Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


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próxima sessão | 21 janeiro 2014

será o tema

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

Alentejo


a Cíntia falou-nos de David Lodge

a Ana Maria e o António leram-nos um excerto de
"A poesia da alma alentejana" de
Joana da Consolação Correia

Oh! terra ardente
Charneca em flor
Feita dum sonho
Sonho de amor!
                                João Camilo

O Alentejo

Não é a savana das planícies áridas e incultas.
Não é a charneca bravia dos matagais: das estevas, das giestas, dos tojais, das urzes e das piorneiras.
É a terra de entranhas fecundas do trigo loiro; dos olivedos tristes mas viçosos, de azeitonas luzidias, do óleo puro amarelo-
doirado; dos montados de frutos coroados de carapulos; dos vinhedos estendidos à vontade às chapadas do sol que geram as castas de uvas soberbas como estirpes; dos pomares e hortas, vergéis escondidos em vales que são paraísos pitorescos onde correm ribeiros e arroios orlados de toda a espécie de mimosa vegetação; viçosa verdura e arbustos, virentes eucaliptos; os verdes choupos e salgueiros e as gigantes faias.

Traduções
piorneiras = moita de piorno
carapulos = cálice das bolotas

Joana da Consolação Correia
de "A poesia da Alma Alentejana" - 1956 – Edição de Autor


a Rosa, o António e a Mariana leram
Canção de maltês

Bati à porta do monte
porque sou um deserdado.
E chovia nessa noite
como se o céu fosse um mar
entornando-se na terra.
Quem abre a porta a desoras
morando num descampado?
E continua o rafeiro que ladrava,
na ponta do meu cajado.
Mas veio abri-la o lavrador
com a espingarda na mão,
e pôs um olhar altivo
tão fundo dos meus olhos
que as minha primeiras falas
foram assim naturais:
guarde a espingarda, senhor,
sou um homem sem trabalho.
Fui secar-me à lareira.
E a filha do lavrador,
que era uma moça perfeita,
ficou a olhar de gosto
a minha manta rasgada
e o meu fato de maltês.
E com licença do pai,
estendeu-me um canto de pão
com azeitonas maduras.
Não aceitei como esmola;
antes roubar que pedir:
paguei com a melhor história
da minha vida sem rumo.
Foi uma paga de rei.
Prà filha do lavrador,
tinha muito mais valia
a história que lhe contei
que o trigo do seu celeiro,
pois estava a olhar de gosto
a minha manta rasgada.
E quando o fogo na lareira
ia aos poucos esmorecendo
agradeci como é de uso;
despedi-me até mais ver
e fui dormir pró palheiro
que é palácio de maltês.
Despedi-me até mais ver que a gente da minha raça
mal o Sol tenta nascer
ergue-se e parte pelo mundo
sem se lembrar de ninguém.
Assim me deitei ao canto
a esperar pela manhã.

Manuel da Fonseca


a Antónia leu "Verão" de Manuel Conde
e "É tão grande o Alentejo" Popular

Aqui uma versão de "Verão" por António Zambujo


e aqui uma versão de "É tão grande o Alentejo" por Dulce Pontes e Os Ganhões de Castro Verde


a Eugénia leu um excerto de
"Levantado do chão" de José Saramago
e um excerto de
"Cerromaior" de Manuel da Fonseca

a Cristina, a Graciete, a Helena e a Fernanda leram:



e




a Alexandra leu

Catarina Eufémia

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não

deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método ubíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro
no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

Sophia de Mello Breyner Andresen

a Vitória leu

Romance do terceiro oficial de finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
- os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!...
- isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...

