Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


Mostrar mensagens com a etiqueta CLeVA2.0. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CLeVA2.0. Mostrar todas as mensagens

próximas sessões



13 de Dezembro


fará a leitura alternativa

20 de Dezembro
(sessão pública)



fará a leitura alternativa

2011.11.29 - Banana

Cristina
A banana de Scliar in Revista Ler n.º 78
José Mario Silva (o Bibliotecário de Babel)


No início do século XX, um rapazinho russo foge, com a família, da revolução bolchevique e chega a Porto Alegre (Rio Grande do Sul), no porão de um navio de carga. Durante a viagem de cinco semanas através do Atlântico, o futuro imigrante passou fome. Está muito frágil, esquelético, subnutrido. No cais, ao ver o seu estado, um gaúcho hospitaleiro oferece-lhe uma banana. O miúdo compreende que se trata de uma coisa de comer, embora não saiba como. Português não fala, por isso mexe no fruto esquisito, experimenta-o. «Até descobrir que a banana se descasca. Ele sabia que a laranja se descascava, porque na Rússia, nos dias de festa, costumava haver uma laranja para distribuir pela família inteira (um gomo para cada um). E ele sabia que a laranja tinha casca e caroços. Ao descascar a banana, apareceu uma coisa que ele julgou ser o caroço da banana. Deitou fora esse caroço e, para surpresa do gaúcho, comeu a casca de banana até ao fim.» Muitos anos mais tarde, o escritor brasileiro Moacyr Scliar, seu filho, que é quem fala dentro destas aspas, haveria de pegar na história e contá-la «mais de mil vezes». A última foi no encontro Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, e o desenlace voltou a despertar gargalhadas e aplausos na plateia: «Meu pai morreu com mais de 80 anos e nunca deixou de me dizer: “sabe, filho, casca de banana não é tão ruim assim como a gente pensa.”»

Paula S.
Tô só in Correio Popular de Campinas (SP)
Hilda Hilst


uma leitura alternativa com acento do Brasil

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá

de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?

E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*

Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha. (*Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959)

Paulo M.
Contra-a-mão in Correio da Manhã (Rio, 26-8-1938)
Gondim da Fonseca


Eu tropecei agora numa casca de banana.
Numa casca de banana!
Numa casca de banana eu tropecei agora,
Caí para trás desamparadamente,
E rasguei os fundilhos das calças!
Numa casca de banana eu tropecei agora.
Numa casca de banana!
Eu tropecei agora numa casca de banana!

como os mais atentos terão reparado, este poema foi escrito em crítica ao nosso conhecido No meio do caminho. Um pouco mais desta história, que merece ser conhecida, aqui.


António Gil

Um dia perfeito para o peixe banana
J.D. Salinger



Olhou para o mar. “Sybil,” disse, “vou-te dizer o que é que vamos fazer. Vamos ver se conseguimos apanhar um peixe banana.”
“Um quê?”
“Um peixe banana,” disse, desatando o cinto e tirando o roupão. ... Baixou-se, apanhou a bóia e colocou-a debaixo do braço direito. Depois, com a mão esquerda, agarrou a mão de Sybil, e começaram a andar em direcção ao mar.
“Imagino que já deves ter visto muitos peixes banana,” disse o jovem. Sybil abanou com a cabeça. “Não viste? Mas onde é que tu vives?” “Não sei,” disse Sybil.
“Sabes, sim. Tens que saber. A Sharon Lipschutz sabe onde vive e só tem três anos e meio.”
Sybil parou de andar e largou a mão dele. Apanhou uma concha e olhou-a com uma atenção estudada. Depois deitou-a fora. “Whirly Wood, Connecticut,” disse, e recomeçou a andar, com o corpo arqueado e o estômago saliente.
“Whirly Wood, Connecticut,” disse o jovem.

Avançaram até a água chegar à cintura de Sybil. Então o jovem pegou nela e deitou-a com o estômago sobre a bóia.
“Não me largue,” sentenciou Sybil. “Segure-me, agora.”
“Menina Carpenter, por favor, eu conheço o meu ofício,” disse o jovem. “Tens que manter os olhos abertos para ver se descobres algum peixe banana. Este é um dia perfeito para os peixes banana.”
“Não vejo nenhum,” disse Sybil.
“É natural. Eles têm hábitos muito especiais. Muito especiais.” Continuou a empurrar a bóia. A água ainda não lhe tinha chegado ao peito.
“Têm uma vida muito trágica,” disse. “Sabes o que é que eles fazem, Sybil?”
Ela abanou a cabeça.
“Bem, eles nadam para um buraco onde há imensas bananas. Parecem peixes absolutamente vulgares quando nadam para dentro do buraco. Mas uma vez lá dentro, portam-se como autênticos porcos. Conheci alguns peixes banana que nadaram para o buraco e comeram setenta e oito bananas.”
Empurrou um pouco mais a bóia e a sua passageira em direcção ao horizonte.
“Claro que depois disso ficam tão gordos que não conseguem voltar a sair do buraco. Não cabem na porta.”
“Não empurre para muito longe,” disse Sybil. “O que é que lhes acontece?”
“O que é que acontece a quem?”
“Aos peixes banana.”
“O que é que acontece depois de os peixes comerem tantas bananas que não conseguem sair do buraco das bananas?”
“Sim,” disse Sybil.
“Bem, lamento dizer-te, Sybil. Morrem.”
“Porquê?” perguntou Sybil.
“Bem, apanham a febre da banana. É uma doença terrível.”
“Vem aí uma onda,” disse Sybil, com medo.
“Aquela ondazita? Vais ver que nem damos por ela,” disse o jovem. Pegou nos tornozelos de Sybil e empurrou-os para baixo e para a frente. A bóia flutuou na crista da onda. A água ensopou o cabelo loiro de Sybil, mas o grito que soltou era de prazer.
Com a mão, já de novo em cima da bóia, retirou uma madeixa de cabelo da frente dos olhos, e gritou, “Acabei de ver um.”
“Viste o quê, querida?”
“Um peixe banana.”
“Meu Deus, não me digas!” disse o jovem. “E ele tinha bananas na boca?”
“Sim,” disse Sybil. “Seis.”

O texto integral pode ser lido aqui.

Virginia e Paulo



"mas o tema são as bananas!!!"

Mila
Jogos Frutais (excerto) in Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto


De fruta é tua textura
e assim concreta;
textura densa que a luz
não atravessa.
Sem transparência:
não de água clara, porém
de mel, intensa.

Intensa é tua textura
porém não cega;
sim de coisa que tem luz
própria, interna.
E tens idêntica
carnação de mel de cana
e luz morena.

Luminosos cristais
possuis internos
iguais aos do ar que o verão
usa em setembro.
E há em tua pele
o sol das frutas que o verão
traz no Nordeste.

a versão integral pode ser consultada aqui.

Vasco e Xana F.
Stand up bananas
baseado em conto tradicional e adaptação de texto de autor não identificado


(stand up bananas em modo sit down)

Então que dizes deste tema?
Nem a propósito. A vivermos nesta república das bananas, não podia ser mais apropriado.
Percebo-te. Isto é um país de bananas governado por sacanas.
Desde que não viremos “bananas suicidas”.
“Bananas suicidas”?
Sabes distinguir uma "banana suicida" das outras?
Não. Como?
A "banana suicida" é aquela que grita: Macacos me mordam!
Já reparaste que há várias histórias sobre fruta mas que sobre bananas só encontras anedotas?
Pudera! É a fruta predilecta dos macacos... o Alberto João passa a vida a promovê-la. Quem a pode levar a sério!?
Lembras-te da historia da velhinha que se escondia numa cabacinha para fugir aos lobos? Imagina se a velhinha se escondesse numa banana para fugir a macacos!
Seria muito boa. Repara! Tu fazes de velhinha que eu faço de macaco...

Era uma vez uma velhota, que morava numa casinha à beira da selva. Quando queria visitar os netos, que moravam longe, tinha de dar uma grande volta, para não atravessar a selva, onde havia muitos macacos. Mas um dia em que a velhota foi ver os netos, resolveu ir pela selva por ser mais perto. No caminho encontrou um macaco que lhe disse:
- Onde vais, velha?
- Vou ver os meus netinhos.
- Não vais, não, que eu como-te!


