A partir de Outubro de 2017, a iniciar o seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passa a Coro de Leitura em Voz Alta. Continuará a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passará a ser outra.

2011.07.05 - 9 semanas e 1/2

Introdução

A voz e a sedução

Ulisses e as sereias

Pedro Almodôvar

Exercício




Do outro lado do telefone

Como é ler quando o público não nos vê? Foram unânimes, todos! É muito mais fácil! Não há exposição! (não?... será mesmo?)










Paulo M.
Apresentação do filme: aqui o texto e trailers



















Xana J.
um excerto do livro "9 semanas e meia" de Elizabeth McNeill















Mariana, Ana Rita e Cecília
adaptação de "9 semanas e meia" a partir do livro de Elizabeth McNeill

“Nove semanas e meia” (o guião)

Personagens:
Mariana – Narrador e realizador
Cecília – Elizabeth
Ana Rita – John

Adereços:
Cecília - vestido e uma taça de frutos.
AR - boina/ chapéu masculino, cabelo apanhado, blazer masculino e uma faca.
Mariana - placa da acção.

Apresentação:
A Mariana está de pé, a Ana Rita e a Cecília sentam-se a estudar os textos.
A Mariana dá inicio ao seu texto introdutório. Assim que ela termina, afasta-se e pega na placa (ficando de lado). AR + Cecília vão para o meio do palco. Olham para a Mariana, cada uma com o texto numa mão e o seu objecto na outra.

Mariana (vira-se para o casal) – Vamos lá toca a despachar-nos para ensaiar a cena; olhem! Aproximem-se e façam de conta que estão no sofá; (olha para a AR) tens que encostar-lhe a faca na garganta. AR obedece.

Mariana – John é um enigmático corretor da Bolsa e Elizabeth é uma bonita assistente de uma galeria de arte no Soho. Um dia, encontram-se numa mercearia chinesa em Manhattan e trocam olhares. Desde logo se verifica uma atracção irresistível entre eles, estabelecendo-se uma relação, nada convencional, durante nove semanas e meia. Ele, bastante inventivo, quer proporcionar-lhe um tórrido conjunto de experiências eróticas, mas faz questão de deter o controlo. Ela, por seu turno, submete-se aos seus caprichos e deixa-se enredar numa teia lasciva de submissão.

(AR) – Não te rias. Pode atravessar-te… Afastei a ponta da navalha no último instante, no último instante, percebes?

(Cecília) – Nunca na minha vida conheci um homem que conte piores piadas que tu.

(AR) – Não tentes excitar-me com histórias acerca dos teus antigos amantes. É de muito mau gosto. Isso é de ordinárias.

Mariana (entra com a placa e irritada) – Corta! O que é que vocês estão a fazer? Isto é um filme erótico com paixão e intensidade, não é nenhum filme do Manoel de Oliveira. (Agarra na placa) – Acção!

(AR) – Não tentes excitar-me com histórias acerca dos teus antigos amantes. É de muito mau gosto. Isso é de ordinárias.

(Cecília) – Eu sou assim, mostro finalmente a minha verdadeira natureza.

(AR) – Finalmente, a tua verdadeira natureza. Que insuportável arrogância! Como se eu não soubesse desde que te pus os olhos em cima.

(Cecília) –Ah sim? Então é assim?

(AR) – Na próxima semana vais assaltar alguém, o mais fácil é fazê-lo num elevador, podes vestir o teu fato de Barba Azul, não me digas nada antes de o fazer. E agora sai de cima de mim, porque já tenho as pernas dormentes para três dias.

Mariana (agarra na placa) – Corta!

FIM

Ana F. [leitura alternativa] e Ana V.

Semana 1 - Natália Correia in "O Vinho e a Lira"

A Arte de Ser Amada
Eu sou líquida mas recolhida
no íntimo estanho de uma jarra
e em tua boca um clavicórdio
quer recordar-me que sou ária

aérea vária porém sentada
perfil que os flamingos voaram.
Pelos canteiros eu conto os gerânios
de uns tantos anos que nos separam.

