A partir de Outubro de 2017, a iniciar o seu 8º ano de existência, o Clube de Leitura em Voz Alta passa a Coro de Leitura em Voz Alta. Continuará a ter uma periodicidade quinzenal e a acontecer na Biblioteca de Alcochete.

Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passará a ser outra.

ilusão

hoje o tema foi ilusão



o António Gil falou-nos de Wenceslau de Moraes
Com base numa “Antologia” de Wenceslau de Moraes, de Armando Martins Janeira, da Editora Mnésis, vou procurar deixar-vos a vontade de descobrir Moraes e... já agora o Japão.

Wenceslau de Moraes foi muito lido no fim da sua vida, numa época em que Portugal começava a seguir, um pouco retardado já, a moda europeia das coisas da China e do Japão. O que do Japão então interessava ao Ocidente era o pitoresco e o exótico - os aspectos superficiais, o lado menos humano. O orientalismo, na Europa, esteve aliado ao imperialismo. Wenceslau de Moraes era declaradamente adversário das ideias imperialistas de Ocidente, que constantemente combate prenunciando o seu declínio. Moraes é um europeu que pelo seu profundo humanismo atinge a verdadeira compreensão do Oriente e dos seus grandes problemas humanos - que soube compreender profundamente a alma do povo japonês.
Aqui ficam algumas extractos de amostras das suas observações sobre os japoneses:
O homem
O homem japonês, pelo exame estético, é muito inferior à japonesa. O japonês é pequeno (no Japão, valha a verdade, tudo é pequeno, e o abuso dos diminutivos impõe-se); pobre de músculo, efeminado, trigueiro-esverdeado na epiderme (aspecto raro na fêmea), trunfa áspera,  lábios grossos, barbichas ridículas, se deixa crescer os pêlos da cara. Parece que se mostra hoje assim, cedendo a um empobrecimento de raça, que por uma lei inexplicável vai poupando a mulher. Dantes era perfeito, como um homem pode ser perfeito: ainda hoje se encontram raros, e eu vi dois ou três soberbos exemplares de beleza máscula. No entanto, a fisionomia dos japoneses está longe de ser repelente ou simplesmente antipática; apresenta frontes amplas, de inteligentes ou de cismadores; olhar profundo por vezes de inspirados; e um sorriso fácil sempre em assomar, benévolo, cortês.
(Traços do Extremo Oriente, 169-l70.)

A japonesa
Falemos, pois, dos encantos da filha do Nippon. A japonesa não é bela; o que ela é, em alto grau e como nenhuma outra mulher, gentil, graciosa, encantadora. Gentil pelo seu doce rostinho, fresco como uma flor primaveril; gentil pela curva da sua inteira figurinha, pelas pregas ondulantes da seda do vestido, pela harmonia cromática dos atavios; e gentil pelo seu delicioso convívio. Jamais os enlevos próprios na mulher se encontraram tão intimamente ligados à arte de vestir, como na filha do Nippon.
(Cartas, III, 31/36)

Para perceberem melhor como Wenceslau de Moraes é um grande observador da natureza humana (e não só) do Japão aqui ficam mais alguns contrastes:

- O homem branco sustenta-se de pão; o japonês sustenta-se de arroz.
- Os japoneses não dizem nordeste, sudoeste, mas sim leste-norte, oeste-sul.
- Para se abrir ou fechar uma fechadura japonesa, dá-se volta à chave exactamente no sentido contrário do que sucede com as fechaduras europeias.
- A costureira japonesa enfia a agulha na linha, não a linha na agulha, como a nossa.
- Laranjas, ameixas e outros frutos temperam-se frequentemente com sal. Em compensação, o peixe e a carne de vaca temperam-se com açúcar.
- O chapéu-de-chuva transporta-se, quando não chove, segurando-o pela ponteira com a manipula para baixo.
- Escrevendo, no sobrescrito de uma carta, a direcção conveniente, o japonês começa pelo nome do distrito, depois escreve o nome da aldeia ou da cidade, depois escreve o bairro, depois o nome da rua, depois o número da porta e finalmente o nome do destinatário.
- Depois do banho, o japonês enxuga-se com uma toalha... molhada!...
(Relance da Alma Japonesa, 32/33)

Há alguns exemplares de obras de Wenceslau de Moraes na nossa Biblioteca de Alcochete que ajudarão a aprofundar o conhecimento sobre o escritor e já agora aguçar o apetite para conhecer melhor o Japão.



a Alexandra, a Vitória e a Ana Maria leram-nos alguns excertos do
"Canto IX", de "Os Lusíadas" de Luís de Camões

52
De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam a movia
A Acidália, que tudo, enfim, podia.

64
Nesta frescura tal desembarcavam
Já das naus os segundos Argonautas,
Onde pela floresta se deixavam
Andar as belas Deusas, como incautas.
Alguas, doces cítaras tocavam;
Alguas, harpas e sonoras frautas;
Outras, cos arcos de ouro, se fingiam
Seguir os animais, que não seguiam.

59
Abre a romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu, rubi, teu preço perdes;
Entre os braços do ulmeiro está a jocunda
Vide, cuns cachos roxos e outros verdes;
E vós, se na vossa árvore fecunda,
Peras piramidais, viver quiserdes,
Entregai-vos ao dano que cos bicos
Em vós fazem os pássaros inicos.
78
"Não canses, que me cansas! E se queres
Fugir-me, por que não possa tocar-te,
Minha ventura é tal que, inda que esperes,
Ela fará que não possa alcançar-te.
Espera; quero ver, se tu quiseres,
Que sutil modo busca de escapar-te;
E notarás, no fim deste sucesso,
‘Tra la spica e la man qual muro he messo.’

