Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

Simplicidade


o CLeVA atingiu as 100 edições e a Cristina leu

Centenário das Palavras

Todos os dias faz anos que foram inventadas as palavras.
É preciso festejar todos os dias o centenário das palavras.

Valor das Palavras

Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado de onde se ouvem – do lado do sol ou do lado onde não dá o sol. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o universo.
As palavras querem estar nos seus lugares!

Nós e as Palavras

Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas.

Almada Negreiros
 de  Invenção do dia claro

de seguida, em grupo, experimentamos como é simples a leitura de José Saramago

(...) O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. O novo ajuntamento de peões que está a formar-se nos passeios vê o condutor do automóvel imobilizado a esbracejar por trás do pára-brisas, enquanto os carros atrás dele buzinam frenéticos. Alguns condutores já saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o transito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está lá dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego. (...)

José Saramago
de Ensaio sobre a cegueira

o Vasco leu
Ode Eis-me nu e singelo! Areia branca e o meu corpo em cima. Um puro homem, natural e belo, De carne que não peca e que não rima. A linha do horizonte é um nível quieto; As velas, de cansaço, adormeceram; E penas brancas, que eram luto preto, Perderam-se no azul de onde vieram. Sol e frescura em toda a grande praia Onde não pode haver agricultura; Esterilidade limpa, que não caia De pão e vinho a cósmica fartura. Dançam toninhas lúdicas no céu Que visitam ligeiras e felizes; Uma força sonâmbula as ergueu, Mas seguras à seiva das raízes. Nem paz, nem guerra, nem desarmonia; O sexo alegre, mas a repousar; Um pleno, largo e caudaloso dia, Sem horas e minutos a passar. Vem até mim, onda que trazes vida! Soro da redenção! Vem como o sangue doutra mãe pedida Na hora de dar mundo ao coração! Miguel Torga
de Diário


a Alexandra leu "Nada" de Cláudia Isabel
de "Se eu fosse a lua fazia uma noite"
do Cancioneiro Infanto-Juvenil do Instituto Piaget


o António Gil leu

Simplicidade

Encontrara a paz interior na simplicidade da vida, embora há bastante tempo atrás tivesse sido uma pessoa muito abastada. Deixara tudo aos filhos e instalara-se numa casinha no campo. Dedicava os últimos anos da sua vida a meditar. Tinha tudo o que  era necessário: um ou outro móvel, uma enxerga, uns quantos utensílios para cozinhar e pouco mais. Paulatinamente, fora reduzindo as suas necessidades e sentia-se mais sereno e feliz do que nunca. Certa manhã, saiu para passear e, ao voltar a casa, viu um ladrão que carregava num carrinho de mão as poucas coisas que ia encontrando na casa. O homem deu uma ajuda ao ladrão na sua tarefa, até que, entre os dois, deixaram a casa vazia. O ladrão deixou-se ajudar de bom grado e depois, perguntou:
- E quem és tu, outro ladrão?
- Não - disse o homem com calma. - Sou o proprietário.
O ladrão recuou surpreendido, mas o homem disse:
- Não te preocupes. Nada trouxe quando vim para este mundo e nada poderei levar. Vai em paz. Faz bom uso.

Ramiro Calle
de Os Melhores Contos Espirituais do Oriente


a Helena, a Cristina, a Graciete e a Fernanda leram entre outros


Um homem simples de Pablo Neruda

Simplicidade de Pedro Homem de Mello



a Ana Brandão leu um texto curto recolhido na internet


o Fernando leu
Entrou numa livraria e pensou: Ler é bom. Mas ler o quê? Como escolher o livro certo com tão vasta oferta? Decidiu: Vou resumir a minha escolha aos escritores do meu continente. Aos do meu país. A todos os escritores que estejam vivos. Aos livros editados neste mesmo ano, neste mesmo mês, aos que tenham sido editados no preciso dia de hoje. Dirigiu-se então à menina do balcão. Pediu: Quero um livro de um autor nacional, que esteja vivo, e que tenha sido editado precisamente no dia de hoje. A rapariga olhou-o de soslaio, fingiu fazer algumas pesquisas no computador, e sem qualquer convicção respondeu-lhe por fim com cara de enjoada: Lamento informar, mas hoje, precisamente, não foi editado qualquer livro. Saiu triunfal de mãos vazias, disposto a escrever o seu próprio livro. Sentiu que tinha um mundo de leitores à sua espera.

Fernando Dinis
de Primeira Antologia de Micro-Ficção Portuguesa


a Mila leu "Nina di tai" de Pedro Alvim
de "O caçador do nada"



a Vitória leu um excerto de "A cidade e as Serras"
de Eça de Queiroz


a Ana Maria leu "Ode ao homem simples" de Pablo Neruda



a Antónia leu um texto recolhido na internet



o Manuel leu um excerto de um artigo de Carlos Legal sobre liderança e simplicidade



o António Soares leu
O meu olhar azul como o céu

O meu olhar azul como o céu
É calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
Porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
Não nasciam flores novas nos prados
Nem mudaria qualquer coisa no sol de modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
E se o sol mudasse para mais belo,
Eu sentiria menos flores no prado
E achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
E eu aceito, e nem agradeço,
Para não parecer que penso nisso…)

Alberto Caeiro


a Cristina leu
XII (O soneto que só errado ficou certo.)

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicação de luas e saliva.

José Gomes Ferreira
de Poeta Militante

a Helena Amélia leu Pia pia pia de Fernando Pessoa





a Helena Barros nunca tinha nada de Ondjaki; falou-nos dele e leu um excerto de O Assobiador



acabámos a comer chocolates acabadinhos de chegar do Luxemburgo

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