Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

2012.09.04 - A(s) COR(es)



a Anabela leu um excerto de "O poder da mente" de Uri Geller

o António leu-nos de sua autoria

Língua encarnada

Não pinto os lábios, pinto a língua. Encarnada, vermelho sangue. Rubra. Violenta, colérica. Diz todas as coisas e lambe vários papéis.

Pinto a língua, abro os lábios para sair da minha boca as muitas encarnações da cor. Matiza-se do cinzento timidez e perfume, do amarelo amanhece, nascem rios com o verde, os dentes são pérolas da sua cor. Bebo as águas cintilantes, mergulho no branco. Venho à tona num barco bocal, agarro-me aos lábios, debato-me com a língua e reescrevo. Marco a lacre, beijo o selo e o envelope. Envio a carta num papel impecável.

Limpo a boca num punho, mas a língua não se lava. A língua é apenas presa numa ponta, músculo em forma de falo. Falo todas as mentiras, ponho-lhes cor, dou-lhes nomes, chamo-as o que calhar. Lambo os lábios escondendo o riso aqui dentro, uma caixa-surpresa, a mola da língua salta. Desperta toda uma casa, o universo dentro de um mundo, dentro de uma língua, fora do coração.

A minha língua acorda as tuas mãos, a tua pele, os teus cheiros, a cor dos teus olhos, os teus sexos. Pudesse a minha língua acordar todas as línguas.

Pudesse a língua não caber nunca, nunca numa mão. Que seja a língua bandeira e cometa e sempre se veja neste ponto minúsculo. Lamba a língua encarnada, deguste o sal, salive um céu inteiro e omisso, presa em si mesma, presa à carne da sua própria língua.

Até que a língua se me cale. Então preta. Então encarnada.

Mais textos do António podem ser lidos no seu blogue


a Conceição leu, de Florbela Espanca

Primavera

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...


também de Florbela Espanca, o Manuel leu

Cravos vermelhos

Bocas rubras de chama a palpitar,
Onde fostes buscar a cor, o tom,
Esse perfume doido a esvoaçar,
Esse perfume capitoso e bom?!

Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d´esculturais sorrisos?!

…Bem sei vosso segredo…Um rouxinol
Que vos viu nascer, ó flores do mal
Disse-me agora: “Uma manhã, o sol,

O sol vermelho e quente como estriga
De fogo, o sol do céu de Portugal
Beijou a boca a uma rapariga…


a Cíntia leu, de Juan Ramón Jiménez

A cor da tua alma

Enquanto eu te beijo, o seu rumor
nos dá a árvore, que se agita ao sol de ouro
que o sol lhe dá ao fugir, fugaz tesouro
da árvore que é a árvore de meu amor.  

Não é fulgor, não é ardor, não é primor
o que me dá de ti o que te adoro,
com a luz que se afasta; é o ouro, o ouro,
é o ouro feito sombra: a tua cor.

A cor de tua alma; pois teus olhos
vão-se tornando nela, e à medida
que o sol troca por seus rubros seus ouros,
e tu te fazes pálida e fundida,
sai o ouro feito tu de teus dois olhos
que me são paz, fé, sol: a minha vida!

de "Ríos que se Van"
Tradução de José Bento


a Ana Brandão leu de Wanderley Midei, As cores dos amigos


a Ana Vieira leu de Reinaldo Ferreira

Quero um cavalo de várias cores

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?