Teu amor de planta submarina
procura um húmido lugar.
Sabiamente preencho a piscina
que te dê o hábito de afogar.

Do que não viste a minha idade
te inquieta como a ciência
do mundo ser muito velho
três vezes por mim rodeado
sem saber da tua existência.

Pensas-me a ilha e me sitias
de violinos por todos os lados
e em tua pele o que eu respiro
é um ar de frutos sossegados.


Semana 2 - Pablo Neruda in "Cem poemas de amor..."

Eu Simplesmente Amo-te

Eu amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Semana 3 - João Ubaldo Ribeiro in "A casa dos budas ditosos"

Norma Lúcia botava Selma num quarto desocupado e sem mobília daquele casarão enorme da chácara, trancava a porta, acendia uns incensos fedidos que ela comprava nas Sete Portas, se acocorava num canto e soltava o rato para Selma comer. Despejava o rato, quero dizer, porque ele não saía da gaiola, gelava assim que via a cobra.
Ela entrava em êxtase só de ver o rato paralisado de terror, e Selma fixava aquele olhar malevolente de cobra nele, com a língua tenteando o ar, para depois, com uma classe sinuosa que só cobra tem, enroscar-se nele, esmagá-lo, e engoli-lo sem pressa.


Semana 4 - Eugénio de Andrade in "Obscuro domínio"

Retrato Ardente
(…)
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


Semana 5 - Herberto Helder in "O Amor em Visita"

(…)
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
(…)


Semana 6 - João Manuel Ribeiro in "Amo-te/Poemas para gritar ao coração"

Sismo

Amo-te intempestivamente
Como se guardasse um vendaval nas meninas dos olhos
Ou um punhal desmanchando-me a carne:
És um extenso sismo (levedando-me)

Semana 7 - Pedro Homem de Mello in "Miserere"

Era a mulher — a mulher nua e bela,
Sem a impostura inútil do vestido
Era a mulher, cantando ao meu ouvido,
Como se a luz se resumisse nela...
(…)


Semana 8 - O Maltês

Abriu as asas ao vento
desnudou o silêncio
dos corpos enlaçados
amados
na alquimia da luz
com que se enxugam as lágrimas
e se colhem sorrisos
das Luas vindouras

Semana 9 - Rosa Lobato Faria

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar ardente do joelho
E o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
Mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente
Ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.


Virgínia
de Herberto Helder, in "A faca não corta o fogo"
Paixão Grega
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas :
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse : tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega


João
de Alessandro Baricco um excerto de "Esta História"
A história de Último, nascido no princípio do século passado e que tem o sonho de construir um circuito...
















Helena P.
de Gonçalo M. Tavares um excerto de "Viagem à Índia"


do Canto IX as estrofes 70, 71 e 72
70
Não há ócios imorais, diga-se. É certo que fora do
trabalho os homens descarregam para o solo a educação (como um peso) e mais leves ficam então preparados
para a maldade ou para a diversão
[...]










Mila
de António Bôto, Tu Mandaste-me Dizer


Tu Mandaste-me Dizer
Que tornavas novamente
Quando viesse a tardinha;

E eu, para mais te prender,
- N'esse dia...
Pintei de negro os meus olhos
E de rôxo a minha boca.
As rosas eram aos mólhos
Para a noite rubra e louca!

Entornei sobre o meu corpo,
- Que fôra delgado e bello!
O perfume mais extranho e mais subtil;
E um brocado rôxo e verde
Envolveu a minha carne
Macerada e varonil.

Os meus hombros florentinos,
Cobértos de pedraria,
Eram chagas luminosas
Alumiando o meu corpo
Todo em fébre e nostalgia.

Nas minhas mãos de cambraia,
As esmeraldas scintillavam;
E as pérolas nos meus braços,
Murmuravam...

Desmanchado, o meu cabello,
Em ondas largas, cahia,
Na minha fronte
Ligeiramente sombría.

Estava pallido e dir-se-hia
Que a pallidez aumentava
A minha grande belleza!

