Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


o CLeVA no dia internacional do idoso

Foi hoje apresentado, no Fórum Cultural, o Plano Municipal Sénior de Alcochete.

A Andante foi convidada a apresentar este clube de leitura, e alguns dos membros, os que conseguiram estar presentes... leram.



a Mariana, a Eugénia e a Graciete leram, entre outros, "Onde estão as casas?" do livro "Urgente" de Fernanda de Castro

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?

Só vejo prisões,
só vejo caixões
para se morrer,
onde estão as casas
para se viver?

Vejo casarões
onde o corpo vive,
não o pensamento.
Vejo torres altas
de ferro e cimento.
Olho cada uma:
tudo bem cinzento,
cor de cor nenhuma.

Tinham nas janelas
cravos, sardinheiras,
cortinas de cassa.
Quem se lembra delas
e da sua graça?

Tinham nos beirais
ninhos de andorinhas,
pequenos quintais
com dois pés de vinha.

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?

As portas não eram
forradas de trancas,
eram portas boas,
eram portas francas,
portas para amigos,
portas sem ferrolhos,
portas com postigos.

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?

Vejo só gaiolas,
vejo só prisões,
vejo só quartéis,
só prédios modernos,
pequenos infernos,
passarões sem asas.

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?




a Mila leu "Fado português" de José Régio



e a Anabela leu um poema inédito de Jaime Alves, idoso da Santa Casa da Misericórdia de Alcochete.

próxima sessão | 8 Outubro 2013

será o tema
***ATENÇÃO***
para esta sessão todas as leituras serão de autores de língua portuguesa e apresentadas em grupo

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

Língua




a Cristina começou por ler um poema de António Ramos Rosa

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

de "A mão de água e a mão de fogo - Antologia Poética"


a Alexandra e o Guilherme leram "A Língua do Nhem" de Cecília Meireles

Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

de "Ou isto ou aquilo"


a Cristina, a Fernanda, a Graciete e a Helena leram e até cantaram, "Uns vão bem outros mal" de Fausto, do disco "Madrugada dos Trapeiros"




a Antónia leu "A língua" de sua autoria


a Anabela leu-nos um excerto de "Apologia de Sócrates" de Platão


a Eugénia leu um excerto de "Meditações lusíadas" de Pinharanda Gomes


a Mila leu um excerto de "Lingua" de Caetano Veloso




o Manuel leu um excerto do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro [...] a página mal escrita, a sintaxe errada [...] Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.


a Mariana leu excertos de "Esta língua portuguesa" de José Jorge Letria


a Vitória leu um excerto de um conto de Onésimo Teotónio Almeida de "Era-lhe pátria aquela língua*" do livro "Português sem filtro"
* ensaio sobre a língua em que o autor refere este mesmo conto


o António leu

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta. -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos 1931-1935


a Adília teceu considerações sobre a língua, a partir de uma crónica de valter hugo mãe na revista Visão


o Fernando leu "O sal da língua" de Eugénio de Andrade e

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena de Conheço o sal e outros poemas



António leu um excerto de "A invenção do dia claro" de Almada Negreiros

a Rosa trouxe-nos um autor que nunca tinha lido, Walter Riso e leu-nos um excerto do livro "Não obrigado"

a Cristina  leu "Perguntas à língua portuguesa" de Mia Couto



finalmente cantámos os parabéns à Andante que fez recentemente 14 anos e

comemos, claro!


próxima sessão | 24 setembro 2013

será o tema

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

hoje o CLeVA está com o Rodolfo Castro

LER ANTES DE LER
Laboratório experimental de leitura em voz alta.

Origem e ensinamentos dos leitores da antiguidade e modernos.
Linguagem infantil e transgressão da voz. A procura da voz que não mente: Jogo, experimentação sonora, ruptura.
Compreensão leitora: reflectir, questionar, emocionar. Como sacudir o texto para o fazer produzir sons.
O corpo: A arte de falar em silêncio.

http://www.rodolfocastro.com/




e logo mais à noite (21h30) aqui no Fórum Cultural Alcochete

Espectáculo:
"Os piores contos do Mundo", contados pelo pior contador de histórias do Mundo.

