Inscrições fechadas para a nova temporada 2019/2020
O Clube de Leitura em Voz Alta é agora Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.
Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.
Mais uma vez nos juntámos na Biblioteca de Alcochete para partilhar leituras.
Desta vez, aos novos membros juntámos os antigos. O resultado foi uma sala cheia de amigos.
Ainda antes de passar à leitura dos textos, estabelecemos as “novas regras” de funcionamento para este ano:
reunimo-nos mensalmente;
para cada sessão há um tema;
as leituras nunca ultrapassam os três minutos;
lemos sempre dos livros e não de “descobertas” feitas à ultima da hora na internet;
fazemos uma “feira do livro" emprestado;
uma pessoa apresenta uma leitura de um autor até aí desconhecido para si;
tentaremos que cada sessão seja uma festa e para isso e como nem só de livros se vive, trazemos sempre algo para comer ou beber.
Seguidamente brincámos com uma lengalenga.
Aqui na versão recolhida por Luísa Ducla Soares:
À morte ninguém escapa,
Nem o rei, nem o papa,
Mas escapo eu.
Compro uma panela,
Custa-me um vintém,
Meto-me dentro dela
E tapo-me muito bem,
Então a morte passa e diz:
- Truz, truz! Quem está ali?
- Aqui, aqui não está ninguém.
- Adeus meus senhores,
Passem muito bem
Tentámos decorá-la, o que afinal nem se revelou difícil.
E ainda vimos como Margarida Mestre e António Pedro a trabalharam num espectáculo maravilhoso de divulgação de poesia para a infância: Poemas para bocas pequenas. Para além do espectáculo, existe um livro e um CD editados pela BOCA.
Vimos em conjunto este video clip:
Passámos depois aos livros e suas leituras.
Nesta primeira sessão, o tema proposto foi: Prémio Nobel da Literatura.
Não mordas assim as palavras para que não te surpreendas, não as decepes. Não deixes a espada vil da mentira roubar-lhes a alegria. Quando as disseres aperta-as contra o peito. Faz um esforço por senti-las. Nas palavras cabem sempre o que para isso for preciso. Entra dentro delas como um milagre, como se uma pedra, de repente, se tornasse numa cigarra, como se o mar inteiro não te afogasse. Não as fites para as afastar. Não as rejeites. Pensa-as muitas vezes. As palavras não podem acordar com essa intenção de magoar. Distingue-as, toca nelas lentamente. Deixa que sejam limpas, que tenham chão, que façam vento. Dá-lhes a frescura de um limão, o êxtase que nelas se pode demorar. Não as digas, beija-as. As palavras povoam o que tu não podes povoar.
Olá, que estás a fazer?
O jantar.
O que é que vais fazer?
Um poema…
Só um poema, ou alguma coisa para acompanhar?
Sim, vou juntar-lhe o tempo…
e meia dúzia de pensamentos, dos mais pequenos…
Posso ajudar-te?
Claro, fazemos para os dois.
Passa-me aquelas palavras…
Quais?
As que estão por aí sem norte, desarmadas e frias.
E servem?
Vais ver, tenho um truque que as torna de ler e chorar por mais.
Não estão duras?
Com um pouco de paciência e cozedura lenta, amolecem.
Espera, preciso de bater primeiro o coração.
Queres que bata?
Bate comigo, os dois somos o número ideal.
Põe mais beijos…
mais, não deixes cair muitos de uma vez.
Tem já uma bela cor!
estou a ficar cheio de fome.
então pega no meu corpo e aquece-o,
Não deixes queimar, mexe sempre os olhos,
repara na cidade e nas sombras que diminuem.
cuidado não vá engrossar esse modo de ser.
Já podemos juntar tudo?
Falta-me a ternura, não sei se restou alguma,
tive um poema enorme a semana passada.
espera, já cresceram mais umas folhas.
Apanha com cuidado, para a deixar crescer outra vez.
