O antigo Clube de Leitura em Voz Alta deu lugar ao Coro de Leitura em Voz Alta. Tem normalmente um periodicidade quinzenal e acontece na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

ser criança


Antes de entrarmos no tema da sessão falámos de outras leituras em voz alta

- nasceu outro clube de leitura em voz alta, chama-se "Leituras da Escola Comunitária de Alcochete".
Eis um resumo fotográfico de uma das sessões:




- voltámos a falar da "Leitura Furiosa" deste ano

a Cristina falou-nos do Cancioneiro Infanto-Juvenil do Instituto Piaget.
Com o tema "Ser criança" seria inevitável falar do grande Manoel de Barros



a Cristina falou-nos ainda de "Infância roubada", uma antologia de textos de autores portugueses que falam da sua infância, numa organização de Matilde Rosa Araújo
e leu deste mesmo livro:

ficou da infância a febre

ficou da infância a febre
de correr parado
pelas estradas

podes chamar-lhe versos
são viagens

ficou na infância a fisga
de arremessar ao vento

podes chamar-lhe versos
são pedradas


 
vamos brincar?



a Celina leu um excerto de «Num meio dia de fim de primavera» de Alberto Caeiro


e a Maria leu-nos o excerto que faltava deste mesmo poema


o Fernando leu, com a ajuda de todos
Pois pois

O Padre António Vieira pregava de encostar as orelhas na boca do bárbaro.
Que para ouvir as vozes do chão
Que para ouvir a fala das águas
Que para ouvir o silêncio das pedras
Que para ouvir o crescimento das árvores
E as origens do Ser. Pois Pois.
Bernardo da Mata nunca fez outra coisa
Que ouvir as vozes do chão
Que ouvir o perfume das cores
Que ver o silêncio das formas
E o formato dos campos. Pois Pois.
Passei muitos anos a rabiscar, neste caderno, os escutamentos de Bernardo.
Ele via e ouvia inexistências.
Eu penso agora que esse Bernardo tem cacoete para poeta


O livro de Bernardo

1

Os meninos me letram de Bandarra.
(Bandarra é cavalo velho solto
no pasto, às moscas.)
Esse é meu estandarte.

2

Não tenho pensa.
Tenho só árvores ventos
passarinhos – issos.

3

Dentro de mim
eu me eremito
como os padres do ermo.

4

Meus caminhos
a garça
redime.

5

Sou aquele
que gastou a sua história
na beira de um rio.

6

Estes brejos amanhecem
amarrados
de conchas.

7

A voz dos sapos de tarde
é destroncada
por dentro.

8

O sol transborda
nas estradas
e no olhar das sariemas.

9

Ao lado de uma lara
de uma pedra
estou conforme.

10

Passarinhos do mato
gostam de mim
e de goiaba.

11

Cavalos entardecem
na beira do mato –
onde entardeço.

12

Uma rã me benzeu
com as mãos
na água.

13

Caramujos sempre chegam depois.
Representa que estão chegando
da eternidade.

14

Meu desagero
é de ser
fascinado por trastes.

15

O silêncio
está úmido
de aves.

16

Registros de lagartixas
nas ruínas:
elas têm sabimentos de pedras.

17

Vi o verão
no meio das pedras
e um lagarto.

18

A chuva
azula a voz
das andorinhas

19

Eternidade
é palavra
encostada em
Deus.

20

Águas que sabem
a pedras
sabem a rãs.

21

Sapos sabem divinamentos
mais do que as árvores
mais do que os homens.

22

O sangue do sol
nas águas
atrai mariposas.

23

Sou livre
para o silêncio das formas
e das cores.

24

Caracóis
não gosmam
em latas.

25

Ocupo função de exílio
quando anoitece
nas águas.

26

Passam formigas perdidas
no lado esquerdo
da casa.

27

No olho songo
do lagarto
nasce um pedaço de nuvem.

28

O corpo do rio prateia
quando a lua
se abre.

29

Na beira da mosca
o céu parou
o dia parou.

30

O dia estava
em condições de boca
para as borboletas.

31

O lírio
e as garças
são imaculantes.

32

Sou beato de águas
de pedras
e de aves.

