A partir de Outubro de 2017, ao entrar no seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passou a Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

2011.10.25 - Memória

Cristina
A história do contador de histórias in Histórias que me Contaste Tu (Lisboa, Assírio & Alvim, 1999, pp. 11-13)
Manuel António Pina



Uma vez, de manhãzinha (contou-me o Escaravelho) a Sara e a Ana iam de mãos dadas para a escola. Ou talvez não fosse de manhã. Talvez fosse depois do almoço, já não me lembro. Aliás, talvez (o Escaravelho Contador de Histórias hesitou um pouco) não fossem a Sara e a Ana, talvez fossem, afinal, o Rui e a Ana, indo de mãos dadas para a escola... Ou talvez a Sara e a Inês... Ou o Rui e a Márcia... Já não tenho a certeza absoluta. Pensando bem, nem sequer estou seguro de que fossem para a escola. Se calhar iam brincar para o jardim...
O que eu sei é que, uma vez, de manhãzinha (ou então depois do almoço...), duas meninas, ou dois meninos, ou uma menina e um menino - já foi há tanto tempo, como é que hei-de lembrar-me?.. -, iam para um sítio qualquer (também não estou certo se iam de mãos dadas ou não, mas acho que iam de mãos dadas...)
Ou era apenas um menino? Ou era apenas uma menina? Ou não iam para parte nenhuma, e estavam parados no passeio, diante da janela de um rés-do-chão, vendo, numa sala iluminada (talvez, afinal, fosse à noite, depois do jantar), muitas pessoas sentadas a ver televisão, e um gato amarelo a dormir enrolado em cima da televisão? E as pessoas?, estariam a ver televisão ou a ver o gato amarelo enrolado em cima da televisão? Também já não tenho a certeza...
Não há dúvida que eu não sei esta história. Deve ser outra pessoa quem a sabe... Como é que eu posso contar uma história que eu não sei? Vou ver se me lembro de alguma que eu saiba...

Paula
A menina que queria ser maçã in Estranhões e Bizarrocos
José Eduardo Agualusa















Quando perguntaram à Joaninha o que é que ela queria ser quando fosse grande (há sempre um dia em que um adulto nos faz essa pergunta), ela não hesitou:
- Quando for grande quero ser maçã!
Disse aquilo com tanta convicção que a mãe se assustou:
- Maçã?
A maior parte das crianças quer ser: astronauta, médico, corredor de automóveis, futebolista, cantor, presidente. Há algumas respostas mais originais: “Quero ser solteiro”, confessou o filho de uma amiga minha. Conheço uma menininha que foi ainda mais ambiciosa:
- Quando for grande quer ser feliz.
Mas maçã? Joaninha, meu amor, maçã porquê? A pequena encolheu os ombros: “são tão lindas”. Passaram-se os anos e a mãe pensou que ela se tinha esquecido daquilo. Mas não. No dia em que entrou para a escola a professora fez a todos os meninos a mesma pergunta:
- Ora então vamos lá saber o que é que vocês querem ser quando forem grandes... Astronauta. Piloto de Fórmula 1. Cantora. Futebolista. Barbie (há muitas meninas que querem ser a Barbie). Médica. Modelo. Actriz. E tu, Joaninha?
- Eu quero ser maçã!
Risos. Os outros meninos começaram a fazer troça dela:
- Maçã raineta! Maça raineta!...
- Se o Joaninha pode ser uma maçã, senhora professora, eu quero ser um avião...
Ela nem fazia caso. Quando crescesse havia de ser uma maçã, sim, uma maçã verde, luminosa, tão perfumada como uma manhã de primavera.
Poucas vezes, porém, conseguimos cumprir os nossos sonhos. Joaninha transformou-se numa mulher bonita, estudou, e fez-se professora. Era uma boa professora. Só quem conseguisse olhar para dentro dela poderia saber que, bem lá no fundo do seu coração, Joaninha sentia ainda aquela grande vontade de se tornar maçã. O tempo passou – o tempo, aliás, está sempre a passar, nós é que nem sempre damos pela sua passagem. O tempo passou, portanto, e Joaninha envelheceu. Não casara, não tinha filhos, envelheceu sozinha. Foi numa tarde de Outono. As árvores tinham perdido todas as folhas. O sol, cansado, com aquela cor macia que tem o mel, desaparecia no horizonte. Joaninha estava a dormir numa cadeira de baloiço, na varanda da sua casa, quando apareceu um anjo e a levou. Ela não percebeu logo onde estava. Foi preciso que Deus lhe tocasse nos ombros com a ponta dos dedos:
- Acorda minha filha – disse-lhe Deus -, já chegaste.
Joaninha abriu os olhos e viu o que já antes via com os olhos fechados: os anjos passeando num grande jardim, os peixes flutuando no ar, juntamente com os pássaros, e aquele velho de barbas brancas, ao seu lado, sorrindo como só Deus sabe sorrir.
- Meu Deus – perguntou-lhe – porque não me deixaste ser maçã?
- Ser maçã é difícil, Joaninha – disse-lhe Deus – É preciso crescer muito para se ser uma boa maçã. Tu cresceste. Agora, sim, serás maçã.
Alguns anos depois um menino descobriu no pomar da casa dos seus avós uma maçã de um brilho intenso. Cheirou-a: cheirava a manhãs lavadas, cheirava a primavera, era um cheiro que se colava aos dedos. O menino comeu a maçã e sentiu-se feliz. Naquela tarde disse à avó:
- Sabes, acho que quando for grande quero ser maçã!