Agora basta que me tenhas e me queiras,
Junta o ramo de cheiros que a tua memória colheu
Cheira, como é boa essa pitada de loucura que juntaste.
Vá, senta-te, Vou servir.
Pão?
Não, prefiro assim.
Traz o vinho
Tinto?
Claro, e tu senta-te, não quero começar sem ti.
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
Arredondou-me
O tempo.
Verde.
Depois
Dei por mim
A arder
Entre as folhas.
Pesada.
Toda destinada
a c
a
i
r.
Terás
De rasgar-me
O vestido.
Maçã
A chama sã fechou-se no recinto.
Punho fechado.
Seio.
Dia a ver.
Derrama sangue dente a dente.
Resiste.
No fundo, está a semente.
Cereja
Sem
Peso
Um quase
Brilhante
Baloiça
De loiça
Verniz
Um brinco
Do instante.
Pêra
Fosse outra coisa – e talvez fosse um sino.
Fosse outra coisa – e era um coração.
Mas é o que é
Que é muito mais
Que ser o que não é.
Nem desanima
De ter só um pé
E mesmo esse em cima
No sítio onde em geral o pé é mão.
TEMPO DE PREPARAÇÃO: Todo o caminho (uma vida)
DIFICULDADE: Moderada (dependendo das escolhas feitas)
PREPARAÇÃO
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento…
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural…
Caminharemos de olhos deslumbrados
E braços estendidos
E nos lábios incertos levaremos
O gosto a sol e a sangue dos sentidos.
Onde estivermos, há-de estar o vento
Cortado de perfumes e gemidos.
Onde vivermos, há-de ser o templo
Dos nossos jovens dentes devorando
Os frutos proibidos.
Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.
Amigo, maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
É urgente inventar alegria,
Multiplicar os beijos, as searas,
É urgente descobrir rosas e rios
E manhãs claras.
Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos,
Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.
Aqueles que passam por nós,
Não vão sós,
Não nos deixam sós.
Deixam um pouco de si,
Levam um pouco de nós.
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
…e apenas ouves o vento
e apenas ouves o mar…
Assim é e assim seja...
a Margarida e a Maria leram
Frutos e Guardador de rebanhos
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca – onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.
Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.
Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.
Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.
Acordar, ser na manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços,acolher nos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).
Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.
Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia eu prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora - perdoe - tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.
Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho.
E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte
Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho - e o que mais for azado
Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo
Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks.
Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão
E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas
De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)
E - atenção! - segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.
Feito o quê, retire-se caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso
Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.
Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça
Enquanto ao lado, em fogo brando
Desmilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso
Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.
Uma farofa? - tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) - e chega.
Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria - e mexa-se.
Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
- Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...
Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta... - jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes.
o António e a Mariana leram
O Infante
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Quem te sagrou criou-te portuguez..
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!
Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa-educação!
A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e se fecham
Procurando uma fresta, uma fraqueza
Qualquer da nossa parte...
Mas uma senhora é uma senhora.
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever – se tanto for preciso!
O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!
O amor de Raul é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade...
(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não...)
Filhos tivemos um:
Desapareceu...
E já nem sei chorar!
Chorar...
Como eu queria poder chorar!
Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do que eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia...
Perdi tudo, quase tudo...
Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.
Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.
a Helena, a Graciete e a Cristina leram de Gez Walsh
Problemas à hora do banho
Estava eu muito bem na banheira
a passar um bom bocado sem ninguém à minha beira
quando de repente me vi numa aflição.
Estava assim sentado sem pensar em nada,
a imitar aviões no ar e a fazer bolas de sabão.
Mas naquele momento só houve uma coisa
que de facto me interessou à maneira,
será que o meu dedo grande do pé cabia no buraco da torneira?
Empurrei o dedo com quanta força tinha,
e ele conseguiu passar,
apesar da entrada ser apertadinha.
