Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

25 de Maio - Quando eu for grande...

Esta sessão serviu para uma preparação breve da sessão de dia 29 de Maio na Junta de Freguesia. Nesse dia o Clube de Leitura (embora em versão reduzida) vai animar a entrega dos prémios relativos aos trabalhos dos dias "do Pai" e "da Mãe" aos alunos das escolas do Monte Novo, Valbom e Restauração.

As leituras para essa sessão estão assinaladas com (*) e os 'coros' a negrito

(*) Canção de um buraco (Álvaro de Magalhães in Isto é que foi ser) - Mariana

(*) Ciranda da Bailarina (Chico Buarque) - Helena R.

A versão musical por Adriana Calcanhoto está aqui
Quando eu for grande... quero ser bailarina


Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba

Só a bailarina que não tem

E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
um irmão meio zarolho

Só a bailarina que não tem

Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
ou tem febre amarela

Só a bailarina que não tem

Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
um primeiro namorado

Só a bailarina que não tem

Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem,
todo mundo tem pentelho

Só a bailarina que não tem

Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem...
Todo mundo tem
(*) O Indeciso (José Jorge Letria, in O que eu quero ser...) - Helena M.


Eu quero ser tudo
futebolista e arquitecto
actor de cinema mudo
é preciso é que dê certo.

No fundo o que eu quero
é ser grande e bem depressa
porque isto de crescer
não pode ser só conversa.

Quero ser grande em altura
sem ter projecto nenhum
e quem sabe se hei-de ser
piloto de Fórmula Um?

Também quero ser marinheiro,
alpinista e domador,
herói de banda desenhada,
pirata e aviador.

Quero ser de tudo um pouco
Pois tenho imaginação
Para acreditar que acordo
Com o mundo na palma da mão.
 
No fundo, quando eu for grande

Sem que isso seja um insulto
O que eu acho que vou ser
Afinal é mesmo adulto.
(*) Grávida no coração - Rita
(*) Julie dos Lobos de Jean Craighead George (excerto) - Cecília

(*) Crescer in O que é a liberdade

(*) A Canção dos Adultos (de Manuel António Pina in O pássaro da cabeça (il. Joana Quental) - Fernando


Parece que crescemos mas não,
somos ainda do mesmo tamanho.
As coisas que à nossa volta estão
é que mudam de tamanho.

Parece que crescemos mas não crescemos,
foram as coisas grandes que há,
o amor que há, a esperança que há,
que ficaram mais pequenos.

Estão agora tão distantes
que às vezes já mal as vemos.
Por isso parece que crescemos
e somos maiores que antes.

Mas somos ainda como antes,
talvez até mais pequenos
quando o amor e o resto estão distantes
que nem vemos como estão distantes.

Julgamos então que somos grandes
e já nem isso compreendemos!

(*) Poema (de Miguel Torga in Diário XIII) - Augusto

Não tenhas medo, ouve:

É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.

Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza.
Na segura certeza
De que mal não te faz.

E pode acontecer que te dê paz...
(*) Liberdade (de Fernando Pessoa in Obra poética) - Augusto


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!

Ler é maçada.
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por Dom Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca....
(*) Verbo Ser (de Carlos Drummond de Andrade) - Cristina


Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.
Outras Leituras

Um excerto de Está alguém aí? de Jostein Gaarder - Rodrigo


Passado, Presente, Futuro (José Saramago, in "Os Poemas Possíveis") - João

Eu fui. Mas o que fui já me não lembra:
Mil camadas de pó disfarçam, véus,
Estes quarenta rostos desiguais.
Tão marcados de tempo e macaréus.

Eu sou. Mas o que sou tão pouco é:
Rã fugida do charco, que saltou,
E no salto que deu, quanto podia,
O ar dum outro mundo a rebentou.

Falta ver, se é que falta, o que serei:
Um rosto recomposto antes do fim,
Um canto de batráquio, mesmo rouco,
Uma vida que corra assim-assim.

Segredo (Miguel Torga) - Isabel ... e João também , que ele fazia questão!

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
Excerto de Narciso e Goldmundo de Herman Hesse - Helena
 
Excerto de Adolescente agrilhoado de Alexandre Melo e Silva - António
 
Não quero, não (Eugénio de Andrade) - Mila

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão, sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero,não
ser soldado nem capitão.
Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.
Conta Contos Excerto de Histórias que ajudam a crescer (Montse Domènech e Eduardo Estivil) - Alexandra (o livro pode ser comprado aqui)

Para ser grande, sê inteiro (Fernando Pessoa / Ricardo Reis) - Pedro

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

6 comentários:

  1. Cá pelo meu lado, também são as músicas que me andam a trazer os poemas.
    Cristina

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  2. Um tesourito que encontrei enquanto esgravatava neste post:
    http://www.leitura.gulbenkian.pt/boletim_cultural/files/VII_03.pdf

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  3. É precioso, Lena. Já o guardei para futuras visitas.
    Obrigada.
    Beijinhos
    Cristina

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  4. Olá a todos!
    Não me foi possível ir à sessão d 3.ª feira e avisei a Paula pensando que ela ia...depois descobri que não:o(.
    Por causa dessa ausência, também não estarei na sessão de leitura de amanhã...mas pelo que vi dos textos, os meninos ser outra vez umas estrelas:o).
    Sobretudo, divirtam-se e boa sorte!
    Beijo grande,

    Xana
    Sobretudo divirtam-se e boa

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  5. Olá Menina
    Então e não vens porquê?
    Gostávamos de te ter cá. Traz um poeminha e vem (a esta hora já não deve dar, mas enfim, fica aqui o apelo)
    Beijinhos
    Cristina

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  6. A leitura da Teresa no recital "Quando eu for grande..."

    Televisão ou não

    Desliga a televisão - disse o pai. - Vai lá para fora e vive a vida.

    Fui e à noite vim
     Com uma abelha na orelha
     Um rato no sapato
     Cola na camisola
     Giz no nariz
     Gafanhotos nos bolsos rotos
     Um escaravelho no joelho
     Uma formiga na barriga
     Um leão pela mão
    E atrás um camelo a puxar-me o cabelo.

    -Não vás mais lá para fora - disse o pai. - Liga a televisão.

    Luisa Ducla Soares

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