A velha pediu ao macaco que não a comesse ainda, porque estava muito magrinha. E dizia mais:
- Os meus netos tratam-me sempre muito bem, eu engordo e, depois, à volta, tu comes-me. E trago-te também arroz-doce para a sobremesa.

Então o macaco deixou-a ir. Mais adiante, encontrou outro macaco a quem contou a mesma história. E o macaco deixou-a ir. Assim, a velhota chegou a casa dos netos, que a receberam e trataram muito bem. Quando lhe apeteceu voltar para casa, os netos não a queriam deixar voltar pelo caminho da selva, por causa dos macacos. Mas ela, que era uma velha corajosa, teimou que ia, mas dentro de uma “banana” grande para se proteger. Deram-lhe a “banana”, ela enfiou-se lá dentro e toca a andar que se faz tarde... Um dos macacos , quando viu a “banana” perguntou-lhe:
- Ó “banana”, viste por aí uma velha?
A velha dentro da “banana”, disfarçou a voz e cantou assim:

- Não vi velha nem velhinha,
Não vi velha nem velhão.
Corre, corre, “bananinha”
Corre, corre “bananão”.

E pôs-se a correr. Mais adiante, encontrou outro macaco que também lhe perguntou:
- Ó “banana”, viste por aí uma velha?
E a velha enquanto corria, respondia:

- Não vi velha nem velhinha
Não vi velha nem velhão.
Corre, corre, “bananinha”
Corre, corre “bananão”.

Assim chegou a casa sem que nenhum mal lhe acontecesse...
Ou não! O fim não é este!
Então?
A velha escorregou na banana e morreu.

Como estamos a falar de fruta,... lembras-te de na última sessão eu ter lido sobre Adão e Eva?
Sim!
Até agora não consigo perceber porque é que depois de tanto aviso a Eva insistiu em comer a maçã!
Coisa de mulheres!
Explica!
No início, a Eva não queria comer a fruta. Mas a serpente, astuta, disse: 
- Come e serás como os anjos!
A Eva, virando a cara para o lado, respondeu:
- Não!
- Terás o conhecimento do Bem e do Mal - insistiu a víbora.
A Eva cruzou os braços, olhou bem na cara da serpente e respondeu firme: 
- Não!
Então a serpente retrucou: 
- Serás imortal.
- Não! Já disse!
Essa fulana era mesmo teimosa!
- Serás como Deus!
- NÃO e NÃO! Já disse que NÃO!
Irritadíssima, quase enfiando a fruta pela goela de Eva abaixo, a serpente já estava desesperada e não sabia mais o que fazer para que aquela mulher, de princípios tão rígidos e personalidade tão forte comesse a fruta. Até que teve uma ideia! Já que nenhum dos argumentos havia funcionado... ofereceu novamente a fruta e disse com um sorrisinho maroto:
- Come, tonta!!! EMAGRECE!!!!
Foi tiro e queda!!!!

Helena R.
Natureza morta com frutos in Com o sol em cada sílaba
Eugénio de Andrade

(apresentado em casca de banana)

1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.

2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.

3.
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.

4.
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do verão.

5.
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.

Helena P.
Cem anos de solidão (excerto)
Gabriel García Márquez

Macondo, o nome da povoação fictícia em que decorre a maior parte da acção, significa banana em língua Bantu

António
A Banana in Novos Contos do Gin Tónico
Mário Henrique-Leiria

já estava no nosso blog, portanto é só dar um saltinho até às construções!

Vitória, Xana J. e João
Salada de frutas (excertos de vários autores, com taça e idas à feira para experiências místicas)


Ana Maria T.
Bananas de Hospital in Já cá não está quem falou (mas encontrado aqui)
Alexandre O'Neill

De há muitos anos que o comércio ambulante vegeta, não
prospera, em torno dos hospitais. Sua base é a banana. Quem tem
doente, alimenta-o, mas poupa-lhe o dente. Banana é substancial,
embora digam que é quente. Banana é prática, apodrece devagar e,
mesmo macerada, come-se bem. Até há quem a prefira já muito
passada.
Banana é gentileza de pobre. Seu preço, ainda assim, é
acessível. E não se diz que uma banana vale um bife? Depois, não
precisa de garfo, de faca, não deixa nódoa, come-se em duas
trincadelas. Gengivas já muito recolhidas papam-na facilmente.
Banana pode ser subtraída, num ápice, à vigilância
dietética de clínicos e enfermeiros. Cabe num chinelo, não faz
grande enchumaço no bolso de um pijama. O que é preciso é a
gente lembrar-se de que tem banana escondida e não a esborrachar
com o pé ou com uma volta de corpo desastrada. Em caso de grande
aflição pode passar-se a banana ao vizinho. Ora! Nem tantos
cuidados serão precisos. Banana é geralmente tolerada. É dedo
gordo, mão de gordo, vagarosa e cordial. Faz lembrar piloca! Se
faz, então a enfermeira troca chalaças e ri sofridamente.

Delfina
Frutos proibidos (e três receitas com banana) in Afrodite
Isabel Allende


... e algumas adivinhas com bananas

Teresa

o que é verde por fora e amarelo por dentro?

resposta: ouıdǝd ǝp ɐpɐɹɐɔsɐɯ ɐuɐuɐq ɐɯn


Novo contratempo impediu as Anas de estarem presentes.
Aqui fica a contribuição da


Ana França
Banana... começa por B, então pensei no
Baile do bê-a-bá in Cantigas e cantigos (Terramar)
José Fanha

Baila tudo minha gente
no baile do Bê-á-bá
com bengala ou sem bengala
só não baila quem não está.

Bailam bichos barrigudos
burriés e babuínos
baila a burra mais o burro
baila o Jacaré Balbino.

Baila a saia na bainha
baila a pulga na balança
baila a bola na baliza
baila Braga e mais Bragança.

Baila tudo minha gente
no baile do Bê-á-bá
com bengala ou sem bengala
só não baila quem não está.

Baila o bife com batatas
Baila a brasa na braseira
Baila o banco na bancada
E o banhista na banheira

Baila a barba do barbudo
e o bigode do bichano
baila a bruxa e mais o bruxo
Dona Bela e Dom Beltrano

Baila tudo minha gente
no baile do Bê-á-bá
com bengala ou sem bengala
só não baila quem não está.

E agora remato eu:

Com tanto baile bailado
e tanto para bailar
fica a barriga a dar horas
e as pernas a bambear

Agarro já numa cana
ou descanso no baloiço
e já nem a música oiço
a comer uma banana.

Ficaram de fora...
Esta semana houve várias propostas que ficaram pelo caminho. Aqui deixamos algumas...

uma versão do bê-á-bá
ba-na-ná | be-ne-né ná né | bi-ni-ni ná né ni | bó-nó-nó ná né ni nó | bu-nu-nu ná né ni nó nu

o livro com cheiro a banana de Alice Vieira


o diário de um banana de Jeff Kinney





E para terminar...
música com banana ou inspirada em banana

Carmen Miranda
(do filme Banana da Terra, 1939)




Gilberto Gil
(para a série O Sítio do pica-pau amarelo)



the Muppets
(Yes, we have no bananas... ou assim... ou...)


(Smic du grubleaa bananna, da scuska bananna du smick!)

S. Martinho no Ti Tonho



S. Martinho em voz alta.
(Vasco Maia)

Em tertúlia,
Sentamo-nos à mesa,
Discutimos livros, páginas e memórias.
Soltamos gargalhadas
Partilhamos momentos
Afinal, somos contadores de histórias.

Nesta casa,
Lêem poetas,
Exclamando os seus versos,
As rimas entoam,
Lembrando outrora,
E a glória de grandes sucessos.

Repartam as castanhas,
Encostem os canecos,
Advinha-se um serão de euforia.
Clamem brindes,
Soltem gritos,
Temos pela frente uma noite de alegria.

próxima sessão - 29 novembro 2011

e o tema é:



a leitura alternativa será feita por:


2011.11.08 - "Préstória"



Mas afinal como é que se escreve pré-história? O acordo ortográfico alterou alguma coisa? A palavra tem mesmo dois acentos? De acordo com o site "Ciberdúvidas da Língua Portuguesa", mesmo com o acordo ortográfico de 1990, a grafia desta palavra mantém-se.

