A partir de Outubro de 2017, a iniciar o seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passa a Coro de Leitura em Voz Alta. Continuará a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passará a ser outra.

Gatos


a Cristina nunca tinha lido nada de valter hugo mãe
leu-nos vários excertos de "A desumanização"

a Alexandra leu-nos o "Romance da gata Tareca" do livro
"A gata Tareca e outros poemas levados da breca" de Luísa Ducla Soares

a Isabel leu

O gato

Com um lindo salto
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, para
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma o seu banho
Passando a língua
Pela barriga.

Vinícius de Moraes


a Ana Maria e o António leram

O Gato Sábio

Um mestre de esgrima queria libertar-se de uma ratazana que dava cabo do local de treino.
Nem o gato mimado pelo mestre, nem os gatos da vizinhança podiam com a ratazana. Também as cutiladas do mestre a não atingiam, só conseguia estragar biombos e móveis enquanto a ratazana lhe dava cabo da cabeça.
Mas trouxeram-lhe de muito longe um gato famoso que, com uma única finta, despistou a ratazana e a deixou imobilizada.
Reunidos em assembleia, os gatos do bairro debatiam o segredo do triunfo. A chave é a agilidade, diz um, tudo está na decisão, opina outro; é preciso juntar o ânimo próprio com o do inimigo, precisa um terceiro.
“Não basta - corrige-os a todos o gato famoso - enquanto não actuares sem pensar em ti mesmo, serás derrotado”. E acrescentou: “Conheço um gato ainda mais eficaz. Dormita e não faz nada, mas a sua simples presença afugenta as ratazanas. Perguntei-lhe o seu segredo e não mo disse.
Quem realmente sabe não o diz. Quem o diz levianamente é sinal de que não sabe”.

Juan Masiá
de A Sabedoria do Oriente


a Antónia leu "O perigo da hesitação prolongada",
uma citação de Victor Hugo


a Cíntia e a Anabela leram-nos vários excertos
de "Os Maias"  de Eça de Queirós
onde se fala do Bonifácio


o António leu "Gato" de Alexandre O´Neill




a Marília leu

Souvenir Africain

O gato aproximou-se, escutando também ele o silêncio hirto das palmeiras, que são no horizonte a primeira coisa verdadeira que nos assoma aos olhos, mesmo antes de haver o que possa chamar-se claridade. O casario afogado no escuro respira anónimo e reles, a face encardida, a fenda estreita da boca por onde dificilmente passará a luz, que de súbito rompeu no terraço e não tardará a escaldar. Depois o sol acalma, e lá para o fim da tarde uma sombra mole escorre do muro para o cimento aquecido. É então que o gato se transforma em cadela, arrastando-se até aos nossos pés, deitando-se de costas, o ventre carnudo ávido do prazer profundo que lhe oferece por fim a mão.

Eugénio de Andrade
de Os dóceis animais


a Cristina, a Fernanda, a Graciete e a Helena leram

Curiosidades sobre gatos:

Escritores e gatos

Os gatos são a companhia ideal para quem tem o hábito de ler. Silenciosos e independentes, sabem respeitar a concentração dedicada a uma boa leitura. Muitos escritores, artistas e outras pessoas notáveis inspiraram-se nos gatos e ofereceram frases e poemas: Bocage, Prévert, Baudelaire, Alexandre O’Neill, Manuel António Pina (Uma prosa sobre meus gatos), Jean Cocteau ( les chats de Paris) e por aí fora…

Muitos fizeram apreciações sobre os gatos:

“O gato possui beleza sem vaidade, força sem insolência, coragem sem ferocidade, todas as virtudes do homem sem vícios”.
(Lord Byron);


“São distantes, discretos, impecavelmente limpos e sabem calar. Falta mais alguma coisa para considerá-los uma excelente companhia?”
(Rainha Maria Leszczynska - esposa de Luís XV);


"Os gatos apreciam o silêncio, a ordem e a calma e nenhum lugar lhes convém mais do que o escritório do literato" 
(T. Gauthier);

 etc., etc., etc….

Gatos de alguns famosos:

- Minou de George Sand
- Rupi – gato do fundador dos Jethro Tull, Ian Andersen, que inspirou a música que deu título ao seu albúm "Rupi’dance"
- Taki - gato de Raymond Chandler , criador do detective Philp Marlowe
- White Heather – gata gorda angora preferida da rainha Vitória…e também pertenceu a seu filho, o rei Eduardo VIII

Enfim, há inúmeros textos sobre este tema , e nós escolhemos um poema de João de Deus,  "A uma gata"  e dois de Alexandre O’Neill,  Poema do Desamor e Que fazes por aqui, ó gato?

A uma gata

Tu só, pobre animal, beijas o triste!
Tu que o rato devoras, e que os dentes
Tens afiados para quanto existe!
Caprichosa excepção! Dize: que sentes?

Amas, pobre animal! e tens tu pena,
Sim, pode na tua alma entrar piedade?
Se pode entrar eu sei! Negar quem há-de
Amor ao tigre, coração à hiena!

Tudo no mundo sente: o ódio é prémio
Dos condenados só que esconde o Inferno
Tudo no mundo sente: a mão do Eterno
A tudo deu irmão, deu par, deu gémeo.

A mim deu-me esta gata, a mim deu-me isto.!
Esta fera, que as unhas encolhendo
Pelos ombros me trepa e vem, correndo,
Beijar-me… Só não vivo! Amado existo!

João de Deus
de Campo de Flores


Poema do Desamor

Desmama-te desanca-te desbunda-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Beija embainha grunhe geme
Não se pode morar nos olhos de um gato

Serve-te serve sorve lambe trinca
Não se pode morar nos olhos de um gato

Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arfa arqueja moleja aleija
Não se pode morar nos olhos de um gato

Ferra marca dispara enodoa
Não se pode morar nos olhos de um gato

Faz festa protesta desembesta
Não se pode morar nos olhos de um gato

Arranha arrepanha apanha espanca
Não se pode morar nos olhos de um gato


Gato

Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill
Poesias Completas


a Helena leu "O meu Gato Tobias é parecido com o Lince-Ibérico"
de Paula Abreu
ilustrado por Inês Má



a Vitória leu um excerto de "O Gato Malhado e a Adorinha Sinhá"
de Jorge Amado



a Ana Maria leu um excerto de


a Rosa pôs-nos todos a repetir a lenga-lenga

Sape gato
Sape gato
Lambareiro
Tira a mão
Do açucareiro

Tira a mão
Tire o pé
Do açúcar
Do café







a Cristina leu


Gatos

Gatos novos
gatos velhos
gatos magros
gatos gordos
gatos brancos
gatos pretos
gatos mimalhos
gatos a pedir
gatos a roubar
gatos a fugir
gatos a ronronar
gatos no telhado
gatos na janela
gatos no sofá
gatos no berço
gatos na cama
gatos na sala
gatos na cozinha
gatos maltratados
gatos a miar
em noites de luar.

Gatos doentes
gatos a brincar
gatos a dormir
gatos a saltar
gatos a parir
gatos a mamar
gatos a nascer
gatos a arranhar
gatos a comer
gatos a pular
gatos a lamber
gatos lestos
gatos mancos
gatos siameses
gatos persas
gatos malteses.

Tantos gatos
de rabo alçado
e eu só tenho um
de pano coçado.

António Mota
Lá de cima cá de baixo



E foi com este mesmo texto que, em grupo, fizemos umas brincadeiras


um comício


conversa de vizinhas


crianças


um jogo

e no cair do pano
algo completamente diferente ;-)


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