Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020

O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.


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Festa!



e assim terminou a 8ª temporada do CLeVA, a 1ª em versão Coro de Leitura. E será como Coro de leitura que regressaremos a seguir ao verão.

Coro S05

nesta sessão adicionámos um poema de Manoel de Barros ao reportório do Coro


a Maria José leu com a ajuda da Ana Maria "O Papagaio morto" dos Monty Python

 No final de cada sessão há sempre tempo para alguns comes e bebes.


A pedido de algumas pessoas aqui fica a receita do Pão de legumes com pinhões

Para 6 pessoas
Preparação: 1.20h
Custo: económico
Grau de dificuldade: Fácil
630 calorias /pessoa

40g de açúcar
4 ovos
250g de manteiga amolecida
300g de farinha
1 colher de chá de fermento em pó
1 pitada de sal
1 pimento vermelho
1 courgette
50g de pinhões
manteiga para untar
farinha para polvilhar

1
Numa tigela, deite o açúcar e os ovos e bata com a batedeira no máximo.
2
Junte depois a manteiga amolecida, aos poucos e batendo sempre. Em seguida, adicione a farinha, o fermento em pó e a pitada de sal e misture tudo muito bem.
3
Entretanto, corte o pimento em tiras finas e, com o raspador de cenoura, raspe a courgette.
4
Junte à massa a courgette raspada e os pinhões e misture tudo.
5
Unte com manteiga uma forma de bolo inglês e polvilhe-a com farinha
6
No fundo da forma, espalhe uma camada de massa e, em cima, uma camada de tiras de pimento; vá repetindo as camadas alternadamente de forma a que a última seja de massa.
7
Leva a cozer, durante 1 hora em forno a 180 graus. Depois do pão cozido, desenforme-o e deixe-o arrefecer. Sirva-o cortado em fatias, acompanhadas por uma boa salada a gosto.

A poesia é para comer

e assim terminámos mais um ano de CLeVA

em FESTA!



a Cristina leu de Eduardo White

Das palavras

Não mordas assim as palavras para que não te surpreendas, não as decepes. Não deixes a espada vil da mentira roubar-lhes a alegria. Quando as disseres aperta-as contra o peito. Faz um esforço por senti-las. Nas palavras cabem sempre o que para isso for preciso. Entra dentro delas como um milagre, como se uma pedra, de repente, se tornasse numa cigarra, como se o mar inteiro não te afogasse. Não as fites para as afastar. Não as rejeites. Pensa-as muitas vezes. As palavras não podem acordar com essa intenção de magoar. Distingue-as, toca nelas lentamente. Deixa que sejam limpas, que tenham chão, que façam vento. Dá-lhes a frescura de um limão, o êxtase que nelas se pode demorar. Não as digas, beija-as. As palavras povoam o que tu não podes povoar.


a Catarina e a Madalena deram o mote



o Luís e a Cristina leram de Jorge Bicho

Poema ao jantar

Olá, que estás a fazer?
O jantar.
O que é que vais fazer?
Um poema…
Só um poema, ou alguma coisa para acompanhar?
Sim, vou juntar-lhe o tempo…
e meia dúzia de pensamentos, dos mais pequenos…
Posso ajudar-te?
Claro, fazemos para os dois.
Passa-me aquelas palavras…
Quais?
As que estão por aí sem norte, desarmadas e frias.
E servem?
Vais ver, tenho um truque que as torna de ler e chorar por mais.
Não estão duras?
Com um pouco de paciência e cozedura lenta, amolecem.
Espera, preciso de bater primeiro o coração.
Queres que bata?
Bate comigo, os dois somos o número ideal.
Põe mais beijos…
mais, não deixes cair muitos de uma vez.
Tem já uma bela cor!
estou a ficar cheio de fome.
então pega no meu corpo e aquece-o,
Não deixes queimar, mexe sempre os olhos,
repara na cidade e nas sombras que diminuem.
cuidado não vá engrossar esse modo de ser.
Já podemos juntar tudo?
Falta-me a ternura, não sei se restou alguma,
tive um poema enorme a semana passada.
espera, já cresceram mais umas folhas.
Apanha com cuidado, para a deixar crescer outra vez.
Agora basta que me tenhas e me queiras,
Junta o ramo de cheiros que a tua memória colheu
Cheira, como é boa essa pitada de loucura que juntaste.
Vá, senta-te, Vou servir.
Pão?
Não, prefiro assim.
Traz o vinho
Tinto?
Claro, e tu senta-te, não quero começar sem ti.