A princípio a sensação agradou-me,
mas depois pus-me logo a gritar.
O pé já estava a ficar roxo
e eu sem saber o que fazer para o tirar.
A minha mãe veio a correr à casa de banho
e disse: Porque é que estás a gritar dessa maneira?
Os vizinhos vão-te ouvir,
e já agora, porque é que tens o dedo na torneira?
Então eu pedi-lhe: Mãe, ajude-me, por favor,
o dedo ficou preso.
Ela deu voltas ao dedo, puxou
mas não conseguiu e, a arfar de tanto esforço, disse:
Vou falar com o teu pai
a ver se ele tem alguma ideia,
não me demoro nada,
portanto não saias daí.
Dali a um minuto
o meu pai entrou e disse: Ele há cada acidente!
Tinha a cara encarnada e vinha de cabeça quente,
parecia mesmo demente,
como se nem sequer fosse ali residente.
Abanou a cabeça,
disse que me faltava um parafuso
e saiu para ir à garagem
buscar ferramentas que há muito não tinham uso.
A minha irmã apareceu e escangalhou-se a rir.
Tentei tapar-me
Enquanto a minha mãe esvaziava a banheira.
A minha mãe deu-me uma toalha
para eu tapar a pilinha,
o meu pai conseguiu desapertar a torneira
e eu senti-me pior que uma velhinha.
Tivemos de ir ao hospital
Para me tirarem a torneira.
Entrei na sala de espera
com uma torneira num pé e um sapato no outro.
Fui a coxear sentar-me numa cadeira,
Fingindo ignorar toda aquela gente
Que mal me viu se pôs a rir.
Um velhote aproximou-se e disse-me ao ouvido:
Espero que não leves a mal isto,
mas sapateado de torneira
é que nunca tinha visto!
A enfermeira, essa, ria que nem uma desalmada,
enquanto me libertava e tirava a torneira para fora.
E a minha mãe disse-me: Que isto te sirva de lição-
Pronto, ok, para mim só duche, a partir de agora.
(...) No dia seguinte o rapaz chegou à praia, sentou-se ao lado da Menina do Mar e disse:
- Hoje trago-te uma coisa da terra que é bonita e tem lá dentro alegria. Chama-se vinho. Quem bebe fica cheio de alegria.
Enquanto dizia isto o rapaz pousou na ar um copo cheio de vinho. Era um daqueles copos muito pequenos que servem para beber licores. A Menina do
Mar segurou o copo com as duas mãos e olhou o vinho cheia de curiosidade, respirando o seu perfume.
- É muito encarnado e muito perfumado - disse ela. - Conta-me o que é o vinho.
- Na terra -- respondeu o rapaz - há uma planta que se chama videira. No Inverno parece morta e seca. Mas na Primavera enche-se de folhas e no Verão enche-se de frutos que se chamam uvas e que crescem em cachos. E no Outono os homens colhem os cachos de uvas e põem-nos em grandes tanques de pedra onde os pisam até que o seu sumo escorra. E a esse sumo dos frutos da videira que chamamos o vinho. Esta é a história do vinho, mas o seu sabor não o sei contar. Bebe se queres saber como é.
E a Menina bebeu o vinho, riu-se e disse:
- É bom e é alegre. Agora já sei o que é a terra. Agora já sei o que é o sabor da Primavera, do Verão e do Outono. Já sei o que é o sabor dos frutos. Já sei o que
é a frescura das árvores. Já sei como é o calor duma montanha ao sol. Leva-me a ver a terra. Eu quero ir ver a terra. Há tantas coisas que eu não sei. (...)
(...) Facilitam, também a aproximação os banquetes, à mesa;
há qualquer coisa mais, além do vinho, que aí deves buscar.
Muitas vezes, braços delicados, os lançou o Amor, de rosto afoguedada,
sobre os chifres apertados de Baco, bem bebido;
e quando o vinho se espalhou sobre as asas esponjosas de Cupido,
ali fica e permanece prostrado do peso no lugar onde estava;
e logo sacode, à pressa, as penas encharcadas,
mas as próprias gotas sacudidas pelo amor são danosas ao coração.