Contos fora da lei, de humor branco e ironia, histórias que arrepiam e que abanam a cabeça e os ossos dos que escutam. Relatos de autores modernos e antigos que partilham o espaço comum da transgressão e da alegria. Para toda a família.




Casa

voltámos

a Cristina falou-nos sobre Dante e a sua Divina Comédia

e sobre o tema do dia:

a Mariana leu-nos "A nossa casa" de Florbela Espanca


a Cristina leu "Casamento" de Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

de Adélia Prado - Poesia Reunida


a Helena Pinto leu-nos um poema  de Manuel Carqueijeiro do seu livro "Poemas do mundo fugitivo"


a Helena Barros leu um excerto de "Casa tomada" de Rui Zink do livro "Luto pela felicidade dos portugueses"


a Marília leu-nos um excerto de "Onde moram as casas" de Carla Maia de Almeida e Alexandre Esgaio


a Cristina Paiva  leu de Herberto Helder, "Falemos de casas"

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
- Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.        

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.

de "Ou o poema contínuo"


o Fernando leu "Como se desenha uma casa" de Manuel António Pina de "Como se desenha uma casa"




a Antónia apresentou-nos uma versão sua sobre as casas


a Ana Maria leu-nos "A casa" de Nuno Cardoso Dias

Quando as paredes lhe devolveram
o gelo do seu olhar
soube que a casa ainda não era casa
e que nas suas paredes não estavam ainda inscritas
as metáforas do seu cansaço,
do quotidiano que os traía
à comunhão das coisas pequenas.

Faltava ainda
que ardessem como incenso,
as folhas do seu Outono,
que as imagens e os sonhos lhes caíssem das mãos
e as deixassem nuas
para serem dadas.

Faltava-lhes ainda, ao abrir da porta,
ver os seus cheiros fundidos
como pegadas intangíveis
sussurradas, voláteis.

Faltava ainda o eco das palavras
e dos silêncios que trocavam,
de todos os significados
que deixavam ao acaso
como se fossem segredos,
segredos pequeninos,
espalhados pela casa
à espera que o outro os lesse.

Faltavam ainda as roupas de ambos
sobre a cadeira, à espera
que acordassem do mesmo sono.


a Isabel leu "Rua de todos os sonhos" de Maria Helena Soares Reis Horta


a Anabela, a Alexandra e a Cíntia leram-nos "As casas" de Ruy Belo

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

de Todos os poemas





Hoje

hoje foi a última sessão antes das férias

período antes da "ordem do dia"

em grupos, apresentámos várias propostas para um poema de Alexandre O´Neill

          JÁ

    já     não é hoje ?
            não é aquioje?

    já      foi ontem?
            será amanhã?

    já    quandonde foi?
           quandonde será?

           eu queria um jàzinho que fosse
           aquijá
           tuoje aquijá.

a Antónia foi à descoberta de Diderot e leu-nos um excerto de "A religiosa"


e as leituras subordinadas ao tema do dia:


a Cristina leu a "Ode ao dia feliz" de Pablo Neruda

Esta vez deixai-me
ser feliz,
não se passou nada com ninguém,
não estou em parte alguma,
sucede unicamente
que sou feliz
pelos quatro costados
do coração, andando
dormindo ou escrevendo.
Que vou fazer, sou
feliz,
sou mais inumerável
do que as ervas
nos prados,
sinto a pele como uma árvore rugosa
e a água em baixo,
os pássaros em cima,
o mar como um anel
na minha cinta,
feita de pão e de pedras a terra,
o ar canta como uma guitarra.