Manuel da Fonseca

a Marília leu um excerto de
"Nenhum olhar" de José Luís Peixoto

a Helena leu a Lenda da Moura de Salúquia

a Adília, a Anabela, a Cíntia e o António conseguiram uma extraordinária
parceria do CLeVA com os vinhos da Herdade do Esporão

a Cristina e o Fernando trouxeram a Mariana, uma convidada especial, para os acompanhar
no poema "Aldeia" de Manuel da Fonseca de mistura com
Uma gotinha d'água

Aldeia

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Manuel da Fonseca



está quase a começar um novo clube de leitura em voz alta, desta vez na Biblioteca de Tábua.
Nós fizemos uma brincadeira com "Um Carnaval" de Alexandre O'Neill para lhes oferecer

desta vez o aniversariante foi o António Gil

como se precisássemos de algum pretexto para terminar a sessão a comer e a beber

próxima sessão | 7 janeiro 2014

será o tema
***ATENÇÃO***
as leituras serão, preferencialmente, apresentadas em grupo

irá ler-nos algo de um autor desconhecido para si

infância


Foram dois os motivos que fizeram desta sessão, uma das menos participadas do CLeVA.
O primeiro chama-se "constipação, gripe ou fruta da época", ao segundo chamam-lhe "produtividade"; pois ao contrário do que se pensa no centro da Europa, aqui continua a trabalhar-se, e muito.
Mas não se pense que a sessão foi menos animada, senão vejamos:

o António e a Anabela começaram com um excerto bem humorado
de "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carroll
(o atraso do coelho foi genial)

a Rosa o António Soares e a Mariana leram um excerto de
"Num meio dia de fim de Primavera" de Alberto Caeiro

o António Gil e a Ana Maria leram
Meu primeiro poema

Vou contar-lhes uma história de pássaros.
No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido, rápido, remavam... Os cisnes, como o albatroz, devem correr patinando sobre a água, empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.
Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro, uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido em uma estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.
Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.
Entregaram-mo quase morto. Lavei as suas feridas e empurrei-lhe pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo. No entanto, foi se refazendo dos seus ferimentos, começou a perceber que eu era seu amigo. E comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando o pesado pássaro nos meus braços pelas ruas, levei-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim. Eu queria que ele pescasse e indicava-lhe as pedrinhas do fundo, as areias por onde deslizavam os peixes prateados do sul. Mas ele olhava para a distância com olhos tristes.
Assim, diariamente, durante mais de vinte dias, levei-o ao rio e trouxe-o para minha casa. O cisne era quase tão grande quanto eu. Uma tarde ficou mais alheio, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os insetinhos com que eu queria ensinar-lhe novamente a pescar. Ficou muito quieto e tomei-o de novo nos braços para o levar para casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma tira, algo como um braço negro que me roçasse o rosto. Era o seu comprido e ondulante pescoço que caía.
Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem.

“Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale, mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas um caminho,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.”

Pablo Neruda 
de "Confesso que Vivi"
Tradução de Olga Savary

a Eugénia leu-nos de Fernando Sylvan

Meninas e Meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

Fernando Sylvan
de "Primeiro livro de poesia"
selecção de Sophia de Mello Breyner Andresen

a Alexandra "quase" cantou "Velha infância" do Tribalistas

a Helena leu, de Sebastião da Gama

Também eu

Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos…

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.

Mas nem tudo se foi;
ficou-me, dos tempos de menino,
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Sebastião da Gama
de "Itinerário Paralelo"

a Vitória leu-nos um excerto do conto
"Cabeça de boga" de Vitorino Nemésio

a Adília leu de Mário de Sá-Carneiro

Feliz como uma Criança

Oh! A idade venturosa da infância! Onde há outra mais feliz e mais tranquila, mais sorridente - isto é, mais egoísta?... Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. Se elas nos não arrancam nem os brinquedos nem os bolos, não nos atingem de forma alguma... não as compreendemos sequer...
Quando muito, correm-nos lágrimas vendo chorar as nossas mães. No entanto, é só ainda vagamente que percebemos a dor humana. Por isso as nossas lágrimas secam depressa diante dos brinquedos. E se o quadro em que nos agitamos é risonho, a infância tansforma-se-nos então num jardim maravilhoso. Para as crianças felizes, só para elas, existe realmente um céu - o ceú dos seus primeiros anos.

