Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


ilusão

hoje o tema foi ilusão



o António Gil falou-nos de Wenceslau de Moraes
Com base numa “Antologia” de Wenceslau de Moraes, de Armando Martins Janeira, da Editora Mnésis, vou procurar deixar-vos a vontade de descobrir Moraes e... já agora o Japão.

Wenceslau de Moraes foi muito lido no fim da sua vida, numa época em que Portugal começava a seguir, um pouco retardado já, a moda europeia das coisas da China e do Japão. O que do Japão então interessava ao Ocidente era o pitoresco e o exótico - os aspectos superficiais, o lado menos humano. O orientalismo, na Europa, esteve aliado ao imperialismo. Wenceslau de Moraes era declaradamente adversário das ideias imperialistas de Ocidente, que constantemente combate prenunciando o seu declínio. Moraes é um europeu que pelo seu profundo humanismo atinge a verdadeira compreensão do Oriente e dos seus grandes problemas humanos - que soube compreender profundamente a alma do povo japonês.
Aqui ficam algumas extractos de amostras das suas observações sobre os japoneses:
O homem
O homem japonês, pelo exame estético, é muito inferior à japonesa. O japonês é pequeno (no Japão, valha a verdade, tudo é pequeno, e o abuso dos diminutivos impõe-se); pobre de músculo, efeminado, trigueiro-esverdeado na epiderme (aspecto raro na fêmea), trunfa áspera,  lábios grossos, barbichas ridículas, se deixa crescer os pêlos da cara. Parece que se mostra hoje assim, cedendo a um empobrecimento de raça, que por uma lei inexplicável vai poupando a mulher. Dantes era perfeito, como um homem pode ser perfeito: ainda hoje se encontram raros, e eu vi dois ou três soberbos exemplares de beleza máscula. No entanto, a fisionomia dos japoneses está longe de ser repelente ou simplesmente antipática; apresenta frontes amplas, de inteligentes ou de cismadores; olhar profundo por vezes de inspirados; e um sorriso fácil sempre em assomar, benévolo, cortês.
(Traços do Extremo Oriente, 169-l70.)

A japonesa
Falemos, pois, dos encantos da filha do Nippon. A japonesa não é bela; o que ela é, em alto grau e como nenhuma outra mulher, gentil, graciosa, encantadora. Gentil pelo seu doce rostinho, fresco como uma flor primaveril; gentil pela curva da sua inteira figurinha, pelas pregas ondulantes da seda do vestido, pela harmonia cromática dos atavios; e gentil pelo seu delicioso convívio. Jamais os enlevos próprios na mulher se encontraram tão intimamente ligados à arte de vestir, como na filha do Nippon.
(Cartas, III, 31/36)

Para perceberem melhor como Wenceslau de Moraes é um grande observador da natureza humana (e não só) do Japão aqui ficam mais alguns contrastes:

- O homem branco sustenta-se de pão; o japonês sustenta-se de arroz.
- Os japoneses não dizem nordeste, sudoeste, mas sim leste-norte, oeste-sul.
- Para se abrir ou fechar uma fechadura japonesa, dá-se volta à chave exactamente no sentido contrário do que sucede com as fechaduras europeias.
- A costureira japonesa enfia a agulha na linha, não a linha na agulha, como a nossa.
- Laranjas, ameixas e outros frutos temperam-se frequentemente com sal. Em compensação, o peixe e a carne de vaca temperam-se com açúcar.
- O chapéu-de-chuva transporta-se, quando não chove, segurando-o pela ponteira com a manipula para baixo.
- Escrevendo, no sobrescrito de uma carta, a direcção conveniente, o japonês começa pelo nome do distrito, depois escreve o nome da aldeia ou da cidade, depois escreve o bairro, depois o nome da rua, depois o número da porta e finalmente o nome do destinatário.
- Depois do banho, o japonês enxuga-se com uma toalha... molhada!...
(Relance da Alma Japonesa, 32/33)

Há alguns exemplares de obras de Wenceslau de Moraes na nossa Biblioteca de Alcochete que ajudarão a aprofundar o conhecimento sobre o escritor e já agora aguçar o apetite para conhecer melhor o Japão.



a Alexandra, a Vitória e a Ana Maria leram-nos alguns excertos do
"Canto IX", de "Os Lusíadas" de Luís de Camões

52
De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam a movia
A Acidália, que tudo, enfim, podia.

64
Nesta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Alguas, doces cítaras tocavam;
Alguas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais, que não seguiam.

