A partir de Outubro de 2017, ao entrar no seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passou a Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

próxima sessão | 10 Março 2015

sim, é mesmo DENTES o tema

ATENÇÃO: os textos escolhidos serão obrigatoriamente POESIA

será responsável pelo "Livro do Dia"

saúde



a Cristina leu um excerto de "A preparação do actor" de Constantin Stanislavski
de seguida fomos convidados a abandonar temporariamente a nossa zona de conforto



o Luís trouxe-nos o "Memorial do convento" de José Saramago

e entrámos nas leituras subordinadas ao tema da sessão

a Cristina leu-nos um excerto de "De Profundis - Valsa Lenta" de José Cardoso Pires


a Maria Teresa leu um excerto de "A nau de Quixibá" de Alexandre Pinheiro Torres
(...) Vou-te contar uma história. Havia aqui um homem quase cego desde nascença. Tanto lhe minguava a luz que, para ele, quem lhe falasse surgia-lhe como uma mancha equilibrada num varapau de palavras. Antes de o conhecer não acreditava que um cego pudesse ter confiança fosse no que fosse. Sempre dissera a mim próprio: “os cegos são as pessoas mais inseguras do mundo”. Com os anos descobri que me enganava. O cego de que te falo nunca tivera qualquer receio em atravessar as ruas de S. Tomé. Caramba!, sempre há algum tráfego! Mas se fosse forçado a cruzar uma das ruas da baixa de Lisboa, caso estivesse a elas afeito, não seria por se lhe deparar mais movimento que se mostraria mais aflito. Possuía, desde o mais fundo de si, uma confiança absoluta no poder da bengala às listas brancas e negras. Um dia perguntei-lhe: “Você não tem medo dos perigos?” Voltou para mim os olhos parados (eu seria apenas mais uma mancha, apenas uma voz diferente), e contestou-me: “Que perigos?” O homenzinho mostrava-se surpreendidíssimo. “Ser cego – disse-me – também tem as suas vantagens. Não posso ter medo daquilo que não vejo”. Era tão óbvia a minha incompreensão do mundo do cego que insisti: “Você não tem, por exemplo, medo das alturas?” Ele riu-se: “Oh! Meu bom senhor!, então vocemecê julga que eu vejo as alturas?” Olha, meu filho, fiquei com cara de parvo, mas como ele não podia ver-me a cara de parvo, aguentei firme. (...)


a Ana Maria leu outro excerto de "De Profundis - Valsa Lenta" de José Cardoso Pires


a Margarida e a Maria leram um excerto de "O anjo branco" de José Rodrigues dos Santos


a Alexandra leu de António Lobo Antunes
Todos os homens são maricas quando estão com gripe (pasodoble)

Pachos na testa
terço na mão
uma botija
chá de limão
zaragatoas
vinho com mel
três aspirinas
creme na pele
grito de medo
chamo a mulher -
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer
mede-me a febre
olha-me a goela
cala os miúdos
fecha a janela
não quero canja
nem a salada
ai Lurdes Lurdes
não vales nada
se tu sonhasses
como me sinto
já vejo a morte
nunca te minto
já vejo o inferno
chamas diabos
anjos estranhos
cornos e rabos
vejo os demónios
nas suas danças
tigres sem listras
bodes de tranças
choros de coruja
risos de grilo
ai Lurdes Lurdes
que foi aquilo
não é a chuva
no meu-postigo
ai Lurdes Lurdes
fica comigo
não é o-vento
a cirandar
nem são as vozes
que vêm do mar
não é o pingo
de uma torneira
põe-me a santinha
à cabeceira
compõe-me a colcha
fala ao prior
pousa o Jesus
no cobertor
chama o doutor
passa a chamada
ai Lurdes Lurdes
nem dás por nada
faz-me tisanas
e pão de ló
não te levantes
que fico só
aqui sozinho
a apodrecer
ai Lurdes Lurdes
que vou morrer.