a Cristina e o Fernando leram de Russell Edson

O livro em branco

O livro estava em branco, todas as palavras tinham caído.
O marido disse-lhe, o livro está em branco.
A mulher disse, aconteceu-me uma coisa estranha a caminho do momento actual.
Eu estava a sacudir o livro, para eliminar todas as gralhas, e de súbito todas as
palavras e a pontuação também caíram. Talvez todo o livro fosse uma gralha?
E o que fizeste às palavras? disse o marido.
Embrulhei-as e mandei-as para um endereço fictício, disse ela.
Mas ninguém lá vive. Não sabes que é raro alguém viver num endereço fictício.
A realidade quase não chega para fornecer um simples endereço postal, disse ele.
É por isso que as enviei para lá. Palavras todas misturadas podem de repente
coalescer em boatos e mexericos maliciosos, disse ela.
Mas estas páginas em branco não representam também um convite perigoso a
boatos e mexericos maliciosos? Quem sabe o que alguém pode distraidamente
escrever? Quem sabe o que o acaso poderá fazer com um convite tão perigoso? disse ele.
Talvez tenhamos que nos enviar para qualquer endereço fictício, disse ela.
Será porque as palavras continuam a sair das nossas bocas, palavras que poderiam
facilmente originar boatos e mexericos maliciosos? disse ele.

de O Túnel
Assírio & Alvim


a Ana Paula leu-nos de Hervé Tullet, Um livro


o Miguel leu-nos de sua autoria

As cores

Amigos, críticos e detratores de todas as cores, fartos das minhas croniquetas verdes, vêm insistindo para que escreva antes sobre as experiências de âmbito social que acumulei ao longo da minha terrena existência.
Perante a negritude que o futuro próximo, e quiçá o longínquo, parece prenunciar, é irrecusavelmente aliciante, voltar atrás para caracterizar a vida com as cores que ela se apresentava há volta de sessenta anos. Em simultâneo, será uma pesquisa feita nas profundas do subconsciente e um exercício algo nostálgico, emocional, mas não saudosista, sobre a vida, a minha vida, entenda-se, tal como a divisava com seis anos de idade. Desculpar-me-ão os pessoalismos e as ingenuidades que forçosamente hão de aflorar nas minhas toscas descrições infantis.
Ora quando tinha seis anos e para além do que a natureza, a grande mestra, me oferecia, as únicas cores que dispunha eram o preto e o branco. O preto quando gatafunhava a lápis naqueles cadernos escolares de duas linhas para que as letras merecessem o epíteto de caligrafia. O branco, quando escrevia com uma pena de xisto nas pequenas ardósias que nós chamávamos “pedras”. Para reproduzir qualquer coisa, tinha que ser a preto e branco. Confesso, aliás, que não tinha jeito algum para o desenho. Bem tentava desenhar casas, galinhas, árvores e barcos mas saiam-me sempre imagens disformes, longe da realidade. Televisão não havia e quando apareceu, era a preto e branco. Aos domingos ia ouvir o relato da bola à taberna da tia Celeste e lá imaginava o verde do Sporting, o azul-escuro do Belenenses e o encarnado do Benfica. Do Porto, não! Só o tio Leques é que era portista. A designação “vermelha” não se usava, era conotada com a cor da capa do belzebu, com o comunismo, com a revolução e portanto, liminarmente proibida. Nos jornais, que também só eram a preto e branco, quando algum cronista mais afoito escrevia “vermelho”, logo a censura cortava e substituía por “carmesim”, “escarlate” ou “encarnado”.


a Antónia leu um excerto de "Seara Vermelha" de Jorge Amado

O vento arrastou as nuvens, a chuva cessou e sob o céu novamente limpo crianças começaram  a brincar. As aves de criação saíram dos seus refúgios e voltara a ciscar no capim molhado. Um cheiro de terra, poderoso, invadia tudo, entrava pelas casas, subia pelo ar. Pingos de água brilhavam sobre as folhas verdes das árvores e dos mandiocais. E uma silenciosa tranqüilidade se estendeu sobre a fazenda, as árvores, os animais e os homens.
Apenas as vozes álacres das crianças, pelos terreiros, cortavam a calma daquele momento:

Chove, chuva chuverando
Lava a rua do meu bem...


a Cristina, a Fernanda e a Helena Barros leram, de Camilo Pessanha

Branco e Vermelho

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.

Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distancia reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,

A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

de Clepsidra


a Alexandra leu um excerto do "Livro das sete cores" de Maria Alberta Menéres


a Helena Nogueira leu  "Como se faz cor-de-laranja" de António Torrado


a Adília leu-nos um texto da sua autoria

Uma homenagem às cores
Às emoções …
Ao calor que delas irradia…
À alegria que nos proporciona … um simples dia de sol, em que até as cores ganham vida!!!

