Com uma periodicidade quinzenal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, bem como o desenvolvimento de algumas técnicas que a ajudem a pôr em prática.
Para quem gosta de ler para os outros e de ouvir ler.

2012.01.10 - Diabo








Rosa
Cântico Negro
de José Régio


Um clássico no CLeva. Fica a versão dita pelo próprio



Mila
O Lobo preto
de Alexandre Dumas



António S.
A hora do Diabo
de Fernando Pessoa

- Minha senhora, eu sou o Diabo. Sim. Eu sou o Diabo. Mas não me tema nem se sobressalte.
E num relance de, onde boiava um prazer novo, ela reconheceu, de repente, que era verdade.
Eu sou de facto o Diabo. Não se assuste, porém, porque eu sou realmente o Diabo, e por isso não faço mal. Certos imitadores meus, na terra e acima da terra, são perigosos, como todos os plagiários, porque não conhecem o segredo da minha maneira de ser. Shakespeare, que inspirei muitas vezes, fez-me justiça: disse que eu era um cavalheiro. Por isso esteja descansada; em minha companhia está bem. Sou incapaz de uma palavra, de um gesto, que ofenda uma senhora. Quando assim não fosse de minha própria natureza, obrigava-me o Shakespeare a sê-lo. Mas, realmente, não era preciso.
Dato do princípio do mundo e desde então tenho sido sempre um ironista. Ora como deve saber, todos os ironistas são inofensivos excepto se querem usar da ironia para insinuar qualquer verdade. Ora eu nunca pretendi dizer a verdade a ninguém - em parte porque de nada serve, e em parte porque a não conheço. Meu irmão mais velho, Deus todo poderoso, creio que também a não sabe. Isso, porém, são questões de família. Talvez não saiba porque é que a trouxe aqui, nesta viagem sem termo real nem propósito útil. Não foi, como parecia que ia julgar, para a violar ou a atrair. Essas coisas sucedem na terra, entre os animais, que incluem os homens, e parece que dão prazer - creio, segundo me dizem de lá de baixo, que até ás vítimas.
De resto não poderia. Essas coisas acontecem na terra, porque os homens são animais. Na minha posição social no universo são impossíveis - não bem porque a moral seja melhor, mas porque nós os anjos, não temos sexo, e essa é, neste caso pelo menos, a principal garantia. Pode pois estar tranquila porque não a desrespeitarei. Bem sei que há desrespeitos acessórios e inúteis, como os dos romancistas modernos e os da velhice; mas até esses me são negados, porque a minha falta de sexo data desde o principio das coisas e nunca tive que pensar nisso. Dizem que muitas feiticeiras tiveram comércio comigo, mas é falso; ainda que o não seja, porque o com que tiveram comércio foi com a própria imaginação, que em certo modo, sou eu.
Esteja, pois, tranquila. Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior - num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, aos menos, não apodrecem. Passam. Antes assim, não é verdade?

O texto pode ler-se também aqui

Vitória e Xana F.
Provérbios sobre o Diabo


Lena R.
O Eremita (adaptação do conto de Dioneo na Terceira Jornada) in Decameron
de Boccaccio


Lena P.
Com mão firme e doce (adaptação de excertos do conto)
de Maria Teresa Horta

“Coisas do Diabo”

Enterrou-lhe a faca três vezes no corpo.
Enquanto ele dormia.
Depois ficou ali muito tempo só a olhar.
Um corpo fundo até ao fundo do sangue, a faca enterrada até ao cabo de madeira velha; uma faca de cozinha, de gume fino e brilhante, durante muitos anos fechada na gaveta da cozinha..
Sem uso.

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Ao princípio fora diferente: riam-se os dois muito.
Abraçados.

O corpo dele quente, dentro do seu, a despertar em Renata aquela chama. Os dois a correrem na areia escaldante do meio dia, a entrarem de repente no frio arrepiado da água a abeirar-se da areia, tocando os corpos de ambos estendidos em cima um do outro.
Como se ali fosse um paraíso perdido?

Renata ficava a vê-lo dormir e era bom, não assustada como hoje, ele deitado nos lençois, ela a seu lado nada mais se passando, o peito aquietado, o coração parado, a pele gelada. Como se estivesse…desligado?