Tu, a meu lado sobre a areia,
és areia,
tu cantas e és canto,
o mundo
é hoje a minha alma
canto e areia,
o mundo
é hoje a tua boca,
deixai-me
na tua boca e no areal
ser feliz,
ser feliz porque sim, porque respiro
e tu respiras,
ser feliz porque toco
o teu joelho
e é como se tocasse
a pele azul do céu
e o seu frescor.

Hoje deixai-me
a mim só
ser feliz,
com todos ou sem todos,
ser feliz
com as ervas
e a areia,
ser feliz,
contigo, com a tua boca,
ser feliz.

de Antologia
tradução de José Bento
Ed. Relógio D' Água


a Graciete leu "Intermezzo" de António Gedeão

Hoje não posso ver ninguém:
Sofro pela Humanidade
Não é por ti.
Nem por ti.
Nem por ti.
Nem por ninguém.
É por alguém.
Alguém que não é ninguém
mas que é toda a Humanidade.


e também "Hoje vim para a rua..." de José Gomes Ferreira

Hoje vim para a rua
de cabeça levantada
- desdém de frutos mordidos.

Eu, o príncipe dos dias lúcidos
que dei os olhos ao sol
para de lá ver melhor o mundo
- onde os corações dos presos nos subterrâneos
tecem a luz própria da Terra
com o sexo das pedras e da lama.

de Poeta Militante (2º Volume)
Ed. Moraes Editores


a Cristina veio com a Natalina e leram "O valor do vento" de Ruy Belo

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto









o João leu-nos algumas citações  de Agostinho da Silva

História
O que nos interessa sobretudo na História seria dar conteúdo actual, ou melhor, conteúdo eterno ao que acaba por aparecer como um empoeirado, como um arqueológico episódio do passado.
As Aproximações

A História vai ser simples quando for entendida; o homem vai ser humilde quando entender a História; quando ela, para ser entendida, se tiver feito geometria.
As Aproximações

Historiador
O bom historiador escreve do passado, criticando o presente e projectando o futuro. Toda a História que vale é do futuro.


o Fernando leu "Estação" de Mário Cesariny


a Ana Maria leu um excerto de "Mr. Finney e o mundo de pernas para o ar" de Laurentien Van Oranje & Sieb Posthuma


a Cíntia leu "O primeiro dia" de Sérgio Godinho


a Alexandra e a Mila leram excertos de "O dia da criação" de Vinícius de Moraes


a Rosa leu algumas frases de Chico Xavier


o António leu "Uma vida de cão" de Alexandre O'Neill

Não
não é a poesia caixa de música
ou a poesia piolho místico enterrado no sebo destes dias
ou qualquer outra
que podem dissolver a tua alma
tão problemática
no vinho da beatitude

Ah
o «mistério» da poesia a poesia
técnica da confusão
a capelista poética e os primeiros fregueses
ainda a medo ainda receosos
de te pedirem a Dor em alfinetes que não tenhas
logo ali à mão

E quando dizes «Poesia» eu tenho nojo
aquele nojo violento que me dá
o olhar furtivo a atenção desatenta
dos que se demoram nos lavabos nas salas dos cinemas
de mãos distraídas procurando
a solução da noite

Instalaram-se em ti
a mesma contracção suspeita
a mesma hipocrisia o mesmo sobressalto
a mesma curva obscena
que o olhar descreve
goza
e disfarça

Quando dizes «Poesia» dizes medo
dizes família tradição classe
e a vida de cão que te esperava
e que é hoje a tua vida a tua «transcendente» vida de cão

•••

Ensinaram-te palavras que pareciam
prontas a derrotar quem as ouvisse
ensinaram-te gestos para elas
e a tal ponto te humilharam
que te puseram de pé
limpo
inteligente
e aprumado

Pronto a seguir
seguiste
e agora estás aqui
estás aqui pois claro
angustiado e iludido
mas deliciado

•••

Até aos últimos arcanos
cafés e leitarias
seguiste André Breton
ou a sombra dele
e a aventura mental que procurava
um sinal exterior
um estilhaço vivo do acaso
a Nadja lisboeta que salvasse
ou a noite ou a vida
acabou em “bons” poemas “maus” poemas
em palavras e palavras