Paula, Daniel, Delfina, Alexandra F.
A história da carochinha
Popular
















Vasco, João, Alexandra J., Vitória
TêVê-Memória, com o professor Vasco José Saraiva
Rapsódia de contos extraídos da Caderneta de Cromos de Nuno Markl









Teresa e Helena R.
Borboleta in Enciclopédia da Música com Bicho
Companhia de Música Teatral


Descansa no colo da rosa
borboleta na verdura
vai formosa, insegura,
bate as asas, voa e pousa
e parte de novo à procura.

Com umas horas apenas
vai confusa, vai com pressa,
está-se a passar das antenas,
tropeça nas açucenas,
ansiosa, recomeça,
Viu-se no orvalho das flores,
(os espelhos do jardim)


Não me lembro de ser assim,
não me lembro de ter cores,
não me lembro bem de mim...

já deu voltas, longe, perto,
está cansada, não desiste...
e a dúvida persiste.
(ninguém sabe bem ao certo
de onde vem e porque existe)

Procurou alguém mais velho
que lhe desse um bom conselho
Passa um pássaro com pressa,
não tem tempo para parar.
Passa uma lesma e essa
vem muito mais devagar.

-Como vai, ó Dona Lesma?
-Devagar, eu me arroliço
E você, como vai isso?
-Complicado, estou na mesma
vai cá dentro um reboliço...
- Pode ser, tudo faz crer,
a crise de identidade.
Talvez passe com a idade,
mas quem pode esclarecer
é o doutor que há na cidade.

Borboleta voa, voa,
vai ao doutor a Lisboa.
Sem parar levou um dia,
já chegou ao consultório
de Psicoentomologia.
Ao de leve bate à porta:

- Com licença, não se importa?
- Pode entrar, se faz favor.
O meu nome é senhor Doutor.
- Boa tarde, como está?
- Eu estou bem, mas é normal,
sou o doutor, afinal.
Quanto a si já vamos lá,
diga lá a sua graça.
- Não percebo o que se passa.
- O seu nome, o que lhe chamam?
- O meu nome é Borboleta
- Isso vê-se muito bem...
Apelidos também tem?
- D'asa às cores, parte da mãe
e pelo pai é Cara Preta.
- É a primeira consulta...
- Vamos lá ver se resulta.
- Não duvide, creia em mim,
já vi muita gente assim.
Fiz cursos, doutoramentos,
tenho técnicas, talentos,
sou um grande especialista,
o meu nome vem na lista...
Basta-me um olhar atento
e o diagnóstico é um momento
O seu caso é grave!
- Mas doutor, como é que sabe?
Ainda nem sequer falei!
- Esse é o primeiro sintoma,
a seguir entra-se em coma,
e depois "aqui d'El Rei".
- Mas doutor, não quer ouvir?
Eu gostava de discutir...
- Vá lá, diga trinta e três
- Só sei contar até dez!
- Estou a ver... respire fundo,
bata as asas devagar,
três batidas por segundo
está normal, a funcionar.
- Doutor, deixe-me falar,
não é disso que eu me queixo!
- Fale lá então que eu deixo,
mas deixe-me que lhe diga
está tudo bem com a barriga
com as asas e as antenas,
pelo que nos resta apenas
o cenário problemático:
Ser caso psicossomático.
De que se queixa afinal?
- É uma confusão geral
Não sei bem quem é que eu sou,
não sei bem para onde vou,
vejo coisas que já vi
sem nunca ter estado ali.
- Ora bem, não é neurose,
psicose também não,
isso foi metamorfose
que lhe deu já percebi!
- Meta-quê?
- Me-ta-mor-fo-se!

Borboleta, Borboleta
D'Asa às cores e cara preta
Tu já foste uma lagarta
verde, gorda, feia e farta.


Cecília
excerto de O Esplendor da Vida
Sveva Modignani









A experiência não se pode transferir. Os jovens precisam de bater com a cabeça na parede. Sentir a dor no coração. (...)



António Gil
Brandura de Costumes in O Mundo dos Outros (1950)
José Gomes Ferreira


A memória é feita de factos e de muita imaginação. Mas é a recordação dos factos do dia-a-dia que mais fazem regressar memórias e esta história de meados do século passado traz-nos situações curiosas à memória. Espero que gostem.