33

De tarde
cigarras
arrebentavam o verão.

34

Dentro dos caramujos –
há silêncios
remontados.

35

Quem ornamenta o azul
das manhãs
são os sabiás.

36

Estou pousado em mim
igual que formiga
sem rumo.

37

Com fios de orvalho
aranhas tecem
a madrugada.

38

Eu vi que a noite dormia
escorada
nos arvoredos.

39

Andorinhas passeiam
na chuva
e no meu ocaso.

40

Quase vestida de sol
vi a chuva
em cima do morro.

41

Palavras
Gosto de brincar com elas
Tenho preguiça de ser sério.

42

Tenho candor
por bobagens
Quando eu crescer eu vou ficar criança.

43

Bom é
constar das paisagens
como um rio, uma pedra.

44

Meu requinte
é chegar às vilezas
com castidade.

45

Passarinho
faz árvore de tarde
nos andarilhos.

46

Poeta
é uma pessoa
que reverdece nele mesmo.

47

Reconhecer a eminência
dos insetos
leva à sabedoria.

48

Pelo corpo
das latas podres
relvam rosas.

49

As garças
quando alçam
se entardecem.

50

Já me dei ao desfrute
de ser ao mesmo tempo
pedra e sapo.

51

Preciso de alcançar
a indulgência
pedral.

52

Uma açucena
me convidou
para de noite.





a Luísa leu um excerto de «A língua posta a salvo», de Elias Canetti



o Renato leu «Ser criança» de Madalena e um excerto de «O Deus das Moscas», de William Golding



a Margarida e a Virgínia leram, de Alice Gomes "Na idade dos porquês"

Na idade dos porquês


Professor diz-me porquê?

Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta  professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.




a Teresa leu um excerto do conto «A volta por cima», de Fernando Sabino



o Tomás e a Maria Teresa leram «O dromedário descontente», de Jacques Prévert

O dromedário descontente

Era uma vez um jovem dromedário que não estava nada contente. Na véspera, dissera ele aos amigos: “Amanhã vou sair com o meu pai e com a minha mãe, vamos ouvir uma conferência, ora vejam!” Os outros tinham dito: “Olha, olha, ele vai ouvir uma conferência, que maravilha”. Não pregara olho toda a noite, tal era a sua impaciência. E agora não estava contente porque a conferência não era nada do que imaginara: não tinha música e era uma decepção, estava aborrecidíssimo e com vontade de chorar. Havia uma hora e três quartos que um senhor gordo falava. Diante do senhor gordo havia um jarro de água e um copo de dentes sem escova. De tempos a tempos, o senhor deitava água no copo mas nunca lavava os dentes e, visivelmente irritado, falava de outra coisa, isto é, dos dromedários e dos camelos. O jovem dromedário estava cheio de calor e, além disso, a bossa incomodava-o muito porque roçava nas costas da cadeira. Estava muito mal sentado, mexia-se e remexia-se. Então, a mãe dizia-lhe: “Está quieto, deixa falar o senhor”, e dava-lhe beliscões na bossa. O jovem dromedário tinha cada vez mais vontade de chorar, de se ir embora… De cinco em cinco minutos o conferencista repetia: “Sobretudo, há que não confundir os dromedários com os camelos. Chamo a vossa atenção, minha senhoras, meus senhores e caros dromedários, para este facto: o camelo tem duas bossas, mas o dromedário só tem uma!” Todas as pessoas na sala diziam: “Ah, ah, muito interessante”, e os camelos, os dromedários, os homens, as mulheres e as crianças tomavam notas nos seus canhenhos.