de "Por dentro das palavras"


o Renato leu de Hilda Hilst

II

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

de "Alcoólicas"



a Ana Maria e a Virgínia leram de José Carlos Ary dos Santos

Auto-retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.


de "Fotos-grafias"



a Maria Teresa e o Tomás leram de Mário Castrim


Laranja

Arredondou-me
O tempo.
Verde.
Depois
Dei por mim
A arder
Entre as folhas.
Pesada.
Toda destinada
a c
a
i
r.
Terás
De rasgar-me
O vestido.


Maçã

A chama sã fechou-se no recinto.
Punho fechado.
Seio.
Dia a ver.
Derrama sangue dente a dente.
Resiste.
No fundo, está a semente.


Cereja

Sem
Peso
Um quase
Brilhante
Baloiça
De loiça
Verniz
Um brinco
Do instante.


Pêra

Fosse outra coisa – e talvez fosse um sino.
Fosse outra coisa – e era um coração.
Mas é o que é
Que é muito mais
Que ser o que não é.
Nem desanima
De ter só um pé
E mesmo esse em cima
No sítio onde em geral o pé é mão.

de "Histórias com juízo"



a Celina leu, com a ajuda do António e da Maria

Receita para um caminho naturalmente feliz

Ingredientes

1 poema de Alberto Caeiro
2 estrofes de José Carlos Ary dos Santos
1 quadra de José Afonso
5 versos de Manuel Alegre
39 sílabas de Eugénio de Andrade
1 pequeno poema de Sebastião da Gama
2 versos de David Mourão-Ferreira
22 palavras de Antoine de Saint-Exupéry (para polvilhar)

TEMPO DE PREPARAÇÃO: Todo o caminho (uma vida)
DIFICULDADE: Moderada (dependendo das escolhas feitas)

PREPARAÇÃO

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.
Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.

Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.

Amigo, maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.

Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...

…e apenas ouves o vento
e apenas ouves o mar…

Assim é e assim seja...



a Margarida e a Maria leram

Frutos e Guardador de rebanhos

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Eugénio de Andrade e Alberto Caeiro



João Duarte Victor leu de Nuno Júdice

Verbo

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.
Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.
Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.
Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.

de "As coisas mais simples"




a Ana Maria e a Vitória leram

Rifão quotidiano

Uma nêspera estava na cama
Deitada
Muito calada
A ver o que acontecia.

Chegou a velha e disse:
Olha, uma nêspera!
E zás! Comeu-a.

É o que acontece às nêsperas
Que ficam caladas
Deitadas
A esperar o que acontece.

Mário Henrique Leiria

A Uma Cerejeira em flor

Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços,acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.

Eugénio de Andrade



a Ana Brandão e a Anabela leram de Álvaro de Campos

Dobrada à Moda do Porto

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.



a Eugénia e a Rosa leram de Vinicius de Moraes

Feijoada à minha moda

Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora - perdoe - tão tarde

(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.

Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.

E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte

Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho - e o que mais for azado

Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo

Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.

Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão

E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas

De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)

E - atenção! - segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.

Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso

Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça

Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.

Uma farofa? - tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) - e chega.

Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria - e mexa-se.

Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
- Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...

Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... - jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes.



o António e a Mariana leram

O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa


Meditação na pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...

Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!

O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não...)

Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!

Chorar...
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...

Perdi tudo, quase tudo...