59
Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
Vide, cuns cachos roxos e outros verdes;
E vós, se na vossa árvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano que cos bicos
Em vós fazem os pássaros inicos.
78
"Não canses, que me cansas! E se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
‘Tra la spica e la man qual muro he messo.’

79
"Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua formosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da fortuna a força dura.


a Mariana e o António Soares leram de Alexandre O´Neill

Meditação na pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e fecham
Procurando uma fresta, uma fraquesa
Qualquer da nossa parte…

Mas uma senhora é uma senhora,
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever - se tanto for preciso!
O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raúl é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…

(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)

Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!

Chorar…
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do qu eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia…

Perdi tudo, quase tudo

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.



a Graciete, a Fernanda, a Cristina e a Helena
inundaram-nos com textos de Gilgamesh, da Bíblia e de Ovídio

Carrega o pecador com o seu pecado,
Carrega o transgressor com o seu erro.
Castiga-o um pouco quando ele foge,
Não o leves com severidade porque morre;
Antes um leão assolasse a humanidade
Em vez da inundação,
Antes um lobo assolasse a humanidade
Em vez da inundação,
Antes a fome assolasse o mundo
Em vez da inundação,
Antes a peste devastasse a humanidade
Em vez da inundação. 
 "Gilgamesh"

Inundação
Choveu torrencialmente durante quarenta dias sobre a terra. As águas cresceram e levantaram a arca, que foi elevada acima da terra. As águas iam sempre crescendo e subiram muito acima da terra...
"Bíblia Sagrada, Arca de Noé, Génesis 5,1-8,22, Livro de Jonas"

III
Já se aprontava para fazer chover raios sobre a terra inteira, mas receou que porventura o sacro éter, com tantos fogos, se incendiasse, e o longo eixo fosse consumido nas chamas....
"Metamorfoses, Ovídio"



a Alexandra, a Marília e a Anabela
também foram colher ilusões aos Lusíadas
ouvimos excertos dos episódios de Inês de Castro, do Velho do Restelo, do Adamastor e da Ilha dos Amores



a Antónia leu-nos de Florbela Espanca
A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo" Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!



a Cristina e o Fernando leram um excerto de "A vida é sonho"
de Pedro Calderón de la Barca
fala de Segismundo:
Por ser verdade, esmagamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
mesmo a pensar que sonhamos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular,
que o viver é só sonhar;
e a experiência medonha
diz-me que o que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e insiste
em tal engano, mandando,
dispondo e governando,
e às lisonjas resiste;
Mas no vento escreve o triste
destino que o leva à morte .
É esta a desdita forte
Que tem quem pensa reinar
vendo que há-de despertar
do seu sonho, desta sorte?
Sonha o rico com riqueza
que mais cuidados lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza;
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém compreende.
Eu sonho que estou aqui
de cadeias carregado,
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
e é pequeno o maior bem;
que o sonho a vida sustém
e os sonhos sonhos são.

Trad. António Manuel Couto Viana/Maria Manuela Couto Viana


a Mila leu de Antero de Quental

Transcendentalismo
(A J. P. Oliveira Martins)

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto mundo — por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade —
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Vôa e paira o espírito impassível!

de "Sonetos"



o Vasco leu, também de Antero de Quental

Das Unnennbare

Oh quimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E roças co'os vestidos vaporosos
A minha fronte pálida e cansada!

Leva-te o ar da noite sossegada...
Pergunto em vão, com olhos ansiosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu país, misteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baça
A d'esta aurora, igual à do sol posto,
Quando só nuvem lívida esvoaça!

Que nem a noite uma ilusão consinta!
Que só de longe e em sonhos te presinta...
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!

de "Sonetos"


o António Marques leu um excerto de "Poema do Senhor - Bhagavad-Guitá" de Vyassa



a Adília leu um excerto de "O eremita" de Susan Trott


a Rosa leu um excerto de "Pai Nosso" de Francisco Cândido Xavier


e como vem sendo hábito acabámos a comer e a beber



próxima sessão | 29 outubro 2013

será o tema
***ATENÇÃO***
as leituras deverão ser preparadas em grupo
os textos deverão ser de autores clássicos

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

O tempo

tic-tac-tic-tac-tic-tac-tic-tac


a Mariana leu-nos excertos de "Os sãos e os loucos" de James Jones.
Este livro esteve na origem do filme "A Barreira Invisível" realizado por Terrence Malick


a Milla leu um excerto de "Em busca do carneiro selvagem" de Haruki Murakami
e o conto "O sobrevivente" de Ilse Losa do livro "Estas Searas"



a Eugénia leu excertos de "Ninguém escreve ao Coronel" de Gabriel García Márquez


a Ana Maria leu "O tempo nos parques" de Vinicius de Moraes

O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
A imobilidade anterior desse tempo no mundo
Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
É o tempo nos parques.

de "O operário em construção"


a Vitória leu um excerto de "Um homem singular" de Christopher Isherwood



a Graciete leu um excerto de "Vovô tsongonhana" de Augusto Carlos


a Marília leu um excerto de um poema de T. S. Eliot

A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock

S’i credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse al mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma però che già mai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Sanza tema d’infamia ti rispondo.

