Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


Gatos


a Cristina nunca tinha lido nada de valter hugo mãe
leu-nos vários excertos de "A desumanização"

a Alexandra leu-nos o "Romance da gata Tareca" do livro
"A gata Tareca e outros poemas levados da breca" de Luísa Ducla Soares

a Isabel leu

O gato

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, para
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.

Vinícius de Moraes


a Ana Maria e o António leram

O Gato Sábio

Um mestre de esgrima queria libertar-se de uma ratazana que dava cabo do local de treino.
Nem o gato mimado pelo mestre, nem os gatos da vizinhança podiam com a ratazana. Também as cutiladas do mestre a não atingiam, só conseguia estragar biombos e móveis enquanto a ratazana lhe dava cabo da cabeça.
Mas trouxeram-lhe de muito longe um gato famoso que, com uma única finta, despistou a ratazana e a deixou imobilizada.
Reunidos em assembleia, os gatos do bairro debatiam o segredo do triunfo. A chave é a agilidade, diz um, tudo está na decisão, opina outro; é preciso juntar o ânimo próprio com o do inimigo, precisa um terceiro.
“Não basta - corrige-os a todos o gato famoso - enquanto não actuares sem pensar em ti mesmo, serás derrotado”. E acrescentou: “Conheço um gato ainda mais eficaz. Dormita e não faz nada, mas a sua simples presença afugenta as ratazanas. Perguntei-lhe o seu segredo e não mo disse.
Quem realmente sabe não o diz. Quem o diz levianamente é sinal de que não sabe”.

Juan Masiá
de A Sabedoria do Oriente


a Antónia leu "O perigo da hesitação prolongada",
uma citação de Victor Hugo


a Cíntia e a Anabela leram-nos vários excertos
de "Os Maias"  de Eça de Queirós
onde se fala do Bonifácio


o António leu "Gato" de Alexandre O´Neill




a Marília leu

Souvenir Africain

O gato aproximou-se, escutando também ele o silêncio hirto das palmeiras, que são no horizonte a primeira coisa verdadeira que nos assoma aos olhos, mesmo antes de haver o que possa chamar-se claridade. O casario afogado no escuro respira anónimo e reles, a face encardida, a fenda estreita da boca por onde dificilmente passará a luz, que de súbito rompeu no terraço e não tardará a escaldar. Depois o sol acalma, e lá para o fim da tarde uma sombra mole escorre do muro para o cimento aquecido. É então que o gato se transforma em cadela, arrastando-se até aos nossos pés, deitando-se de costas, o ventre carnudo ávido do prazer profundo que lhe oferece por fim a mão.

Eugénio de Andrade
de Os dóceis animais


a Cristina, a Fernanda, a Graciete e a Helena leram

Curiosidades sobre gatos:

Escritores e gatos

Os gatos são a companhia ideal para quem tem o hábito de ler. Silenciosos e independentes, sabem respeitar a concentração dedicada a uma boa leitura. Muitos escritores, artistas e outras pessoas notáveis inspiraram-se nos gatos e ofereceram frases e poemas: Bocage, Prévert, Baudelaire, Alexandre O’Neill, Manuel António Pina (Uma prosa sobre meus gatos), Jean Cocteau ( les chats de Paris) e por aí fora…

Muitos fizeram apreciações sobre os gatos:

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios”.
(Lord Byron);


“São distantes, discretos, impecavelmente limpos e sabem calar. Falta mais alguma coisa para considerá-los uma excelente companhia?”
(Rainha Maria Leszczynska - esposa de Luís XV);


"Os gatos apreciam o silêncio, a ordem e a calma e nenhum lugar lhes convém mais do que o escritório do literato" 
(T. Gauthier);

 etc., etc., etc….

Gatos de alguns famosos:

- Minou de George Sand
- Rupi – gato do fundador dos Jethro Tull, Ian Andersen, que inspirou a música que deu título ao seu albúm "Rupi’dance"
- Taki - gato de Raymond Chandler , criador do detective Philp Marlowe
- White Heather – gata gorda angora preferida da rainha Vitória…e também pertenceu a seu filho, o rei Eduardo VIII

Enfim, há inúmeros textos sobre este tema , e nós escolhemos um poema de João de Deus,  "A uma gata"  e dois de Alexandre O’Neill,  Poema do Desamor e Que fazes por aqui, ó gato?