Depois tornava o conferencista: “O que distingue os dois animais é que o dromedário tem só uma bossa, ao passo que, coisa estranha e que é útil conhecer, o camelo tem duas…” Por fim, o jovem dromedário fartou-se e, saltando para o estrado, mordeu o conferencista. “Camelo!”, disse o conferencista furioso. E toda a gente na sala gritava: “Camelo, porco de camelo, porco de camelo!” E, no entanto, era um dromedário, e todo limpinho.


o Luís leu de Ruy Belo
Algumas Proposições com Crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

de 'Homem de Palavra[s]'


a Ilda leu «A história da criança e do desenho», de Rolf Krenzer

A história da criança e do desenho

Certa vez, uma criança fez um desenho. Demorou muito tempo a terminá-lo e usou todos os lápis de cor que tinha. Depois foi ter com a avó e mostrou-lho.    
— O que é isto? — perguntou à avó. 
 — É um desenho muito bonito e cheio de cor — respondeu a avó.   
— Mas o que é? — insistiu.   
A avó não soube responder.    
A criança foi perguntar ao avô.   
— Isto é quase um Picasso — respondeu o avô a rir.   
— E o que é "quase um Picasso"? — perguntou a criança.   
— Um pintor — foi a resposta do avô.   
— Eu também sou um pintor — disse a criança.   
De seguida foi ter com a irmã mais velha.   
— Usaste mesmo as cores todas! — disse ela.   
— Pois foi. Mas o que é isto?   
— Uma gatafunhada colorida!   
A criança tirou-lhe o desenho e foi ter com o pai que estava à mesa a ler o jornal. A criança pôs o desenho em cima do jornal e não disse nada.   
— Oh! — disse o pai.  — Mas isto é um arco-íris todo colorido muito bonito! Vai de uma ponta à outra. Vai de mim até ti.   
— Exactamente — disse a criança.   
Em seguida, a criança e o pai penduraram o desenho precisamente no local onde a luz do sol se reflectia na parede. 


a Alexandra leu "João", de Luisa Sobral
João

Eu saio da escola sempre à mesma hora
Vejo o João que sai também
Já me fiz de distraída, sorri meio atrevida
Mas o João da C finge que não me vê

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

Não sou a mais bonita e nunca sou escolhida
Quando fazem equipas para o futebol
Se alguém fica doente entro para suplente
E fico sentadinha a apanhar sol

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

Todas na escola gostam do João
Propõem namorar num papel com sim ou não
Sei que é difícil com tanta escolha assim
Que vai fazer o João gostar de mim?

O João olhar para mim
O João gostar de mim
Ele está a olhar para mim


a Cristina leu de Manoel de Barros

O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


e por fim...

próxima sessão | 2 Junho 2015

será o tema

será responsável pelo livro do dia

voz



a Cristina leu um excerto de "El narrador oral y el imaginario" de Pépito Matéo

o Fernando tentou convencer-nos a ler "No meu peito não cabem pássaros" de Nuno Camarneiro


a Carlota e a Madalena leram um excerto de
"Bíblia - A mais fascinante história"
de Silvia Zanconato
com ilustrações de Abigail Ascenso



a Ana Maria e a Virgínia leram de António Ramos Rosa

Uma voz na pedra

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



a Anabela e a Margarida leram excertos de
"A arte de dar peidos" de Pierre-Thomas-Nicolas Hurtaut
Ilustrado por José María Lema



a Teresa fez-nos uma visita eu leu de António Torrado


O ovo da galinha

Faltam ovos na cozinha
Não há ovos para o doce.
"Alto lá" disse a galinha
"Ponho um ovo e acabou-se."

"Ponho um ovo e acabou-se.
Amassado com farinha,
se não chega para o doce,
vão dizer que a culpa é minha."

"Vão dizer que a culpa é minha.
Vão dizer: ela baldou-se.
Vão dizer: esta galinha
proibiu que houvesse doce."

"Proibiu que houvesse doce.
Foi tacanha, foi mesquinha.
Nem que fosse! Nem que fosse!",
cacarejou a galinha.

Cacarejou a galinha
e espremeu-se e esforçou-se.
E pôs um ovo que tinha
mais valor que muito doce.

Mais valor que muito doce,
que mil ovos de galinha:
era de oiro e acabou-se
a miséria na cozinha.

de "O meu primeiro álbum de poesia"



a Eugénia foi ao "Livro da Tila" de Matilde Rosa Araújo e leu
Balada das vinte meninas friorentas


Vinte meninas, não mais,
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
Eu via naquele muro:
Tinham cabecinha preta,
Vestidinho azul escuro.