Das fotografias a preto e branco à televisão a cores
Das flores… e das floristas… na baixa de Lisboa
Ao branco das casas alentejanas, com uma risca azul …
Da magia do nascer até ao pôr do sol …

E os significados das Cores???
O que seria da rosa encarnada… sem cor??? Que paixões despertaria?
Sem cor…como seria? … Branca? … Cinzenta? … Transparente? Existiria sequer???

E as cores em nós???
Sem cores, como seríamos???
Haveria realmente diferença entre brancos e pretos?
Como saberíamos que alguém estava apaixonado se ficasse corado ou corada quando passa alguém … especial?!?!?!?
A cor domina!!! Arrasa alguém que tenta conquistar aquela mulher com os lábios e as unhas pintadas de fogo!!!
E a inveja saudável causada pelos amigos que regressam das férias com um belo tom moreno…
E os teus olhos??? Fechem os olhos e imaginem as cores na música … dos teus olhos …a música que fala dos olhos verdes e do ciúme!!!
A cor dos olhos…
Que cores veem os olhos?
As mesmas cores que vemos hoje, amanhã podem estar diferentes … mais pálidas, mais secas ou, pelo contrário, com mais vida e mais resplandecentes que nunca!!!

Sabiam que as cores também dançam com os sabores???
Este verão perdi-me com os pêssegos amarelos … aqueles de roer, sabem??? E quanto mais alaranjados eram mais despertavam o apetite!!
A cor também é arte…beleza… a cor é amiga…
A simples cor da manga dá-me tranquilidade… é harmoniosa …
Não é também o que sentimos quando vemos no campo os lençóis brancos estendidos nos quintais, ao sabor do vento, rodeados pela relva ou por um jardim cheio de flores … e cores???!!!

Mas ainda deambulando pelos sabores…
Não ficam com água na boca ao pensar no amarelo da baunilha a contrastar com o doce de morango caseiro???
Ou se preferirem … algo salgado…
A cor salmão … do salmão!!! Bem acompanhado com uma rodela de limão…amarela!!!

Nunca contemplaram uma bancada do mercado de frutas e legumes pincelada com mil cores?
Imaginem uma tela com laranjas … uma fatia de melancia preta … melão verde … couve flor … brócolos … morangos … cebolas … pimentos, amarelos, verdes, encarnados!!! … Batatas com peles de várias cores!!! Cores com vários tons!!!

Ai … os sabores… que nos provocam …. as cores!!!
Hummm de morango … baunilha… tutifruti…
Delicioso não é?
Mas … quem ansiaria por um gelado ou uma gelatina  de morango, ou tutifruti sem cor???
E a salada de fruta? E a salada russa?
Se não tivessem cor ... não tinham graça nenhuma!!! E decerto também não faziam crescer água na boca!!!
Vamos, com os olhos, comer cores??? Que tal um arroz doce bem fresquinho, branco … de leite!!! Ou, com ovos que gentilmente oferecem um suave tom amarelado ao nosso desejo???!!!

E as estações do ano?
Não se distinguem elas próprias também pela cor???
Na primavera… a rosa desperta…cor de rosa!!!
No verão …
Como seria o céu e o mar, se não existisse a cor azul?
É tão bom sonhar com o azul do mar…
Com os diferentes tons de azul na água do mar … na praia da Comporta!!!
Apetece-me recordar também a areia dourada da praia de Porto Santo…
Lembram-se das noites de Agosto???
Da água transparente na noite escura onde apenas reina uma lua cheia… branca ou amarelada!!!
E no outono???
As cores mudam … alguns dias vão estar cinzentos e frios … a noite regressa mais cedo, acompanhada pela escuridão, pelo vento … esse vadio sem cor!!!
Mas o Outono também tem outras cores bem mais interessantes e saborosas como as castanhas quentinhas … castanhas!!!
No inverno …
Se chover e fizer sol…algures vai acontecer uma magia indescritível …

Sabem qual é a magia???

É a do … arco-íris!!!



e no final tivemos boleima


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