E coberto de palavras enterrado
numa terra de murmúrios de gemidos
teu coração já nada faz mover
senão moinhos de palavras
e “a dor é grande” dizes tu
“mas sublime”

•••

Mas não sou eu que te lamento
Os teus mitos esperam-te
já impacientes

Agora põe-te a andar
agora passa por cá daqui a uns anos

Talvez me encontres
talvez possa fazer qualquer coisa por ti
qualquer coisa simples
quase inútil
quase ridícula
oferecer-te uma sílaba
um conselho

um cigarro



a Helena leu "Todas as cartas de amor são..." de Álvaro de Campos

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se ha amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as creaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memorias
D´essas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdruxulas,
Como os sentimentos esdruxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

21-10-1935 






e para terminar provámos mais uma vez que ler em voz alta não engorda

hoje, de longe


Entardecer no Centro de Interpretação da Reserva Natural do Estuário do Tejo, com poesia e música

Novo desafio:
 No próximo dia 19 de julho, sexta-feira, a Reserva Natural do Estuário do Tejo vai comemorar o seu 37º aniversário. A nossa Helena propôs ao CLeVA irmos ler poesia subordinada ao tema "O estuário do Tejo e a conservação da natureza". As leituras acontecerão no Centro de Interpretação da Reserva, ao pôr-do-sol entre as 20h00 e as 22h00. 

Aqui o programa completo das comemorações

Alvorada



Não há talvez dias da nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido
como aqueles que julgámos passar sem tê-los vivido,
aqueles que passámos com um livro preferido.
in O prazer da Leitura de Marcel Proust

Leituras:

Fernando e Cristina leram um excerto de Coca-Cola Killer de António Vitorino de Almeida