E depois desta curta introdução, vamos lá tornar a viajar no tempo (que ainda no outro dia fomos ao futuro)


Paulo M.
Tampot, o homem do pau comprido in Moqueca de Maridos (Mitos Eróticos)
de Betty Mindlín e Narradores indígenas















Delfina
Evolução
de José Loureiro

Espelho meu, ó espelho meu!
Conta... diz par'onde vou.
D'onde vim e, quem sou eu.
Por que vim? Quem me criou?

E o meu espelho respondeu:
Que de África me apeei
e, que África concebeu,
a forma em que me tornei.

Mais adiantou o meu espelho:
Par'onde vais? Não agoiro!
Talvez vás morrer de velho,
se o mundo não der o estoiro.

Livro aberto, 'inda contou:
Que p'rá África chegar,
algo em mim se transformou,
pois minha mãe fora o mar.

P´ra conclusão rematou,
haver na Bíblia a versão:
Fora Javé quem forjou,
do barro inventar Adão.

Não encontrando respostas,
respostas p'ra elucidar,
ao espelho vou virar costas,
e não mais lhas procurar.

Ana T. e António
Excerto de “As Sagradas Escrituras – As aventuras de Deus – As aventuras do Menino Jesus”, tal como foram contadas ao humorista francês Cavanna
No princípio - enfim, quase - Deus criou o céu e a terra.
A terra era informe e vazia, as trevas cobriam a face dos abismos e o espírito de Deus planava por sobre as águas.
Não era um sucesso.
Deus viu isso. E disse para o Seu coração: “Pf!”
Era bem melhor que esta porcaria nunca tivesse existido.
Mas isso já ele não podia fazer.
A partir do momento em que tudo já existiu uma vez, Deus podia, se quisesse, voltar a mandar tudo para o nada, mas Ele não podia fazer com que tudo isto nunca tivesse existido.
Isso, nem mesmo Deus o podia fazer.
Porque ninguém pode suprimir o passado, nem mesmo Deus.
Deus viu, então, que já não era tão todo-poderoso, a partir do momento em que tinha criado pela primeira vez.
Deus compreendeu, talvez um pouco tarde, que a ideia da criação era uma armadilha para Deus.
Se Ele o tivesse sabido teria ficado quieto.
Mas depois, disse para Si próprio que, uma vez que estava feito, o melhor era aceitar o Seu próprio trabalho.
Uma vez que o mundo está feito o melhor é engoli-lo.
E Deus decidiu que apresentaria sempre o aspecto de ser tão todo-poderoso como antes e fez muito bem.
Porque, nunca, ninguém se apercebeu de nada.
Excepto os descrentes e os maledicentes, mas esses são uma gota de água no oceano.
Deus disse: «Faça-se luz e a luz fez-se.
Deus viu que a luz era boa e rejubilou-Se no Seu coração.
Era uma sorte. Ela poderia igualmente ter sido má. Vocês sabem como é, quando se cria qualquer coisa, às vezes sai bem, às vezes sai mal. Às vezes sai compensador, às vezes não vale o trabalho.
Nunca se pode saber antecipadamente.
Deus disse para consigo que, se ele tivesse sabido, teria começado por criar a luz.
O que prova que ele ainda tinha muito que aprender.
Deus viu que a luz era boa, e Ele separou a luz das trevas.
Deus viu que as trevas eram completamente negras. Sentiu-se um pouco decepcionado porque tinha esperado, no Seu coração, que elas fossem vermelhas.
Ou talvez verdes.
Ou talvez lilases com pontinhos cor-de-laranja, o que seria mais bonito.
Foi por isso que Ele lhes chamou "trevas", o que quer dizer, em hebraico, "lilases com bolinhas cor-de-laranja".
Porque nesse tempo Deus falava hebraico.
Então, Deus deu à luz o nome de “Dia” e às trevas o nome de "Noite", o que quer dizer a mesma coisa em português.
Deus disse “Bom dia, Dia! Bom dia, Noite!”
Mas nem o Dia nem a Noite lhe responderam “Bom dia, Deus!"
O Dia e a Noite começaram a correr um atrás do outro, à volta, sem se preocuparem com Ele.
Deus viu que essas criaturas ainda não eram os pequenos companheiros de brincadeiras com que sonhava.
Houve um anoitecer, houve um amanhecer, e foi o primeiro dia.
Deus deu ao firmamento o nome de Céu, que quer dizer a mesma coisa.
Deus criou o número dois porque tinha necessidade dele para contar os dias que já tinham passado. Era uma ideia muito boa. Deus aproveitou e criou o suspiro de satisfação.
Deus disse: "Que as águas que estão debaixo do Céu se juntem num só lugar e que apareça a terra firme”
Deus deu à terra o nome de "Terra" e chamou às águas “Mar”. E Ele viu que era bom, embora fosse um pouco lamacento nas bordas.
Deus disse: “Que a terra lance o seu jorro: ervas com semente, e legumes, e árvores de fruto com frutos de acordo com as suas espécies, que tenham semente nelas próprias sobre a terra. Ah, e depois um pequeno raminho de salsa e um dentezinho de alho para ajudar a encorpar." E assim foi feito.
Há uma noite e há uma manhã, é o terceiro dia.
Deus disse: “Que haja luminárias na extensão dos céus para separar o dia da noite."
Deus fez, então, duas grandes luminárias, a maior para iluminar durante o dia e a mais pequena para iluminar durante a noite. Deste modo, Deus criou as luminárias no quarto dia.
Embora já houvesse a luz, uma vez que Ele a criou durante o primeiro dia.
Então, deste modo, durante dois dias houve luz diurna e o Sol não existia.
O que prova que Deus é um Deus muito forte.
Embora seja um pouco trapalhão.
Houve um anoitecer, houve um amanhecer e foi o quarto dia.
Deus disse: “Que as águas produzam em abundância animais que nadem e que os pássaros voem na imensidão do céu." Assim se fez.
Houve um anoitecer, houve um amanhecer e foi o quinto dia.
Como o tempo passa depressa!
Deus disse: “Que a terra produza animais vivos segundo as suas espécies”. E assim foi feito.
Depois Deus disse: “Façamos o homem à Nossa imagem e à Nossa semelhança."
E Deus criou o homem à Sua imagem.
Agora é-nos muito fácil saber como Deus é feito: basta-nos olharmo-nos num espelho.
Tal somos nós, tal é Deus. Parecido.
Mas um pouco maior, naturalmente.
Muito, muito maior.
Deus tem dois braços, duas pernas e uma só cabeça.
Deus não tem cauda.
Deus não tem tromba.
Deus não tem barbatanas. Deus possui um tubo digestivo realmente semelhante ao do homem, mas muito maior.
Deus disse: “Façamos o homem à Nossa imagem. "Ele não disse: “Façamos a mulher à Nossa imagem”. Ora, o homem e a mulher apresentam grandes diferenças. Portanto, Deus não é uma mulher, Deus é do sexo masculino.
Mas muito maior, naturalmente.
Deus olhou para o tudo o que tinha feito e disse de Si para Si que não tinha sido nada mau atendendo a que era a primeira vez.
Houve um anoitecer, houve um amanhecer, e foi o sexto dia.
No sétimo dia, Deus descansou.


Helena R.
Menir in Poesia Completa
Miguel Torga

abílio dias @ olhares
Salve, falo sagrado,
Erecto na planura
Ajoelhada!
Quente e alada
Tesura de granito,
Que, da terra emprenhada,
Emprenhas o infinito!
Outeiro, Monsaraz, 31 de Maio de 1986


Teresa P.
O gato que andava sozinho in Just So Stories / Histórias Assim Mesmo (excerto)
Rudyard Kipling







Cristina e Fernando
O Deus das pequenas coisas (excerto)
de Arundathi Roy

Somos prisioneiros de guerra. Os nossos sonhos foram medicados. Não pertencemos a lugar nenhum. Velejamos sem âncora por mares revoltos. Podemos nunca ter licença para aportar. As nossas dores nunca serão suficientemente tristes. As nossas alegrias nunca suficientemente felizes. Os nossos sonhos nunca suficientemente grandes. As nossas vidas nunca suficientemente importantes. Para importarem.