(Dante Alighieri, La Divina Commedia, Inferno)

Então vem, vamos juntos os dois,
A noite cai e já se estende pelo céu,
Parece um doente adormecido a éter sobre a mesa;
Vem comigo por certas ruas semidesertas
Que são o refúgio de vozes murmuradas
De noites em repouso em hotéis baratos de uma noite
E restaurantes com serradura e conchas de ostra:
Ruas que se prolongam como argumento enfadonho
De insidiosa intenção
Que te arrasta àquela questão inevitável...
Oh, não perguntes “Qual será?”
Vem lá comigo fazer a tal visita.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti
A névoa amarela que esfrega as costas nas vidraças
O fumo amarelo que esfrega o focinho nas vidraças
Passou a língua dentro dos recantos da noite,
Demorou-se nos charcos que ficam na sarjeta,
Deixou cair nas costas a fuligem solta das chaminés,
Deslizou pelo terraço, de repente deu um salto,
E, ao ver serena aquela noite de Outubro,
Deu uma volta à casa, enroscou-se e dormiu.

Haverá por certo um tempo
Para o fumo amarelo que desliza pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá um tempo, tempo
De compor um rosto para olhares os rostos que te olharem;
Tempo de matar, tempo de criar,
E tempo para todos os trabalhos e os dias, de mãos
Que se erguem e te deixam cair no prato uma pergunta;
Tempo para ti e tempo para mim,
E tempo ainda para cem indecisões
E outras tantas visões e revisões
Antes de tomar o chá e a torrada.

Passeiam damas na sala para além e para aqui
E falam de Miguel Ângelo Buonarroti.

Haverá por certo um tempo
De pensar se corro tal risco. “Corro tal risco?”
Tempo de virar costas e descer as escadas
Com esta clareira calva no meio do cabelo –
(Hão-de dizer: “Este já tem pouco cabelo!”)
Com a casaca, colarinho hirto subido até ao queixo,
Gravata distinta e discreta mas ornada de um sóbrio alfinete –
(Hão-de dizer: “Que magro está, nos braços e nas pernas!”)
Vou correr o risco
De perturbar o universo?
Num só minuto há tempo
Para decisões e revisões, a revogar noutro minuto.

Pois já as conheço todas bem, conheço todas –
Sei as noites, as tardes, as manhãs,
Às colheres de café andei medindo a minha vida;
Sei que em breve agonia se esvaem as vozes
Abafadas na música de um quarto mais além.
Como havia eu de ousar, assim?

E já conheço os olhares, conheço todos –
Olhares que te reduzem a fórmulas e a dizeres,
E quando eu for apenas fórmula, esticado em alfinete,
Quando estiver na parede, trespassado, contorcido,
Como haverei então de começar
A cuspir as pontas de cigarro dos meus dias e jeitos?

E como havia eu de ousar, assim?
E já conheço os braços, conheço todos –
Braceletes nos braços brancos e nus
(Mas com uma penugem loira à luz do candeeiro)
Será pelo perfume de um vestido
Que sou levado assim a divagar?
Braços estendidos na mesa ou envoltos num xaile.
E havia eu de ousar assim?
Por onde havia eu de começar?

E se eu disser que dou passeios por becos quando anoitece,
E vou fitando o fumo que sobe do cachimbo
De homens em mangas de camisa, à janela, solitários?...

Eu devia ter sido um ferro de duas garras
A rasgar o fundo desses mares de silêncio.

E a tarde, a noite, a dormir tão sossegada!
Afagada por dedos esguios,
A dormir... exausta... ou a fingir,
Estirada aqui no chão, à beira de nós dois.
Depois do chá, dos bolos, dos gelados, eu tinha ainda
Aquela força que provoca a crise do instante?
Mas apesar de lágrimas e jejuns, lágrimas e preces,
E apesar de ter visto a minha cabeça (um tanto calva já) ser entreguenuma salva,
Não sou nenhum profeta – e isso pouco importa;
Já vi tremer o meu instante de esplendor
E vi o eterno lacaio agarrar-me a casaca, rindo sorrateiro,
E bastará dizer que tive medo.