(...)A madrugada começava a azular as copas do arvoredo e a recortar com progressiva nitidez as silhuetas do casario, quando cheguei ao Campo Grande, sempre na vã expectativa de apanhar um taxi desgarrado que me conduzisse às Janelas Verdes, ao conforto repousante do lar, ao leito conjugal, onde Patrícia Flávia , não obstante a resistência granítica do seu sono quando tomava uns comprimidos suíços, talvez já principiasse a ficar inquieta com a duração excessiva da minha ausência. (...)
As ruas estavam desertas, em conformidade com a hora matutina, mas fui surpreendido pela súbita aparição de uma longa coluna militar motorizada que aguardava a luz verde de um semáforo para avançar pela Av. da Républica, com todo o seu arsenal de jeeps e blindados.
Dirigi-me ao veículo mais próximo e perguntei, delicadamente:
- Temos uma paradazinha, não?
Os soldados sorriram-me, prazenteiros, amabilíssimos , e um oficial respondeu-me:
- Mais ou menos, amigo, mais ou menos...
Nessa altura, houve um outro oficial que se apeou do seu jeep e veio perguntar com certa ironia, ainda que sempre cordialmente, aos companheiros da frente:
- Ó camaradas! Pode saber-se do que é que a gente está aqui à espera?...
Ao que um soldado motorista respondeu:
- Saiba o meu capitão que se a gente não parar nos sinais vermelhos nos arriscamos a ter acidentes...
O capitão soltou uma gargalhada jovial e retorquiu:
- Mas que revolução vem a ser esta que fica parada nos sinais vermelhos?
E novamente o soldado:
- O meu capitão desculpe , mas ...como é que as pessoas sabem que isto é uma revolução?
Pergunta pertinente : eu, por exemplo, nunca poderia imaginar que aquele alegre desfile de militares risonhos incubava o vírus rebelde de uma revolução- e o meu primeiro movimento de curiosidade foi saber contra quem e contra quê se processaria essa insurreição...
O oficial que em primeiro lugar falara comigo esclareceu-me em poucas palavras:
- Estamos aqui para restaurar a democracia.
- Contra o Caetano, portanto?
Os soldados entreolharam-se durante alguns momentos, até que um deles se decidiu a falar, timidamente:
- O amigo tem que compreender que a gente, em princípio, não é contra ninguém em especial, mas sim pela democracia. Quem for pela democracia , é por nós!
Lembro-me de ter olhado o cano da G-3, casualmente apontado na minha direcção, e de ter pensado de mim para mim que, não obstante o aspecto paradoxalmente pacífico e bem disposto daqueles soldados, uma arma era sempre uma arma- pelo que me apressei a declarar:
- Então eu sou por vós, porque também sempre pugnei pela democracia, desde criança! Podem não acreditar, mas é verdade: desde menino!
A luz verde do semáforo já abria passagem à caravana revolucionária e preparava-me para me despedir quando um outro oficial me perguntou:
- O amigo quer que a gente o leve a algum lado?
Hesitei, pouco afeito a viajar em blindados, livre que ficara do serviço militar por via do pé chato e das recomendações amigas de um coronel, a quem não passara despercebido o meu profundo horror ao belicismo. Contudo, era um convite tentador: àquela hora , onde é que eu ia arranjar um taxi?...
-Eu não sei se fica em caminho- redargui, atenciosamente.- A minha casa é nas Janelas verdes...
O oficial fixou-me por instantes e depois cochichou alguma coisa ao ouvido de um colega, numa pausa que não poderia deixar de me inquietar , pois isto de revolucionários é uma fauna esquisita: uma pequena suspeita e vai de encostar um cidadão à parede, feito passador...
Por fim, aquele a quem o soldado motorista tratara por capitão dirigiu-se a mim , muito correctamente, aliás, e dissipou-me o vago pânico que ameaçava assaltar-me:
- A gente quer ir para o Largo do Carmo, mas não conhecemos bem o caminho por causa de umas obras que andam aí a fazer...Se o amigo , já que é um democrata, fizesse o favor de nos acompanhar , indicando-nos as ruas, nós depois até mandávamos um jeep conduzi-lo a casa.
- Mas com todo o prazer! - exclamei aliviado.- E nem é preciso levarem-me a casa, incomodarem-se , interromperem o vosso trabalho: do Carmo às janelas Verdes é um saltinho que se faz bem a pé! (...)


António, Adília e Anabela leram um excerto de Hoje preferia não me ter encontrado de Herta Müller


João Morais leu "Insónia" de Mia Couto de Tradutor de chuvas


António Soares leu "Adiamento" de Álvaro de Campos


a Antónia leu-nos uma brincadeira de sua autoria

Queria ler-vos qualquer coisa
Com a palavra Alvorada
Por mais que pense e repense
Não me ocorre mesmo nada
Sei que toca a Alvorada
Pra tropa se levantar
Mas para além disso mais nada
Eu tenho para vos falar
Vou acabar o recado
Com esta leitura tosca
Pois lá diz o ditado
Que em boca fechada
Não entra mosca


Helena Pinto leu "Realidade" de Florbela Espanca

Em ti o meu olhar fez-se alvorada,
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,
E  a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho.

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci…

Tens sido vida fora o meu desejo,
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei, se te perdi…


Ana Brandão leu "Alvorada" de Délcio Luiz


Vitória leu "Amar" de Florbela Espanca


Foi também a brincar que a Graciete, a Fernanda,  a Helena e a Cristina abordaram o tema

Após muito refletirmos sobre este tema, e não querendo de modo algum entrar em “alcovas diversificadas” optamos por escolher um trilho pouco usual, por isso, vamos iniciar esta sessão dando relevo aos diferentes significados deste vocábulo:
1. Crepúsculo matutino;
2. antemanhã,
3. madrugada.
4. Canto das aves, ao nascer do dia.
5. Toque de cornetas, clarins e tambores, dado nos quartéis, ao amanhecer.
6. Qualquer toque de música que se faz de madrugada;
7. matinada.
8. Sentido figurado: Juventude, mocidade: na alvorada da existência.