Vamos imaginar que a terra - 4600 milhões de anos de idade – era uma mulher de 46 anos. A Mulher Terra. Toda a sua vida de Mulher-Terra foi dedicada a fazer da terra o que ela é hoje. Dividiu os Oceanos. Fez as montanhas emergir. A Mulher-Terra tinha 11 anos quando surgiram os primeiros organismos unicelulares. Os primeiros animais, criaturas como os vermes e as acalefas, só surgiram quando ela tinha 40 anos. E tinha mais de 45 anos – só há 8 meses – quando os dinossauros deambulavam pela Terra. Toda a civilização humana tal como a conhecemos, começou apenas há duas horas na vida da Mulher-Terra. Portanto, toda a história contemporânea, as guerras mundiais, a guerra dos sonhos, o homem na lua, a ciência, a literatura, a filosofia, a busca do conhecimento, mais não são do que uma piscadela de olho da Mulher-Terra. E nós, tudo o que somos e seremos, é um lampejo nos seus olhos.

Mais tarde, à luz de tudo o que aconteceu, lampejo parecia uma palavra completamente errada para descrever a expressão nos olhos da Mulher-Terra. Lampejo era uma palavra com rebordos ondulantes e felizes.

Outro calendário cósmico inesquecível? O de Carl Sagan



António S.
Pré-história ou isso é outra história.
de sua autoria

O período entre o aparecimento da espécie humana e a criação da escrita, é vulgarmente chamado de pré-história.
Viviam em comunidades que, consoante a época ou o lugar, alternavam entre matriarcados e patriarcados, até estabilizarem em patriarcados. A maior força do macho foi determinante. A descoberta do fogo terá sido o elemento decisivo para o desenvolvimento do conhecimento e da evolução técnica.
Entretanto, a lei do mais forte levou ao aparecimento da
propriedade privada dos meios de produção, bem como à escravatura, o que permitiu a acumulação primitiva. Mas para que tudo isso funcionasse sem problemas, foi necessário criar a
religião, o que terá sido a maior invenção do ser humano. Com um Deus a proteger o proprietário de terras, rebanhos e casas,
só faltava a transmissão desses bens, o que foi conseguido através da família, em que o poder passava para o filho mais velho - macho, de preferência.
Estava criado um paradigma, que ultrapassou a criação da escrita e se manteve até hoje, resistindo á descoberta da máquina a vapor, do tear mecânico, da electricidade, do telégrafo, do telefone, da telefonia, da televisão, do computador, do telemóvel, do disco compacto, do DVD, da Internet, dos robots.
Até quando?


Cecília
Este mundo em que vivemos (excerto)

Rosa
No coração do invulgar monumento geológico conhecido por “Serra da Arrábida”, definida pelo Oceano e pelos grandes rios do Sul, o Tejo e o Sado, surge a enseada do Portinho da Arrábida, adornada pela cénica Pedra da Anicha. Este recanto revela-se como uma genuína “rapsódia” da Arrábida, consagrando um pouco de tudo o que esta montanha significa e tem para partilhar: o seu património geológico, ambiental e cultural, nomeadamente histórico-arqueológico e mágico-religioso.

ler mais (e ver fotos) aqui

Paula e Daniel
História Horrível (excerto)

Carmen




Mila
O Urogalo
de Ruy Belo

O Urogalo vive solitário e livre
entoa um canto triste de que vive
e morre se não canta mas se canta
atrai o caçador que lhe dá a morte
É ave vive sobre a morte e cai quando o seu canto
lhe aviva a vida que lhe causa a morte
Não sei que ave é o Urogalo
e se o vi só o vi numa fotografia vista
na contracapa de uma certa revista
Só sei que vive solitário e livre
e sei que a solidão e a liberdade
são condição de vida para quem
quer erger a cabeça sobe a morte viva ou morte morta
O Urogalo canta solitário e triste
resiste à morte apenas porque canta
o canto é perigoso pode ouvi-lo o caçador
mas porque canta leva a cabeça erguida
e apenas o perigo dá sentido à vida
Virá o caçador acabará o canto
mas sente-se viver e não importa a morte
a quem ameaçado ameaça no entanto
porque o canto mortífero dá vida
O urogalo vive solitário e livre
e a solidão e a liberdade condição de vida
podem custar a vida àquele que vive
Mas isso não importa importa só
precisamente isso e nada mais que isso
que seja soltário e seja livre e assim viva
a vida de quem vive não de quem vegeta
e que o seu coração seja capaz da solidão
e que levante o canto em liberdade
e que ao cantar a solidão seja cidade.

Helena Amélia Pinto
Uma reflexão sobre a "préstória"
da própria
Estória é um neologismo proposto por João Ribeiro (membro da Academia Brasileira de Letras) em 1919, para designar, no campo do folclore, a narrativa popular, o conto tradicional (...)

Pré-história corresponde ao período da história que antecede a invenção da escrita (evento que marca o começo dos tempos históricos registados) que ocorreu aproximadamente em 4000 AC

Préstória é?... é melhor tentar descobrir usando um raciocínio lógico-dedutivo

se estória é narrativa popular ou conto tradicional
e pré-história é período da história que antecede a utilização da escrita
então préstória seria o período que antecede a utilização da escrita para transmissão da narrativa popular e contos tradicionais

então as préstórias são as estórias contadas por quem as aprendeu por via oral e as transmitiu pelo mesmo meio sem saber usar a escrita

então a minha avó analfabeta contou-me muitas préstórias

então a minha outra avó leu-me algumas estórias

então sempre gostei mais das préstórias que das estórias!

ops! este raciocínio já deixou de ser "lógico", tornou-se mais num raciocínio emocional-dedutivo, mas foi um ótimo pretexto para recordar as minhas queridas avós: Helena e Amélia.

Xana J., Vitória, Vasco e João
Eve's Diary (excerto, traduzido e adaptado pelos próprios)
de Mark Twain

EVA

SÁBADO – Tenho quase um dia inteiro de idade. Cheguei ontem.
Sinto-me como uma EXPERIÊNCIA. Penso que seria quase impossível uma pessoa sentir-se tanto uma EXPERIÊNCIA como eu me sinto e, por isso, começo a convencer-me que é isso que SOU. Então, se sou uma EXPERIÊNCIA, serei o seu todo? Não, penso que não. Penso que vi outra EXPERIÊNCIA. Segui-a, ontem à tarde, a alguma distância, tentando perceber para o que AQUILO serviria, mas não fui capaz. Primeiro tive medo e fugia cada vez que AQUILO se virava para trás, porque pensei que me iria perseguir. Mas aos poucos fui percebendo que só estava a tentar fugir de mim e depois disto já não me senti envergonhada e resolvi segui-lo durante horas, a uma distância de vinte metros, o que o deixou nervoso e infeliz. Por fim, já estava tão preocupado que subiu a uma árvore e já não desceu. Esperei tanto que desisti e fui para casa.


Hoje, a cena repetiu-se. Fiz com que subisse à árvore outra vez. Penso que é um HOMEM. Nunca vi um Homem, mas parecia um e tenho a certeza que é. Percebi que sinto mais curiosidade acerca Daquilo do que de qualquer outro réptil. Penso que é mesmo um réptil porque tem cabelos sujos, desgrenhados, olhos azuis e parece um réptil.


O HOMEM tem maus instintos e não é simpático. Quando lá fui ontem ao luar, tinha-se arrastado até ao chão e estava a tentar apanhar os pequenos peixes manchados que brincavam no lago. Tive que lhe atirar terra para o fazer subir à árvore outra vez e deixar os peixes em paz


Será que é para isto que AQUILO serve?


Um dos bocados de terra que lhe atirei acertou-lhe atrás da orelha e AQUILO disse qualquer coisa. Estremeci, porque foi a primeira vez que ouvi outras palavras para além das minhas.


Quando descobri que falava senti um novo interesse NAQUILO, porque adoro falar. Falo todo dia e durante o sono também e sou muito interessante. Mas se tivesse alguém com que falar, seria duas vezes mais interessante e poderia nunca mais me calar, se quisesse.


Se este réptil é um HOMEM, então não pode ser um AQUILO, pois não? Gramaticalmente não estaria correcto, pois não? Penso que é um ELE.


DOMINGO DA SEMANA SEGUINTE – Durante toda a semana, fiz-lhe uma marcação cerrada para me dar a conhecer. Tive de ser eu a meter conversa porque ele é tímido, mas não me importo. Ele pareceu-me agradado por me ter por perto e eu usei um sociável “NÓS” porque parecia que ele se sentia lisonjeado por estar incluído.