Mário de Sá-Carneiro
de "O Incesto"

o Fernando leu de Ruy Belo

Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe o que há-de fazer com a infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era cor de bibe
E tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo
de Obra Poética

e como não podia deixar de ser acabámos a sessão com bolinhos e moscatel

sombras


a Graciete apresentou o seu livro do dia
O prazer de não trabalhar de Ernie J. Zelinski

a Mariana e o António leram
Segue o teu destino... de Ricardo Reis

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nos queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-proprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

de "Odes"

a Antónia leu
Luz entre sombras de Machado de Assis

É noite medonha e escura,
Muda como o passamento*
Uma só no firmamento
Trêmula estrela fulgura.

Fala aos ecos da espessura
A chorosa harpa do vento,
E num canto sonolento
Entre as árvores murmura.

Noite que assombra a memória,
Noite que os medos convida,
Erma, triste, merencória.

No entanto...minha alma olvida
Dor que se transforma em glória,
Morte que se rompe em vida.

de "Falenas"


a Eugénia leu um texto de sua autoria


a Cristina e a Helena leram
A sombra de Eurídice de Teixeira de Pascoaes

I

Canção divina as cousas comovia,
E de ternura as árvores choravam ...
E lembrava o luar a luz do dia
E os ribeiros, extáticos, paravam.

Era Orfeu, de inspirado, que descia
Às entranhas da terra! E se afundavam
Os seus olhos na noite, muda e fria,
Onde as pálidas sombras vagueavam.

Eurídice, o seu morto e triste amor,
Ouvindo-o, tomou forma e viva cor,
Íntima luz à face lhe subiu ...

Mas Orfeu, pobre amante enlouquecido,
Quis ver aquele corpo estremecido ...
E, outra vez sombra, Eurídice fugiu ...

II

Ai dos que vêem as cousas da Natura
Com este olhar da Carne, escuridão,
Que tudo nos transtorna e desfigura,
Nem mostra o mundo e o céu como eles são!

Com este olhar de trágica amargura
— Torva luz de delírio e confusão! ­
Que nos faz ver, brutal e tosca e dura,
A sensível e viva Criação!

Ó desgraçada luz, que só revelas
A face tenebrosa das estrelas
E a nossa pobre sombra, entregue à sorte ...

Candeia, onde é o azeite água dorida,
Não nos mostras o mundo em alma e vida,
Mas em lívido corpo e negra morte!

de "As sombras"

a Graciete e a Fernanda leram
Canção da tarde no campo de Cecília Meireles


Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

(Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.)

Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

(Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.)

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo
minha alma é a sombra da tua.

(Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.)

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

(Eu ando sozinha,
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.)


a Vitória também leu
Segue o teu destino... de Ricardo Reis


o João leu
Noite Escandinava de Mia Couto
de "Tradutor de Chuvas"


a Alexandra leu
de Fernando Pessoa
Episódios

A Múmia



Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-me as lâmpadas
Na alcova cambaleante.

Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tacto
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista.

Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical.

A alcova
Desce não sei por onde
Até não me encontrar
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.

Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.

de "Poesias"



o António leu
de Ana Hatherly


A beleza deste ocaso
                            esplêndido
                                          afoga
                                                fascina
oprime

A sombra avança
                       lança
                              me
                                em
braços
                      vazios

de "Rilkeana"