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Renata sentava-se á mesa da cozinha, a talhar na madeira figuras de mulher, tal como ela era: crânio rapado e olhos muito afastados um do outro, de um azul intenso ou de um verde cintilante de esmeralda, mas também de safira. Talhava mulheres que dormiam. Mulheres que soltavam gritos surdos. Talhava também mulheres com profundas insónias desenhadas nos olhos para sempre abertos sobre o nada. Noites inteiras ali sentada no pequeno sotão.

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Renata adormeceu de alívio.
Porque o matara.
Subitamente exausta. Sem força nas pernas nem nos braços.
Primeiro sentara-se e em seguida deitara-se ao lado do corpo inerte dele. E adormecera de cansaço.

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Gritou.
Um único grito.
Num imenso terror. Pela primeira vez a adivinhar a verdade que há meses tentava esconder a si mesma.
Gritou.
Incrédula ao vê-lo abriu os olhos a fitá-la. A erguer o tronco, mover as ancas no branco dos lençois e endireitar as costas, soerguer os ombros, desviar as pernas da cama, poisar os pés ainda incertos no chão, começar a levantar-se, a erguer-se, a pôr-se de pé sempre com aquele zunido a sair-lhe do peito e da boca ao abri-la num esgar qualquer.
O olhar vazio fixo nela.
Renata estava parada no mesmo sítio, paralisada. Incapaz de um gesto ou de uma palavra. Afinal presa daquele grito único que não parava de lhe sair da garganta. De o soltar pela casa até ir aninhar-se lá em cima no sótão,a olhar a boca muda daquela mulher que talhara na véspera: enroscada de terror em si mesma, a cara virada para o alto, a boca escancarada.
Viu o marido começar a avançar na sua direcção, um pouco cambaleante. Os movimentos ainda não totalmente coordenados.

Como um autómato.
Um androide.
Um robot.

Delfina
Tradições…
de João Lutas Craveiro

Dizem que na véspera de Natal podemos deixar a mesa por levantar, a comida e as bebidas que sobram vão alimentar o menino Jesus. Mas já das vésperas de Ano Novo nada deve restar sobre a mesa, pois estaríamos a alimentar o Diabo. Ora, certamente que com as políticas anunciadas de empobrecimento da população portuguesa, forçada esta a recompensar os crimes financeiros, mais os sucateiros do governo anterior (ai tão amigos do PS!) e os cobradores de portagens, convenhamos que O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO O PINTAM! Nenhum destes Primeiros-Ministros moralistas, Ministros sábios ou Assessores servis terá, um dia, erguida em sua honra uma estátua. Poder-se-á também perguntar: e o Diabo, tem alguma estátua erguida em seu nome? Sim, tem, e não sei porquê foi construída nesta Ibéria, do lado a que chamam de Espanha. Mas, sim, o Diabo tem uma estátua, provavelmente a única estátua do Diabo, que se conhece neste mundo, em lugar público! Mas quem é esse «anjo caído»? Nada mais próximo de nós, humanos, esse Diabo, o «Deus da Imaginação», porque proibido de criar. Tudo foi já decidido por Deus ou o FMI, não foi? Resta-nos o Diabo, o «eterno diferente, o eterno adiado» ou o «senhor absoluto do interstício e do intermédio», como dizia Fernando Pessoa. Sim, que entre Deus e o FMI há mais coisas debaixo dos céus! Acrescenta o poeta que o Diabo não pretende revelar a verdade, em parte «porque de nada serve», e em parte «porque a não conhece». O Diabo corrompe? «Deus é pior», diz o poeta, «criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem» (in A Hora do Diabo, conto de Fernando Pessoa). Deixo-vos, pois, votos de tempos mais felizes nesta Hora do Diabo, e primeiro dia de Janeiro. Apesar de tudo o mais que a seguir se adivinha.

Cristina e Fernando
Paraíso Perdido in Génesis
de Jorge de Sena
Uma versão em teatro radiofónico

Lena M., Daniel e Paula
Mala Diabo
de José Vaz

Teresa
Os nomes do Diabo (excerto)
de Carlinhos Cordel
O Demônio, Rei das Trevas
É um ser muito aquém
No Brasil tem vários nomes
E pra você ir além
Este cordel vai narrar
Os nomes que Diabo tem.

