenteados por leituras feitas por membros da Academia Sénior de Pegões.
é oficial, o CLeVA vai estrear-se nas ondas hertzianas e a primeira emissão já tem data marcada. Será no próximo dia 18 de Maio de 2013, pelas 17h00 no Fórum Cultural de Alcochete.
Povo, acorda p'rá glória
da nossa mãe e terra amada.
Leu e escreveu a vitória,
Alcochete restaurada.
És livre, és livre, portanto,
não há já que duvidar.
Haja riso cesse o pranto
e vamos todos a cantar.
Refrão
Povo irmão valente,
nobre povo e gente,
se queres morrer
herói e vencedor
abraça a união
e dá-lhe o coração,
que terás a glória e o amor.
Se mais tarde a tirania
nos quiser martirizar,
basta apenas este dia
para nos desafrontar.
E se lermos o passado
na história livro fiel,
veremos com D. Manuel
o nosso nome gravado.
Refrão
Povo irmão valente,
nobre povo e gente,
se queres morrer
herói e vencedor
abraça a união
e dá-lhe o coração,
que terás a glória e o amor.
Luís Cebola
Banda da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete
(…) No imaginário colectivo dos alcochetanos ao longo de sucessivas gerações, até mesmo nos nossos dias, paira uma imagem nítida, quase real, das festas da Restauração, da agitação e do burburinho que se viveu na época, nas imagens recriadas mentalmente em que se vêm as iluminações dos archotes, as barricas a arder e até se consegue ouvir a música a tocar o Hino da Restauração. (…)
Cíntia Mendes
(…) A população do Concelho secundou a da Vila com o mesmo entusiasmo. Chorava-se de satisfação. Chorava-se de alegria.
Nas ruas pejadas de gente, abraçavam-se uns aos outros. A filarmónica, reunida à pressa, percorreu as ruas da Vila, no meio de muito povo, de muitos vivas, de muito fogo, tocando o “Hino da Restauração”esse hino que um alcochetano compôs, (João Baptista Nunes Júnior) e que todos nós alcochetanos sabemos cantar e sentir.
Ia, enfim, soar a hora da libertação!
- Duas semanas depois, no dia 30 de Janeiro, entrava solenemente nos seus Paços Municipais, o Arquivo do Concelho de Alcochete, não trazido por um simples oficial de diligências, mas sim pelas mãos fidalgas de D. António Pereira Coutinho, o primeiro presidente do Município restaurado.- Muito propositadamente o fora buscar em pessoa a Aldegalega, o ilustre Marquês de Soydos, com D. João Pereira Coutinho, António Luís Nunes e José Francisco Evangelista.
A população inteira, acompanhada pela filarmónica, esperou, fremente de alegria e comoção, à entrada do Concelho (...) – À noite não houve edifício público, não houve casa particular, rica ou pobre, grande ou pequena, que não iluminasse a sua fachada em sinal de regozijo. – E desta forma começaram as festas da “Restauração”. (...)
(…) Grande banquete na sala nobre do Palácio Pereira Coutinho, durante o qual a filarmónica executou vários trechos musicais, e finalmente, como fecho da festa, uma imponentíssima marcha luminosa, apoteose formidável, extranha faixa de luz, melhor, de fogo, alastradora, interminável, por toda a beira-rio, onde dezenas de barricas, alcatroadas, ardiam fantàsticamente. E, para tudo haver nessa marcha rubra de calor e frenesi, nem faltaram mãos delicadas de mulheres, sustentando, gentis e orgulhosas, clássicos e portuguesissimos archotes.
Assim terminaram, exuberantes de alegria e de nobreza, as grandes Festas da Restauração, consoladora recompensa de dois anos de martírio, estupenda manifestação de uma liberdade reconquistada.
José Grilo Evangelista
Restauração do Concelho de Alcochete - Exortação aos Novos,
In: Jornal A voz de Alcochete, Nº 7, Ano I, Janeiro de 1949
E agora algo completamente diferente
A história da moral
Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.
Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.
A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!
O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;
Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões
Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!
de "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães
Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trêmulos astros,
Soidões lacustres...
_ Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.
de "Clepsidra"
a Eugénia leu um excerto de "O meu livro de música" de Chris de Sousa
A chuva chove mansamente ... como um sono
Que tranquilize, pacifique, resserene ...
A chuva chove mansamente ... Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine ...
E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono ...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono ...
... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha ...
Paço de imensos corredores espectrais,
Onde murmurem velhos órgãos árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais ...
o suporte da músicao suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas
vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência
dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando
por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.