ADÃO

SEGUNDA-FEIRA - Esta nova criatura com o cabelo comprido é intrometida. Está sempre à minha volta e a perseguir-me. Não gosto disto. Não estou habituado a ter companhia. Gostava que “aquilo” ficasse junto dos outros animais… Está nublado hoje, o vento está de este, creio que nós teremos chuva... “Nós”? Onde fui buscar esta palavra – A nova criatura usa-a.


SÁBADO - A nova criatura come demasiada fruta. Estou quase certo que vamos ficar à rasca. “Nós” outra vez- é a palavra que “Aquilo” usa. Bem, também é minha, uso-a de tanto ouvi-la. Está bastante nevoeiro esta manhã. Eu não saio sozinho quando está nevoeiro. Mas a nova criatura sai. Aquilo sai com qualquer tempo e depois regressa com os pés todos enlameados. E fala! Era tão agradável quando isto era silencioso.


EVA

QUARTA-FEIRA – Damo-nos cada vez melhor. Ele já não tenta evitar-me. Durante os últimos dois dias, tenho assumido o trabalho de dar nomes às coisas, o que tem sido um grande alívio para ele, porque não tem esse dom e por isso está agradecido. Quando uma nova criatura aparece, eu dou-lhe nome antes que ele se exponha a um estranho silêncio. Quando o Frango apareceu ele pensou que seria um gato selvagem. Vi isso nos olhos dele.


ADÃO

QUARTA-FEIRA - Não tenho qualquer hipótese de fazer o que quer que seja sozinho. A nova criatura dá nome a tudo o que aparece, antes que eu possa ter qualquer forma de protesto. E usa sempre o mesmo pretexto – É tal e qual! Por exemplo o “Frango”: “Frango! Aquilo não parece mais um “Frango” que eu.


EVA

QUINTA-FEIRA – A minha primeira desilusão. Ontem ele evitou-me e pareceu desejar que eu não falasse com ele. Mas quando a noite caiu não consegui suportar a solidão e fui para o novo abrigo que ele tinha construído, para lhe perguntar o que é que eu tinha feito, mas ele pôs-me fora à chuva.

ADÃO

QUARTA-FEIRA - Construí um abrigo para a chuva, mas não o consegui ter só para mim, em paz e sossego. A nova criatura invadiu-o. Quando a tentei afugentar, começou a verter água pelos buracos que usa para ver, afastando a água com as costas das suas patas ao mesmo tempo que fazia um som, como fazem os animais quando estão em agonia. Quem me dera que não falasse. Está sempre a falar. A minha vida já não é tão feliz quanto era. Talvez deva lembrar-me que ela é muito nova, uma mera rapariga e por isso, deveria ser mais tolerante. Ela é: interesse, vontade, vivacidade. O mundo, para ela é um encanto, uma maravilha, um mistério, uma alegria. E ela é louca por cores: pedras castanhas, areia amarela, musgo cinzento, folhagem verde e céu azul. Nada a satisfaz senão a demonstração. Teorias por testar não são o seu forte e ela nem quer ouvir falar nelas. Na verdade o seu espírito está certo, admito. Mas, se ela, pelo menos, se pudesse manter calada uns minutos, seria um esplendor. Se assim fosse, eu regalar-me-ia a olhar para ela.

EVA

SEGUNDA-FEIRA - Tentei apanhar-lhe umas maçãs, mas não consegui acertar-lhes. As maçãs são proibidas e ele diz que me colocarei em perigo. Mas se eu me puser em perigo para lhe agradar, porque é que me hei-de preocupar? Esta manhã eu disse-lhe o meu nome, com esperança que ele se interessasse. Mas não o demonstrou. O que é estranho. Se ele me dissesse o seu nome eu quereria saber.  Ele fala muito pouco. Provavelmente por não ser brilhante, saber disso e tentar escondê-lo. É uma pena que ele sinta isso porque o importante não é a inteligência mas sim os valores do coração.

ADÃO

SEGUNDA-FEIRA - A nova criatura diz que se chama Eva. Tudo bem, não tenho qualquer objecção. Diz que não é “Aquilo” mas sim “Ela”. Tenho algumas dúvidas, no entanto ela é uma coisa como outra qualquer. Pensando bem, ela não seria nada para mim se andasse sozinha e não falasse.


EVA

SÁBADO – TERÇA – QUARTA – QUINTA – e hoje. Todos estes dias sem o ver. É muito tempo para se estar só, ainda assim é melhor estar só do que não ser desejada. Tenho de ter companhia – Fui feita para isso, penso eu –fiz amizade com os animais.

ADÃO

TERÇA-FEIRA — Ela, agora dá-se com uma serpente. Os outros animais estão contentes pois ela estava sempre a experimentar com eles e a incomodá-los. Também estou contente, afinal a serpente fala e isso permite-me descansar um pouco.


SEXTA-FEIRA —Ela diz que a serpente a aconselhou a provar a fruta da árvore e diz que o resultado será uma educação muito fina e nobre. Eu disse-lhe que haveria outro resultado, a morte seria introduzida no mundo. Aconselhei-a a manter-se longe da árvore. Ela disse que não o faria e prevejo sarilhos. Acho que vou emigrar.


EVA

Aprendi inúmeras coisas, e agora sou instruída, mas ao princípio não era. Era ignorante. Ao princípio não consegui perceber para o que é que tinha sido criada, mas agora penso que é para procurar os segredos deste mundo maravilhoso, ser feliz e agradecer ao Criador que elaborou isto. Acho que ainda há muitas coisas para aprender. Assim o espero, e sem andar demasiado depressa, penso que irá durar muitas semanas.

ADÃO

SÁBADO — Dei uma escapadela na Terça à noite. Viajei durante dois dias e construí outro abrigo num local ermo. Apaguei o meu rasto o melhor que pude. Mesmo assim, ela caçou-me. Fui obrigado a voltar com ela, mas assim que tiver oportunidade, voltarei a emigrar.
DOMINGO — Safei-me.
SEGUNDA-FEIRA —Julgo ter percebido para que serve a semana. É para me recompor do desgaste do Domingo.
TERÇA-FEIRA — Ela diz que foi feita de uma costela minha. É no mínimo duvidoso! Não me falta costela nenhuma.
DOMINGO — Safei-me.
SEGUNDA-FEIRA - Ontem à noite, dei outra escapadela. Montei um cavalo e fugi pela noite fora, o mais depressa que o animal podia, na esperança de me afastar o suficiente do Parque e esconder-me noutro campo, antes que os sarilhos começassem. Não tive sorte nenhuma. Uma hora após o amanhecer, num ápice a planície estava num reboliço e cada animal destruía o seu vizinho. Eu sabia o significado disto. A Eva havia comido a fruta e a morte acabara de vir ao mundo... Encontrei um lugar fora do Parque onde me instalei razoavelmente por uns dias, mas ela encontrou-me outra vez. Encontrou-me e chamou logo àquele lugar Tonawanda—disse “É tal e qual. Na verdade, não me importei que tivesse vindo: a comida aqui não abunda e ela trouxe aquelas maçãs. Estou agradecido pelas maçãs. Tinha tanta fome. Foi contra os meus princípios, mas percebi que princípios têm pouco valor perante tanta fome... Acho-a uma boa companhia. Além disso, ela diz que devemos trabalhar para a nossa vida em comum daqui para a frente. Creio que ela será útil. No entanto terei de a supervisionar.

DEZ DIAS DEPOIS — Ela acusa-me de ser a causa do nosso desastre!

EVA

DEPOIS DA QUEDA -  Quando olho para trás, o jardim parece-me um sonho. Era lindo, arrebatadoramente lindo, encantadoramente lindo e agora está perdido e não o voltarei a ver. O Jardim está perdido, mas encontrei-o a ELE e estou satisfeita. Ele ama-me à sua maneira e eu a ele, com toda a minha natureza apaixonada. Eu não gosto de o ouvir cantar, por enquanto. Porém, peço-lhe que cante porque gostaria de descobrir todas as coisas pelas quais ele se interessa. Tenho a certeza que posso vir a descobrir, porque antes não conseguia suportar ouvi-lo cantar e agora consigo. Põe-me os cabelos em pé, mas não importa, consigo usar esse penteado. Não é por causa da sua inteligência que o amo, definitivamente não. Ele não tem culpa, foi Deus que o fez assim e isso basta-me. Mas nisso havia um sábio propósito, ISSO eu sei. Com o tempo irá revelar-se, apesar de achar que não vai ser em breve. Penso que o amo apenas porque é MEU e é HOMEM. Acho que não há outra razão.