Na minha boca ondulava
Um sorriso de tristeza.
A noite vinha tombando.

E, como tardasses,
Fiquei-me, sentádo, olhando
O meu vulto reflectido
No espelho de crystal;
E afinal,
Nem frescura, nem belleza,
No meu rôsto descobri!

- Ó morte, não me procures!
E tu, meu amôr, não venhas!...
- Eu já morri. 
[e a morte, pode ser sedutora? a Mila sugeriu a leitura das Intermitências da Morte, de Saramago]

Teresa
de Luisa Ducla Soares, in "A Gata Tareca e outros poemas levados da breca"

Os números do menino mau
[nove quadras... e meia]

Tenho uma pombinha
E você tem duas.
Não coma, menino,
Mais batatas cruas.

Tenho uma pombinha
E você tem três.
Não salte os degraus
todos de uma vez.

Tenho uma pombinha
E você tem quatro.
Não vista o meu fato
Para fazer teatro.

Tenho uma pombinha
E você tem cinco.
Com meninos maus
Não pense que eu brinco.

Tenho uma pombinha
E você tem seis.
Não queime o dinheiro
Com os outros papéis.

Tenho uma pombinha
E você tem sete.
Não esconda as bonecas
Dentro da retrete.

Tenho uma pombinha
E você tem oito.
Não ponha pimenta
cá no meu biscoito.

Tenho uma pombinha
E você tem nove.
Não me regue a sala
A fingir que chove.

Tenho uma pombinha
E você tem dez.
Não se abre a porta
dando pontapés.

[Tenho uma pombinha
E você tem onze.]


António S.
de David Mourão Ferreira, um excerto de "Os Amantes"















Helena R.
de Alberto Pimenta, Refrigério

um homem e uma mulher
aproximam-se de uma porta
com uma chave na mão.
avançam
como se não respirassem.
um deles
mete a chave na fechadura
e entram.
assim que fecham a porta
atrás de si,
olham-se um instante e
lançam-se um ao outro,
prendendo-se com as mãos e
abrindo caminho com a cara,
com a boca.
passado pouco tempo
arrastam-se no chão
procurando cada lugar do corpo
com cada lugar do corpo,
arqueando-se
ou amoldando-se e
vorazmente passando de uma
para outra entrada.
ambos têm a boca molhada
quando se levantam,
passada uma hora,
arfando enlaçados,
mas
devora-os ainda
uma sede quase infinita
e impossível de satisfazer.

Fernando
de Marguerite Duras, um excerto de "O Amante"













Ana Paula
de Ary dos Santos
Retrato de Natália

Hierática  cromática  socrática
passas branca de neve pela sala
nebulosa da pele  via láctea
do único percurso que nos falta.

No teu andar há ventres há tecidos
de leve lá circuitos do brocado
duma seda tecida na manhã
dos raios dos teus olhos deslumbrados.

Nos teus quadris há cisnes há pescoços
de virgens degoladas  há indícios
do alabastro quente dos teus ossos
iluminando claros precipícios.

É isso. Uma vestal iluminada
uma deusa rangendo uma secreta
porta barroca aberta para o nada
que é o docel da cama do poeta

Ali deitas crianças  animais

gemidos e maçãs  vagidos e atletas
pois que amas as coisas naturais
com a tua carne impúbere e erecta.

Porém tu acalentas  tu alentas
nossa senhora lenta  mãe do escândalo
ave de carne  lírio de placenta
com aroma de nardos e de sândalo.

Desinfectante e amante eis que transformas
em teus olhos de cânfora as orgias
e o teu corpo ânfora é a forma
em que a lira da noite vaza o dia.

Helena Pinto
de Urbano Tavares Rodrigues, excerto do cap. XI de "Eterno Efémero"



















este livro tem história, e vem do "Clube de Leitores Rodinhas a Ler" (também aqui)



e a Carmen
que não pode estar presente, deixou-nos este texto da sua autoria
 .......

E a relembrar uma outra sessão... voltou a haver fondue de chocolate!

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