Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

Música


a Marília falou-nos do projecto wordsong e leu-nos um excerto do conto "Desenho" do livro "Água, cão, cavalo, cabeça" de Gonçalo M. Tavares

Alexandra, Cíntia, Fernando e Adília falaram-nos um pouco da história de Alcochete e da Banda da Sociedade Imparcial  15 de Janeiro de 1898


Hino da restauração do concelho de Alcochete

Povo, acorda p'rá glória
da nossa mãe e terra amada.
Leu e escreveu a vitória,
Alcochete restaurada.

És livre, és livre, portanto,
não há já que duvidar.
Haja riso cesse o pranto
e vamos todos a cantar.

Refrão

Povo irmão valente,
nobre povo e gente,
se queres morrer
herói e vencedor
abraça a união
e dá-lhe o coração,
que terás a glória e o amor.

Se mais tarde a tirania
nos quiser martirizar,
basta apenas este dia
para nos desafrontar.

E se lermos o passado
na história livro fiel,
veremos com D. Manuel
o nosso nome gravado.

Refrão

Povo irmão valente,
nobre povo e gente,
se queres morrer
herói e vencedor
abraça a união
e dá-lhe o coração,
que terás a glória e o amor.

Luís Cebola
Banda da Sociedade Imparcial 15 de Janeiro de 1898 de Alcochete


(…) No imaginário colectivo dos alcochetanos ao longo de sucessivas gerações, até mesmo nos nossos dias, paira uma imagem nítida, quase real, das festas da Restauração, da agitação e do burburinho que se viveu na época, nas imagens recriadas mentalmente em que se vêm as iluminações dos archotes, as barricas a arder e até se consegue ouvir a música a tocar o Hino da Restauração. (…)

Cíntia Mendes


(…) A população do Concelho secundou a da Vila com o mesmo entusiasmo. Chorava-se de satisfação. Chorava-se de alegria.
Nas ruas pejadas de gente, abraçavam-se uns aos outros. A filarmónica, reunida à pressa, percorreu as ruas da Vila, no meio de muito povo, de muitos vivas, de muito fogo, tocando o “Hino da Restauração”esse hino que um alcochetano compôs, (João Baptista Nunes Júnior) e que todos nós alcochetanos sabemos cantar e sentir.
Ia, enfim, soar a hora da libertação!
- Duas semanas depois, no dia 30 de Janeiro, entrava solenemente nos seus Paços Municipais, o Arquivo do Concelho de Alcochete, não trazido por um simples oficial de diligências, mas sim pelas mãos fidalgas de D. António Pereira Coutinho, o primeiro presidente do Município restaurado.- Muito propositadamente o fora buscar em pessoa a Aldegalega, o ilustre Marquês de Soydos, com D. João Pereira Coutinho, António Luís Nunes e José Francisco Evangelista.
A população inteira, acompanhada pela filarmónica, esperou, fremente de alegria e comoção, à entrada do Concelho (...) – À noite não houve edifício público, não houve casa particular, rica ou pobre, grande ou pequena, que não iluminasse a sua fachada em sinal de regozijo. – E desta forma começaram as festas da “Restauração”. (...)
(…) Grande banquete na sala nobre do Palácio Pereira Coutinho, durante o qual a filarmónica executou vários trechos musicais, e finalmente, como fecho da festa, uma imponentíssima marcha luminosa, apoteose formidável, extranha faixa de luz, melhor, de fogo, alastradora, interminável, por toda a beira-rio, onde dezenas de barricas, alcatroadas, ardiam fantàsticamente. E, para tudo haver nessa marcha rubra de calor e frenesi, nem faltaram mãos delicadas de mulheres, sustentando, gentis e orgulhosas, clássicos e portuguesissimos archotes.
Assim terminaram, exuberantes de alegria e de nobreza, as grandes Festas da Restauração, consoladora recompensa de dois anos de martírio, estupenda manifestação de uma liberdade reconquistada.

José Grilo Evangelista
Restauração do Concelho de Alcochete - Exortação aos Novos,
In: Jornal A voz de Alcochete, Nº 7, Ano I, Janeiro de 1949


E agora algo completamente diferente


A história da moral

Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.

Alexandre O´Neill
Poesias Completas


Fernanda, Helena e Graciete leram-nos de Sérgio Godinho






Manuel  de Charles Baudelaire


A Música

A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

de "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães




a Conceição leu de Camilo Pessanha


Violoncelo

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio, os barcos.
Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...
Trêmulos astros,
Soidões lacustres...
_ Lemes e mastros...
E os alabastros

Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
_ Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

de "Clepsidra"




a Eugénia leu um excerto de "O meu livro de música" de Chris de Sousa



a Antónia leu uma definição da palavra música



o Miguel leu-nos um soneto de Cecília Meireles do livro " Circulatura do quadrado"

Chuva


A chuva chove mansamente ... como um sono
Que tranquilize, pacifique, resserene ...
A chuva chove mansamente ... Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine ...

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono ...
Véspera triste como a noite, que envenene
A alma, evocando coisas líricas de outono ...

... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha ...
Paço de imensos corredores espectrais,

Onde murmurem velhos órgãos árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais ...




a Cristina leu um excerto de "O chão que ela pisa" de Salman Rushdie


a Isabel leu de Vasco Graça Moura,

O suporte da música


o suporte da músicao suporte da música pode ser a relação
entre um homem e uma mulher, a pauta
dos seus gestos tocando-se, ou dos seus
olhares encontrando-se, ou das suas

vogais adivinhando-se abertas e recíprocas,
ou dos seus obscuros sinais de entendimento,
crescendo como trepadeiras entre eles.
o suporte da música pode ser uma apetência

dos seus ouvidos e do olfacto, de tudo o que se
ramifica entre os timbres, os perfumes,
mas é também um ritmo interior, uma parcela
do cosmos, e eles sabem-no, perpassando

por uns frágeis momentos, concentrado
num ponto minúsculo, intensamente luminoso,
que a música, desvendando-se, desdobra,
entre conhecimento e cúmplice harmonia.

de "Antologia dos Sessenta Anos"



a Helena leu um excerto de "O contrabaixo" de Patrick Suskind


o António leu

Chupa no dedo de Micaela

Quando eu te queria, tu rias de mim
Nem reparavas que eu tava crescendo

Agora queres mas eu digo assim
Chupa Chupa Chupa
Chupa no dedo

Quando eu queria ser mulher pra ti
Tu me disseste que era muito cedo

Agora queres mas eu digo assim
Chupa Chupa Chupa
Chupa no dedo

Quando eu queria que dissesses sim
Deste-me um não que até meteu medo

Agora queres mas eu digo assim
Chupa Chupa Chupa
Chupa no dedo

Quando eu te queria num amor sem fim
Tu me trataste, ai como um brinquedo

Agora queres mas eu digo assim
Chupa Chupa Chupa
Chupa no dedo

E hoje sou o teu nó na garganta,
A tua insónia, o teu desassossego

Agora queres mas sou eu quem manda
Chupa Chupa Chupa
Chupa no dedo

E hoje sou o teu nó na garganta,
A tua insónia, o teu desassossego


A Cristina trouxe o Anibaleitor de Rui Zink que logo de seguida passou para as mãos da Cíntia


e porque é Janeiro e o tema é a música, todos cantámos as Janeiras




e não poderíamos ter terminado de outra forma

Sem comentários:

Enviar um comentário