QUARENTA ANOS DEPOIS - São as minhas preces e é meu desejo que passemos para além desta vida juntos – uma prece que terá o meu nome e nunca desaparecerá da terra e existirá sempre no coração de cada mulher que ame até ao fim dos tempos.  Mas se um de nós tem que ir primeiro, rezo para que seja eu, porque ele é forte e eu sou frágil, não sou tão necessária para ele como ele é para mim: a vida sem ele não seria vida: como poderia eu resistir? Esta oração é eterna e não cessará enquanto houver mulheres. Eu sou EVA; a primeira MULHER e até à última serei replicada.

ADÃO

NA CAMPA DE EVA - Por onde ela passou, existiu Éden.

No site do projecto Gutenberg, podem-se consultar também os excertos do diário de Adão

Ana V.
As Anas não puderam estar presentes nesta sessão, mas recebemos da Ana V. a sua contribuição! Muito obrigada, Ana!

Um livro in História com recadinho
Luísa Dacosta






Desejas
Um tapete mágico que, num abrir e fechar de olhos, te leve aos confins da terra?
Uma máquina de viajar no tempo, para o futuro a haver, desconhecido, para o passado histórico ou para aquele em que os animais falavam?
Companheiros para correrem contigo a aventura de mares ignorados e de ilhas que os mapas não registam?
Conhecer mundos para além do nosso sistema solar, a anos-luz da nossa galáxia, sem necessidade de foguetão?
Saber a idade de uma pedra ou os mistérios da realidade, das águas, dos bichos, dos pássaros e das estrelas?
Descobrir a arca encantada, onde se guardam os vestidos “cor do tempo” das princesas de era uma vez, aquelas que se transformavam em pombas ou dormiam em caixões de cristal, à espera que o príncipe viesse despertá-las?
Desfolhar as pétalas do sonho no país da noite?
Abre um livro.
Um livro é tudo isso de cada vez e, às vezes, ao mesmo tempo.
Um livro permite-nos contactar com outras imaginações, outras sensibilidades. É a possibilidade de estares noutros lugares, sem abandonares o teu chão, de ouvires pulsar outros corações, de vestires a pele humana de outro ou outro sem deixares de ser tu.
E com o livro a varinha de condão não está na mão das fadas, está em teu poder. É do teu olhar, de cada vez que te dispões a ler, que nascem aqueles mundos, caleidoscópicos, de maravilha – e só desaparecem quando fechas o livro.
Mas a um gesto do teu querer, voltarão a surgir sempre
Sempre
Sempre…

Ana Maria
Criatividade
de OSHO

Quando se abandona o ego, abandona-se todo um mundo que se criou em redor dele. Pela primeira vez, consegue-se ver as coisas como elas são, não como gostaríamos que elas fossem















Os exercícios da sessão
Esta semana a Cristina levou-nos direitinhos à tradição oral... trava línguas? ou destrava línguas?


é ouvir, é ouvir!!



Moças Nagragadas - Trava Línguas from MPAGDP on Vimeo.

2011.10.25 - Memória

Cristina
A história do contador de histórias in Histórias que me Contaste Tu (Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, pp. 11-13)
Manuel António Pina



Uma vez, de manhãzinha (contou-me o Escaravelho) a Sara e a Ana iam de mãos dadas para a escola. Ou talvez não fosse de manhã. Talvez fosse depois do almoço, já não me lembro. Aliás, talvez (o Escaravelho Contador de Histórias hesitou um pouco) não fossem a Sara e a Ana, talvez fossem, afinal, o Rui e a Ana, indo de mãos dadas para a escola... Ou talvez a Sara e a Inês... Ou o Rui e a Márcia... Já não tenho a certeza absoluta. Pensando bem, nem sequer estou seguro de que fossem para a escola. Se calhar iam brincar para o jardim...
O que eu sei é que, uma vez, de manhãzinha (ou então depois do almoço...), duas meninas, ou dois meninos, ou uma menina e um menino - já foi há tanto tempo, como é que hei-de lembrar-me?.. -, iam para um sítio qualquer (também não estou certo se iam de mãos dadas ou não, mas acho que iam de mãos dadas...)
Ou era apenas um menino? Ou era apenas uma menina? Ou não iam para parte nenhuma, e estavam parados no passeio, diante da janela de um rés-do-chão, vendo, numa sala iluminada (talvez, afinal, fosse à noite, depois do jantar), muitas pessoas sentadas a ver televisão, e um gato amarelo a dormir enrolado em cima da televisão? E as pessoas?, estariam a ver televisão ou a ver o gato amarelo enrolado em cima da televisão? Também já não tenho a certeza...
Não há dúvida que eu não sei esta história. Deve ser outra pessoa quem a sabe... Como é que eu posso contar uma história que eu não sei? Vou ver se me lembro de alguma que eu saiba...

Paula
A menina que queria ser maçã in Estranhões e Bizarrocos
José Eduardo Agualusa















Quando perguntaram à Joaninha o que é que ela queria ser quando fosse grande (há sempre um dia em que um adulto nos faz essa pergunta), ela não hesitou:
- Quando for grande quero ser maçã!
Disse aquilo com tanta convicção que a mãe se assustou:
- Maçã?
A maior parte das crianças quer ser: astronauta, médico, corredor de automóveis, futebolista, cantor, presidente. Há algumas respostas mais originais: “Quero ser solteiro”, confessou o filho de uma amiga minha. Conheço uma menininha que foi ainda mais ambiciosa:
- Quando for grande quer ser feliz.
Mas maçã? Joaninha, meu amor, maçã porquê? A pequena encolheu os ombros: “são tão lindas”. Passaram-se os anos e a mãe pensou que ela se tinha esquecido daquilo. Mas não. No dia em que entrou para a escola a professora fez a todos os meninos a mesma pergunta:
- Ora então vamos lá saber o que é que vocês querem ser quando forem grandes... Astronauta. Piloto de Fórmula 1. Cantora. Futebolista. Barbie (há muitas meninas que querem ser a Barbie). Médica. Modelo. Actriz. E tu, Joaninha?
- Eu quero ser maçã!
Risos. Os outros meninos começaram a fazer troça dela:
- Maçã raineta! Maça raineta!...
- Se o Joaninha pode ser uma maçã, senhora professora, eu quero ser um avião...
Ela nem fazia caso. Quando crescesse havia de ser uma maçã, sim, uma maçã verde, luminosa, tão perfumada como uma manhã de primavera.
Poucas vezes, porém, conseguimos cumprir os nossos sonhos. Joaninha transformou-se numa mulher bonita, estudou, e fez-se professora. Era uma boa professora. Só quem conseguisse olhar para dentro dela poderia saber que, bem lá no fundo do seu coração, Joaninha sentia ainda aquela grande vontade de se tornar maçã. O tempo passou – o tempo, aliás, está sempre a passar, nós é que nem sempre damos pela sua passagem. O tempo passou, portanto, e Joaninha envelheceu. Não casara, não tinha filhos, envelheceu sozinha. Foi numa tarde de Outono. As árvores tinham perdido todas as folhas. O sol, cansado, com aquela cor macia que tem o mel, desaparecia no horizonte. Joaninha estava a dormir numa cadeira de baloiço, na varanda da sua casa, quando apareceu um anjo e a levou. Ela não percebeu logo onde estava. Foi preciso que Deus lhe tocasse nos ombros com a ponta dos dedos:
- Acorda minha filha – disse-lhe Deus -, já chegaste.
Joaninha abriu os olhos e viu o que já antes via com os olhos fechados: os anjos passeando num grande jardim, os peixes flutuando no ar, juntamente com os pássaros, e aquele velho de barbas brancas, ao seu lado, sorrindo como só Deus sabe sorrir.
- Meu Deus – perguntou-lhe – porque não me deixaste ser maçã?
- Ser maçã é difícil, Joaninha – disse-lhe Deus – É preciso crescer muito para se ser uma boa maçã. Tu cresceste. Agora, sim, serás maçã.
Alguns anos depois um menino descobriu no pomar da casa dos seus avós uma maçã de um brilho intenso. Cheirou-a: cheirava a manhãs lavadas, cheirava a primavera, era um cheiro que se colava aos dedos. O menino comeu a maçã e sentiu-se feliz. Naquela tarde disse à avó:
- Sabes, acho que quando for grande quero ser maçã!