E tinha valido a pena, depois de tudo isto,
Depois da geleia, das xícaras, do chá,
Entre porcelanas, a meio de qualquer conversa de nós dois,
Tinha valido a pena
Ter rematado o assunto com um sorriso,
Ter estreitado o universo numa bola
E fazê-la rolar, rumo a qualquer questão inevitável,
E dizer: “Sou Lázaro e venho de entre os mortos.
Voltei para vos contar tudo, vou contar-vos tudo” –
Se alguém, ajeitando a cabeça dela numa almofada,
Dissesse: “Não era nada disso que eu queria dizer
Não é isso, nada disso.”

E tinha valido a pena, depois de tudo,
Tinha mesmo valido a pena,
Depois dos pátios, dos poentes, das ruas chuviscadas,
Dos romances, das xícaras de chá, das saias arrastando pelo chão –
E depois disto e tantas coisas mais? –
Não é possível dizer mesmo o que quero dizer!
Mas se uma lanterna mágica mostrasse na tela a imagem dos nervos:
Tinha valido a pena
Se alguém, compondo a almofada ou tirando um xaile,
Dissesse, ao voltar-se para a janela:
“Não é isso, nada disso,
Não era nada disso que eu queria dizer.”

Não! Não sou o príncipe Hamlet e nem tinha que ser;
Sou um fidalgo da corte, desses que servem
Para aumentar a comitiva, abrir uma ou duas cenas,
Dar conselhos ao príncipe; instrumento dócil, é claro,
Reverente, satisfeito por ser prestável,
Político, meticuloso e avisado;
Cheio de sentenças doutas, um tanto obtuso todavia;
Às vezes, por sinal, quase ridículo –
Quase o bobo, às vezes.

Estou a ficar velho... Estou a ficar velho...
Hei-de andar com a dobra da calça revirada.

E se eu puxar atrás o risco do cabelo? Arrisco-me a trincar
um pêssego?
Hei-de vestir calça de flanela branca e passear na praia.
Já ouvi as sereias cantando, umas às outras.

Creio que para mim não vão cantar.
Tenho-as visto na direcção do mar a cavalgar as ondas
Penteando crinas brancas de ondas encrespadas
Quando o vento revolve as águas escuras e brancas.

Ficámos nas mansões do mar nós dois em abandono
Entre as ondinas com grinaldas de algas castanhas purpurinas
Até que vozes humanas nos despertam e morremos naufragados.

Tradução de João Almeida Flor


a Alexandra leu "No século XXVII na cidade de Alcochete" de Luísa Ducla Soares


a Isabel leu um excerto de "Viver sem tempos mortos", peça de teatro a partir da correspondência entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre



a Helena leu "Quando fores velha" de W.B. Yeats
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.

Tradução de José Agostinho Baptista


a Rosa leu um excerto de "Livro das horas" de Nélida Piñon



a Helena leu um excerto de "Katrina´s sun-dial", da colectânea "Music and Other Poems" de Henry van Dyke


o Fernando fez uma brincadeira com "O relógio" de Russell Edson
(a brincadeira)
Anos de biliões dois menos pelo adiantado está.
- Preciso tão assim é?
- Não relógio! -  o pensava escuro no deitado. E noite mesma nessa morrer por acabou velho.
- O tu, que do tempo o sobre mais saber pode, que é quem boas tão notícias que ah?
- Taque-tique, taque, tique - respondeu criança de bocejo um de simplicidade a com
- Relógio o velho? -  o disse anos de biliões dois.
- Viver vou que mesmo achas?
- taque-tique, taque-tique, respondera-lhe tranquilizadora previsibilidade, uma com relógio o, e relógio ao corda dado tinha velho um.

(o poema)
Um velho tinha dado corda ao relógio e o relógio, com uma previsibilidade tranquilizadora, respondera-lhe, tique-taque, tique-taque.
Achas mesmo que vou viver dois biliões de anos, disse o velho?
O relógio, com a simplicidade de um bocejo de criança respondeu, tique-taque, tique-taque...
Ah, que notícias tão boas, quem é que pode saber mais sobre o tempo do que tu?