Brandura de costumes

Certo dia, um deus zombeteiro grudou à pressa estas palavras “brandura dos nossos costumes”, despejou-as na tinta das Redacções e pôs-se a esfregar as mãos de galhofa quando viu os exploradores do orgulho fácil atirá-las, através dos jornais, para o comércio nacional do lugar-comum, como moedas tão gostosas, de boca em boca.
Às orelhas desprecavidas soavam como sinal de prova duma civilização subtilmente especial com maciezas de penugens de pombas, convívios de almofadas, afagos de papos de rola, olhos besuntados de melaço, gestos de vaselina, pássaros maviosos com grinaldas nos bicos, beijinhos de mãe, em suma, a substituírem o quadro ambiente real, menos atraidor de lisonjas e mais arranhado, duma insociabilidade de lixa, com unhas hostis, cacos de garrafas nos muros e facadas nas tripas dos infames que se atrevem a recusar o testemunho fraternal dum copo de vinho.
Brandura dos nossos costumes.
Que significará, em verdade, esta locução? Dessoramento, fraqueza letal, debilidade, atonia, músculos de algodão em rama? Ou, antes, certo pendor para encolher os ombros diante da tirania e da injustiça, sem outra reacção às ofensas que o espumar de retaliações teóricas, sentindo na boca o espectro da baba longínqua da sagrada sanha de Nuno Álvares e outros defuntos retóricos da nossa gloriosa família comum?
Não sei. Um misto de tudo, talvez, sem lhe faltar o relaxamento, a preguiça e até - porque não? - certa bondade mole vinda lá do fundo da convicção egoísta de que não vale a pena sombrear a vida, já de si tão curta e que, afinal, só o abençoado aborrecimento português consegue tornar morosamente longa.
A que vêm, porém, todas estas congeminações, digam-me lá? A propósito da cena do elevador do Lavra?
Estranho episódio, na realidade, embora tão correntio que nem sei se mereça o tempo que vou perder a contá-lo.
Mas vá lá...
Era uma vez um homúnculo de bigodes abespinhados e olhos ariscos que estava a comprar o seu bilhete na plataforma dum elevador. Nisto, um cavalheiro açodado e cheio de embrulhos passou-lhe rente e, por inadvertência, atropelou-o com um encontrão esbaforido.
Tanto bastou para que a exclamação estoirasse, imediata e total:
- Arre que é besta!
O cavalheiro dos embrulhos não retrucou logo. Adquiriu por sua vez um bilhete, entrou com lentidão e escolheu um bom lugar, mesmo fronteiro ao banco onde o homúnculo de bigode eriçado insistia, risonhamente acre, para os circunstantes, à procura dum apoio de olhos:
- Sempre há cada cavalgadura neste mundo!
Só depois de bem acomodado e bem tossido o cavalheiro dos embrulhos se comprouve em retorquir-lhe com voz de eco atrasado:
- Cavalgadura será ele e toda a sua família. Percebeu? E toda a sua família.
Uma nuvem de borrasca iminente pesou então negra, no elevador. Alguns passageiros levantaram-se no presságio da comédia habitual do desagravo, prontos para intervir num torvelinho de apóstrofes e de alvoroto (“Larguem-me! Larguem-me! Que eu mato aquele malandro!”); ao passo que as damas se preparavam para aproveitar a ocasião de serem femininas e soltarem os graciosos gritinhos da praxe que tão bem lhes ficam à cor dos olhos.
Mas o homúnculo de bigodes assanhados seguia outra lógica de represália. Limitou-se a afiar mais a voz para recalcitrar:
- Se torna a falar-me na família, parto-lhe as ventas. Ouviu, seu animal? As ventas!
O outro riu com escárnio alto e bem silabado:
- Atreva-se... Até o fazia em açorda, seu alarve!
E então, os dois inimigos, de comum acordo, tranquilamente coléricos, serenamente ofegantes, repousadamente furiosos e impiedosamente sentados diante um do outro, iniciaram um combate singular, trémulo de palavras de furor, onde ferviam os socos de hipótese, as pontapés de teoria, as cabeçadas de abstracção e as rasteiras de quimera, num increpar de medo vociferante, óptimo para desenvolver os músculos da língua.
O elevador pusera-se, há muito, em movimento com estardalhaço vagaroso e os dois duelistas precisavam agora de gritar mais, de apregoar quase, para se ouvirem, num esganiçar de ódios inúteis:
- Até lhe comia os fígados, seu malandro! Os fígados, ouviu?
Mas não. Não comia e era pena. Que bom, se aquele senhor de bigodinho irritado começasse a devorar, ali mesmo diante de toda a gente, o fígado cru do rival, em vez daquele duelo absurdo... nas nuvens da prudência... só sons de chanfalhos sem lâminas... só murros de imaginação... só dentadas metafísicas...
A viagem aproximava-se do fim, e os dois adversários, embora continuassem a atirar epítetos às caras um do outro, mal conseguiam destrinçar-lhes um sentido qualquer, em virtude do estridor das rodas.
Foi então que aconteceu o inevitável.
Ouviu-se o grito:
- Cala a boca, urso!
O eterno grito anónimo, gaiato e lisboeta que ora sai das bocas das pedras das ruas, ora das bancadas do Coliseu, ora das estrelas.
Desta vez, incendiou a voz dum rapazola, loiraço e picado das bexigas, que mal se podia mexer, atabafado na plataforma traseira.
- Cala a boca, urso!
O homúnculo de olhos assomadiços voltou-se num repelão de rancor sacudido:
- Quem foi a grandessíssima cavalgadura que relinchou, para eu lhe amolgar os focinhos?
Emudecimento geral. Resposta, nem uma nem duas. O próprio loiraço, de olhos tão desafiantes, deixou-se escorregar para o alçapão do silêncio.
E, então, o elevador parou. Os passageiros começaram a sair.
Primeiro este... depois aquele... todos, em suma, depressa esquecidos dos dois galos de esporões teóricos.
O bexigoso loiro foi o último a descer, mas vissem-no agora, já diferente, já herói, já desmedido de audácia, já pimpão, a rosnar em confidência para um amigo:
- Os camelos só têm paleio, paleio e mais nada... Se fosse comigo, dava-lhes uma chulipa que até voavam.
E, heróico até ao paroxismo, pregou um pontapé no rabo do vento!