As minhas vinte meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Chegaram na Primavera
E acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas
Dormiam quentes num ninho
Feito de amor e de terra,
Feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
Para o almoço e o jantar
Tinham coisas pequeninas,
Que apanhavam pelo ar.

Já passou a Primavera
Suas horas pequeninas:
E houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
Que apetecia beijar:
Ovos que continham vidas
E asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
Que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
Eu via ali no beiral:
Tinham cabecinha preta
E branquinho o avental.

Mas as oitenta meninas,
Capinhas dizendo adeus,
Em certo dia de Outono
Perderam-se pelos céus.



a Ilda leu uma tradução livre de "If it be your will" de Leonard Cohen



o Luís leu um poema de José Jorge Letria
de "
Versos para os pais lerem aos filhos em noites de luar"
Cada palavra que leres
há-de alargar o teu mundo
acrescentando sentido
ao que sabes lá no fundo,
e aquilo que tu nomeias
passa a ter nome e lugar,
tesouro de sons soletrado
quando te pões a falar.

Cada coisa que tu dizes
é apenas um começo,
é a fala a ganhar corpo,
o silêncio do avesso.
Cada coisa que tu sonhas
há-de ser depois contada
com a roupa das palavras
à fala bem ajustada.

E aquilo que tu dizes
há-de dar voz ao que sentes,
porque a fala é um canteiro
onde os sons são as sementes.
E aquilo que tu sentes
passa de avós para netos,
é o livro onde se guarda
o tesouro dos afectos.

Cada palavra que nasce
mesmo no centro da fala
é como um tesouro oculto
no recanto de uma sala,
e pode ser um unicórnio,
dragão ou mesmo arlequim,
transformando-se numa pomba
quando a história chegar ao fim.


a Adília e a Maria leram um excerto de "Firmin" de Sam Savage



a Rosa leu um excerto de "Descubra a sua criança interior" de Vera Faria Leal



a Antónia e o Renato leram um excerto de "Cyrano de Bergerac" de Edmond Rostand


De seguida a Cristina propôs a leitura "com sotaque" de:

De tarde

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

O Livro de Cesário Verde



e finalmente chegou a hora do piquenique



à hora de comer sempre o diabo traz mais um


des·mo·er
(des + moer)
verbo transitivo e intransitivo
[Informal]  Fazer a digestão. = Digerir, Esmoer

o Pinhal das Areias tem uma nova inquilina


Leopoldina

próxima sessão | 23 Maio 2015 | sábado | 15h00 | piquenique

O próximo encontro será ao ar livre. Vamos fazer um piquenique e vamos ler.
Preparem as leituras e tragam comida e bebida.

Plano A
Local - Sítio das Hortas Pinhal das Areias - Alcochete
GPS: 38°45'32.1"N 8°56'18.9"W

Plano B (caso a situação climatérica não permita o ar livre)
Local - Centro de Interpretação da Reserva Natural do Estuário do Tejo - Sitio das Hortas (a cerca de 200 metros do Plano A)
GPS: 38°45'37.2"N 8°56'14.9"W

Já não é a primeira vez.  Em 2012 foi assim.

será o tema
***ATENÇÃO***
de preferência as leituras deverão ser em grupo

Auto das almas MMXV


o António Marques
que fez parte de um dos grupos do CLeVA, escreveu e faz parte do elenco do espectáculo "Auto das almas MMXV" em cena na Arta - Associação Recreativa Taberna das Almas, Regueirão dos Anjos, 68-70, Lisboa, até ao próximo dia 30 de Maio (sextas e sábados às 22h00).

A entrada é livre mas é preciso reservar para: almasdoteatro@gmail.com

mais informações aqui ou aqui

a surpresa




a Maria Teresa apresentou «O Sol dos Scorta», de Laurent Gaudé
«Depois de ter passado quinze anos na prisão, Luciano Mascalzone regressa a Montepuccio, uma pequena aldeia do Sul de Itália onde as horas passam debaixo de um calor inclemente. Luciano vem à procura de Filomena Biscotti, uma mulher que desde a juventude deseja profundamente, mas ignora ainda que quem lhe abrirá a porta de casa e se deixará violar será Immacolata, a irmã mais nova de Filomena. Espancado pelos habitantes da aldeia, Luciano morre sem saber que Immacolata dará à luz um filho, o primeiro elo da linhagem dos Scorta...»


a Cristina, a propósito de "não deixar cair os finais das frases", leu
Epigrama imitado

Levando um velho avarento
Uma pedrada no olho,
Põe-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo, doutor, não das dúzias,
Mas sim do médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

"Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro eu dou por isso."