O velho acabou por morrer nessa mesma noite. E, deitado no escuro, pensava, o relógio não é assim tão preciso. Está adiantado pelo menos dois biliões de anos...
 
de "O espelho atormentado"
Tradução de Guilherme Mendonça



a Cristina leu "A Primavera" do livro "Platero e Eu" de Juan Ramón Jiménez

Ai, que lumes e perfumes! 
Ai, como riem os prados! 
Ai, que alvoradas se ouvem! 
(Romance popular)

No meu entredormir matinal, irrita-me uma endiabrada gritaria do rapazio. Finalmente, sem poder dormir mais, levanto-me, desesperado, da cama. Então ao olhar pela janela aberta, vejo que quem faz barulho são os pássaros.
Saio para o horto e dou graças a Deus por este dia azul. Concerto livre de bicos, fresco e sem fim! A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço; o melro assobia sobre a laranja caída; de fogo, o verdilhão palra no sobreiro; o chamariz ri longa e finamente no alto do eucalipto; e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.
Que manhã! O sol põe na Terra a sua alegria de prata e de ouro; borboletas de cem cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa, na fonte. O campo abre-se em estalidos, encrepitações, num fervedouro de vida nova e sã.
É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.



o António Gil leu um excerto do livro "Por amor da Índia" de Catherine Clément
 Ahmedabad, 10 de Março de 1922

A noite caíra no ashram de Sabarmatí, onde vivia Gandhi com os seus discípulos. O rio junto da pequena falésia estava tão calmo que dir-se-ia seco como durante os terríveis calores de Junho; os animais furtivos que aí vinham matar a sede faziam estalar o mato. As mulheres, sentadas diante da cabana do Mahatma, esperavam, com o coração apertado. Gandhi fiava à luz de um candeeiro de petróleo, como de costume; a sua pouca bagagem estava pronta. Na véspera, pressentindo o que ia acontecer, tinha publicado no “Young India” um artigo em forma de anúncio público: “Vou ser preso”
O roncar do carro da polícia ouviu-se lá ao longe; Kasturba, a mulher de Gandhi, levantou a cabeça e puxou para o rosto a ponta do sari. Depois o barulho parou bruscamente, como se a polícia hesitasse. Um homem fardado apareceu na orla do recinto, um oficial da polícia que caminhava com um passo hirto, de cabeça baixa, o pingalim sob o braço.
Parou ao pé da casa; o Mahatma já se levantara e olhava-o, de pé.
- Senhor Gandhi? - perguntou, respeitosamente, o oficial.
- Mohandas Karamchand Gandhi, cultivador e tecelão - disse o Mahatma sorrindo. - Sou eu.
- Em nome de lord Reading, representante do rei-imperador nas Índias, devo anunciar-lhe que está sob prisão; quando estiver pronto, sir, queira apresentar-se - disse o oficial, que bateu os tacões e regressou logo à escuridão.
- Senhor oficial! - chamou Gandhi. - Não se vá embora. Eu acompanho-o
Os habitantes do ashram tinham-se agrupado em volta do Mahatma. Gandhi desceu os degraus e, unindo as mãos, convidou-os a cantar o seu hino preferido, composto para ele por um dos seus partidários. Vozes trémulas ou claras, velhas ou jovens, cristalinas ou roucas, todas se elevaram no escuro, tão tranquilamente que se poderia pensar que era uma festa; as cabras, despertas, puseram-se a balir em uníssono. Quando a oração terminou, Gandhi fechou os olhos, tomou o braço da mulher, agarrou no cajado e no saco e, num passo diligente, acercou-se do oficial, estupefacto.
- Quando quiser, sir - disse ele, cortês. - Não quero fazê-lo esperar; é tarde.
O oficial não lhe tocou; Gandhi caminhava a seu lado, e não se sabia qual dos dois levava o outro. Kasturba Gandhi trotava piedosamente atrás dos dois homens. Quando chegou à porta, o Mahatma voltou-se para os seus fiéis.
- Não se esqueçam! - gritou. - Ficarei profundamente magoado se o povo se insurgir em meu nome contra o Governo!
Eles acenaram com a mão sem responder, murmurando fervorosamente.
- A sua mulher pode acompanhá-lo, sir, até às portas da... - murmurou o oficial sem acabar a frase.
- Muito bem - cortou o Mahatma. - Fique o senhor sabendo que ela lamenta não ficar comigo lá no sítio para onde vamos. Não é verdade, Ba?
Kasturba Gandhi fez um gesto de assentimento com a cabeça sem responder.
- Sabe que vai para a prisão, sir? - disse o oficial quando já estavam dentro do carro.
- Não duvido - respondeu Gandhi com um grande sorriso. - No meu país é a primeira vez; mas na Africa do Sul tinha esse hábito.
- O seu processo começa dentro de uma semana. Tem um bom advogado? - perguntou o oficial.
- Não vou precisar - disse o Mahatma. - Eu próprio sou advogado; e o senhor não ignora que sou também um verdadeiro rebelde, hostil a qualquer compromisso.
- Arrisca-se a longos anos de cárcere - murmurou o oficial embaraçado.
- Quero o castigo mais severo - replicou o Mahatma, instalando-se bem no fundo do carro. - E declarar-me-ei culpado.