a Gabriela leu um excerto de "Aproveitem a vida" de António Feio


o Fernando leu o conto "Dor" de "O conta-gotas"
contos mínimos de António Torrado com desenhos posteriores de Gémeo Luís


a Ana e a Luísa também leram
"Todos os homens são maricas quando estão com gripe" de António Lobo Antunes


o Luís leu um excerto de "Paula" de Isabel Allende


a Teresa leu um excerto de "Trava" de "Reduto quase final" de Dinis Machado


o Tomás leu de Jean-Claude Carrière
A pulga

Entre as histórias que os cientistas gostam de contar a propósito dos seus métodos, ouve-se muitas vezes a da pulga.
Pode resumir-se assim:
Um cientista examina uma pulga pousada perto dele. Ordena-lhe: «Salta!» e a pulga salta.
O cientista escreve numa folha de papel: «Quando se manda uma pulga saltar, ela salta.»
Então, agarra delicadamente a pulga e arranca-lhe as patas. Pousa-a ao lado e ordena: «Salta!»
A pulga não se mexe.
O cientista anota na sua folha de papel: «Quando se arrancam as patas a uma pulga, ela fica surda.»

Mal universal

O cineasta iraniano Abbas Kiarostami, no seu filme "O sabor das cerejas", faz contar por um dos seus personagens a seguinte história:
Um homem vai ao médico e diz-lhe:
- Doutor, dói-me tudo. Quando pouso um dedo na cabeça, dói-me. Quando pouso aqui, na barriga, é o mesmo. Quando toco no joelho, dói-me; no pé, dói-me. Que devo fazer? Como hei-de encontrar alívio?
O médico examina-o e diz:
- Não tem nada no corpo. É o seu dedo que está partido.

de "Tertúlia de Mentirosos - Contos filosóficos do Mundo Inteiro"


a Maria João leu um excerto de "A jangada de pedra" de José Saramago


o Renato leu um excerto de "Os emigrantes" de W. G. Sebald


a Virgínia leu um excerto de "Anti-Cancro" de David Servan-Schreiber


e desta vez terminámos com Bolo de limão e iogurte com mel

próxima sessão | 24 Fevereiro 2015

será o tema


será responsável pelo livro do dia

amor | humor



a Cristina começou por ler-nos uma cena de
"Fragmentos de um Discurso Amoroso" de Roland Barthes


o Luís e a Ilda leram algumas quadras de António Aleixo
Nota:
O texto resulta de uma "compilação" de quadras soltas do poeta, que foram ordenadas de modo a criar um diálogo entre homem e mulher inserido no tema proposto para a sessão - Amor c/ Humor.

Ao pé de ti fico mudo,                                            (Homem)
Fitando esse teu olhar:
Quando os olhos dizem tudo
Para que há-de a boca falar?!

Fala quanto te apeteça,                                          (Mulher)
Mas desculpa que eu te diga
Que te falta na cabeça
O que te sobra em barriga.

Não sou esperto nem bruto                                   (Homem)
Nem bem nem mal educado
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado.

És um rapaz instruído                                            (Mulher)
És um doutor em resumo
És um limão que espremido
Não dá caroço nem sumo.

Eu não sei porque razão                                        (Mulher)
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

Deixam-me sempre confuso                                 (Homem)
As tuas palavras boas
Por não te ver fazer uso...
Dessa moral que apregoas.

De te ver fiquei repeso,                                         (Homem)
Em vez de ganhar perdi;
Quis prender-te, fiquei preso,
E não sei se te prendi.

Embora o nosso amor fosse                                 (Mulher)
Doce, tinha que acabar;
O mel por ser muito doce
É que nos faz enjoar.

Para veres o que merecias                                    (Homem)
Quando tu me fazes mal,
Pensa só no que farias
A quem te fizesse tal.


o Renato e a Celina leram um excerto de "As mulheres no Parlamento" de Aristófanes
Políticos e mulheres na Comédia Grega


a Maria Teresa e o Tomás leram de Roald Dahl

A Gata Borralheira

Pensam vocês que sabem esta história?
Mas a que têm na vossa memória
É só uma versão falsificada,
Rosada, tonta e açucarada
Feita para as crianças inocentes
Não terem medo, ficarem contentes.

