Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

Mudar de vida



já várias vezes nos tinha visitado, mas hoje declarou oficialmente querer ser membro do clube
Reiki Francisco

A Cristina começou por apresentar o livro do dia

Uma história da leitura de Alberto Manguel

e do Alberto Manguel passou naturalmente para o Jorge Luís Borges e acabámos a fazer um exercício com uma citação de Ficções, precisamente de Jorge Luis Borges e várias de Barranco de Cegos e Ensaio sobre a cegueira de Alves Redol e José Saramago, respectivamente.



O medo cega.

Gradualmente, o formoso universo foi-o abandonando; uma teimosa neblina confundiu-lhe as linhas da mão, a noite despovoou-se de estrelas, a terra era insegura sob os seus pés. Tudo se afastava e confundia. Quando soube que estava a ficar cego, gritou

O medo cega.

Uns emigram, outros pedem esmola, outros rebocam cegos por feiras e estradas (…) No fundo estão cegos todos, e, mais ainda, os que vão adiante; esses acabam por atirar com os outros para o barranco, como disse S. Mateus. (…)

O medo cega.

-O medo cega... são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos,

O medo cega.

o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.

O medo cega.

“Deixai-os; cegos são e condutores de cegos; e se um cego guia a outro cego, ambos vêm a cair no barranco.
S. Mateus”

O medo cega.

A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança.

O medo cega.

Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira.

O medo cega.

É que vocês não sabem, não o podem saber, o que é ter olhos num mundo de cegos.

O medo cega.

Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.

O medo cega.

-Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

e ainda a propósito




e passámos às leitura:

Cíntia, Adília e Anabela
Trans-Género-Humano de Pedro de Freitas


Cristina, Fernanda, Helena e Graciete
Excertos de "Entre dois mundos" de Pedro d´Orey da Cunha


Introdução:
Mudar de vida conduz-nos a mil e uma direções: mudar de profissão, mudar de terra, mudar de país, mudar de sexo, mudar de guerra, mudar de atitudes, mudar de língua, mudar de nome, mudar de partido, mudar de religião, mudar de …
Viver entre dois mundos pode acontecer mesmo ao nosso lado, na nossa cidade, na nossa rua, na nossa casa… Os dramas do quotidiano são muitas vezes - como dizia Pedro d’Orey -  “…uma realidade possível, um homem sensível, angustiado pela apatia, pela  indiferença, pela  incapacidade de quantos olham e não veem (…) quantas crianças, quantos jovens, quantos pais, quantas mães, não vivem entre dois mundos, buscando sentido onde, por  vezes, só há alienação” 
E nós? Será que continuamos indiferentes, incapazes de ver esses dilemas? O stress domina todos aqueles que correm atrás de um futuro e não se apercebem daquilo que se passa no nosso presente, no nosso dia a dia.
 Os problemas que aqui vos trazemos são retirados do livro ENTRE DOIS MUNDOS que é dividido em capítulos: A Família; a Escola; Entre a Escola e o Trabalho; Condenados: pelos médicos; pelos professores; pelo patrão e pelos companheiros. Este livro é de Pedro d’Orey da Cunha que foi Chefe de Gabinete do Ministro da Educação entre 1987 e 1989, e exerceu o cargo de Psicólogo Conselheiro de Orientação Escolar e Profissional nos Estados Unidos, sendo um grande defensor e dinamizador  da integração das minorias – e narra  histórias reais, daqueles que deixam o seu país para irem viver no estrangeiro, com todos os problemas inerentes à adaptação a um novo país, a uma nova língua e a uma nova cultura, à  vivência diária nesse  país que adotaram, quer  dos jovens quer de seus pais mas também no sentido inverso, daqueles que tentam “compreender” os estrangeiros ou que - simplesmente -  os julgam face à sua cultura . 
Os anos -  que esses emigrantes passam nesses países -  vão interferir nos seus hábitos, nas suas culturas e até na sua própria linguagem e, é essa aculturação que faz com que o seu léxico se transforme e seja uma adaptação - tantas vezes – das duas línguas. É assim que dizem estoa em vez de store, cela para cellar que significa cave, barrum em vez de bar room que é a taberna, entre muitas outras que vão sendo substituídas por um termo intermédio.
Vamos pois ouvir três dessas histórias: em 1º lugar a Helena vai apresentar-vos “Bonito” história 29, (pág.103) que pertence ao capítulo A Escola; e em seguida, a Fernanda  apresenta-vos “Contente” história 60 ( pág. )incluída no capítulo dos condenados, aqui condenado pelos professores; e, por fim  a Cristina  apresenta-vos “Liberdade” história 6 (pág.43)  incluída no capítulo “A Família”.



Eugénia
Excerto do conto "A invenção do tempo" de Mário Domingues, do Magazine Bertrand de 1928


Ana Maria
Não me sinto mudar de Pablo Neruda

Não me sinto mudar. Ontem eu era o mesmo.
O tempo passa lento sobre os meus entusiasmos
cada dia mais raros são os meus cepticismos,
nunca fui vítima sequer de um pequeno orgasmo

mental que derrubasse a canção dos meus dias
que rompesse as minhas dúvidas que apagasse o meu nome.
Não mudei. É um pouco mais de melancolia,
um pouco de tédio que me deram os homens.

Não mudei. Não mudo. O meu pai está muito velho.

As roseiras florescem, as mulheres partem
cada dia há mais meninas para cada conselho
para cada cansaço para cada bondade.

Por isso continuo o mesmo. Nas sepulturas antigas
os vermes raivosos desfazem a dor,
todos os homens pedem de mais para amanhã
eu não peço nada nem um pouco de mundo.

Mas num dia amargo, num dia distante
sentirei a raiva de não estender as mãos
de não erguer as asas da renovação.

Será talvez um pouco mais de melancolia
mas na certeza da crise tardia
farei uma primavera para o meu coração.

de Cadernos de Temuco
Tradução de Albano Martins


Marília
Excerto de "O pastor amoroso" de Alberto Caeiro

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu... Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.



Fernando
Ninguém se mexa! Mãos ao ar! de Alexandre O´Neill

«Ninguém se mexa! Mãos ao ar!», disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
«Mãos ao ar!», repetiu para convencer-se.

Mas ninguém se mexeu, como ele queria...
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas Festas da gerência

escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão). Ali estivemos
um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.

Alexandre O'Neill
de Poesias Completas



Ana Paula
Excerto de "Memórias das minhas putas tristes" de Gabriel García Márquez



Miguel
Os pobrezinhos de António Lobo Antunes

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres. Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.
 Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:
 - Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da minha Teresinha.
 O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente». No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, uma bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:
 - Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.
 Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto
(- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro)
de forma de deletéria e irresponsável. O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico
 - Agora veja lá, não gaste tudo em vinho
 o atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:
 - Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeo
 Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros
 - O que é que o menino quer, esta gente é assim
 e eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.
 Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais. A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse
 - Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar
 e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.
 Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.
 Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.



Alexandra
falou-nos de como os livros de auto-ajuda mudaram a sua vida



e no final da noite, como ninguém fazia anos, fizemos uma festa com crumble de maçã e bolo de especiarias, acompanhados de porto e moscatel.
Brindámos ao CLeVA.











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