Largo da Anunciada. Árvores. Uma porta de igreja. Automóveis. E, de repente, diante dos olhos, esta tabuleta:

ANTIGA ERVANÁRIA
Casa fundada em 1793

Fundada em 1793?... Noventa e três? Data da viragem na história do mundo. Revolução francesa. Terror. Guilhotina. San-Just a clamar do alto da tribuna da Convenção: “a felicidade é uma ideia nova!” Batalha de Fleurus. “Viva a República!” Lágrimas nos olhos. As tropas da revolução estoiraram as fronteiras ao som da Marselhesa. A Europa levanta-se a cantar, bêbada de morte e de vida!… E entretanto, em Lisboa, fundava-se uma Ervanária para vender ingredientes ressumantes de vapor de água, mandésios, amavios, tisanas de ervagens colhidas à meia-noite nos cemitérios, cidreiras, tília (brandura dos nossos costumes) numa civilização de chazinhos fumegantes, beberagens, delíquios, flatos, enxaquecas, teorias, estorvos, molezas, melindres, gritinhos, medo do papão. Chatice...


Helena P.
Retrato (ao meu Pai)
Helena Policarpo















Ele é um espaço grande
do imperfeito a magia,
um vasto círculo dançante
Ao som de música amante
Qual Brueghel
que exibia
No contraponto do nu
Que desordenados panos cobria.
Por aqui vou, por aqui fugia
Mesmo túnel
Mesmo rio
Ambivalência da sede
que fonte desconhecia.

Se eu pudesse agarrar-lhe
a lógica de astro errante
Em minha mão afagá-lo

Por certo que queimaria
Ainda que em negação
Da estrada que nos unia.

Mila
Meu Amigo Canguru
Ziraldo

















António
Poema de Cinza
António Bôto de "Canções"
















Poema de Cinza
À memória de Fernando Pessoa

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boemia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

Por causa deste poema a Cristina lembrou-se do seguinte:

A propósito da publicação de 3 livros de 3 autores, Raúl Leal (Sodoma divinizada), António Botto (Canções) e Judith Teixeira (Decadência), alguns estudantes de Lisboa sentindo-se ofendidos com o teor dos mesmos, resolveram saquear as livrarias e apreender as obras, levá-las ao governo civil e queimá-las. Sim, foi no séc. XX, na terra dos "brandos costumes". Fernando Pessoa saiu em defesa dos escritores e Marcelo Caetano dos estudantes. Cada um marca o seu caminho.

Artigo de Marcelo Caetano de 1926 onde relata o seu modo de ver o que aconteceu. O artigo tem a grafia da época:

"Têm ultimamente aparecido nas livrarias [...] vários livros obscenos. Houve já uma inundação parecida, aqui há uns anos, quando um tal Sr. Raúl Leal publicou um opúsculo intitulado Sodoma Divinizada, que nas montras era ladeado pelas Canções dum tal António Bôto e por um livro de grande formato intitulado Decadência, duma desavergonhada chamada Judit Teixeira. A intervenção dos estudantes de Lisboa pôs cobro a êste estado de coisas com grande indignação do Sr. Júlio Dantas e de vários outros impagáveis bípedes, catedráticos e não catedráticos, académicos e não académicos. Êle há cada um! O facto é que o Leal e o Bôto e a Srª Judit Teixeira foram todos para o Govêrno Civil onde, sem escolha, se procedeu à cremação daquela papelada imunda, que empestava a cidade. "

E agora a carta de Álvaro de Campos a defender os escritores:

AVISO POR CAUSA DA MORAL

Quando o público soube que os estudantes de Lisboa, nos intervalos de dizer obscenidades às senhoras que passam, estavam empenhados em moralizar toda a gente, teve uma exclamação de impaciência. Sim — exactamente a exclamação que acaba de escapar ao leitor...