Começou tudo naquele ponto
Em que as feias irmãs deste conto
Com seus brincos, colares e anéis
Partiram para o Baile dos Reis
Enquanto a pobre Gata Borralheira
Ficou fechada, só, na garrafeira
Cheia de ratos, ratinhos, ratões
Todos às dentadas e encontrões.

«Ai quem me acode, quem me vem salvar!»
Num clarão de luz, toda a brilhar
A Fada Madrinha lhe apareceu
E disse: «Então, o que te aconteceu?»
Dando três murros na porta trancada
Assim se queixou logo a afilhada:
«Hoje há um baile, que dá o rei.
Já todos partiram e eu fiquei.
Quero um vestido, um coche dourado,
Jóias de ouro, um rico toucado.
Dançando com sapatos de cristal
Vou conquistar o Príncipe Real.
«Espera», disse a Fada Madrinha
E com mágico toque de varinha
Fez a Gata Borralheira aparecer
Lá onde o baile estava a decorrer.

Ah, como as irmãs se arrepelaram
Quando na pista de baile dançaram
O Príncipe e a Gata Borralheira,
Abraçados de uma tal maneira
Que o Príncipe até perdeu a fala
Diante de todos, naquela sala!
Bateu a meia noite. Ela exclamou:
«Adeus! Adeus! Adeus, que já me vou!»
Mas o Príncipe, nada conformado,
Prendeu-a pelo vestido bordado.
Ela gritou: «Ai, deixa-me partir!»
E pelos salões largou a fugir.
O vestido ficou todo rasgado.
Correndo à pressa, em roupa interior,
Um sapato perdeu no corredor.
O Príncipe saltou como um leão,
E levou o sapato ao coração.
«A rapariga a quem ele servir
É a noiva com quem me vou unir.
Hei-de correr as casas da cidade
Até descobrir a minha beldade!»
Depois, como era muito despistado,
Deixou-o num caixote, abandonado.
Então uma das manas invejosas
(Picada de borbulhas horrorosas)
Pegou no sapatinho tão coquete,
Atirou-o para dentro da retrete.
Em seu lugar, dissimuladamente,
Pôs o próprio sapato ainda quente.
As coisas estão-se a complicar…
A Gata Borralheira irá ganhar?

Quando nasceu o sol no outro dia
Às portas já o Príncipe batia.
A quem seria, ora, a quem seria
Que o famoso sapato pertencia?
Era largo e enorme o sapatão,
Parecia a bota dum capitão.
Pior ainda, cheirava a chulé
(Suado e sujo estava o pé).
Uma bicha de moças se formou,
O sapato a nenhuma se moldou.
Até que as irmãs vieram correndo,
Estendendo a primeira um pé horrendo.
«Serve-me, é meu», gritou a megera,
«Vou casar contigo na Primavera.»
«Isso é que não vais!», o jovem gritou
E com o susto quase desmaiou.
Mas ela guinchava, ela insistia,
De ser princesa não desistia.
«Ordeno que lhe cortem a cabeça!»
Rugiu, cheio de raiva, Sua Alteza.
E, vendo a rapariga degolada,
Exclamou: «Fica assim mais engraçada!»
Para calçar o sapato, depois
Avançou a Irmã Número Dois.

«Prova antes o fio da minha espada!»
O Príncipe, com uma espadeirada
Cortou-lhe a cabeça que rolou
Como uma bola até que parou.

A Gata Borralheira na cozinha
Fazia bolos de mel e farinha.
Ouvindo as cabeças tombar no chão
Sentiu um baque no seu coração.
Foi à porta espreitar. «Que aconteceu?»
«Não te metas!», ele lhe respondeu.
A pobre da Gata Borralheira
Pôs-se a pensar da seguinte maneira:
«Casar contigo não posso admitir
Se cortas cabeças para te divertir.»
«Quem é a porca que está na cozinha?»
Ele exclamou «Vou cortar-lhe a pinha!»
A fada surgiu num branco clarão,
Aterrou ali, perto do fogão.
«Formula um desejo, minha afilhada,
Eu vou ajudar-te, não custa nada.»
A Gata Borralheira reflectiu
Com mil cuidados depois do que viu.