O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega, então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.
Ali, muitas vezes as moças arrebataram os corações dos rapazes,
e Vénus, no vinho, tornou-se fogo no fogo.
Aqui, não te fies tu em demasia nas luzes enganadoras;
na apreciação da formosura, são danosos a noite e o vinho.
Foi à luz do dia e com céu desanuviado que Páris contemplou as deusas,
quando disse a Vénus: “és tu quem leva de vencida as outras duas”.
De noite, ficam disfarçados os defeitos e desculpam-se todos os vícios;
essa é a hora que torna famosa qualquer uma;
consulta, antes, a luz do dia a respeito das gemas, da lã tingida de púrpura,
consulta-a a respeito do rosto e do corpo. (...)
É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isto; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem tréguas.
Mas – de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.
E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:
É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor.
a Margarida e a Virgínia leram, de Alice Gomes "Na idade dos porquês"
Na idade dos porquês
Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio que solto no ar que vejo voar tão alto no vento que o meu pensamento não pode alcançar?
Professor diz-me porquê? Por que roda o meu pião? Ele não tem nenhuma roda E roda gira rodopia e cai morto no chão...
Tenho nove anos professor e há tanto mistério à minha roda que eu queria desvendar! Por que é que o céu é azul? Por que é que marulha o mar? Porquê? Tanto porquê que eu queria saber! E tu que não me queres responder!
Tu falas falas professor daquilo que te interessa e que a mim não interessa. Tu obrigas-me a ouvir quando eu quero falar. Obrigas-me a dizer quando eu quero escutar. Se eu vou a descobrir Fazes-me decorar.
É a luta professor a luta em vez de amor.
Eu sou uma criança. Tu és mais alto mais forte mais poderoso. E a minha lança quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas enquanto a tua voz zangada ralha tu sabes professor eu fecho-me por dentro faço uma cara resignada e finjo finjo que não penso em nada.
Mas penso. Penso em como era engraçada aquela rã que esta manhã ouvi coaxar. Que graça que tinha aquela andorinha que ontem à tarde vi passar!...
E quando tu depois vens definir o que são conjunções e preposições... quando me fazes repetir que os corações têm duas aurículas e dois ventrículos e tantas tanta mais definições... o meu coração o meu coração que não sei como é feito nem quero saber cresce cresce dentro do peito a querer saltar cá para fora professor a ver se tu assim compreenderias e me farias mais belos os dias.
Era uma vez um jovem dromedário que não estava nada contente. Na véspera, dissera ele aos amigos: “Amanhã vou sair com o meu pai e com a minha mãe, vamos ouvir uma conferência, ora vejam!” Os outros tinham dito: “Olha, olha, ele vai ouvir uma conferência, que maravilha”. Não pregara olho toda a noite, tal era a sua impaciência. E agora não estava contente porque a conferência não era nada do que imaginara: não tinha música e era uma decepção, estava aborrecidíssimo e com vontade de chorar. Havia uma hora e três quartos que um senhor gordo falava. Diante do senhor gordo havia um jarro de água e um copo de dentes sem escova. De tempos a tempos, o senhor deitava água no copo mas nunca lavava os dentes e, visivelmente irritado, falava de outra coisa, isto é, dos dromedários e dos camelos. O jovem dromedário estava cheio de calor e, além disso, a bossa incomodava-o muito porque roçava nas costas da cadeira. Estava muito mal sentado, mexia-se e remexia-se. Então, a mãe dizia-lhe: “Está quieto, deixa falar o senhor”, e dava-lhe beliscões na bossa. O jovem dromedário tinha cada vez mais vontade de chorar, de se ir embora… De cinco em cinco minutos o conferencista repetia: “Sobretudo, há que não confundir os dromedários com os camelos. Chamo a vossa atenção, minha senhoras, meus senhores e caros dromedários, para este facto: o camelo tem duas bossas, mas o dromedário só tem uma!” Todas as pessoas na sala diziam: “Ah, ah, muito interessante”, e os camelos, os dromedários, os homens, as mulheres e as crianças tomavam notas nos seus canhenhos.