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Alexandre O´Neill



a Helena, a Graciete e a Cristina leram de Gez Walsh

Problemas à hora do banho

Estava eu muito bem na banheira
a passar um bom bocado sem ninguém à minha beira
quando de repente me vi numa aflição.
Estava assim sentado sem pensar em nada,
a imitar aviões no ar e a fazer bolas de sabão.
Mas naquele momento só houve uma coisa
que de facto me interessou à maneira,
será que o meu dedo grande do pé cabia no buraco da torneira?
Empurrei o dedo com quanta força tinha,
e ele conseguiu passar,
apesar da entrada ser apertadinha.
A princípio a sensação agradou-me,
mas depois pus-me logo a gritar.
O pé já estava a ficar roxo
e eu sem saber o que fazer para o tirar.
A minha mãe veio a correr à casa de banho
e disse: Porque é que estás a gritar dessa maneira?
Os vizinhos vão-te ouvir,
e já agora, porque é que tens o dedo na torneira?
Então eu pedi-lhe: Mãe, ajude-me, por favor,
o dedo ficou preso.
Ela deu voltas ao dedo, puxou
mas não conseguiu e, a arfar de tanto esforço, disse:
Vou falar com o teu pai
a ver se ele tem alguma ideia,
não me demoro nada,
portanto não saias daí.
Dali a um minuto
o meu pai entrou e disse: Ele há cada acidente!
Tinha a cara encarnada e vinha de cabeça quente,
parecia mesmo demente,
como se nem sequer fosse ali residente.
Abanou a cabeça,
disse que me faltava um parafuso
e saiu para ir à garagem
buscar ferramentas que há muito não tinham uso.
A minha irmã apareceu e escangalhou-se a rir.
Tentei tapar-me
Enquanto a minha mãe esvaziava a banheira.
A minha mãe deu-me uma toalha
para eu tapar a pilinha,
o meu pai conseguiu desapertar a torneira
e eu senti-me pior que uma velhinha.
Tivemos de ir ao hospital
Para me tirarem a torneira.
Entrei na sala de espera
com uma torneira num pé e um sapato no outro.
Fui a coxear sentar-me numa cadeira,
Fingindo ignorar toda aquela gente
Que mal me viu se pôs a rir.
Um velhote aproximou-se e disse-me ao ouvido:
Espero que não leves a mal isto,
mas sapateado de torneira
é que nunca tinha visto!
A enfermeira, essa, ria que nem uma desalmada,
enquanto me libertava e tirava a torneira para fora.
E a minha mãe disse-me: Que isto te sirva de lição-
Pronto, ok, para mim só duche, a partir de agora.

Tradução de Hélder Moura Pereira



a Cristina leu de Natália Correia

A defesa do poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.




comemos?



obrigado a todos :)

voz



a Cristina leu um excerto de "El narrador oral y el imaginario" de Pépito Matéo

o Fernando tentou convencer-nos a ler "No meu peito não cabem pássaros" de Nuno Camarneiro


a Carlota e a Madalena leram um excerto de
"Bíblia - A mais fascinante história"
de Silvia Zanconato
com ilustrações de Abigail Ascenso



a Ana Maria e a Virgínia leram de António Ramos Rosa

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



a Anabela e a Margarida leram excertos de
"A arte de dar peidos" de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut
Ilustrado por José María Lema



a Teresa fez-nos uma visita eu leu de António Torrado


O ovo da galinha

Faltam ovos na cozinha
Não há ovos para o doce.
"Alto lá" disse a galinha
"Ponho um ovo e acabou-se."

"Ponho um ovo e acabou-se.
Amassado com farinha,
se não chega para o doce,
vão dizer que a culpa é minha."

"Vão dizer que a culpa é minha.
Vão dizer: ela baldou-se.
Vão dizer: esta galinha
proibiu que houvesse doce."

"Proibiu que houvesse doce.
Foi tacanha, foi mesquinha.
Nem que fosse! Nem que fosse!",
cacarejou a galinha.

Cacarejou a galinha
e espremeu-se e esforçou-se.
E pôs um ovo que tinha
mais valor que muito doce.

Mais valor que muito doce,
que mil ovos de galinha:
era de oiro e acabou-se
a miséria na cozinha.

de "O meu primeiro álbum de poesia"



a Eugénia foi ao "Livro da Tila" de Matilde Rosa Araújo e leu
Balada das vinte meninas friorentas


Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.



a Ilda leu uma tradução livre de "If it be your will" de Leonard Cohen



o Luís leu um poema de José Jorge Letria
de "
Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar"
Cada palavra que leres
há-de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
quando te pões a falar.

Cada coisa que tu dizes
é apenas um começo,
é a fala a ganhar corpo,
o silêncio do avesso.
Cada coisa que tu sonhas
há-de ser depois contada
com a roupa das palavras
à fala bem ajustada.

E aquilo que tu dizes
há-de dar voz ao que sentes,
porque a fala é um canteiro
onde os sons são as sementes.
E aquilo que tu sentes
passa de avós para netos,
é o livro onde se guarda
o tesouro dos afectos.