«Ó querida Madrinha, ó boa Fada,
Vou-lhe pedir coisa complicada.
Príncipe rico já eu conheci,
De luxos e jóias já me servi.
Agora pretendo um marido honrado
Bom e fiel, sempre a meu lado.»

A Gata Borralheira de repente
Viu-se casada com atraente
Fabricante de marmelada.
Como era doce, doce estar casada!
Para todo o sempre foram felizes,
Não sei se tiveram muitos petizes.



a Maria, a Margarida e a Alexandra leram "A Gata borralheira",
de "Histórias tradicionais politicamente correctas", de James Finn Garner


a Virgínia e a Ana Maria leram um excerto de "Dona Flor e seus dois maridos" de Jorge Amado


a Teresa leu de Humberto Campos
O gramático

Alto, magro, com os bigodes grisalhos a desabar, como ervas selvagens pela face de um abismo, sobre os cantos da funda boca munida de maus dentes, o professor Arduíno Gonçalves era um desses homens absorvidos completamente pela gramática. Almoçando gramática, jantando gramática, ceando gramática, o mundo não passava, aos seus olhos, de um enorme compêndio gramatical, absurdo que ele justificava repetindo a famosa frase do Evangelho de João:
— No princípio era o VERBO!
Encapado pela gramática, e às voltas, de manhã à noite, com os pronomes, com os adjetivos, com as raízes, com o complicado arsenal que transforma em um mistério a simplicíssima arte de escrever, o ilustre educador não consagrava uma hora sequer às coisas do seu lar. Moça e linda, a esposa pedia-lhe, às vezes, sacudindo-lhe a caspa do paletó esverdeado pelo tempo:
— Arduíno, põe essa gramatiquice de lado. Presta atenção aos teus filhos, à tua casa, à tua mulher! Isso não te põe para diante! Curvado sobre a grande mesa carregada de livros, o cabelo sem trato a cair, como falripas de aniagem, sobre as orelhas e a cobrir o colarinho da camisa, o notável professor retirava dos ombros a mão cariciosa da mulher, e pedia-lhe, indicando a estante:
— Dá-me dali o Adolfo Coelho.
Ou:
— Apanha, aí, nessa prateleira, o Gonçalves Viana.
Desprezada por esse modo, Dona Ninita não suportou mais o seu destino: deixou o marido com as suas gramáticas, com os seus dicionários, com os seus volumes ponteados de traça, e começou a gozar a vida passeando, dançando e, sobretudo, palestrando com o seu primo Gaudêncio de Miranda, rapaz que não conhecia o padre António Vieira, o João de Barros. o frei Luís de Sousa, o Camões, o padre Manuel Bernardes, mas que sabia, como ninguém, fazer sorrir as mulheres.
— Ele não prefere, a mim, aquela porção de alfarrábios que o rodeiam? Então, que se fique com eles!
E passou a adorar o Gaudêncio, que a encantava com a sua palestra, com o seu bom-humor, com as suas gaiatices, nas quais não figuravam, jamais, nem Garcia de Rezende, nem Gomes Eanes de Azurara, nem Rui de Pina, nem Gil Vicente, nem, mesmo, apesar do seu mundanismo, D. Francisco Manuel de Melo.
Assim viviam, o professor, com seus puristas, e D. Ninita com o seu primo, quando, de regresso, um dia, ao lar, o desventurado gramático surpreendeu a mulher nos braços musculosos, mas sem estilo, de Gaudêncio de Miranda. Ao abrir-se a porta, os dois culpados empalideceram, horrorizados. E foi com o pavor no coração que o rapaz se atirou aos pés do esposo traído, pedindo, súplice, de joelhos:
— Me perdoe, professor!
Grave, austero, sereno, duas rugas profundas sulcando a testa ampla, o ilustre educador encarou o patife, trovejando, indignado:
— Corrija o pronome, miserável! Corrija o pronome!
E, entrando no gabinete, começou, cantarolando, a manusear os seus clássicos...

o Fernando leu de Russell Edson
O coração da senhora

Apaixonara-se pelo estetoscópio do seu médico; a maneira como lhe
escutava o coração...