79
"Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua formosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da fortuna a força dura.


a Mariana e o António Soares leram de Alexandre O´Neill

Meditação na pastelaria

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.

Nunca se sabe quando começa a insolência!
Que tempo este, meu Deus, uma senhora
Está sempre em perigo e o perigo
Em cada rua, em cada olhar,
Em cada sorriso ou gesto
De boa educação!

A inspecção irónica das pernas,
Eis o que os homens sabem oferecer-nos,
Inspecção demorada e ascendente,
Acompanhada de assobios
E de sorrisos que se abrem e fecham
Procurando uma fresta, uma fraquesa
Qualquer da nossa parte…

Mas uma senhora é uma senhora,
Só vê a malícia quem a tem.
Uma senhora passa
E ladrar é o seu dever - se tanto for preciso!
O pó de arroz:
Horrível!
O bâton:
Igual!

O amor de Raúl é já uma saudade,
Foi sempre uma saudade…

(O escritório
Toma-lhe todo o tempo?
Desconfio que não…)

Filhos tivemos um:
Desapareceu…
E já nem sei chorar!

Chorar…
Como eu queria poder chorar!

Chorar encostada a uma saudade
Bem maior do qu eu,
Que não fosse esta tristeza
Absurda de cada dia:
Unha
Quebrada de melancolia…

Perdi tudo, quase tudo

Hoje,
Resta-me a devoção
E este pequeno inteligente cão.

Por favor, Madame, tire as patas,
Por favor, as patas do seu cão
De cima da mesa, que a gerência
Agradece.



a Graciete, a Fernanda, a Cristina e a Helena
inundaram-nos com textos de Gilgamesh, da Bíblia e de Ovídio

Carrega o pecador com o seu pecado,
Carrega o transgressor com o seu erro.
Castiga-o um pouco quando ele foge,
Não o leves com severidade porque morre;
Antes um leão assolasse a humanidade
Em vez da inundação,
Antes um lobo assolasse a humanidade
Em vez da inundação,
Antes a fome assolasse o mundo
Em vez da inundação,
Antes a peste devastasse a humanidade
Em vez da inundação. 
 "Gilgamesh"

Inundação
Choveu torrencialmente durante quarenta dias sobre a terra. As águas cresceram e levantaram a arca, que foi elevada acima da terra. As águas iam sempre crescendo e subiram muito acima da terra...
"Bíblia Sagrada, Arca de Noé, Génesis 5,1-8,22, Livro de Jonas"

III
Já se aprontava para fazer chover raios sobre a terra inteira, mas receou que porventura o sacro éter, com tantos fogos, se incendiasse, e o longo eixo fosse consumido nas chamas....
"Metamorfoses, Ovídio"



a Alexandra, a Marília e a Anabela
também foram colher ilusões aos Lusíadas
ouvimos excertos dos episódios de Inês de Castro, do Velho do Restelo, do Adamastor e da Ilha dos Amores



a Antónia leu-nos de Florbela Espanca
A Vida

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés de alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo" Pedro Sem",
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo de onde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem de um dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a vida!



a Cristina e o Fernando leram um excerto de "A vida é sonho"
de Pedro Calderón de la Barca
fala de Segismundo:
Por ser verdade, esmagamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
mesmo a pensar que sonhamos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular,
que o viver é só sonhar;
e a experiência medonha
diz-me que o que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e insiste
em tal engano, mandando,
dispondo e governando,
e às lisonjas resiste;
Mas no vento escreve o triste
destino que o leva à morte .
É esta a desdita forte
Que tem quem pensa reinar
vendo que há-de despertar
do seu sonho, desta sorte?
Sonha o rico com riqueza
que mais cuidados lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza;
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém compreende.
Eu sonho que estou aqui
de cadeias carregado,
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
e é pequeno o maior bem;
que o sonho a vida sustém
e os sonhos sonhos são.

Trad. António Manuel Couto Viana/Maria Manuela Couto Viana


a Mila leu de Antero de Quental

Transcendentalismo
(A J. P. Oliveira Martins)

Já sossega, depois de tanta luta,
Já me descansa em paz o coração.
Caí na conta, enfim, de quanto é vão
O bem que ao Mundo e à Sorte se disputa.

Penetrando, com fronte não enxuta,
No sacrário do templo da Ilusão,
Só encontrei, com dor e confusão,
Trevas e pó, uma matéria bruta...

Não é no vasto mundo — por imenso
Que ele pareça à nossa mocidade —
Que a alma sacia o seu desejo intenso...

Na esfera do invisível, do intangível,
Sobre desertos, vácuo, soledade,
Vôa e paira o espírito impassível!

de "Sonetos"



o Vasco leu, também de Antero de Quental

Das Unnennbare

Oh quimera, que passas embalada
Na onda de meus sonhos dolorosos,
E roças co'os vestidos vaporosos
A minha fronte pálida e cansada!

Leva-te o ar da noite sossegada...
Pergunto em vão, com olhos ansiosos,
Que nome é que te dão os venturosos
No teu país, misteriosa fada!

Mas que destino o meu! e que luz baça
A d'esta aurora, igual à do sol posto,
Quando só nuvem lívida esvoaça!

Que nem a noite uma ilusão consinta!
Que só de longe e em sonhos te presinta...
E nem em sonhos possa ver-te o rosto!

de "Sonetos"


o António Marques leu um excerto de "Poema do Senhor - Bhagavad-Guitá" de Vyassa



a Adília leu um excerto de "O eremita" de Susan Trott


a Rosa leu um excerto de "Pai Nosso" de Francisco Cândido Xavier


e como vem sendo hábito acabámos a comer e a beber



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