a Anabela leu um excerto de
"Maktub" de Paulo Coelho

o Fernando e a Cristina leram

Sócrates: Imagina homens que vivem numa espécie de morada subterrânea em forma de caverna. A entrada abre para a luz, em toda a largura da fachada. Os homens estão no interior desde a infância, acorrentados pelas pernas e pelo pescoço, de modo que não podem mudar de lugar nem voltar a cabeça para ver algo que não esteja diante deles. A luz vem-lhes de um fogo que queima por trás deles, ao longe, no alto. Entre os prisioneiros e o fogo, há um caminho que sobe. Imagina que esse caminho é cortado por um pequeno muro (…)
Glauco: Entendo.
Sócrates: Então, ao longo desse pequeno muro, imagina homens que carregam todo o tipo de objectos fabricados, ultrapassando a altura do muro, estátuas de homens, figuras de animais, de pedra, madeira ou qualquer outro material. (...)
Glauco: Estranha descrição e estranhos prisioneiros!
Sócrates: Eles são semelhantes a nós. Primeiro pensa se, na situação deles, eles terão visto algo mais do que as sombras de si mesmos e dos vizinhos, que o fogo projecta na parede da caverna à sua frente?
Glauco: Como seria isso possível, se durante toda a vida eles estão condenados a ficar com a cabeça imóvel?
Sócrates: Não acontece o mesmo com os objectos que desfilam?
Glauco: É claro.
Sócrates: Então, se eles pudessem conversar, não achas que, nomeando as sombras que vêem, pensariam nomear seres reais? (…)
Glauco: Sim, por Zeus.
Sócrates: Assim sendo, os homens que estão nessas condições não poderiam considerar nada como verdadeiro, a não ser as sombras dos objectos fabricados.
Glauco: Não poderia ser de outra forma.
Sócrates: Vê agora o que aconteceria se eles fossem libertados de suas correntes e curados da sua ignorância.

de A alegoria da caverna , República, Livro VII , Platão

Quando renasci, junto às muralhas, havia uma grande multidão comentando o enigma do universo emergente. Passaram-se os séculos e nunca ninguém mais pensou no caso.
Um dia veio um homem e arrastava atrás de si um prado, com besouros e papoulas. Ninguém comprou.
De casa em casa, fui vendo o desinteresse dos meus concidadãos por tudo. E nem estavam a envelhecer.
Nessa altura decidi partir, para ficar onde era útil. Comecei a escavar um buraco fundo no chão, mesmo a meio da praça central. Alguém me disse:
- Tem-te, não acordes os mineiros que lá em baixo buscam a saída.
Me transformei em nós, muitos, e ocupámos a cidade. Então alguns diziam: «Bem hajam» e outros «hajam bem». Aí criámos uma forte camada de bolores e cogumelos e alguns crustáceos, clandestinamente.
- Fazia falta era um mar - disse um. Foi este que nos ensinou o riso.
Outro trouxe um livro e disse:
- Que fazer?
Foi a debandada.

de Fabulário de Mário de Carvalho

a Cristina ainda nos falou do autor desconhecido que escreveu
"A voz de Lila"
livro do dia neste mesmo clube em 2010
e porque a noite estava fria acabámos a comer e a beber

próxima sessão | 26 novembro 2013

será o tema
***ATENÇÃO***
as leituras deverão ser preparadas em grupo

insolências


o encontro desta vez foi no restaurante "A quinta"

e não faltaram as castanhas e a água-pé

a Antónia leu-nos umas trovas

a Mariana leu, de António Aleixo (o insolente da noite)
Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão
Certos homens a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes
Não digas tudo o que pensas
Mas pensa tudo o que dizes

a Eugénia leu umas décimas do seu pai, Vicente Casadinho e

Balada do caixão

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte,
Ponteia e cose, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mognos, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (Era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

António Nobre

o António Soares também leu António Aleixo
Porque te amo de verdade,
´stou louco por dar-te um beijo,
mas contra a tua vontade
não te beijo e tenho ensejo.

Sabendo que deves ter
milhões deles para me dar,
teria que enlouquecer
para um beijo te roubar.

E como em teus lábios puros,
guardas tudo quanto almejo,
doutros desejos futuros
o beijo mata o desejo.