A uma gata

Tu só, pobre animal, beijas o triste!
Tu que o rato devoras, e que os dentes
Tens afiados para quanto existe!
Caprichosa excepção! Dize: que sentes?

Amas, pobre animal! e tens tu pena,
Sim, pode na tua alma entrar piedade?
Se pode entrar eu sei! Negar quem há-de
Amor ao tigre, coração à hiena!

Tudo no mundo sente: o ódio é prémio
Dos condenados só que esconde o Inferno
Tudo no mundo sente: a mão do Eterno
A tudo deu irmão, deu par, deu gémeo.

A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto.!
Esta fera, que as unhas encolhendo
Pelos ombros me trepa e vem, correndo,
Beijar-me… Só não vivo! Amado existo!

João de Deus
de Campo de Flores


Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato


Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill
Poesias Completas


a Helena leu "O meu Gato Tobias é parecido com o Lince-Ibérico"
de Paula Abreu
ilustrado por Inês Má



a Vitória leu um excerto de "O Gato Malhado e a Adorinha Sinhá"
de Jorge Amado



a Ana Maria leu um excerto de


a Rosa pôs-nos todos a repetir a lenga-lenga

Sape gato
Sape gato
Lambareiro
Tira a mão
Do açucareiro

Tira a mão
Tire o pé
Do açúcar
Do café







a Cristina leu


Gatos

Gatos novos
gatos velhos
gatos magros
gatos gordos
gatos brancos
gatos pretos
gatos mimalhos
gatos a pedir
gatos a roubar
gatos a fugir
gatos a ronronar
gatos no telhado
gatos na janela
gatos no sofá
gatos no berço
gatos na cama
gatos na sala
gatos na cozinha
gatos maltratados
gatos a miar
em noites de luar.

Gatos doentes
gatos a brincar
gatos a dormir
gatos a saltar
gatos a parir
gatos a mamar
gatos a nascer
gatos a arranhar
gatos a comer
gatos a pular
gatos a lamber
gatos lestos
gatos mancos
gatos siameses
gatos persas
gatos malteses.

Tantos gatos
de rabo alçado
e eu só tenho um
de pano coçado.

António Mota
Lá de cima cá de baixo



E foi com este mesmo texto que, em grupo, fizemos umas brincadeiras


um comício


conversa de vizinhas


crianças


um jogo

e no cair do pano
algo completamente diferente ;-)


o arranque do clube de leitura em voz alta de Tábua

A Biblioteca Municipal João Brandão convidou a Andante a dar uma ajuda no início do seu clube de leitura em voz alta.

duas Cristinas deram o arranque

depois de uma visita guiada através das palavras da Cristina Paiva e das imagens deste nosso blogue fizeram-se algumas leituras

a Dolores leu

Se

Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu…
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê…Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário…
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão…

Se podes dizer bem de quem te calunia…
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)…

Se podes esperar sem fatigar a esperança…
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho…
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho…

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores…
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores…

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste…

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo…

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante…

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre…
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade…
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade…

Se quem conta contigo encontra mais que a conta…
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minute se espraie em séculos fecundos…

Então, á ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!…
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!…

Rudyard Kipling

tradução de Féliz Bermudes

Aqui dito por João Villaret

a Cristina leu

O primeiro dia

A princípio é simples, anda-se sozinho,
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borburinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo e dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E é então que amigos nos oferecem leito,
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se e come-se se alguém nos diz bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso por curto que seja,
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

E enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Entretanto o tempo fez cinza da brasa
outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa,
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida:
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida!

