A partir de Outubro de 2017, ao entrar no seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passou a Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

insolências


o encontro desta vez foi no restaurante "A quinta"

e não faltaram as castanhas e a água-pé

a Antónia leu-nos umas trovas

a Mariana leu, de António Aleixo (o insolente da noite)
Após um dia tristonho
De mágoas e agonias
Vem outro alegre e risonho:
São assim todos os dias.

Eu não sei porque razão
Certos homens a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes
Não digas tudo o que pensas
Mas pensa tudo o que dizes

a Eugénia leu umas décimas do seu pai, Vicente Casadinho e

Balada do caixão

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte,
Ponteia e cose, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mognos, debruados de veludo,
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vai a aborrecer,
Fui-me lá, ontem: (Era Entrudo,
Havia imenso que fazer...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na casa toda.
- Eis aqui um e bem barato.
- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quis apreçá-lo:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscá-lo?
- Ao pôr-do-Sol. Vou dá-lo a ferro:
(Pôs-se o bom homem a aplainá-lo...)

Ó meus Amigos! salvo erro,
Juro-o pela alma, pelo Céu:
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dândi, olhai! do que eu!

António Nobre

o António Soares também leu António Aleixo
Porque te amo de verdade,
´stou louco por dar-te um beijo,
mas contra a tua vontade
não te beijo e tenho ensejo.

Sabendo que deves ter
milhões deles para me dar,
teria que enlouquecer
para um beijo te roubar.

E como em teus lábios puros,
guardas tudo quanto almejo,
doutros desejos futuros
o beijo mata o desejo.

Roubando um, mil te daria,
o que não posso é jurar
que não te aborreceria
e eu quero-te desejar!


o António Gil leu-nos
Dez mandamentos do Abade de Travanca

Divulgados por Francisco Manuel Alves – Abade de Baçal
nas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança


a Cristina leu uma insolência da Natália Correia
João Morgado, Deputado do CDS disse na Assembleia da Republica, no Dia 3 de Abril de 1982, no debate sobre a Despenalização do Aborto, assim:

«O acto sexual é para ter filhos»

Natália Correia, deputada, disse como resposta e em poema, o a seguir descrito que fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção!

Foi publicado depois, pelo Diário de Lisboa em 5 de Abril desse ano, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

“Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;

e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -

Uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.”

Natália Correia


a Mila também leu António Aleixo

a Anabela leu umas quadras que ela própria fez alusivas ao momento

a Cristina voltou, desta vez para cantar uma insolência de Artur Gonçalves


a Cíntia também disse umas quantas quadras do Aleixo

o António Marques foi insolente a partir de Braga,
com umas quadras da sua autoria

a Alexandra leu algumas quadras populares,
ligadas ao imaginário popular e ao culto do Beato Gonçalo
"São Gonçalo de Amarante
Santo bem casamenteiro
Antes de casar as outras
A mim casai-me primeiro

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casas as novas?
Que mal te fizeram elas?

Se fordes ao S. Gonçalo
Trazei-me um S. Gonçalinho.
Se não puderdes co'ele grande,
Trazei-me um pequenininho!

São Gonçalo de Amarante
Casai-me que bem podeis,
Já tenho teias de aranha,
Naquilo que vós sabeis.

São Gonçalo de Amarante
Feito de pau azevinho
Dai-me força no vergalho;
Como porco no focinho

São Gonçalo de Amarante
Que estás virado prá vila
Virai-vos pró outro lado
Que vos dá o sol na pila

S. Gonçalo já é velho,
É velho, é maganão,
Quando passa pelas moças,
Arrefia, aperta a mão!

Róla, róla, Sam Gonçalo
Por esse mundo abaixo
Que eu perdi meu amor,
Eu vou-me a ver se o acho!

As freiras de S. Gonçalo
Tocam e bailam no coro,
A culpa é da abadessa
Que não lhes faz ter miolo!

São Gonçalo não quer missa
São Gonçalo não quer esmola
São Gonçalo quer uma festa
De rebeca e de viola

Oh! Meu senhor São Gonçalo
Feito do pau da Cajá
Sapiranga dentro dos olhos
De quem veio pra namorar