Roubando um, mil te daria,
o que não posso é jurar
que não te aborreceria
e eu quero-te desejar!


o António Gil leu-nos
Dez mandamentos do Abade de Travanca

Divulgados por Francisco Manuel Alves – Abade de Baçal
nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança


a Cristina leu uma insolência da Natália Correia
João Morgado, Deputado do CDS disse na Assembleia da Republica, no Dia 3 de Abril de 1982, no debate sobre a Despenalização do Aborto, assim:

«O acto sexual é para ter filhos»

Natália Correia, deputada, disse como resposta e em poema, o a seguir descrito que fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção!

Foi publicado depois, pelo Diário de Lisboa em 5 de Abril desse ano, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

“Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -

Uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.”

Natália Correia


a Mila também leu António Aleixo

a Anabela leu umas quadras que ela própria fez alusivas ao momento

a Cristina voltou, desta vez para cantar uma insolência de Artur Gonçalves


a Cíntia também disse umas quantas quadras do Aleixo

o António Marques foi insolente a partir de Braga,
com umas quadras da sua autoria

a Alexandra leu algumas quadras populares,
ligadas ao imaginário popular e ao culto do Beato Gonçalo
"São Gonçalo de Amarante
Santo bem casamenteiro
Antes de casar as outras
A mim casai-me primeiro

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casas as novas?
Que mal te fizeram elas?

Se fordes ao S. Gonçalo
Trazei-me um S. Gonçalinho.
Se não puderdes co'ele grande,
Trazei-me um pequenininho!

São Gonçalo de Amarante
Casai-me que bem podeis,
Já tenho teias de aranha,
Naquilo que vós sabeis.

São Gonçalo de Amarante
Feito de pau azevinho
Dai-me força no vergalho;
Como porco no focinho

São Gonçalo de Amarante
Que estás virado prá vila
Virai-vos pró outro lado
Que vos dá o sol na pila

S. Gonçalo já é velho,
É velho, é maganão,
Quando passa pelas moças,
Arrefia, aperta a mão!

Róla, róla, Sam Gonçalo
Por esse mundo abaixo
Que eu perdi meu amor,
Eu vou-me a ver se o acho!

As freiras de S. Gonçalo
Tocam e bailam no coro,
A culpa é da abadessa
Que não lhes faz ter miolo!

São Gonçalo não quer missa
São Gonçalo não quer esmola
São Gonçalo quer uma festa
De rebeca e de viola

Oh! Meu senhor São Gonçalo
Feito do pau da Cajá
Sapiranga dentro dos olhos
De quem veio pra namorar

Oh! Meu senhor São Gonçalo
Aqui tens duas donzelas
Uma já não é bem moça
E a outra já falam dela"

