Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

22 de Junho - Guerra no Mundo

Leituras da Cristina
- História do Zé Cagarro
- Excerto de "A Pátria" de Guerra Junqueiro (1896)
Uma Nação não é uma tenda, nem um orçamento uma Bíblia

- Sobre a leitura em voz alta
A poesia chega antes da leitura... por via oral.
A leitura silenciosa é recente

- Excerto de Jorge Luís Borges (e vejam lá se conhecem esta menina)
(...) quando lemos versos que são realmente admiráveis, realmente bons, temos a tendência para o fazer em voz alta. Um verso bom não permite ser lido em voz baixa ou em silência. Se pudermos fazê-lo, não é um verso válido:_o verso exige ser pronuncioado. O verso recorda sempre que foi uma arte oral antes de ser uma arte escrita, recorda que foi um canto (...)
- Excerto de Arte Poética V de Sophia de Mello Breyner
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado Nau Catrineta. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
- Excerto de Miguel Sousa Tavares
Naquela casa, aprendemos cedo duas coisas sobre a poesia. A primeira, era que os poetas eram todos uns personagens extraordinários, que apareciam a horas imprevistas e diziam coisas surpreendentes. De todos, o mais fantástico era o Ruy Cinatti, que nos convenceu que era o nosso irmão mais velho, regressado de outra vida em Timor e que esteve à beira de conseguir transformar-nos em guerrilheiros contra a precária disciplina familiar. Vinham e iam constantemente poetas tristes ou alegres, cerimoniosos ou tumultuosos e até um, o Ruy Belo, que me levava à Luz ver o Benfica e jogava futebol comigo no jardim.

A segunda coisa sobre poesia que aprendemos é que a poesia é para ser dita e para ser escutada: é oral, não cabe nos livros.
As nossas leituras
[Mariana] - O Menino de Sua Mãe (Fernando Pessoa)
 
No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe
[Cecília] Fabulário de Mário Carvalho

[Isabel] Citações de diversos autores (aguardo envio)

[Augusto] O meu planeta para os senhores da guerra de Maria Leonor

[Augusto] À guerra sem razão de Augusto Silva (o próprio)

[João] Os verdadeiros motivos por trás dos bombardeios de Peters Cohen

[Helena R] Excerto de "A Arte da Guerra" de Sun Tzu

Se conheces o inimigo e te conheces a ti próprio, não terás que recear o resultado de cem batalhas.

Se te conheces a ti próprio mas não conheces o inimigo, por cada vitória conseguida sofrerás uma derrota.
Se não te conheces a ti nem ao inimigo, sucumbirás em todas as batalhas.
[Teresa P] Poema em G de Luisa Ducla Soares
Graça não gosta da guerra.

Guilherme não gosta da guerra.
Guida não gosta da guerra.

A guerra matou-lhes o pai.
A guerra queimou-lhes a casa.
A guerra espantou-lhes o gado.

Graça, Guilherme, Guida gritam.
As granadas estoiram.
Agora o sangue irriga as ruas.

Graça, Guilherme, Guida
querem gritar à gente grande
que se fica sempre a perder,
mesmo que os generais
ganhem as guerras.
[Paula+Daniel] A Bela Infanta de Almeida Garrett

Estava a bela infanta

No seu jardim assentada,
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava

Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.

- "Dize-me, ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava."

-"Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada...
Dize-me tu, ó senhora
As senhas que ele levava."

-"Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava."

-"Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava."

-"Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!..."

-"Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?"
-"Dera-lhe oiro e prata fina
Quanta riqueza há por í."

-"Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi':
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?"

-"De três moinhos que tenho,
Todos os três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:

Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei para si."
-"Os teus moinhos não quero,
Não os quero para mi:

Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui?"
-"As telhas do meu telhado,
Que são de oiro e marfim."

-"As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi":
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?"

-"De três filhas que eu tenho
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar,
Outra para te vestir

A mais formosa de todas
Para contigo dormir."
-"As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi':

Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui."
-"Não tenho mais que te dar.
Nem tu mais que me pedir."

-"Tudo não, senhora minha.
Que inda não te deste a ti."
-"Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilãos arrastado
O farei andar por aí

Ao rabo do meu cavalo
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!"

-"Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!"

-"Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui."
[Virgínia] As Balas de Manuel da Fonseca (in "Poemas para Adriano")
Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais o azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas dão o sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador
As sementes da sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas dão o sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá amor renascido
As balas dão o sangue derramado

Dá o Sol as searas pelo Verão
O fermento ao trigo amassado
No esbraseado forno dá o pão
As balas dão o sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas dão o sangue derramado

Do meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas dão o sangue derramado

Dá a certeza o querer e o concluir
O que tanto nos nega o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que dão o sangue derramado

Que as balas só dão sangue derramado
Só roubo e fome e sangue derramado
Só ruína e peste e sangue derramado
Só crime e morte e sangue derramado.
[Fernando] A Marca do Anjo de Dusty Houston

[Paulo] Tomámos a vila depois de Intenso Bombardeamento Fernando Pessoa (in Cancioneiro)

A criança loura

Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.

Luz um pequeno peixe
- Dos que bóiam nas banheiras -
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do Futuro…

E o da criança loura?
[Patrícia] Bagarad Gita, Krishna

[Helena M.] As mãos de Manuel Alegre

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.
De mãos é cada flor, cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.
[Rodrigo] A Guerra de 1908 de Raul Solnado

"Cheguei à guerra eram sete horas da manhã, estava a guerra ainda fechada e estava uma mulherzinha a vender castanhas à porta da guerra e eu perguntei, minha senhora faz favor diz-me se aqui é que é a guerra de 1908? Não, é mais acima, aqui é a guerra de 1906."

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