Bocage


e a propósito da apresentação pública "A poesia é para comer", no próximo dia 4 de Julho, data da sessão final desta 5ª edição do CLeVA, leu:


A defesa do poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
Que favor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.

Natália Correia
de "Poesia Completa"

nota em rodapé:
"Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória. O que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a a sentença."
Natália Correia

a Luísa e a Ana leram um conto de José Mário Silva
Arma mortal

Ela disse-lhe baixinho: «Uma flor branca pode ser uma arma mortal». Ele fez que sim com a cabeça, quase envergonhado. Nas visitas à clínica, nunca mais lhe levou lírios. Só caixas de bombons com recheio de praliné, conversas de circunstância, cigarros e revistas cor-de-rosa. 

Há palavras que são iguais às coisas que nomeiam. Há palavras que não são iguais às coisas que nomeiam. Ele pensa na palavra tubérculo e não consegue imaginar formas semelhantes a uma batata. Ele pensa na palavra alumínio e consegue ver uma peça de metal que brilha. «Flor», por exemplo. «Dizemos flor e o próprio som parece uma corola que nos sai da boca. Dizemos flor e a língua fica com um sabor a pétalas». Ele vai pensando tudo isto na paragem, após a visita. O frio enfia-se pelas mangas do casaco. O autocarro nunca mais chega.

A pedra. A pedra no ar. Uma coisa que voa. Uma palavra que voa. Matéria escura e sólida, sujeita às leis da física. Puxada para cima pelo nosso olhar e para baixo pela gravidade (mas a gravidade tem sempre mais força do que o nosso olhar). Ele recorda uma coisa que parece muito antiga mas não é: «Uma vez peguei numa pedra e atirei-a por cima do muro, embrulhada num papel que dizia: eis o meu coração, dou-to.» Infelizmente, naquela tarde ela não se sentara no lugar do costume e a pedra acertou-lhe em cheio na cabeça, com a aresta mais cortante. Desmaiou. Alguém chamou uma ambulância. Dois dias mais tarde, ele visitou-a na clínica. Ela não chegara a ler o papel, abandonado sobre a relva, manchado de sangue. Com a cabeça cheia de ligaduras, perguntou-lhe: «Que raio de pessoa seria capaz de fazer uma coisa destas?»

Na florista, cinco minutos antes da visita, decidira-se pelos lírios, apesar dos conselhos da vendedora puxarem mais para as rosas. Ao regressar a casa, cabisbaixo, pensou nos olhos dela. Já não sabia se eram azuis ou castanhos. Já não sabia se seriam capazes de o olhar, depois de conhecerem a verdade. Repetiu baixinho, para si mesmo: «Uma flor branca pode ser uma arma mortal». E acrescentou: «Um coração também.»


a Alexandra e a Margarida leram um excerto de As mil e uma noites


a Ilda leu Surpresa! Surpresa!, de Michael Foreman



a Virgínia leu «O Ladino», um dos contos de Bichos de Miguel Torga


o Renato leu um excerto de A Cidade e as Serras de Eça de Queirós


a Gabriela leu um poema de Ievgueni Ievtuchenko 
Batem à porta


"Quem é?  - " A velhice.
                       Vim ter contigo."
"Volta mais tarde.
                         Estou ocupado.
                                                Tenho coisas que fazer!"
Escrevi.
           Telefonei.
                         Estraguei uma omeleta.
Depois abri a porta,
                             Mas não estava lá ninguém.
Talvez uma partida dos amigos.
Ou talvez não ouvisse bem o nome.
Não foi a velhice
                           Mas a maturidade que aqui esteve,
não pode esperar,
                           suspirou e partiu!


o Luís leu um excerto de Memórias da Irmã Lúcia
Treze de Maio

Dia 13 de Maio (de) 1917 – Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita em volta duma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.
– É melhor irmos embora para casa, – disse a meus primos – que estão a fazer relâmpagos; pode vir trovoada.
– Pois sim.
E começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto, que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos.
Então Nossa Senhora disse-nos:
– Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.
– De onde é Vossemecê? – lhe perguntei.