tradução de Maria do Rosário Mendes


o António Soares leu um excerto de "Este é o teu reino" de Abilio Estévez

(..) Decido que hoje seja quinta-feira, finais de Outubro. Escureceu muito antes do crepúsculo, porque foi o primeiro dia de Outono (que não é Outono) da Ilha. Embora tenha amanhecido um bonito dia de Verão, pouco a pouco, sem que ninguém pudesse precatar-se, começou a levantar-se vento, e o céu viu-se coberto de nuvens escuras que adiantaram a noite. Chacho, que tinha chegado do Estado-Maior depois das quatro da tarde, foi o primeiro a dar-se conta da tempestade que se adivinhava,  disse a Casta Diva que apanhasse a roupa do estendal,e saiu à galeria. A mulher viu-o depois, absolutamente imóvel, olhando talvez as copas das árvores. É verdade, pensou Casta Diva, o mundo vai acabar, e fechou as janelas porque o vento, além de forte, trazia areia e sujidade, e levantava remoinhos de folhas mortas. E ouviram-se os baques das janelas a fecharem-se. Irene, que saíra á plaza de Marianao pouco depois de almoço, encontrou ao regressar uma camada de terra sobre o soalho e os móveis, e alguns ramos de álamo incrustados nas grades da janela principal.(...)

tradução de Maria Bragança


a Adília brincou com um excerto de "Katrina´s sun-dial" de Henry van Dyke

esperam que os para lento muito é tempo O

O tempo é muito lento para os que esperam

Muito rápido para os que têm medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curto para os que festejam

eterno é tempo o amam que os para Mas
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.



a Anabela relaxou-nos com um excerto de "O Hobbit" de J. R. R. Tolkien


a Cristina leu Jorge Luis Borges e Viviane Mosé

São os rios

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heraclito, o Obscuro.
Somos a água, não diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos esse grego
a olhar-se no rio. A sua imagem
muda na água do espelho entre as margens,
no vidro que varia, fogo cego.
Somos o rio vão, predestinado,
rumo ao seu mar. De sombra está cercado.
Tudo nos diz adeus, tudo nos deixa.
A memória não cunha moeda lesta.
E no entanto há algo que ainda resta

Jorge Luis Borges de "Os conjurados"
tradução de Fernando Pinto do Amaral




quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?
o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto
com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás

um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando

Viviane Mosé de "Pensamento Chão, poemas em prosa e verso"

e ainda a versão da autora


e como não podia deixar de ser, acabámos a comer bolos


próxima sessão | 15 Outubro 2013

será o tema
***ATENÇÃO***
só leituras individuais de autores estrangeiros e com o máximo de 2 minutos
 

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

Renúncia

o Fernando e a Cristina leram a partir de Bernardo Soares, Manuel Alegre e Eugénio de Andrade

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.


a Mariana e o António leram de Florbela Espanca

Para Quê?!

Tudo é vaidade neste mundo vão ...
Tudo é tristeza, tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão! ...

Beijos de amor! Pra quê?! ... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta! ...

de "Livro de Mágoas"


a Eugénia e a Rosa leram  "Deixa sempre para amanhã o que podes fazer hoje" de Pedro Bandeira Freire, do livro "A linguagem do gesto"



a Mila leu excertos do conto "Miura" de "Bichos" de Miguel Torga




Anabela, António, Alexandra, Ana Maria, Helena e Adília leram "Não vou" de Júlio de Sousa




a Isabel leu de Florbela Espanca

Renúncia

A minha mocidade outrora eu pus
No tranquilo convento da Tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Lua, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
É como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra,
Ó minha mocidade toda em flor!

de Livro de Sóror Saudade


o Manuel falou-nos de Gao Xingjian e leu-nos excertos de "A montanha da alma"

o CLeVA no dia internacional do idoso

Foi hoje apresentado, no Fórum Cultural, o Plano Municipal Sénior de Alcochete.

A Andante foi convidada a apresentar este clube de leitura, e alguns dos membros, os que conseguiram estar presentes... leram.



a Mariana, a Eugénia e a Graciete leram, entre outros, "Onde estão as casas?" do livro "Urgente" de Fernanda de Castro

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?

Só vejo prisões,
só vejo caixões
para se morrer,
onde estão as casas
para se viver?

Vejo casarões
onde o corpo vive,
não o pensamento.
Vejo torres altas
de ferro e cimento.
Olho cada uma:
tudo bem cinzento,
cor de cor nenhuma.

