O antigo Clube de Leitura em Voz Alta deu lugar ao Coro de Leitura em Voz Alta. Tem normalmente um periodicidade quinzenal e acontece na Biblioteca de Alcochete.
Os objectivos continuam a ser os mesmos; promover o prazer da leitura partilhada; a forma passou a ser outra.
Esta noite a festa foi diferente e foi maior. Convidámos os membros dos antigos Clubes de Leitura e juntámos-nos todos. Saímos da Biblioteca mas trouxemos os livros connosco. Fomos muitíssimo bem recebidos na IN.fusão de Sabores. Comemos, bebemos, lemos e porque o natal está à porta, trocámos prendas (livros).
Somos prisioneiros de guerra. Os nossos sonhos foram medicados. Não pertencemos a lugar nenhum. Velejamos sem âncora por mares revoltos. Podemos nunca ter licença para aportar. As nossas dores nunca serão suficientemente tristes. As nossas alegrias nunca suficientemente felizes. Os nossos sonhos nunca suficientemente grandes. As nossas vidas nunca suficientemente importantes. Para importarem.
Vamos imaginar que a terra - 4600 milhões de anos de idade – era uma mulher de 46 anos. A Mulher Terra. Toda a sua vida de Mulher-Terra foi dedicada a fazer da terra o que ela é hoje. Dividiu os Oceanos. Fez as montanhas emergir. A Mulher-Terra tinha 11 anos quando surgiram os primeiros organismos unicelulares. Os primeiros animais, criaturas como os vermes e as acalefas, só surgiram quando ela tinha 40 anos. E tinha mais de 45 anos – só há 8 meses – quando os dinossauros deambulavam pela Terra.
Toda a civilização humana tal como a conhecemos, começou apenas há duas horas na vida da Mulher-Terra.
Portanto, toda a história contemporânea, as guerras mundiais, a guerra dos sonhos, o homem na lua, a ciência, a literatura, a filosofia, a busca do conhecimento, mais não são do que uma piscadela de olho da Mulher-Terra.
E nós, tudo o que somos e seremos, é um lampejo nos seus olhos.
Mais tarde, à luz de tudo o que aconteceu, lampejo parecia uma palavra completamente errada para descrever a expressão nos olhos da Mulher-Terra. Lampejo era uma palavra com rebordos ondulantes e felizes.
Esta sessão do CLEVA dedicada ao tema ESPAÇO começou com notícias sobre o espectáculo de teatro do Grupo de Teatro Comunitário da Casa da Achada a que assistimos no Liceu Camões. Esse trabalho revelou-nos uma forma corajosa e simples de trabalhar a leitura em voz alta. A não perder.
Ainda passámos a seguir pela conversa sobre promoção da Leitura, nos Dias do Desassossego, onde a Cristina foi convidada a participar em nome da Andante.
Depois ouvimos a história La noche en que las letras se liberaron de Pep Duran e da sua livraria, o livreiro e contador de histórias catalão. Apesar da pronúncia, ouvimos o texto em espanhol, tal como estava escrito no livro "Palavras por la lectura".
Os exercício práticos recaíram desta vez sobre a espacialidade e sobre a propagação do som da voz. Partimos do poema de Nuno Júdice:
Digo: o amor. Há palavras que parecem sólidas,
ao contrário de outras que se desfazem nos dedos.
Solidão. Ou ainda: medo. As palavras, podemos
escolhê-las, metê-las dentro do poema como
se fosse uma caixa. Mas não escondê-las. Elas
ficam no ar, invisíveis, como se não precisassem
dos sons com que as dizemos.
A partir daqui tentámos construir uma linha musical com palavras libertadas no espaço pela nossa voz, e tentámos dominar o nosso movimento usando apenas a audição de um som previamente definido.
Depois tivemos direito a leituras verdadeiramente entusiasmantes sobre o tema:
Cada vez mais este grupo elabora as suas prestações, as trabalha, as prepara, para nos surpreender, para nos conquistar, ganhando consciência das dificuldades e dos objectivos a atingir.
O último texto que ouvimos foi o do livro do dia: Os transparentes
de Ondjaki. O único senão é que já estávamos todos conquistados antes,
este é um livro excepcional. Agradecemos à Isabel por nos lembrar.
Com um tema destes foram muitas as linhas e panos que vieram a esta sessão; até tivemos direito a um desfile de alta... leitura.
Começámos como sempre pela "agenda cultural" e regressámos aos direitos inalienáveis do leitor de Daniel Pennac mas desta vez para brincar com eles. Experimentámos com eles as dificuldades das leituras em grupo: coros e canons. As dificuldades da simultaneidade: como ir a tempo sem tornar numa melopeia sem sentido e desinteressante aquilo que o coro está a dizer. As dificuldades de criar uma música com as palavras, sendo a de cada um diferente da do parceiro e mesmo assim inteligível e interessante. Como ouvir os outros sem perder a nossa voz.
Começaram então as leituras sobre o tema da sessão:
em dia de eleições nos EUA
a Cristina trouxe "Notas sobre um país grande" de Bill Bryson como livro do dia.
Expressámos os nossos medos mas com esperança de que não se concretizassem. Não foi o caso.
Aí temos o monstro à solta.
E terminámos com um desfile de alta leitura e uma festa de comida e bebida e conversa. Na verdade, a festa da comida e da bebida (era S. Martinho) começou logo no início da sessão. Tornou tudo muito mais animado e descontraído.
Este grupo novo do CLEVA só nos traz alegrias e riso à desfilada. Nesta
sessão houve quem chorasse... de rir; houve quem trajasse a preceito
para seduzir o diabo; houve quem entortasse as palavras de tal maneira
que até entraram "halifantes", houve redacções sobre para onde os pais
olham e as mães não gostam, houve sotaques, houve senhoras a fazer xixi
no mar, e mais e mais, enfim, uma noite memorável. Mas antes disso tudo,
cantámos. E em cima das canções dissemos poemas. E trabalhámos muito o
nosso sentido crítico. Ah, é verdade, e depois houve um repasto de se
lhe tirar o chapéu. Este clube promete!