– Sou do Céu.


a Maria leu Surpresa! Surpresa!, de Michael Foreman


a Maria Teresa leu um capítulo de As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino
As cidades e as trocas 2.

Em Cloé, grande cidade, as pessoas que passam pelas ruas não se conhecem. Ao verem-se imaginam mil coisas umas das outras, os encontros que poderiam verificar-se entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as ferroadas. Mas ninguém dirige uma saudação a ninguém, os olhares cruzam-se por um segundo e depois afastam-se, procurando novos olhares, não param.
Passa uma rapariga que faz rodar uma sombrinha apoiada no ombro, e abana também um pouco o redondo das ancas. Passa uma mulher vestida de preto com ar de velha, de olhos inquietos por baixo do véu e com os lábios a tremer. Passa um gigante tatuado; um homem novo de cabelos brancos; uma anã; duas gémeas vestidas de cor de coral. Algo corre entre eles, uma troca de olhares como linhas a ligarem uma figura à outra e desenhando setas, estrelas, triângulos, até que todas as combinações se esgotam num instante, e entram em cena outras personagens: um cego com um leopardo pela trela, um cortezão com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher gordíssima. Assim entre os que por acaso se encontram juntos a abrigar-se da chuva debaixo de um pórtico, ou se apinham debaixo dos toldos de um bazar, ou param para ouvir a banda no coreto da praça, consumam-se encontros, seduções, ligações, cópulas, orgias, sem que troquem uma palavra, sem que se toquem com um dedo, quase sem se olharem.
Uma vibração de luxúria move continuamente Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e mulheres começassem a viver os seus efémeros sonhos, todos os fantasmas se tornariam pessoas com quem se poderia começar uma história de perseguições, de ficções, de malentendidos, de choques, de opressões, e assim acabaria o carrossel das fantasias.


o Tomás leu um excerto de O mistério da casa invisível, de Enid Blyton
Começava a clarear o dia. O Gordo, o Luís e o Filipe sentiam-se felizes por caminharem ao longo do pequeno ribeiro. Parecia-lhes terem andado uma data de quilómetros! Finalmente chegaram à ponte e dirigiram-se para a aldeia.
- O melhor é irmos primeiro a casa do Goon para lhe dizermos que o Ern está bem. - sugeriu o Gordo. De lá telefonariam Sr. Inspector.
Com grande espanto do Inspector, que estava a olhar para a janela, viu repentinamente Gordo o Luís e o Filipe a subir a rua como se fossem uns velhinhos muito cansados.
- Olha para lá Goon! Lá vêm eles. Só o Ern é que não!

O Sr. Goon ia tendo um colapso. Os três rapazes subiram o caminho que os levava até à porta, e tocaram a campainha. O Gordo ficou de boca aberta de surpresa e prazer ao ver o Inspector abrir-lhe a porta.


a Maria João leu um poema de Josete
Caixa de surpresas

A vida, como uma caixa, nos é doada.
O que tem dentro, não sabemos nada.
Queremos abri-la, a mão parece atada.
Mas a quem nos concedeu, dizemos: obrigada.
Ela nos surpreende a todo o momento.
Às vezes, nos causa desalento,
em outras, encantamento.
Às vezes, nos transmite arrebatamento,
em outras, arrependimento.
Rico vira pobre,
pobre vira rico.
Hoje estamos tristes.
E como estaremos amanhã? Alegres?
E as surpresas vão surgindo,
uma a uma estão saindo.
Esperamos que as que vêm vindo,
deixem-nos, para sempre, sorrindo.


o Fernando e a Cristina leram de Eugénio Roda, "Capuchinho Vermelho à Caçador"
do livro "Capuchinho Vermelho: Histórias secretas e outras menos"



a Celina leu um excerto de O desafio, de Richard Towers