Paula, Daniel, Delfina, Alexandra F.
A história da carochinha
Popular
















Vasco, João, Alexandra J., Vitória
TêVê-Memória, com o professor Vasco José Saraiva
Rapsódia de contos extraídos da Caderneta de Cromos de Nuno Markl









Teresa e Helena R.
Borboleta in Enciclopédia da Música com Bicho
Companhia de Música Teatral


Descansa no colo da rosa
borboleta na verdura
vai formosa, insegura,
bate as asas, voa e pousa
e parte de novo à procura.

Com umas horas apenas
vai confusa, vai com pressa,
está-se a passar das antenas,
tropeça nas açucenas,
ansiosa, recomeça,
Viu-se no orvalho das flores,
(os espelhos do jardim)


Não me lembro de ser assim,
não me lembro de ter cores,
não me lembro bem de mim...

já deu voltas, longe, perto,
está cansada, não desiste...
e a dúvida persiste.
(ninguém sabe bem ao certo
de onde vem e porque existe)

Procurou alguém mais velho
que lhe desse um bom conselho
Passa um pássaro com pressa,
não tem tempo para parar.
Passa uma lesma e essa
vem muito mais devagar.

-Como vai, ó Dona Lesma?
-Devagar, eu me arroliço
E você, como vai isso?
-Complicado, estou na mesma
vai cá dentro um reboliço...
- Pode ser, tudo faz crer,
a crise de identidade.
Talvez passe com a idade,
mas quem pode esclarecer
é o doutor que há na cidade.

Borboleta voa, voa,
vai ao doutor a Lisboa.
Sem parar levou um dia,
já chegou ao consultório
de Psicoentomologia.
Ao de leve bate à porta:

- Com licença, não se importa?
- Pode entrar, se faz favor.
O meu nome é senhor Doutor.
- Boa tarde, como está?
- Eu estou bem, mas é normal,
sou o doutor, afinal.
Quanto a si já vamos lá,
diga lá a sua graça.
- Não percebo o que se passa.
- O seu nome, o que lhe chamam?
- O meu nome é Borboleta
- Isso vê-se muito bem...
Apelidos também tem?
- D'asa às cores, parte da mãe
e pelo pai é Cara Preta.
- É a primeira consulta...
- Vamos lá ver se resulta.
- Não duvide, creia em mim,
já vi muita gente assim.
Fiz cursos, doutoramentos,
tenho técnicas, talentos,
sou um grande especialista,
o meu nome vem na lista...
Basta-me um olhar atento
e o diagnóstico é um momento
O seu caso é grave!
- Mas doutor, como é que sabe?
Ainda nem sequer falei!
- Esse é o primeiro sintoma,
a seguir entra-se em coma,
e depois "aqui d'El Rei".
- Mas doutor, não quer ouvir?
Eu gostava de discutir...
- Vá lá, diga trinta e três
- Só sei contar até dez!
- Estou a ver... respire fundo,
bata as asas devagar,
três batidas por segundo
está normal, a funcionar.
- Doutor, deixe-me falar,
não é disso que eu me queixo!
- Fale lá então que eu deixo,
mas deixe-me que lhe diga
está tudo bem com a barriga
com as asas e as antenas,
pelo que nos resta apenas
o cenário problemático:
Ser caso psicossomático.
De que se queixa afinal?
- É uma confusão geral
Não sei bem quem é que eu sou,
não sei bem para onde vou,
vejo coisas que já vi
sem nunca ter estado ali.
- Ora bem, não é neurose,
psicose também não,
isso foi metamorfose
que lhe deu já percebi!
- Meta-quê?
- Me-ta-mor-fo-se!

Borboleta, Borboleta
D'Asa às cores e cara preta
Tu já foste uma lagarta
verde, gorda, feia e farta.


Cecília
excerto de O Esplendor da Vida
Sveva Modignani









A experiência não se pode transferir. Os jovens precisam de bater com a cabeça na parede. Sentir a dor no coração. (...)



António Gil
Brandura de Costumes in O Mundo dos Outros (1950)
José Gomes Ferreira


A memória é feita de factos e de muita imaginação. Mas é a recordação dos factos do dia-a-dia que mais fazem regressar memórias e esta história de meados do século passado traz-nos situações curiosas à memória. Espero que gostem.








Brandura de costumes

Certo dia, um deus zombeteiro grudou à pressa estas palavras “brandura dos nossos costumes”, despejou-as na tinta das Redacções e pôs-se a esfregar as mãos de galhofa quando viu os exploradores do orgulho fácil atirá-las, através dos jornais, para o comércio nacional do lugar-comum, como moedas tão gostosas, de boca em boca.
Às orelhas desprecavidas soavam como sinal de prova duma civilização subtilmente especial com maciezas de penugens de pombas, convívios de almofadas, afagos de papos de rola, olhos besuntados de melaço, gestos de vaselina, pássaros maviosos com grinaldas nos bicos, beijinhos de mãe, em suma, a substituírem o quadro ambiente real, menos atraidor de lisonjas e mais arranhado, duma insociabilidade de lixa, com unhas hostis, cacos de garrafas nos muros e facadas nas tripas dos infames que se atrevem a recusar o testemunho fraternal dum copo de vinho.
Brandura dos nossos costumes.
Que significará, em verdade, esta locução? Dessoramento, fraqueza letal, debilidade, atonia, músculos de algodão em rama? Ou, antes, certo pendor para encolher os ombros diante da tirania e da injustiça, sem outra reacção às ofensas que o espumar de retaliações teóricas, sentindo na boca o espectro da baba longínqua da sagrada sanha de Nuno Álvares e outros defuntos retóricos da nossa gloriosa família comum?
Não sei. Um misto de tudo, talvez, sem lhe faltar o relaxamento, a preguiça e até - porque não? - certa bondade mole vinda lá do fundo da convicção egoísta de que não vale a pena sombrear a vida, já de si tão curta e que, afinal, só o abençoado aborrecimento português consegue tornar morosamente longa.
A que vêm, porém, todas estas congeminações, digam-me lá? A propósito da cena do elevador do Lavra?
Estranho episódio, na realidade, embora tão correntio que nem sei se mereça o tempo que vou perder a contá-lo.
Mas vá lá...
Era uma vez um homúnculo de bigodes abespinhados e olhos ariscos que estava a comprar o seu bilhete na plataforma dum elevador. Nisto, um cavalheiro açodado e cheio de embrulhos passou-lhe rente e, por inadvertência, atropelou-o com um encontrão esbaforido.
Tanto bastou para que a exclamação estoirasse, imediata e total:
- Arre que é besta!
O cavalheiro dos embrulhos não retrucou logo. Adquiriu por sua vez um bilhete, entrou com lentidão e escolheu um bom lugar, mesmo fronteiro ao banco onde o homúnculo de bigode eriçado insistia, risonhamente acre, para os circunstantes, à procura dum apoio de olhos:
- Sempre há cada cavalgadura neste mundo!
Só depois de bem acomodado e bem tossido o cavalheiro dos embrulhos se comprouve em retorquir-lhe com voz de eco atrasado:
- Cavalgadura será ele e toda a sua família. Percebeu? E toda a sua família.
Uma nuvem de borrasca iminente pesou então negra, no elevador. Alguns passageiros levantaram-se no presságio da comédia habitual do desagravo, prontos para intervir num torvelinho de apóstrofes e de alvoroto (“Larguem-me! Larguem-me! Que eu mato aquele malandro!”); ao passo que as damas se preparavam para aproveitar a ocasião de serem femininas e soltarem os graciosos gritinhos da praxe que tão bem lhes ficam à cor dos olhos.
Mas o homúnculo de bigodes assanhados seguia outra lógica de represália. Limitou-se a afiar mais a voz para recalcitrar:
- Se torna a falar-me na família, parto-lhe as ventas. Ouviu, seu animal? As ventas!
O outro riu com escárnio alto e bem silabado:
- Atreva-se... Até o fazia em açorda, seu alarve!
E então, os dois inimigos, de comum acordo, tranquilamente coléricos, serenamente ofegantes, repousadamente furiosos e impiedosamente sentados diante um do outro, iniciaram um combate singular, trémulo de palavras de furor, onde ferviam os socos de hipótese, as pontapés de teoria, as cabeçadas de abstracção e as rasteiras de quimera, num increpar de medo vociferante, óptimo para desenvolver os músculos da língua.
O elevador pusera-se, há muito, em movimento com estardalhaço vagaroso e os dois duelistas precisavam agora de gritar mais, de apregoar quase, para se ouvirem, num esganiçar de ódios inúteis:
- Até lhe comia os fígados, seu malandro! Os fígados, ouviu?
Mas não. Não comia e era pena. Que bom, se aquele senhor de bigodinho irritado começasse a devorar, ali mesmo diante de toda a gente, o fígado cru do rival, em vez daquele duelo absurdo... nas nuvens da prudência... só sons de chanfalhos sem lâminas... só murros de imaginação... só dentadas metafísicas...
A viagem aproximava-se do fim, e os dois adversários, embora continuassem a atirar epítetos às caras um do outro, mal conseguiam destrinçar-lhes um sentido qualquer, em virtude do estridor das rodas.
Foi então que aconteceu o inevitável.
Ouviu-se o grito:
- Cala a boca, urso!
O eterno grito anónimo, gaiato e lisboeta que ora sai das bocas das pedras das ruas, ora das bancadas do Coliseu, ora das estrelas.
Desta vez, incendiou a voz dum rapazola, loiraço e picado das bexigas, que mal se podia mexer, atabafado na plataforma traseira.
- Cala a boca, urso!
O homúnculo de olhos assomadiços voltou-se num repelão de rancor sacudido:
- Quem foi a grandessíssima cavalgadura que relinchou, para eu lhe amolgar os focinhos?
Emudecimento geral. Resposta, nem uma nem duas. O próprio loiraço, de olhos tão desafiantes, deixou-se escorregar para o alçapão do silêncio.
E, então, o elevador parou. Os passageiros começaram a sair.
Primeiro este... depois aquele... todos, em suma, depressa esquecidos dos dois galos de esporões teóricos.
O bexigoso loiro foi o último a descer, mas vissem-no agora, já diferente, já herói, já desmedido de audácia, já pimpão, a rosnar em confidência para um amigo:
- Os camelos só têm paleio, paleio e mais nada... Se fosse comigo, dava-lhes uma chulipa que até voavam.
E, heróico até ao paroxismo, pregou um pontapé no rabo do vento!