Cada palavra que nasce
mesmo no centro da fala
é como um tesouro oculto
no recanto de uma sala,
e pode ser um unicórnio,
dragão ou mesmo arlequim,
transformando-se numa pomba
quando a história chegar ao fim.


a Adília e a Maria leram um excerto de "Firmin" de Sam Savage



a Rosa leu um excerto de "Descubra a sua criança interior" de Vera Faria Leal



a Antónia e o Renato leram um excerto de "Cyrano de Bergerac" de Edmond Rostand


De seguida a Cristina propôs a leitura "com sotaque" de:

De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Cesário Verde



e finalmente chegou a hora do piquenique



à hora de comer sempre o diabo traz mais um


des·mo·er
(des + moer)
verbo transitivo e intransitivo
[Informal]  Fazer a digestão. = Digerir, Esmoer

o Pinhal das Areias tem uma nova inquilina


Leopoldina

eros e psiquê | por autores portugueses nascidos após 25.04.1974




antes de entrarmos no tema da sessão, e porque estamos quase a 25 de Abril,
a Cristina abordou o tema da liberdade (ou falta dela), através de dois livros:
"Diamantes de Sangue" de Rafael Marques (pode ser descarregado aqui) e
"O lado de dentro do lado de dentro", Colectânea
donde leu "Tudo é cinzento" de Afonso Cruz



a Ilda escolheu "Cem anos de solidão" de Gabriel García Márquez



a Margarida leu de José Luís Peixoto

Amor

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

de "A Casa, A Escuridão"


a Celina leu um excerto de "Biografia involuntária dos amantes" de João Tordo



a Alexandra leu "Eu levo no pacote" de Rosinha

a Ilda leu de Joaquim Pessoa
(nascido antes de 1974... em 1948, no Barreiro)

Bastava-nos Amar

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.

de "Português Suave"


a Gabriela deu a volta ao tema e leu um excerto de "A casa dos horrores" de Nigel Cawthorne



a Virgínia leu de Sophia de Mello Breyner Andresen
(nascida antes de 1974... em 1919, no Porto)
Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

de "Livro Sexto"


o Luís leu de José Luís Peixoto
Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses. Mas passou tempo. Um dia, chegaste. Caminhávamos na rua. Eu pensava em qualquer coisa que não era a ideia de chegares, como uma avalanche que arrasta tudo à sua passagem, como uma multidão a pisar cada pedaço de terra. E a rua ficou deserta quando nos aproximámos. Éramos desconhecidos no instante em que olhámos um para o outro. Passou esse instante e, dentro de nós conhecemo-nos. Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado.

de "Antídoto"


a Maria leu, também de José Luís Peixoto
A mulher mais bonita do mundo

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

de "A Casa, a Escuridão"



a Cristina e o Fernando leram um excerto de "Deixem falar as pedras" de David Machado




licores, bolo de chocolate e bolachas caseiras
sempre a mesma chatice no final das sessões



eis a receita destas bolachas

Ingredientes

150g açúcar (branco ou amarelo)
125g manteiga derretida
300g de farinha (sem fermento ou integral)
1 ovo
Raspa de 1 laranja
1 colher de chá de fermento

Alternativa:

1 colher de sopa de canela ou de chocolate

Modo de preparação:

Juntar o ovo+açúcar+manteiga+raspa da laranja+farinha+fermento.
Envolver
Estender a massa e recortar em bolachas com as formas.
Levar ao forno 10 a 15 minutos

poesia




a Cristina falou-nos de "Cadernos dum amador de teatro" de António Pedro



a Maria trouxe-nos
"História do Sábio Fechado na sua Biblioteca", de Manuel António Pina



a Celina leu Florbela Espanca, acompanhada pela Mafalda, Maria Beatriz, Gonçalo e João
Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

                                E não sou nada!...


Ser poeta

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente! 



o Gonçalo leu, de sua autoria
Só para variar

Bem não sei o que hei de dizer
faltam-me as palavras
a criatividade está escassa
por favor eu já não sei o que faça.
   
Revolução, depressão, amor ou emoção
nada bate certo no meu pobre coração
não sinto vontade de escrever
sinto que parte de mim está a morrer.

Sendo assim decidi escrever sobre esta escassez
e provavelmente nada de jeito me sairá
mesmo não sendo a primeira vez
vamos lá ver no que dá.

Política? Não obrigado
Religião? Fica para outro dia
Pobreza? Prefiro não comentar
Solidão? Preciso é de companhia!