Tinham nas janelas
cravos, sardinheiras,
cortinas de cassa.
Quem se lembra delas
e da sua graça?

Tinham nos beirais
ninhos de andorinhas,
pequenos quintais
com dois pés de vinha.

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?

As portas não eram
forradas de trancas,
eram portas boas,
eram portas francas,
portas para amigos,
portas sem ferrolhos,
portas com postigos.

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?

Vejo só gaiolas,
vejo só prisões,
vejo só quartéis,
só prédios modernos,
pequenos infernos,
passarões sem asas.

Onde estão as casas?
Onde estão as casas?




a Mila leu "Fado português" de José Régio



e a Anabela leu um poema inédito de Jaime Alves, idoso da Santa Casa da Misericórdia de Alcochete.

próxima sessão | 8 Outubro 2013

será o tema
***ATENÇÃO***
para esta sessão todas as leituras serão de autores de língua portuguesa e apresentadas em grupo

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

Língua




a Cristina começou por ler um poema de António Ramos Rosa

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol

Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol

A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram as suas faces
e na minha língua o sol trepida

melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maravilha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

de "A mão de água e a mão de fogo - Antologia Poética"


a Alexandra e o Guilherme leram "A Língua do Nhem" de Cecília Meireles

Havia uma velhinha
que andava aborrecida
pois dava a sua vida
para falar com alguém.

E estava sempre em casa
a boa velhinha
resmungando sozinha:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

O gato que dormia
no canto da cozinha
escutando a velhinha,
principiou também

a miar nessa língua
e se ela resmungava,
o gatinho a acompanhava:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

Depois veio o cachorro
da casa da vizinha,
pato, cabra e galinha
de cá, de lá, de além,

e todos aprenderam
a falar noite e dia
naquela melodia
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

De modo que a velhinha
que muito padecia
por não ter companhia
nem falar com ninguém,

ficou toda contente,
pois mal a boca abria
tudo lhe respondia:
nhem-nhem-nhem-nhem-nhem-nhem...

de "Ou isto ou aquilo"


a Cristina, a Fernanda, a Graciete e a Helena leram e até cantaram, "Uns vão bem outros mal" de Fausto, do disco "Madrugada dos Trapeiros"




a Antónia leu "A língua" de sua autoria


a Anabela leu-nos um excerto de "Apologia de Sócrates" de Platão


a Eugénia leu um excerto de "Meditações lusíadas" de Pinharanda Gomes


a Mila leu um excerto de "Lingua" de Caetano Veloso




o Manuel leu um excerto do "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro [...] a página mal escrita, a sintaxe errada [...] Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.


a Mariana leu excertos de "Esta língua portuguesa" de José Jorge Letria


a Vitória leu um excerto de um conto de Onésimo Teotónio Almeida de "Era-lhe pátria aquela língua*" do livro "Português sem filtro"
* ensaio sobre a língua em que o autor refere este mesmo conto


o António leu

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta. -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...

Álvaro de Campos 1931-1935


a Adília teceu considerações sobre a língua, a partir de uma crónica de valter hugo mãe na revista Visão


o Fernando leu "O sal da língua" de Eugénio de Andrade e

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena de Conheço o sal e outros poemas



António leu um excerto de "A invenção do dia claro" de Almada Negreiros

a Rosa trouxe-nos um autor que nunca tinha lido, Walter Riso e leu-nos um excerto do livro "Não obrigado"

a Cristina  leu "Perguntas à língua portuguesa" de Mia Couto



finalmente cantámos os parabéns à Andante que fez recentemente 14 anos e

comemos, claro!


próxima sessão | 24 setembro 2013

será o tema

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

hoje o CLeVA está com o Rodolfo Castro

LER ANTES DE LER
Laboratório experimental de leitura em voz alta.

Origem e ensinamentos dos leitores da antiguidade e modernos.
Linguagem infantil e transgressão da voz. A procura da voz que não mente: Jogo, experimentação sonora, ruptura.
Compreensão leitora: reflectir, questionar, emocionar. Como sacudir o texto para o fazer produzir sons.
O corpo: A arte de falar em silêncio.

http://www.rodolfocastro.com/




e logo mais à noite (21h30) aqui no Fórum Cultural Alcochete

Espectáculo:
"Os piores contos do Mundo", contados pelo pior contador de histórias do Mundo.

Contos fora da lei, de humor branco e ironia, histórias que arrepiam e que abanam a cabeça e os ossos dos que escutam. Relatos de autores modernos e antigos que partilham o espaço comum da transgressão e da alegria. Para toda a família.