Ser novo é não ser velho. Ser velho é ter opiniões. Ser novo é não querer saber de opiniões para nada. Ser novo é deixar os outros ir em paz para o Diabo com as opiniões que têm, boas ou más — boas ou más, que a gente nunca sabe com quais é que vai para o Diabo.

Os moços da vida das escolas intrometem-se com os escritores que não passam pela mesma razão porque se intrometem com as senhoras que passam. Se não sabem a razão antes de lha dizer, também a não saberiam depois. Se a pudessem saber, não se intrometeriam nem com as senhoras nem com os escritores.

Bolas para a gente ter que aturar isto! Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. Estudem ciências, se estudam ciências; estudem artes, se estudam artes; estudem letras, se estudam letras. Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte.

Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível.

Porque há só duas maneiras de se ter razão. Uma é calar-se, que é a que convém aos novos. A outra é contradizer-se, mas só alguém de mais idade a pode cometer.

Tudo mais é uma grande maçada para quem está presente por acaso. E a sociedade em que nascemos é o lugar onde mais por acaso estamos presentes.

Europa , 1923.






Ana F.



No princípio criou Deus o céu e a terra
(Génesis 1: 1)

Criou, pois, Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
(Génesis 1: 27)

Em 1858 Charles Darwin revoluciona o mundo com a teoria da selecção natural




Ana V.
La creación del hombre in Cuando el hombre es su palabra y otros cuentos (pp. 214-215)
Nicolás Buenaventura Vidal















Este conto delicioso pode ser lido online aqui, ou podem ouvi-lo contado pelo próprio autor.




Rosa
Três velhinhas
Popular


Três velhinhas estavam em casa
Diz uma: - estou com a vassoura na mão e não me lembro se já varri ou se ainda ia varrer!
Diz outra: - xi... eu estou de camisa, mas não sei se acordei agora ou se estava para ir dormir
A terceira bate três vezes na madeira e diz: - credo! espero nunca ficar como estas duas!... esperem só um bocadinho... vou ver quem bateu à porta!


Fernando

duas citações...



a vantagem de se ter uma péssima memória é que uma pessoa pode rir-se muitas vezes com as mesmas coisas (Nietzsche)

quem não tem boa memória arranja uma de papel (Gabriel Garcia Marquez)







... e um teste
Siga as instruções e responda as perguntas uma de cada vez MENTALMENTE e tão rápido quanto possível mas não siga adiante até ter respondido a anterior. E se surpreenda com a resposta!!!

Agora, responda uma de cada vez! Quanto é:

15+6

3+56

89+2

12+53

75+26

25+52

63+32

Sim, os cálculos mentais são difíceis realmente, mas agora é que vem o verdadeiro teste. Seja persistente e siga adiante até o fim.

Quanto é:

23+5

Rápido! Pense numa ferramenta e numa cor!

E siga adiante...














Mais um pouco...














Um pouco mais...







Pensou num martelo vermelho, não é verdade???




E porque desta vez houve não um... não dois... mas três aniversários... claro que houve festa! Parabéns ao Vasco, ao João e à Alexandra!
















Só para terminar...
Porque a memória também é feita de bons momentos, dêem um salto ao CLeVA 1.0 para um cheirinho do fado da má memória (só um cheirinho, que a bateria da máquina acabou-se... ou teria sido a memória?)

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