Mas quem sabe talvez até seja criativo
escrever sobre esta falta de criatividade
mas quem sabe até seja criativo
para um poeta com 14 anos de idade.

Se for criativo que me digam vossas Excelências
se for inovador que me fale esta sociedade
contudo, neste momento sinto-me vazio
falta-me a minha querida criatividade.

Gonçalo Moreira



a Maria Teresa leu Vergílio Ferreira

Reabre o céu depois de uma chuvada
no azul do dia.
É o azul do nada
com que se fazem os deuses e a poesia.

excerto do conto Uma esplanada sobre o mar (1986) 



o Tomás leu Manuel Freire
Eles

Ei-los que partem novos e velhos
Buscar a sorte noutras paragens
Noutras aragens, entre outros povos,
Ei-los que partem velhos e novos.

Ei-los que partem, de olhos molhados,
Coração triste, a saca às costas.
Esperança em riste, sonhos dourados
Ei-los que partem, de olhos molhados.

Virão um dia, ricos ou não
Contando histórias de lá de longe
Onde o suor se fez em pão

Virão um dia, ricos ou não.

Virão um dia, ou não.

 in Poetas de hoje e de ontem



a Maria leu Maria Alberta Menéres


Falar de poesia a crianças. Mas como? Dizer o que é a poesia? Dar uma definição rigorosa ou sugestiva?
Há algum tempo assisti a um colóquio em que o tema central era precisamente a poesia.
Era um colóquio para jovens e eu sentava-me junto de alguns, ouvindo alguém que se esforçava por demonstrar que não era possível dizer o que era a poesia.
Ao meu lado, baixinho, para não interromper, o Fernando indignou-se:
- Ora esta!, Mas eu sei o que é…
Eu – Então diz lá.
Fernando – A poesia é a beleza da vida.
Eu – Parece-me que tens razão.
Logo o João se meteu na conversa:
- Então as coisas feias não têm poesia?!
Eu – Parece-me que tens razão: as coisas feias também têm poesia.
Salta o André:
- Nesse caso, a poesia pode ser o sentido das coisas.

(…) A poesia é a beleza e o sentido das coisas e de nós próprios.
É uma maneira de olhar o mundo.
É uma forma de atenção a tudo.
Ela pode estar em toda a parte: nós, às vezes, é que não estamos onde ela está, só porque passamos ou vivemos distraídos.
E outras vezes estamos e encontramo-la.
E outras vezes encontramos a poesia e não a sabemos escrever.

o Luís leu Eduardo White
Não faz mal

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos? Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar. Algum
sentimento o terá deixado pousar, partido com ele.
Estará o verso connosco? Provavelmente apenas a parte que nos coube.
Aquietemo-nos. Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.



a Alexandra leu José Carlos Ary dos Santos
Poeta Castrado Não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não! 





a Gabriela leu de Percy B. Shelley, um excerto de Defesa da Poesia




o Fernando leu "Travessa do Diabinho" de Miguel-Manso, de "Tojo - Poemas Escolhidos"



a Ana e a Luísa leram Jorge Castro
Hoje, eu cá celebro Abril 

Aqui ficam outros poemas do autor.


a Teresa leu um excerto de Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto


o Renato leu um excerto de O filho do desconhecido de Alan Hollinghurst 


a Margarida leu Ana Paula Lavado
Nenhum verso


Nenhum verso fala de mim
nem do que eu penso
nem do que eu sinto
nem do que eu sou.
Na realidade,
as palavras são apenas
um jogo de letras
mais ou menos cinzelado
ao gosto de cada um.
E poucos, muito poucos
fazem delas seres vivos e humanos.
Eu não lhes dou vida.
Trabalho-as com mais ou menos nexo
ou talvez sem nexo,
porque dele não sinto falta
nem faz falta o que sou!


a Cristina leu, de Sophia de Mello Breyner Andresen
 Arte Poética V

Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.

Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.

Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.

No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.

Um dia em Epidauro — aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas — coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.

Tempos depois, escrevi estes três versos:

    A voz sobe os últimos degraus
    Oiço a palavra alada impessoal
    Que reconheço por não ser já minha.

(Lido na Sorbonne, em Paris, em Dezembro de 1988,
por ocasião do encontro intitulado Les Belles Étrangères)


e não poderíamos acabar sem as tradicionais guloseimas