Se atentarmos nos seus sinónimos : alva, alvor, antemanhã, aurora, dilúculo ( do latim diluculum, o romper do dia) e madrugada, constatamos que eles nos conduzem à ideia de cama, pecado, sacrifício ou prazer…ou religião . A propósito vamos ler-vos uma passagem de um dos exemplos:

O Ramadão é um mês para o jejum, à família e ao recolhimento, no qual os crentes se abstêm de comer, beber, fumar e manter relações sexuais desde a alvorada até o pôr do sol. Para as tradições muçulmanas, o Ramadão ocorre no nono mês do calendário - mês no qual o profeta Maomé recebeu a revelação do Corão. Folha de São Paulo, 21/08/2009
Milhões de muçulmanos do mundo árabe celebram neste domingo a festa de Eid ul Fitr, que encerram o mês de jejum do Ramadão, com roupas novas, visitas a parentes e até casamentos, depois de um mês sem comer, beber e fazer sexo entre a alvorada e o pôr-do-sol. Folha de São Paulo, 20/09/2009

Que outras informações poderemos oferecer-vos sobre a palavra?

Possui 8 letras
Possui as vogais: a o
Possui as consoantes: d l r v
A palavra Alvorada escrita ao contrário lê-se: adarovla podem-se obter outros anagramas: alarvado, alvarado, alvardão, ladravão, aldravão, lavadora e valadora. Mais, quereis construir um poema com palavras que rimam, pois aqui tendes: pontoada, quebrada, namorada, estopada, queimada, retirada, ferroada, prateada, estalada, fumarada, almofada, camarada, bofetada, trovoada, estacada, estirada, passada,lavrada e por aí fora. Basta brincar com a sílaba final.

No entanto, Alvorada não se limita a este jogo de palavras. Não! Alvorada dá o nome a muitas coisas.

Sabiam que existem:
uma editora que publicou long plays de Amália Rodrigues e de João Villaret?
uma rádio Fm 94.3?
hotéis?
cidades?
uma residência oficial do Presidente da República brasileiro que se chama Palácio da Alvorada?

E passamos agora, a uma canção brasileira!


a Mila trouxe-nos um autor, até agora para si desconhecido

Leu-nos dois excertos de Os Gatos de Fialho de Almeida
eis um deles:

MEUS SENHORES, AQUI ESTÃO OS GATOS!

Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato.

Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes, e terrível com agressores e adversários. Um pouco lambeiro talvez perante as coisas belas, e um quase nada céptico perante as coisas consagradas; achando a quase todos os deuses pés de barro, ventre de jibóia a quase todos os homens, e a quase todos os tribunais, portas travessas. Amigo de fazer jongleries com a primeirra bola de papel que alguém lhe atire, ou seja um poema, ou seja um tratado, ou seja um código. Paciente em aguardar, manso e pagado, com um ar de mistério, horas e horas, a surtida de um rato pelos interstícios de um tapume, e pelando-se, uma vez caçada a presa, por fazer da agonia dela uma distracção; ora enrolando-a como um cigarro, entre as patinhas de veludo; ora fingindo que lhe concede a liberdade, atirando-a ao ar, recebendo-a entre os dentes, roçando-se por ela e moendo-a, até a deixar num picado ou num frangalho.

Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque, e o animal de humor e fantasia – porque não escolheremos nós o travesti do último? É o que se quadra mais no nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro.

Razão porque nos acharás aqui, leitor, miando pouco, arranhando sempre, e não temendo nunca.”

Prefácio de Os Gatos


e ao fechar do pano ainda lemos isto e isto

sinfonia da alvorada

esta semana não sou eu que vos leio, mas a "sinfonia da alvorada", que comemora a construção da cidade de Brasília, merece ser ouvida na versão original. ficam aqui dois excertos: poesia: vinicius de morais música: tom jobim