O médico perguntou-lhe, gostava de uma lua de mel com meu telescópio?
Não faz ideia como ele se expande pela noite dentro à procura do
corpo celestial.
Oh, mas o seu microscópio tem vistas curtas...
Então e o meu periscópio, que tal? Ergue-se no colchão de olhar astuto à procura da porta das traseiras.
Isso é ainda mais nojento que o seu caleidoscópio; a fixar-me com o seu olho ciclópico fracturado.

Até que o médico, acenando-lhe com o estetoscópio, pergunta, a menina está pronta?
Oh, sim, suspira ela...

de "O espelho atormentado"
tradução: Guilherme Mendonça


a Gabriela leu "O paraíso são os outros" de Valter Hugo Mãe com ilustrações de Esgar Acelerado


a Luísa e a Ana leram "A explicação do amor",
adaptação livre de "When love arrives", de Sarah Kay e Phil Kaye


a Cristina leu excertos de Miguel Esteves Cardoso e Pedro Mexia de
"Antologia do Humor Português"
Piropo

"A vida de qualquer rapaz deve ser ler, escrever e correr atrás das raparigas. Esta última parte é muito importante. Hoje em dia, porém, os rapazes já não correm atrás das raparigas – andam com elas. A diferença entre “correr atrás” e “andar com” é, sobretudo, uma diferença de energia. Correr é galopar, esforçar, persistir, e é alegria, entusiasmo, vitalidade. Andar é arrastar, passo de caracol, pachorrice, sonolência. O amor não pode ser somente uma partida de golfe, em que dois jarretas caminham devagar em torno de alguns buraquinhos. Tem de ser, pelo menos, os 400 metros barreiras.
Os dois sintomas mais preocupantes desta nova tendência para a letargia erótica são, por um lado, a decadência acelerada do piropo, do galanteio, e por outro, o culto solene e obstinado da sinceridade. Ambos contribuíram para facilitar a sedução, tornando a própria sedução numa coisa muito menos sedutora, já que não há maior afrodisíaco que a dificuldade.
Os rapazes de hoje já não perguntam às raparigas se os anjos desceram à terra, ou que bem fizeram a Deus para lhes dar uns olhos tão bonitos. Dizem laconicamente, com o ar indiferente que marca o “cool” da contemporaneidade “Vamos aí?”. Ou simplesmente “bora aí?”. Nos últimos tempos, tanto em Lisboa como na linha de Cascais, esta economia de expressão atingiu até o cúmulo de se cingir a um breve e local “Bute?”. “Bute” significa qualquer coisa como “Acho-te muito bonita e desejável e adoraria poder levar-te imediatamente para um local distante e deserto onde eu pudesse totalmente desfazer-te em sorvete de framboesas”. Mas, como os rapazes só dizem “Bute?”, são as pobres raparigas que têm de fazer o esforço todo de interpretação e enriquecimento semântico. São assim obrigadas a perguntar às amigas “Ó Teresinha, o que é que achas que ele queria dizer com aquele bute?”. E chegam à desgraçada condição de analisar as intenções do rapaz mediante uma série de considerações pouco líricas – foi um “Bute” terno ou ríspido, sincero ou mentiroso, terá sido apaixonado ou desapaixonado?
Isto não pode ser, até porque há uma tradição a manter. Imagina-se alguma rapariga a dizer “Ai, Lena… Quando ele disse “Bute” subiu-me o coração à boca!”. A verdade é que o coração é um órgão bastante precioso e só se dá ao trabalho de subir à boca quando se lhe dão excelentes motivos para isso. De uma maneira geral, todas as palavras que não se imaginam num soneto de Camões são impróprias. O amor pode ser um fogo que arde sem se ver, mas não basta tomar o facto por dado e dizer simplesmente “Bute” – é preciso dizer que arde sem se ver. Mesmo que não arda, mesmo que se veja.
A própria palavra piropo (do latim “pyropo”) tem óbvias conotações incendiárias. Alguns alquimistas definiam esta pedra como sendo uma mistura de “três partes de lata e uma de ouro, que fica da cor do fogo”. A lata é extremamente importante – sem ela não se pode construir um bom piropo. Não só basta a parte de ouro (o sentimento, ou desejo) – faltam mesmo os demais 75 por cento. E o piropo faz falta, mesmo que seja só, nos preparos de amor, o “pequeno grão de arroz” de que fala a cantiga…
