A partir de Outubro de 2017, ao entrar no seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passou a Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

infância


Foram dois os motivos que fizeram desta sessão, uma das menos participadas do CLeVA.
O primeiro chama-se "constipação, gripe ou fruta da época", ao segundo chamam-lhe "produtividade"; pois ao contrário do que se pensa no centro da Europa, aqui continua a trabalhar-se, e muito.
Mas não se pense que a sessão foi menos animada, senão vejamos:

o António e a Anabela começaram com um excerto bem humorado
de "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carroll
(o atraso do coelho foi genial)

a Rosa o António Soares e a Mariana leram um excerto de
"Num meio dia de fim de Primavera" de Alberto Caeiro

o António Gil e a Ana Maria leram
Meu primeiro poema

Vou contar-lhes uma história de pássaros.
No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido, rápido, remavam... Os cisnes, como o albatroz, devem correr patinando sobre a água, empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.
Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro, uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido em uma estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.
Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.
Entregaram-mo quase morto. Lavei as suas feridas e empurrei-lhe pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo. No entanto, foi se refazendo dos seus ferimentos, começou a perceber que eu era seu amigo. E comecei a compreender que a nostalgia o matava. Então, carregando o pesado pássaro nos meus braços pelas ruas, levei-o ao rio. Ele nadava um pouco, perto de mim. Eu queria que ele pescasse e indicava-lhe as pedrinhas do fundo, as areias por onde deslizavam os peixes prateados do sul. Mas ele olhava para a distância com olhos tristes.
Assim, diariamente, durante mais de vinte dias, levei-o ao rio e trouxe-o para minha casa. O cisne era quase tão grande quanto eu. Uma tarde ficou mais alheio, nadou perto de mim, mas não se distraiu com os insetinhos com que eu queria ensinar-lhe novamente a pescar. Ficou muito quieto e tomei-o de novo nos braços para o levar para casa. Então, quando o tinha à altura do peito, senti que se desenrolava uma tira, algo como um braço negro que me roçasse o rosto. Era o seu comprido e ondulante pescoço que caía.
Assim aprendi que os cisnes não cantam quando morrem.

“Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale, mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas um caminho,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.”

Pablo Neruda 
de "Confesso que Vivi"
Tradução de Olga Savary

a Eugénia leu-nos de Fernando Sylvan

Meninas e Meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

Fernando Sylvan
de "Primeiro livro de poesia"
selecção de Sophia de Mello Breyner Andresen

a Alexandra "quase" cantou "Velha infância" do Tribalistas

a Helena leu, de Sebastião da Gama

Também eu

Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos…

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.

Mas nem tudo se foi;
ficou-me, dos tempos de menino,
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Sebastião da Gama
de "Itinerário Paralelo"

a Vitória leu-nos um excerto do conto
"Cabeça de boga" de Vitorino Nemésio

a Adília leu de Mário de Sá-Carneiro

Feliz como uma Criança

Oh! A idade venturosa da infância! Onde há outra mais feliz e mais tranquila, mais sorridente - isto é, mais egoísta?... Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. Se elas nos não arrancam nem os brinquedos nem os bolos, não nos atingem de forma alguma... não as compreendemos sequer...
Quando muito, correm-nos lágrimas vendo chorar as nossas mães. No entanto, é só ainda vagamente que percebemos a dor humana. Por isso as nossas lágrimas secam depressa diante dos brinquedos. E se o quadro em que nos agitamos é risonho, a infância tansforma-se-nos então num jardim maravilhoso. Para as crianças felizes, só para elas, existe realmente um céu - o ceú dos seus primeiros anos.

Mário de Sá-Carneiro
de "O Incesto"

o Fernando leu de Ruy Belo

Algumas proposições com crianças

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe o que há-de fazer com a infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre
a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era cor de bibe
E tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz

Ruy Belo
de Obra Poética

e como não podia deixar de ser acabámos a sessão com bolinhos e moscatel

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