Depois tornava o conferencista: “O que distingue os dois animais é que o dromedário tem só uma bossa, ao passo que, coisa estranha e que é útil conhecer, o camelo tem duas…” Por fim, o jovem dromedário fartou-se e, saltando para o estrado, mordeu o conferencista. “Camelo!”, disse o conferencista furioso. E toda a gente na sala gritava: “Camelo, porco de camelo, porco de camelo!” E, no entanto, era um dromedário, e todo limpinho.
A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz
Certa vez, uma criança fez um desenho. Demorou muito tempo a terminá-lo e usou todos os lápis de cor que tinha. Depois foi ter com a avó e mostrou-lho.
— O que é isto? — perguntou à avó.
— É um desenho muito bonito e cheio de cor — respondeu a avó.
— Mas o que é? — insistiu.
A avó não soube responder.
A criança foi perguntar ao avô.
— Isto é quase um Picasso — respondeu o avô a rir.
— E o que é "quase um Picasso"? — perguntou a criança.
— Um pintor — foi a resposta do avô.
— Eu também sou um pintor — disse a criança.
De seguida foi ter com a irmã mais velha.
— Usaste mesmo as cores todas! — disse ela.
— Pois foi. Mas o que é isto?
— Uma gatafunhada colorida!
A criança tirou-lhe o desenho e foi ter com o pai que estava à mesa a ler o jornal. A criança pôs o desenho em cima do jornal e não disse nada.
— Oh! — disse o pai. — Mas isto é um arco-íris todo colorido muito bonito! Vai de uma ponta à outra. Vai de mim até ti.
— Exactamente — disse a criança.
Em seguida, a criança e o pai penduraram o desenho precisamente no local onde a luz do sol se reflectia na parede.
Eu saio da escola sempre à mesma hora Vejo o
João que sai também Já me fiz de distraída, sorri meio
atrevida Mas o João da C finge que não me vê
Todas na
escola gostam do João Propõem namorar num papel com sim ou
não Sei que é difícil com tanta escolha assim Que vai fazer
o João gostar de mim?
Não sou a mais bonita e nunca sou
escolhida Quando fazem equipas para o futebol Se alguém fica
doente entro para suplente E fico sentadinha a apanhar sol
Todas
na escola gostam do João Propõem namorar num papel com sim ou
não Sei que é difícil com tanta escolha assim Que vai fazer
o João gostar de mim?
Todas na escola gostam do João Propõem
namorar num papel com sim ou não Sei que é difícil com tanta
escolha assim Que vai fazer o João gostar de mim?
O João
olhar para mim O João gostar de mim Ele está a olhar para mim
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
Cada palavra que leres há-de alargar o teu mundo acrescentando sentido ao que sabes lá no fundo, e aquilo que tu nomeias passa a ter nome e lugar, tesouro de sons soletrado quando te pões a falar.
Cada coisa que tu dizes é apenas um começo, é a fala a ganhar corpo, o silêncio do avesso. Cada coisa que tu sonhas há-de ser depois contada com a roupa das palavras à fala bem ajustada.
E aquilo que tu dizes há-de dar voz ao que sentes, porque a fala é um canteiro onde os sons são as sementes. E aquilo que tu sentes passa de avós para netos, é o livro onde se guarda o tesouro dos afectos.
Cada palavra que nasce mesmo no centro da fala é como um tesouro oculto no recanto de uma sala, e pode ser um unicórnio, dragão ou mesmo arlequim, transformando-se numa pomba quando a história chegar ao fim.