Dentre todos os piropos, o mais lindo (e mais português) é o piropo que se dirige, de passagem, a uma rapariga bonita. Não é o piropo que procura obter algo em troca – não é o piropo interesseiro do engate – é o piropo per si, e desinteressado. Diz-se quando ela passa e deixa-se que ela passe sem responder. O piropo desinteressado é o supra-sumo desta arte e deve entender-se como o pagamento poético de uma dívida.
Ela é bonita – você gostou de a ver. Em troca, inventa uma coisa bonita para lhe dizer, sem esperar outra recompensa senão a enorme recompensa de saber que ela o ouviu. Qualquer rapariga gosta de (e merece) ouvir um piropo destes. Em contrapartida, nenhuma rapariga tem paciência para as alternativas cada vez mais habituais; o basbaque calado que fica a ver, o engatatão incómodo que marcha atrás da rapariga como um detective pouco particular, o ordinário que se mete, até o banana tímido e ensimesmado que nem sequer se dá ao trabalho de olhar.
É preciso acabar com a escandinavização do erotismo português. Não é só o piropo que morre. São as cartas de amor, as flores de um anónimo admirador, as boas frases de apresentação e toda a panóplia de doces artifícios que deveriam estar sempre presentes na preocupação de um bom rapaz português. A escandinavização (exercício físico, comidas saudáveis, windsurf e sexo sem culpa e sem graça) tem, como fator mais perigoso, o culto à sinceridade. É triste, mas é verdade. Hoje em dia quase ninguém mente! Os rapazes dizem “não és muito bonita, mas até te gramo”, e as raparigas respondem “preferia o Richard Gere, mas já que aqui estás…”.
Isto não pode ser. Para qualquer rapaz, a rapariga com quem está (ou quer estar) não pode ser senão a mais bonita do mundo inteiro. A honestidade é a morte do encantamento. Bem utilizada, a mentira criativa chega ao ponto de convencer o próprio mentidor. Uma mentirazinha que vá um nadinha contra a razão (“era capaz de morrer por ti”, por exemplo) é sempre uma contribuição espetacular a favor do “live aid” do coração. A verdade é nua e crua, e nisto parece-se bastante com um bife de peru. As coisas nuas têm de ser misteriosa e lindamente vestidas, e as cruas têm sempre de ser cozinhadas. Ninguém gosta de bife de peru, mas uma vez panadinho com pão ralado, e enfeitado com agriões e rodelas de limão, e servido num prato branco e limpo com um sorriso impecável… Come-se já.
Há uma medida eficaz contra a banalização e simplificação das relações amorosas, mais portuguesa que escandinava, e mais agradável que andar a butes. É namorar. Todas as mulheres – sejam raparigas ou mulheres, esposas de há 20 anos, conhecidas ou desconhecidas, mais ou menos bonitas, não importa – todas elas têm de ser convincentemente, absolutamente e permanentemente namoradas. Se não, não vale a pena – nem para elas nem para eles.
Na rua ou em casa, no trabalho ou no liceu, não deixe que nenhuma rapariga bonita passe por si em vão. Com correcção e jeito, lance-lhe um piropo sentido e desinteressado, e verá como sabe bem. Pense que nunca mais irá vê-la outra vez (o que é quase sempre verdade) e aproveite aquela única oportunidade. Ou, sendo esposa ou namorada, sua ou de outra pessoa, também não fica mal. O amor, pode ter a certeza, tem de estar no ar tanto como no lar.
A propósito, você ficou ainda mais bonita depois de cortar o cabelo."

Miguel Esteves Cardoso de "A causa das coisas"


Afinal

Porque afinal o que importa
não é o modo como se ama
mas conhecer restaurantes
e ser muito bom na cama.

Pedro Mexia de "Avalanche"

a Alexandra trouxe "Prometo falhar" de Pedro Chagas Freitas

Antes de "atacarmos" as comidas e as bebidas ainda tivemos tempo para ouvirmos leitura em voz alta, mas desta vez por outras vozes. Pode ser ouvido aqui

uns restos de boleima :)