A partir de Outubro de 2017, ao entrar no seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passou a Coro de Leitura em Voz Alta. Continua a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.

Alentejo


a Cíntia falou-nos de David Lodge

a Ana Maria e o António leram-nos um excerto de
"A poesia da alma alentejana" de
Joana da Consolação Correia

Oh! terra ardente
Charneca em flor
Feita dum sonho
Sonho de amor!
                                João Camilo

O Alentejo

Não é a savana das planícies áridas e incultas.
Não é a charneca bravia dos matagais: das estevas, das giestas, dos tojais, das urzes e das piorneiras.
É a terra de entranhas fecundas do trigo loiro; dos olivedos tristes mas viçosos, de azeitonas luzidias, do óleo puro amarelo-
doirado; dos montados de frutos coroados de carapulos; dos vinhedos estendidos à vontade às chapadas do sol que geram as castas de uvas soberbas como estirpes; dos pomares e hortas, vergéis escondidos em vales que são paraísos pitorescos onde correm ribeiros e arroios orlados de toda a espécie de mimosa vegetação; viçosa verdura e arbustos, virentes eucaliptos; os verdes choupos e salgueiros e as gigantes faias.

Traduções
piorneiras = moita de piorno
carapulos = cálice das bolotas

Joana da Consolação Correia
de "A poesia da Alma Alentejana" - 1956 – Edição de Autor


a Rosa, o António e a Mariana leram
Canção de maltês

Bati à porta do monte
porque sou um deserdado.
E chovia nessa noite
como se o céu fosse um mar
entornando-se na terra.
Quem abre a porta a desoras
morando num descampado?
E continua o rafeiro que ladrava,
na ponta do meu cajado.
Mas veio abri-la o lavrador
com a espingarda na mão,
e pôs um olhar altivo
tão fundo dos meus olhos
que as minha primeiras falas
foram assim naturais:
guarde a espingarda, senhor,
sou um homem sem trabalho.
Fui secar-me à lareira.
E a filha do lavrador,
que era uma moça perfeita,
ficou a olhar de gosto
a minha manta rasgada
e o meu fato de maltês.
E com licença do pai,
estendeu-me um canto de pão
com azeitonas maduras.
Não aceitei como esmola;
antes roubar que pedir:
paguei com a melhor história
da minha vida sem rumo.
Foi uma paga de rei.
Prà filha do lavrador,
tinha muito mais valia
a história que lhe contei
que o trigo do seu celeiro,
pois estava a olhar de gosto
a minha manta rasgada.
E quando o fogo na lareira
ia aos poucos esmorecendo
agradeci como é de uso;
despedi-me até mais ver
e fui dormir pró palheiro
que é palácio de maltês.
Despedi-me até mais ver que a gente da minha raça
mal o Sol tenta nascer
ergue-se e parte pelo mundo
sem se lembrar de ninguém.
Assim me deitei ao canto
a esperar pela manhã.

Manuel da Fonseca


a Antónia leu "Verão" de Manuel Conde
e "É tão grande o Alentejo" Popular

Aqui uma versão de "Verão" por António Zambujo


e aqui uma versão de "É tão grande o Alentejo" por Dulce Pontes e Os Ganhões de Castro Verde


a Eugénia leu um excerto de
"Levantado do chão" de José Saramago
e um excerto de
"Cerromaior" de Manuel da Fonseca

a Cristina, a Graciete, a Helena e a Fernanda leram:



e




a Alexandra leu

Catarina Eufémia

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não

deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método ubíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro
no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

Sophia de Mello Breyner Andresen

a Vitória leu

Romance do terceiro oficial de finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
- os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!...
- isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...

Manuel da Fonseca

a Marília leu um excerto de
"Nenhum olhar" de José Luís Peixoto

a Helena leu a Lenda da Moura de Salúquia

a Adília, a Anabela, a Cíntia e o António conseguiram uma extraordinária
parceria do CLeVA com os vinhos da Herdade do Esporão

a Cristina e o Fernando trouxeram a Mariana, uma convidada especial, para os acompanhar
no poema "Aldeia" de Manuel da Fonseca de mistura com
Uma gotinha d'água

Aldeia

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Manuel da Fonseca



está quase a começar um novo clube de leitura em voz alta, desta vez na Biblioteca de Tábua.
Nós fizemos uma brincadeira com "Um Carnaval" de Alexandre O'Neill para lhes oferecer

desta vez o aniversariante foi o António Gil

como se precisássemos de algum pretexto para terminar a sessão a comer e a beber

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