Oh! Meu senhor São Gonçalo
Aqui tens duas donzelas
Uma já não é bem moça
E a outra já falam dela"

o Fernando cometeu a insolência de ler um texto em prosa
(...) Se o vosso encargo em sodoma era destruir a cidade, qual é a missão que vos trouxe agora, Não podemos revelá-la a ninguém, avisou um, Bom, não é segredo, disse o outro, e para todos deixará de o ser quando as coisas acontecerem, além disso, este que vai aqui connosco já demonstrou ser de confiança, Assumes a responsabilidade da inconfidência, imagina que ele chega e vai a correr contar a job, O mais provável seria que não acreditasse, Bem, faz o que quiseres, lavo daí as minhas mãos. Caim parou e disse, Não vale a pena que estejam a discutir por minha causa, contem se quiserem, se não quiserem não contem, eu não obrigo nem peço. Perante este desprendimento até o anjo reticente se rendeu, Conta, disse para o outro, e logo, pondo um olhar severo em caim, ordenou, E tu, juras que não dirás a ninguém o que vais ouvir, Juro, disse caim, levantando a mão direita, Então o outro anjo começou, Aqui há dias, como acontece de vez em quando, reuniram-se todos os seres celestes perante o senhor e presente estava também satã, e deus perguntou-lhe, Donde vens agora, e satã respondeu, Fui passear e dar umas voltas pela terra, e o senhor fez-lhe outra pergunta, Não reparaste no meu servo job, não há outro como ele no mundo, é um homem bom e honesto, muito religioso e não faz nada de mal. Satã, que ouvira com um sorriso torcido, desdenhoso, perguntou ao senhor, Achas que os seus sentimentos religiosos são desinteressados, não é verdade que, tal como uma muralha, tu o proteges de todos os lados, a ele e à sua família e a tudo o que lhe pertence. Fez uma pausa e continuou, Mas experimenta tu levantar a mão contra aquilo que é seu e verás se ele não te amaldiçoa. Então o senhor disse a satã, Tudo o que lhe pertence está à tua disposição, mas nele não poderás tocar. Satã ouviu e foi-se embora, e nós aqui estamos, Para quê, perguntou, Para que satã não se exceda, para que não vá além dos limites que o senhor lhe marcou. Então caim disse, Se bem entendi, o senhor e satã fizeram uma aposta, mas job não pode saber que foi alvo de um acordo de jogadores entre deus e o diabo, Exactamente, exclamaram os anjos em coro, A mim não me parece muito limpo da parte do senhor, disse caim, se o que ouvi é verdade, job, apesar de rico, é um homem bom, honesto, e ainda por cima muito religioso, não cometeu nenhum crime, mas vai ser castigado sem motivo com a perda dos seus bens, talvez, como tantos dizem, o senhor seja justo, mas a mim não me parece, faz-me recordar sempre o que aconteceu com abraão a quem deus, para o pôr à prova, ordenou que matasse o seu filho isaac, em minha opinião, se o senhor não se fia das pessoas que crêem nele, então não vejo por que tenham essas pessoas de fiar-se do senhor, Os desígnios de deus são inescrutáveis, nem nós, anjos, podemos penetrar no seu pensamento, Estou cansado da lengalenga de que os desígnios do senhor são inescrutáveis, respondeu caim, deus deveria ser transparente e límpido como cristal em lugar desta contínua assombração, deste constante medo, enfim, deus não nos ama, Foi ele quem te deu a vida, A vida deram-ma meu pai e minha mãe, juntaram a carne à carne e eu nasci, não consta que deus estivesse presente no acto, Deus está em todo o lado, Sobretudo quando manda matar, uma só criança das que morreram feitas tições em sodoma bastaria para o condenar sem remissão, mas a justiça, para deus, é uma palavra vã, agora vai fazer sofrer job por causa de uma aposta e ninguém lhe pedirá contas, Cuidado, caim, falas de mais, o senhor está a ouvir-te e tarde ou cedo te castigará, O senhor não ouve, o senhor é surdo, por toda a parte se lhe levantam súplicas, são pobres, infelizes, desgraçados, todos a implorar o remédio que o mundo lhes negou, e o senhor vira-lhes as costas, começou por fazer uma aliança com os hebreus e agora fez um pacto com o diabo, para isto não valia a pena haver deus.(...)

de Caim de José Saramago

a Rosa leu
Quadras ao jeitinho popular da época; versão 2013 de José Gabriel

o Fernando voltou e desta vez, a partir do resultado devolvido pelo dicionário Priberam,
leu uma quadras de Francisco Horta do disco
No Paraíso Real – tradição, revolta e utopia no sul de Portugal


e a Helena também leu António Aleixo
Só a Arte tem o poder
de a todos nós transmitir
o que todos podem ver,
mas poucos podem sentir.

Dom de artista tem quem cria
obras de arte: esse é artista,
como não é quem copia
aquilo que tem à vista.

Nada direi, mas, enfim,
vou ter a grande alegria
de a Arte dizer por mim
tudo quanto eu vos diria.

Mágoas descritas em verso,
quando nascem de almas sãs,
percorrem todo o universo
falando ás almas irmãs.

Na música, tal encanto
eu encontro, que a meu ver,
só o amor dirá tanto
quanto ela sabe dizer.

Nas muitas quadras que canto,
procuro, mas não consigo,
uma só que diga tanto
como em todas elas digo.

Meus versos são dos piores,
não sou poeta distinto...
mas talvez fossem melhores
se os lessem como eu os sinto.


e a noite continuou animada com quadras, décimas e algumas cantigas

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