O Demo tem muitos nomes
Cabrunco ou Guaxumão
Capa-Verde ou Capiroto
Príncipe do Mundo ou Cão
O Espírito das Trevas
Chifrudo ou Cramulhão.

Beiçudo, Besta Fubana,
Bicho-Preto, O Difamado,
Cão-Miúdo, Cão-tinhoso,
Cafuçu ou Atentado,
Pode ser também Canheta
Ou então Indesejado.

Zarapelho ou Ranheta,
Lúcifer, Satã, Canhim,
Capirocho ou Dianho,
Anhangüera ou Azucrim,
Pé-de-Bode, Pé Cascudo,
Cafute ou Coisa-Ruim.

Lá de baixo, O Inimigo
Sarnento ou Renegado
Pastor Negro, Sete-Peles
Coisa-Má, Mal-Encarado,
Coisa-à-toa, Coisa-Feia
Porco-Sujo ou Malvado.

O Espírito Maligno
O Tristonho, o Galhardo,
Pé-de-Cabra , Pé-de-Gancho,
Cifé, Sedutor, Tisnado.
Brigadeiro do Inferno,
Tição, Temba ou Danado.

Cramulhano ou Rabudo,
Bicho, Bute ou Carocho,
Tinhoso, Rei do Inferno
Mofento, Malino, Coxo,
Pai-do-Mal, Pai-da-Mentira,
Abdel, Astuto, Mocho.

O Príncipe, o Rei das Trevas
Rincha-Mãe ou Tentação
Satânico, O Mentiroso,
Pé-de-Peia ou Rabão,
Maligno, O Maioral,
O Moleque-do-Surrão.

Pode ser o Diabo-Loiro
O Xu ou Arrenegado,
O Oculto, O Moleque
Bicho-Ruim ou Assombrado
Mofino, Rabo-de-Seta
Cuidado com Cão-Danado.

Capeta, Senhor das Trevas
Jurupari, Grão-Tinhoso,
O Indivíduo, O Rapaz,
O Maldito, O Horroroso
Bode-Preto, Manfarri,
O Fute, O Mentiroso.

Príncipe ou Senhor do Inferno
Mefisto ou Barzabu,
O Feio, O Que-não-Ri,
O Cujo, O Belzebu
Canhoto, Careca, o Tal,
O Cão tem nome pra chuchu.

O Canho, O Azarape,
O Diacho, O Dião,
Peneireiro, Pé-de-Pato,
Rei-Diabo, Satanão,
Mafarrico, Tentador
Ou inferno pra ter cão.

Besta-Fera, Debo, Sujo
Futrico, Dubá-Dubá,
O Guerreiro do Inferno
Gato-Preto, O Diá,
Tendeiro, Gênio do Mal
Cuidado pra não errá.

Tranca Rua, Zé Pilintra
Trinca Seis, Excomungado
Pé-Preto, Pedro-Botelho,
Exu, Porco ou Difamado
Pode ser Marquês do Inferno
Destruidor ou Crinado.

Pode ser o Anjo Mau
Encardido ou Ferra-Brás
Ou Espírito-de-Porco
Anhangá ou Satanás
O Guerreiro do Inferno
Cuidado, há outros mais.

Se você se assustou
Com os nomes do Capeta
Não procure esse mal
Não seja um picareta
Reze, ore pra Jesus
Ele te livra da besta.

Ana Paula e Laura
Auto da Barca do Castigo
de  Cristiana Resina e Sara Rodrigues

Ana V. e Ana F.
A Nau Catarineta

Uma adaptação do romance popular "A Nau Catrineta"

João e Xana J.
Assim é Eva


Cecília
O Demónio e a Senhorita Prym (excerto)
de Paulo Coelho


Curiosidades
No jardim do Bom Retiro, em Madrid, pode encontrar-se a fonte do Anjo Caído

3 comentários:

  1. espera-se que em breve ;-)

    mas por obra do diabo, a blogger de serviço anda um pouco atarefada, e não lhe tem sobrado tempo para nada!

    é quase caso para dizer: "pedimos desculpa por esta interrupção... o blog segue dentro de momentos"

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  2. Eu diria: o Diabo segue dentro de momentos! :)

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