Muito obrigado à Rosário Vivaldo que tão bem nos guiou nesta visita.
O desafio era o seguinte:
os textos terão obrigatoriamente de ser preparados em grupo
não poderão ser propositadamente escritos para o tema
deverão ser apresentados como fossem um anúncio de rádio
não poderão exceder 1 minuto
O jovem mágico das mãos de ouro
que a remar não se cansa muito
e olha muito depressa (como se fosse de moto)
veio hoje ficar a minha casa
Vivia longe longe já se sabia
tão longe que era absurdo querer determinar
metade campo metade luz
aí era a sua casa o sítio onde era longe
mesmo de olhos fechados (como ele estava)
e de braços cruzados (como parecia dormir)
o jovem mágico das mãos de ouro
que era todo de empréstimo à minha noite
que falou por acaso que nem se chamava assim
(segundo também contou) tinha vivido há muito
ele, que estava ali, era um falsário
um fugido de outro basta ver os meus olhos nada sabemos de nós a não ser que chegámos sem uma luz a esconder-nos o rosto belos e apavorados de estranhos casacos vestidos altos de meter medo às aves de longo curso nem há noites assim não há encontros ao longo das enseadas não há corpos amantes não há luzeiros de astros sob tanto silêncio tão duradoura treva e não me fales nunca eu sou surdo eu não te oiço eu vou nascer feliz numa cidade futura eu sei atravessar as fronteiras das coisas olha para as minhas mãos que te pareço agora?
No entanto surgiu como simples criança
conseguia sorrir sentar-se verter águas
com as mãos na cintura livre natural
ele que era um fantasma um fugido de outro
um que nem mesmo se chamava assim
o jovem mágico das mãos de ouro
desaparecido nu de todos os sítios da terra
Introdução (Fernanda)
Falar de magia lança-nos de imediato para os truques dos mágicos, o fazer aparecer e desaparecer coisas ou pessoas, para a envolvência própria dos castelos e das fadas, para o fantástico que nos faz imaginar e, despertar, para outras vivências, outros mundos…
Goethe disse um dia: “Seja qual for o seu sonho, comece. Ousadia tem genialidade, poder e magia”
E é esta magia que nos faz vibrar, apreciar a vida, querer mais e mais para chegar mais longe!
Nós quisemos trazer-vos a magia de coisas variadas, perspetivada de um outro modo, a magia do dia, a magia da noite, a magia existente nos fenómenos da natureza, a magia que teima em vingar dentro de nós. A Magia existe em toda a parte, basta estarmos atentos!
E revendo poetas cientistas como António Gedeão e João Barbosa, procurámos alguns desses belos poemas onde se “vê” a interseção entre a poesia, a ciência e toda a sua magia.
Para começar, vamos ouvir o poema “Noite” de João Barbosa, dito pela Cristina:
NOITE
Quando o dia se faz noite
a luz desaparece?
Apenas adormece.
Põe-se o Sol no seu poente
mas tudo isso é aparente
pois, ao Sol, noutros países
brincam crianças felizes…
E quando o dia se faz noite
não é dia nem é noite
ou meia noite, meio dia,
são momentos de Poesia…
Isto eleva-nos a uma outra dimensão: a do mistério e/ou a da magia.
Selecionámos um poema ilustrativo dessas dimensões – pensamos nós – e que nos transporta à magia da evasão pessoal. O Poema é “Aurora Boreal” incluído no livro "Teatro do Mundo" de António Gedeão. Vamos ouvi-lo:
AURORA BOREAL
Tenho quarenta janelas
Nas paredes do meu quarto. ----------------- Helena
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas ----------------------- Graciete
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
Por aquela a luz dos homens,
Pela outra a escuridão. ------------------- Cristina
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais, ----------------- Helena
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala ---------------Fernanda
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia, ----------------------- Graciete
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes. ----------------- Helena
Oh janelas do meu quarto,
Quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
Falta-me a luz e o ar.
Continuando esta nossa visão daquilo que poderá ser a magia, vamos ouvir, uma vez mais a Cristina, mas desta vez com o poema “DIA” de João Barbosa:
DIA
Quando a noite se faz dia,
dizem que não é por magia.
Nasce o Sol no seu nascente
Mas tudo isso é aparente
- a Terra é que não dorme
no seu movimento uniforme.
Mas, digam o que disserem
Os livros d’astronomia,
Quando a noite se faz dia
E não é noite nem é dia
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.