Sérgio Godinho
de Pano-cru


depois o grupo agradeceu e retribuiu a oferta que lhe fizemos


claro que a noite não terminaria sem moscatel e fogaças

próxima sessão | 21 janeiro 2014

será o tema

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

Alentejo


a Cíntia falou-nos de David Lodge

a Ana Maria e o António leram-nos um excerto de
"A poesia da alma alentejana" de
Joana da Consolação Correia

Oh! terra ardente
Charneca em flor
Feita dum sonho
Sonho de amor!
                                João Camilo

O Alentejo

Não é a savana das planícies áridas e incultas.
Não é a charneca bravia dos matagais: das estevas, das giestas, dos tojais, das urzes e das piorneiras.
É a terra de entranhas fecundas do trigo loiro; dos olivedos tristes mas viçosos, de azeitonas luzidias, do óleo puro amarelo-
doirado; dos montados de frutos coroados de carapulos; dos vinhedos estendidos à vontade às chapadas do sol que geram as castas de uvas soberbas como estirpes; dos pomares e hortas, vergéis escondidos em vales que são paraísos pitorescos onde correm ribeiros e arroios orlados de toda a espécie de mimosa vegetação; viçosa verdura e arbustos, virentes eucaliptos; os verdes choupos e salgueiros e as gigantes faias.

Traduções
piorneiras = moita de piorno
carapulos = cálice das bolotas

Joana da Consolação Correia
de "A poesia da Alma Alentejana" - 1956 – Edição de Autor


a Rosa, o António e a Mariana leram
Canção de maltês

Bati à porta do monte
porque sou um deserdado.
E chovia nessa noite
como se o céu fosse um mar
entornando-se na terra.
Quem abre a porta a desoras
morando num descampado?
E continua o rafeiro que ladrava,
na ponta do meu cajado.
Mas veio abri-la o lavrador
com a espingarda na mão,
e pôs um olhar altivo
tão fundo dos meus olhos
que as minha primeiras falas
foram assim naturais:
guarde a espingarda, senhor,
sou um homem sem trabalho.
Fui secar-me à lareira.
E a filha do lavrador,
que era uma moça perfeita,
ficou a olhar de gosto
a minha manta rasgada
e o meu fato de maltês.
E com licença do pai,
estendeu-me um canto de pão
com azeitonas maduras.
Não aceitei como esmola;
antes roubar que pedir:
paguei com a melhor história
da minha vida sem rumo.
Foi uma paga de rei.
Prà filha do lavrador,
tinha muito mais valia
a história que lhe contei
que o trigo do seu celeiro,
pois estava a olhar de gosto
a minha manta rasgada.
E quando o fogo na lareira
ia aos poucos esmorecendo
agradeci como é de uso;
despedi-me até mais ver
e fui dormir pró palheiro
que é palácio de maltês.
Despedi-me até mais ver que a gente da minha raça
mal o Sol tenta nascer
ergue-se e parte pelo mundo
sem se lembrar de ninguém.
Assim me deitei ao canto
a esperar pela manhã.

Manuel da Fonseca


a Antónia leu "Verão" de Manuel Conde
e "É tão grande o Alentejo" Popular

Aqui uma versão de "Verão" por António Zambujo


e aqui uma versão de "É tão grande o Alentejo" por Dulce Pontes e Os Ganhões de Castro Verde


a Eugénia leu um excerto de
"Levantado do chão" de José Saramago
e um excerto de
"Cerromaior" de Manuel da Fonseca

a Cristina, a Graciete, a Helena e a Fernanda leram:



e




a Alexandra leu

Catarina Eufémia

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não

deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método ubíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro
no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

Sophia de Mello Breyner Andresen

a Vitória leu

Romance do terceiro oficial de finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
- os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!...
- isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...