Casa

voltámos

a Cristina falou-nos sobre Dante e a sua Divina Comédia

e sobre o tema do dia:

a Mariana leu-nos "A nossa casa" de Florbela Espanca


a Cristina leu "Casamento" de Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

de Adélia Prado - Poesia Reunida


a Helena Pinto leu-nos um poema  de Manuel Carqueijeiro do seu livro "Poemas do mundo fugitivo"


a Helena Barros leu um excerto de "Casa tomada" de Rui Zink do livro "Luto pela felicidade dos portugueses"


a Marília leu-nos um excerto de "Onde moram as casas" de Carla Maia de Almeida e Alexandre Esgaio


a Cristina Paiva  leu de Herberto Helder, "Falemos de casas"

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.

Digamos que descobrimos amoras, a corrente oculta
do gosto, o entusiasmo do mundo.
Descobrimos corpos de gente que se protege e sorve, e o silêncio
admirável das fontes –
pensamentos nas pedras de alguma coisa celeste
como fogo exemplar.
Digamos que dormimos nas casas, e vemos as musas
um pouco inclinadas para nós como estreitas e erguidas flores
tenebrosas, e temos memória
e absorvente melancolia
e atenção às portas sobre a extinção dos dias altos.

Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis
das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos.
- Que fizeram estes arquitectos destas casas, eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra, aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?

Alguém trouxera cavalos, descendo os caminhos da montanha.
Alguém viera do mar.
Alguém chegara do estrangeiro, coberto de pó.
Alguém lera livros, poemas, profecias, mandamentos,
inspirações.
- Estas casas serão destruídas.
Como um girassol, elaborado para a bebedeira, insistente
no seu casamento solar, assim
se esgotará cada casa, esbulhada de um fogo,
vergando a demorada cabeça para os rios misteriosos
da terra
onde os próprios arquitectos se desfazem com suas mãos
múltiplas, as caras ardendo nas velozes
iluminações.

Falemos de casas. É verão, outono,
nome profuso entre as paisagens inclinadas
Traziam o sal, os construtores
da alma, comportavam em si
restituidores deslumbramentos em presença da suspensão
de animais e estrelas,
imaginavam bem a pureza com homens e mulheres
ao lado uns dos outros, sorrindo enigmaticamente,
tocando uns nos outros –
comovidos, difíceis, dadivosos,
ardendo devagar.

Só um instante em cada primavera se encontravam
com o junquilho original,
arrefeciam o resto do ano, eram breves os mestres
da inspiração.
- E as casas levantavam-se
sobre as águas ao comprido do céu.
Mas casas, arquitectos, encantadas trocas de carne
doce e obsessiva - tudo isso
está longe da canção que era preciso escrever.        

- E de tudo os espelhos são a invenção mais impura.

Falemos de casas, da morte. Casas são rosas
Para cheirar muito cedo, ou à noite, quando a esperança
Nos abandona para sempre.
Casas são rios diuturnos, nocturnos rios
Celestes que fulguram lentamente
Até uma baía fria – que talvez não exista,
como uma secreta eternidade.

Falemos de casas como quem fala da sua alma,
Entre um incêndio,
Junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.

de "Ou o poema contínuo"


o Fernando leu "Como se desenha uma casa" de Manuel António Pina de "Como se desenha uma casa"




a Antónia apresentou-nos uma versão sua sobre as casas


a Ana Maria leu-nos "A casa" de Nuno Cardoso Dias

Quando as paredes lhe devolveram
o gelo do seu olhar
soube que a casa ainda não era casa
e que nas suas paredes não estavam ainda inscritas
as metáforas do seu cansaço,
do quotidiano que os traía
à comunhão das coisas pequenas.

Faltava ainda
que ardessem como incenso,
as folhas do seu Outono,
que as imagens e os sonhos lhes caíssem das mãos
e as deixassem nuas
para serem dadas.

Faltava-lhes ainda, ao abrir da porta,
ver os seus cheiros fundidos
como pegadas intangíveis
sussurradas, voláteis.

Faltava ainda o eco das palavras
e dos silêncios que trocavam,
de todos os significados
que deixavam ao acaso
como se fossem segredos,
segredos pequeninos,
espalhados pela casa
à espera que o outro os lesse.

Faltavam ainda as roupas de ambos
sobre a cadeira, à espera
que acordassem do mesmo sono.


a Isabel leu "Rua de todos os sonhos" de Maria Helena Soares Reis Horta


a Anabela, a Alexandra e a Cíntia leram-nos "As casas" de Ruy Belo

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

de Todos os poemas