o Fernando cometeu a insolência de ler um texto em prosa
(...) Se o vosso encargo em sodoma era destruir a cidade, qual é a missão que vos trouxe agora, Não podemos revelá-la a ninguém, avisou um, Bom, não é segredo, disse o outro, e para todos deixará de o ser quando as coisas acontecerem, além disso, este que vai aqui connosco já demonstrou ser de confiança, Assumes a responsabilidade da inconfidência, imagina que ele chega e vai a correr contar a job, O mais provável seria que não acreditasse, Bem, faz o que quiseres, lavo daí as minhas mãos. Caim parou e disse, Não vale a pena que estejam a discutir por minha causa, contem se quiserem, se não quiserem não contem, eu não obrigo nem peço. Perante este desprendimento até o anjo reticente se rendeu, Conta, disse para o outro, e logo, pondo um olhar severo em caim, ordenou, E tu, juras que não dirás a ninguém o que vais ouvir, Juro, disse caim, levantando a mão direita, Então o outro anjo começou, Aqui há dias, como acontece de vez em quando, reuniram-se todos os seres celestes perante o senhor e presente estava também satã, e deus perguntou-lhe, Donde vens agora, e satã respondeu, Fui passear e dar umas voltas pela terra, e o senhor fez-lhe outra pergunta, Não reparaste no meu servo job, não há outro como ele no mundo, é um homem bom e honesto, muito religioso e não faz nada de mal. Satã, que ouvira com um sorriso torcido, desdenhoso, perguntou ao senhor, Achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados, não é verdade que, tal como uma muralha, tu o proteges de todos os lados, a ele e à sua família e a tudo o que lhe pertence. Fez uma pausa e continuou, Mas experimenta tu levantar a mão contra aquilo que é seu e verás se ele não te amaldiçoa. Então o senhor disse a satã, Tudo o que lhe pertence está à tua disposição, mas nele não poderás tocar. Satã ouviu e foi-se embora, e nós aqui estamos, Para quê, perguntou, Para que satã não se exceda, para que não vá além dos limites que o senhor lhe marcou. Então caim disse, Se bem entendi, o senhor e satã fizeram uma aposta, mas job não pode saber que foi alvo de um acordo de jogadores entre deus e o diabo, Exactamente, exclamaram os anjos em coro, A mim não me parece muito limpo da parte do senhor, disse caim, se o que ouvi é verdade, job, apesar de rico, é um homem bom, honesto, e ainda por cima muito religioso, não cometeu nenhum crime, mas vai ser castigado sem motivo com a perda dos seus bens, talvez, como tantos dizem, o senhor seja justo, mas a mim não me parece, faz-me recordar sempre o que aconteceu com abraão a quem deus, para o pôr à prova, ordenou que matasse o seu filho isaac, em minha opinião, se o senhor não se fia das pessoas que crêem nele, então não vejo por que tenham essas pessoas de fiar-se do senhor, Os desígnios de deus são inescrutáveis, nem nós, anjos, podemos penetrar no seu pensamento, Estou cansado da lengalenga de que os desígnios do senhor são inescrutáveis, respondeu caim, deus deveria ser transparente e límpido como cristal em lugar desta contínua assombração, deste constante medo, enfim, deus não nos ama, Foi ele quem te deu a vida, A vida deram-ma meu pai e minha mãe, juntaram a carne à carne e eu nasci, não consta que deus estivesse presente no acto, Deus está em todo o lado, Sobretudo quando manda matar, uma só criança das que morreram feitas tições em sodoma bastaria para o condenar sem remissão, mas a justiça, para deus, é uma palavra vã, agora vai fazer sofrer job por causa de uma aposta e ninguém lhe pedirá contas, Cuidado, caim, falas de mais, o senhor está a ouvir-te e tarde ou cedo te castigará, O senhor não ouve, o senhor é surdo, por toda a parte se lhe levantam súplicas, são pobres, infelizes, desgraçados, todos a implorar o remédio que o mundo lhes negou, e o senhor vira-lhes as costas, começou por fazer uma aliança com os hebreus e agora fez um pacto com o diabo, para isto não valia a pena haver deus.(...)

de Caim de José Saramago

a Rosa leu
Quadras ao jeitinho popular da época; versão 2013 de José Gabriel

o Fernando voltou e desta vez, a partir do resultado devolvido pelo dicionário Priberam,
leu uma quadras de Francisco Horta do disco
No Paraíso Real – tradição, revolta e utopia no sul de Portugal


e a Helena também leu António Aleixo
Só a Arte tem o poder
de a todos nós transmitir
o que todos podem ver,
mas poucos podem sentir.

Dom de artista tem quem cria
obras de arte: esse é artista,
como não é quem copia
aquilo que tem à vista.

Nada direi, mas, enfim,
vou ter a grande alegria
de a Arte dizer por mim
tudo quanto eu vos diria.

Mágoas descritas em verso,
quando nascem de almas sãs,
percorrem todo o universo
falando ás almas irmãs.

Na música, tal encanto
eu encontro, que a meu ver,
só o amor dirá tanto
quanto ela sabe dizer.

Nas muitas quadras que canto,
procuro, mas não consigo,
uma só que diga tanto
como em todas elas digo.

Meus versos são dos piores,
não sou poeta distinto...
mas talvez fossem melhores
se os lessem como eu os sinto.


e a noite continuou animada com quadras, décimas e algumas cantigas