Manuel da Fonseca

a Marília leu um excerto de
"Nenhum olhar" de José Luís Peixoto

a Helena leu a Lenda da Moura de Salúquia

a Adília, a Anabela, a Cíntia e o António conseguiram uma extraordinária
parceria do CLeVA com os vinhos da Herdade do Esporão

a Cristina e o Fernando trouxeram a Mariana, uma convidada especial, para os acompanhar
no poema "Aldeia" de Manuel da Fonseca de mistura com
Uma gotinha d'água

Aldeia

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Manuel da Fonseca



está quase a começar um novo clube de leitura em voz alta, desta vez na Biblioteca de Tábua.
Nós fizemos uma brincadeira com "Um Carnaval" de Alexandre O'Neill para lhes oferecer

desta vez o aniversariante foi o António Gil

como se precisássemos de algum pretexto para terminar a sessão a comer e a beber

próxima sessão | 7 janeiro 2014

será o tema
***ATENÇÃO***
as leituras serão, preferencialmente, apresentadas em grupo

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

infância


Foram dois os motivos que fizeram desta sessão, uma das menos participadas do CLeVA.
O primeiro chama-se "constipação, gripe ou fruta da época", ao segundo chamam-lhe "produtividade"; pois ao contrário do que se pensa no centro da Europa, aqui continua a trabalhar-se, e muito.
Mas não se pense que a sessão foi menos animada, senão vejamos:

o António e a Anabela começaram com um excerto bem humorado
de "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carroll
(o atraso do coelho foi genial)

a Rosa o António Soares e a Mariana leram um excerto de
"Num meio dia de fim de Primavera" de Alberto Caeiro

o António Gil e a Ana Maria leram
Meu primeiro poema

Vou contar-lhes uma história de pássaros.
No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido, rápido, remavam... Os cisnes, como o albatroz, devem correr patinando sobre a água, empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.
Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro, uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido em uma estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.
Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.
Entregaram-mo quase morto. Lavei as suas feridas e empurrei-lhe pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo. No entanto, foi se refazendo dos seus ferimentos, começou a perceber que eu era seu amigo. E comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando o pesado pássaro nos meus braços pelas ruas, levei-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim. Eu queria que ele pescasse e indicava-lhe as pedrinhas do fundo, as areias por onde deslizavam os peixes prateados do sul. Mas ele olhava para a distância com olhos tristes.
Assim, diariamente, durante mais de vinte dias, levei-o ao rio e trouxe-o para minha casa. O cisne era quase tão grande quanto eu. Uma tarde ficou mais alheio, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os insetinhos com que eu queria ensinar-lhe novamente a pescar. Ficou muito quieto e tomei-o de novo nos braços para o levar para casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma tira, algo como um braço negro que me roçasse o rosto. Era o seu comprido e ondulante pescoço que caía.
Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem.

“Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale, mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas um caminho,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.”

Pablo Neruda 
de "Confesso que Vivi"
Tradução de Olga Savary

a Eugénia leu-nos de Fernando Sylvan

Meninas e Meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

Fernando Sylvan
de "Primeiro livro de poesia"
selecção de Sophia de Mello Breyner Andresen

a Alexandra "quase" cantou "Velha infância" do Tribalistas

a Helena leu, de Sebastião da Gama

Também eu

Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos…

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.

Mas nem tudo se foi;
ficou-me, dos tempos de menino,
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Sebastião da Gama
de "Itinerário Paralelo"

a Vitória leu-nos um excerto do conto
"Cabeça de boga" de Vitorino Nemésio

a Adília leu de Mário de Sá-Carneiro

Feliz como uma Criança

Oh! A idade venturosa da infância! Onde há outra mais feliz e mais tranquila, mais sorridente - isto é, mais egoísta?... Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. Se elas nos não arrancam nem os brinquedos nem os bolos, não nos atingem de forma alguma... não as compreendemos sequer...
Quando muito, correm-nos lágrimas vendo chorar as nossas mães. No entanto, é só ainda vagamente que percebemos a dor humana. Por isso as nossas lágrimas secam depressa diante dos brinquedos. E se o quadro em que nos agitamos é risonho, a infância tansforma-se-nos então num jardim maravilhoso. Para as crianças felizes, só para elas, existe realmente um céu - o ceú dos seus primeiros anos.

Mário de Sá-Carneiro
de "O Incesto"

o Fernando leu de Ruy Belo

Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe o que há-de fazer com a infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era cor de bibe
E tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo
de Obra Poética

e como não podia deixar de ser acabámos a sessão com bolinhos e moscatel