Largo da Anunciada. Árvores. Uma porta de igreja. Automóveis. E, de repente, diante dos olhos, esta tabuleta:

ANTIGA ERVANÁRIA
Casa fundada em 1793

Fundada em 1793?... Noventa e três? Data da viragem na história do mundo. Revolução francesa. Terror. Guilhotina. San-Just a clamar do alto da tribuna da Convenção: “a felicidade é uma ideia nova!” Batalha de Fleurus. “Viva a República!” Lágrimas nos olhos. As tropas da revolução estoiraram as fronteiras ao som da Marselhesa. A Europa levanta-se a cantar, bêbada de morte e de vida!… E entretanto, em Lisboa, fundava-se uma Ervanária para vender ingredientes ressumantes de vapor de água, mandésios, amavios, tisanas de ervagens colhidas à meia-noite nos cemitérios, cidreiras, tília (brandura dos nossos costumes) numa civilização de chazinhos fumegantes, beberagens, delíquios, flatos, enxaquecas, teorias, estorvos, molezas, melindres, gritinhos, medo do papão. Chatice...


Helena P.
Retrato (ao meu Pai)
Helena Policarpo















Ele é um espaço grande
do imperfeito a magia,
um vasto círculo dançante
Ao som de música amante
Qual Brueghel
que exibia
No contraponto do nu
Que desordenados panos cobria.
Por aqui vou, por aqui fugia
Mesmo túnel
Mesmo rio
Ambivalência da sede
que fonte desconhecia.

Se eu pudesse agarrar-lhe
a lógica de astro errante
Em minha mão afagá-lo

Por certo que queimaria
Ainda que em negação
Da estrada que nos unia.

Mila
Meu Amigo Canguru
Ziraldo

















António
Poema de Cinza
António Bôto de "Canções"
















Poema de Cinza
À memória de Fernando Pessoa

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boemia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

Por causa deste poema a Cristina lembrou-se do seguinte:

A propósito da publicação de 3 livros de 3 autores, Raúl Leal (Sodoma divinizada), António Botto (Canções) e Judith Teixeira (Decadência), alguns estudantes de Lisboa sentindo-se ofendidos com o teor dos mesmos, resolveram saquear as livrarias e apreender as obras, levá-las ao governo civil e queimá-las. Sim, foi no séc. XX, na terra dos "brandos costumes". Fernando Pessoa saiu em defesa dos escritores e Marcelo Caetano dos estudantes. Cada um marca o seu caminho.

Artigo de Marcelo Caetano de 1926 onde relata o seu modo de ver o que aconteceu. O artigo tem a grafia da época:

"Têm ultimamente aparecido nas livrarias [...] vários livros obscenos. Houve já uma inundação parecida, aqui há uns anos, quando um tal Sr. Raúl Leal publicou um opúsculo intitulado Sodoma Divinizada, que nas montras era ladeado pelas Canções dum tal António Bôto e por um livro de grande formato intitulado Decadência, duma desavergonhada chamada Judit Teixeira. A intervenção dos estudantes de Lisboa pôs cobro a êste estado de coisas com grande indignação do Sr. Júlio Dantas e de vários outros impagáveis bípedes, catedráticos e não catedráticos, académicos e não académicos. Êle há cada um! O facto é que o Leal e o Bôto e a Srª Judit Teixeira foram todos para o Govêrno Civil onde, sem escolha, se procedeu à cremação daquela papelada imunda, que empestava a cidade. "

E agora a carta de Álvaro de Campos a defender os escritores:

AVISO POR CAUSA DA MORAL

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

Europa , 1923.






Ana F.



No princípio criou Deus o céu e a terra
(Génesis 1: 1)

Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
(Génesis 1: 27)

Em 1858 Charles Darwin revoluciona o mundo com a teoria da selecção natural




Ana V.
La creación del hombre in Cuando el hombre es su palabra y otros cuentos (pp. 214-215)
Nicolás Buenaventura Vidal















Este conto delicioso pode ser lido online aqui, ou podem ouvi-lo contado pelo próprio autor.




Rosa
Três velhinhas
Popular


Três velhinhas estavam em casa
Diz uma: - estou com a vassoura na mão e não me lembro se já varri ou se ainda ia varrer!
Diz outra: - xi... eu estou de camisa, mas não sei se acordei agora ou se estava para ir dormir
A terceira bate três vezes na madeira e diz: - credo! espero nunca ficar como estas duas!... esperem só um bocadinho... vou ver quem bateu à porta!


Fernando

duas citações...



a vantagem de se ter uma péssima memória é que uma pessoa pode rir-se muitas vezes com as mesmas coisas (Nietzsche)

quem não tem boa memória arranja uma de papel (Gabriel Garcia Marquez)







... e um teste
Siga as instruções e responda as perguntas uma de cada vez MENTALMENTE e tão rápido quanto possível mas não siga adiante até ter respondido a anterior. E se surpreenda com a resposta!!!

Agora, responda uma de cada vez! Quanto é:

15+6

3+56

89+2

12+53

75+26

25+52

63+32

Sim, os cálculos mentais são difíceis realmente, mas agora é que vem o verdadeiro teste. Seja persistente e siga adiante até o fim.

Quanto é:

23+5

Rápido! Pense numa ferramenta e numa cor!

E siga adiante...














Mais um pouco...














Um pouco mais...







Pensou num martelo vermelho, não é verdade???




E porque desta vez houve não um... não dois... mas três aniversários... claro que houve festa! Parabéns ao Vasco, ao João e à Alexandra!
















Só para terminar...
Porque a memória também é feita de bons momentos, dêem um salto ao CLeVA 1.0 para um cheirinho do fado da má memória (só um cheirinho, que a bateria da máquina acabou-se... ou teria sido a memória?)